Tuesday, October 18, 2005

lugar místico

“Nas noites de Verão levava-me ao alto de uma árida colina para observar o céu. Fatigado de contar meteoros, eu adormecia num rego do solo. Ele ficava sentado, de cabeça erguida, rondando imperceptivelmente com os astros. Deve ter conhecido os sistemas de Filolau e de Hiparco e o de Aristarco de Samos, que eu preferi mais tarde, mas estas especulações já o não interessavam. Os astros eram para ele pontos inflamados, objectos como as pedras, e os lentos insectos de que ele tirava igualmente presságios, partes constituintes de um universo mágico que compreendia também as volições dos deuses, a influência dos demónios e o destino dos homens.”


Existe às portas de Sevilha um lugar místico. As ruínas romanas de Itálica, a terra natal de Adriano que Crayencour refere na passagem acima. Visitei-as em pequeno, num dia solarengo que me ficou na memória, e de cada vez que por ali passo, a caminho ou vindo da Sierra Morena, assola-me a vontade de perscrutar as estrelas e contemplar os astros.

Friday, October 7, 2005

O eclipse do regime

Ao longo dos últimos 2 anos tenho tentado abstrair-me o mais possível dos factos políticos de Portugal. Do governo ou desgoverno deste país. Assumi com rigor uma postura absentista. Deixei de queimar neurónios com a leitura supérflua dos pasquins nacionais. Ignorei ao máximo as bujardas da classe jornalística que contribui lentamente para o devorar da nação lusa. Saciei as minhas necessidades de realidade presente à custa da Economist e afins. Sentia-me bem com a desintoxicação. Com a perspectiva mais global da sociedade humana. E de repente, há coisa de um mês, surgiu-me um dilema: em quem votar nas próximas autárquicas. Considerando que estas acabam por ser as eleições mais próximas do meu quotidiano, queria conseguir escolher bem o próximo presidente da CML. Voltei a estar atento aos telejornais de qualidade duvidosa que passam nas nossas “tevês” e a tentar apanhar qualquer coisita de jeito sobre o assunto nas páginas deturpadas dos nossos jornais. Comecei por descobrir que não havia muita gente preocupada com o assunto. O tema do momento era, e ainda é, as presidenciais do próximo ano. Estava tudo mais concentrado no desfazer do tabu do hipotético candidato X, nas deambulações senis do candidato Y e nos lirismos do vai-não-vai candidato Z. Como se a prima-dona que vai habitar o palácio de Belém contribuísse de alguma forma para a felicidade comunal do Português normal. Depois, revelou-se-me muito mais importante analisar ao milímetro os passos, actividades e palavras inflamadas dos quatro caciques, candidatos independentes a câmaras de terceira linha, que estiveram envolvidos em coisas “tão escandalosas” como umas férias, à revelia da justiça, no Brasil, a oferta de frigoríficos a eleitores e a participação obscura nas negociatas do futebol nacional, o desvio de fundos para a conta bancária do primo taxista na Suiça ou a participação num qualquer reality-show do momento. Tudo temas suculentos para os energúmenos do 4º poder e respectivos leitores ou telespectadores, está bem de ver. Finalmente, a uma semana da data chave descobri uma pobre matriz de perguntas mal-engendradas aos cinco estarolas em quem posso por a cruzinha. Suficiente, pensei eu, para este pobre cidadão lisboeta fundamentar uma decisão sobre a matéria em apreço. E, veja-se bem, eu que sou um rapazinho “às direitas” estava convencido que tinha conseguido discernir o “menos mau” no espectro diametralmente oposto às minhas convicções. Eis senão quando, por causa das reticências e renitências, decidi assistir ao último debate entre os ditos candidatos. Resultado: vou votar em branco. O que se vai tornando um hábito nada feliz. E espero que muitos façam como eu porque esta tristeza de nem sequer se conseguir escolher o “menos mau” tem que acabar ou então acabe-se com este regime caduco. Porque mais vale ter a inteligência de compreender que algo vai mal, que não estamos preparados para esta forma de governo e que se calhar basta “puxar a rolha” do Alqueva para ver se nos afundamos definitivamente no Atlântico.
De borla, aqui ficam algumas ideias de um consultor altruísta para quem se quiser candidatar daqui a quatro anos:

1) Portagens à entrada da cidade – para equilibrar as vantagens de viver em Lisboa, já que não conseguem fazer as continhas à gasolina e tempo desperdiçado no vai-e-vem diário;
2) Habitação desabitada durante mais que X tempo é para quem a reabilitar;
3) Prédio com 5 ou mais andares: os dois primeiros obrigatoriamente para serviços e os outros compulsivamente para habitação – ou proporcional;
4) Buraco aberto na rua: obrigação de repavimentar a rua inteira;
5) Viatura mal estacionada ou em 2ª fila: fotografia com o telemóvel e repartição do valor da multa com o delator;
6) Jardinzinho de bairro: regador e ancinho a cargo do residente nas tardes de fim-de-semana;
7) Pombo morto e entregue nos serviços municipais: bilhetinho de metro como recompensa;
8) Arrumador ganzado ou pedinte errante: fardinha da EMEL ou vassourinha de palha, i.e., funcionário municipal encartado;
9) Motinha de escape aberto em circulação: uma semana de carrinho-aspirador ou cortador de relva na mão;
10) Lar de idosos e creches municipais debaixo do mesmo tecto – uns tomarão conta dos outros.
E prontos, para bom entendedor meia-palavra basta...

Thursday, October 6, 2005

fragments of a lovely season

Never win and never lose
There's nothing much to choose
Between the right and wrong
Nothing lost and nothing gained
Still things aren't quite the same
Between you and me

I keep a close watch on this heart of mine
I keep a close watch on this heart of mine

I still hear your voice at night
When I turn out the light
And try to settle down
But there's nothing much I can do
Because I can't live without you
Any way at all

I keep a close watch on this heart of mine
I keep a close watch on this heart of mine

(05Out05 - John Cale live at CCB)

Friday, September 23, 2005

chip

Gosto do conceito das “grandes ideias” que mudam o mundo. Das coisas simples que, sem darmos por elas, transformam a Vida. Dos objectos que inicialmente são novidade e lentamente se tornam banais, acessíveis e se massificam. Não sou fã de gadgets – tenho até alguma aversão aos ditos – mas reconheço o contributo dos “gecos” – geeks, entendidos como aqueles cromos que aderem sempre à 1ª vaga de tudo o que é novidade – para a democratização da espécie humana. Em jeito de exemplo, os tipos que na década de 80 ficaram corcundas por causa dos telemóveis-tijolo de 1ª geração, na década de 90 ceguetas por causa dos laptops de ecrã reduzido e nesta década alienados por causa dos iPod. Presto-lhes tributo por terem sido cobaias, arriscando a possibilidade do tumor cerebral, a córnea deslocada ou o tímpano martirizado, para que hoje muita gente tenha acesso a estes objectos semi-úteis. E também considero justo que as mentes visionárias que engendraram tais ideias, nadem em rios de dinheiro, até porque foram capazes de acrescentar blocos novos às cadeias de valor, criar complexidade e assegurar subsistências. Isto é fácil de entender se vos disser que dos 58 milhões de italianos, cerca de 500.000 contribuem directamente para que os 58 milhões de “telefoninos” estejam operacionais, o que se traduz em assegurar não só as comunicações móveis dos ditos 58 milhões mas também os futuros dos seus agregados familiares – por estimativa, 1 milhão de alminhas a irem aos “coleggios”, a acelerarem “piaggios” e a comerem “pastas-divella-la-massa-bela”. Pessoalmente, sou um bocadinho céptico em relação a toda esta evolução, que certamente poria a cabecinha do Darwin a andar à roda, e prefiro as 2ªs / 3ªs vagas – consegui resistir ao “telefonino” até 2000. Mas há-de estar por aí a rebentar o “invento do século” para o qual eu me candidato, desde já, a rato-de-laboratório: invente-se o bloco de notas mental, o chip registador de acoplagem cerebral, e lá estarei eu na 1ª fila para o comprar. Porque sinto que todos os dias me escapam pelo menos 10 ideias diferenciais, 3 temas para reflectir e meia-dúzia de imagens únicas a relembrar. E cada vez que tomo consciência disto mesmo, penso no desperdício de neurónios DNA registado que deixaram de existir sem proveito nenhum. Em conclusão: vou voltar à fosfoglutina.

Monday, September 12, 2005

changes

Já dizia o poeta perspicaz – apesar da pala – que “todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades…”. Pois, nos últimos tempos sobe-me a mostarda ao nariz cada vez que alguém próximo decide exigir de mim grandes planos, estratégias de vida renovadas ou intenções de porvir. Compreenda-se que considero escusado, ou demasiado, o tempo que investimos a conjecturar sobre o futuro próprio e alheio, a traçar grandes objectivos sem colher benefícios palpáveis. Que estou bem, agora e aqui, e me apetece viver por um bocadinho o presente. Que as grandes mudanças das vidas dos outros não têm obrigatoriamente que encontrar paralelos na minha própria vida, qual efeito-borboleta. Que as lógicas do tempo certo para se fazer isto e aquilo são impostas por regras de uma sociedade longe de perfeita. E que embora utópica me lembro muitas vezes da história de vida de um certo Douglas Bader, que li quando era pequeno, absorto à tentativa de pensar um dia de cada vez, sem desígnios intensos. O tempo das mudanças voltará, naturalmente, mas por agora apetece-me degustar o presente tal e qual como ele se apresenta, sem tirar nem pôr.

Monday, August 1, 2005

Feeling alive is…

Seating on the Piazza di Spagna stairs and crying inside while the sun sets over the rooftops...

Driving through Austrian yellow fields while listening to Suzanne Vega’s “In Liverpool”...

Having a meal & some red wine in Tate’s restaurant facing St. Paul’s Cathedral beneath a cloudy sky while writing life’s newest decisions on a piece of paper...

Driving on Donegal’s rollercoaster roads and catching the most beautiful Leonard Cohen’s program on the radio-waves...

Trying to concentrate on some love-letter words while your teardrops soak the paper...

Embracing my love inside a calm and salty sea and feeling the unique scent of her skin...

Tuesday, July 26, 2005

o fanático do sashimi

Fazia-me falta um novo vício na vida. Eis senão quando redescobri a bela da comidinha japonesa. Uns tempos passados após as primeiras tentativas frustrantes, sonho acordado com o “maguro tataki” a desfazer-se na minha boquinha como manteiga em pão quente. Em termos práticos, são apenas pedacinhos de atum cru, melhor, muito ligeiramente braseados e as minhas papilas gustativas em êxtase. E na última semana já lá vão quatro visitas à variada gastronomia nipónica. E gosto de quase tudo (passo bem sem o “nori” e o arroz do sushi adultera um bocadinho a essência do sashimi) porque é mesmo bom!

Sunday, July 17, 2005

anicha aqui

Ainda não percebi bem porquê mas dei por mim a tirar um livrinho bem antigo da prateleira poeirenta para o voltar a ler. “A Causa das Coisas”, by MEC. Li-o, pela primeira vez num verão distante de 1988, numas férias passadas entre o esturricar ao sol no monte de areia, diante da Anicha, o mergulho refrescante no final de cada crónica e a impaciência pela saída noctívaga até ao Seagull. Um verão descontraído de passeios de bicicleta com uma namoradinha estival de nome Benedita e peras verdes apanhadas directamente das árvores. Mas o engraçado é que as croniquetas do Miguel Esteves Cardoso, escritas em meados da década de 80 e retratando as peculiaridades do povo português permanecem impecavelmente válidas. Substituídos os escudos por euros e a CEE pela União Europeia, os estereótipos e figurões actuais estão lá todos, como se as “Coisas” tivessem permanecido estáticas ao longo destes vinte anos e as “Causas” fizessem parte do código genético desta Nação. E eu digo: podemos ter todos os defeitos do mundo mas temos também as virtudes de uma personalidade forte – sejam elas quais forem. Valha-nos isto!



Tuesday, July 12, 2005

human imperfection

It was one of those days. Woke up wandering why on earth did my dear soul end up trapped inside this imperfect body capsule. Hadn’t slept 10 minutes in a row during the night and spent the whole day wishing I was like “Marsellrebelldesosa”, who seems to be able to sleep only 4 hours a night. At 9h30 as I was finally reaching my REM stage, the damn phone rang: a hysterical secretary trying to get me on time to a recruiting session – it wasn’t my turn, obviously. Got dressed and went to “the bunker”. Nobody around and I was just going to nap over the laptop when a colleague arrived and switched the lights on – “Good morning!” Yeah, and I hate you bastard. The phone strikes again and I have to deal with half an hour of consulting bullshit on a low-coverage area, while feeling the brain getting fried next to my ear. Tried to work a bit and here comes the phone again: quality auditing to my project. Not during the next two weeks, pleeease… Keeping my eyelids in a horizontal position and guess what, the fucking phone rings again. Bad news, this time: a friend’s father just died last night, while sleeping. A father who had that kind of unique relationship with his daughter, so it seemed. Not that old, I believe. A “special parent” so it used to be commented. And I get to that inner line of thought on “how to deal with dead” and “why do we have to sleep”. Human imperfection, that’s it.


copyright: vitriolica

Friday, July 8, 2005

warum?

Impressionante! Graças ao “poder dos fotologs” soube rapidamente que toda a gente que conheço em Londres estava bem e fiquei descansado. Mas no “bunker” em que me encontro a trabalhar, havia um “bife” de um outro projecto absolutamente desesperado a tentar telefonar para a família para saber como estavam. Felizmente, bem. O mesmo homem que ainda ontem pulava de contente por causa dos jogos olímpicos, passou a manhã inteira agarrado ao telemóvel para conseguir saber notícias. E estas coisas deixam-nos a pensar. Se Alá é grande, se somos todos filhos de um Deus menor ou se o fortuito manda.

Copyright: abox

Sunday, July 3, 2005

Manager

Pois é, para acabar com o mau humor dos últimos tempos, saiu-me no sapatinho a promoção desejada. E agora que a poeira já assentou sobre a novidade, fica a listinha de intenções para o novo desafio. Seis, está bem de ver, porque é este o número que faz toda a diferença – mas a ordem é perfeitamente irrelevante:

1) Chegar a partner em 3 anos (ou em 5, no limite) – sou totalmente a favor da ambição, esta é o sal da vida e o motor do progresso, mas sem confusões com ganância.
2) Ser um exemplo a seguir – creio que ao longo da vida, em particular da profissional, predomina o aprender pela negativa, isto é o evitar reproduzir o que os outros fazem mal. Como é evidente, isto implica uma dupla operação: discernir entre o malfeito e o bem-feito e estabelecer a forma correcta de fazer. É complexo e ineficiente. Quero, por isso, que quem trabalhe comigo aprenda pela positiva.
3) Incentivar o “pro bono” – poucas pessoas sabem mas as empresas de consultoria, para além de cobrarem rios de dinheiro, também desenvolvem actividades de filantropia. Tipo, dedicarem horas úteis a desenvolver projectos para Organizações e Instituições sem orçamento para nos contratarem. Quero fazer disto.
4) Tratar os “mentorados” nas palminhas – em boa verdade toda a gente precisa dum estímulo inicial e depois recorrente, de uma energia de activação para poder vencer, principalmente para quem saiu fresquinho da escola e não faz a menor ideia do que é executar. Mais do que pagar almocinhos quero mostrar caminhos.
5) Gerar resultados – esta é egocêntrica mas há lá coisa que dê mais pica do que fazer o negócio crescer, fazer prosperar e garantir futuros.
6) Não vender “gato por lebre” – isto é, não tentar vender o que o Cliente não precisa realmente ou gerar necessidades artificiais. Odeio publicidade enganosa e o marketing do supérfluo ou inútil.

Ui, até já estou assustado. Boa sorte para mim.

Friday, July 1, 2005

alcateias

Já contei esta estória(*) antes mas para o comum dos mortais, vulgo povão, que se levanta de manhã e apanha o metropolitano de Lisboa (a pior empresa pública do país – mas não me vou pôr a dissertar sobre isto) a sensação de déjà vu a cada ceguinho (em politicus correctus: invisual) que entra pela porta do fundo no preciso instante em que o anterior saiu pela porta da outra extremidade – normalmente auxiliado por uma qualquer alma pacóvio-caridosa – só pode suscitar um pensamento: alcateia. Alcateia, sem querer ofender os lobos mas na literal definição de “quadrilha de ladrões facinorosos”. E eu pergunto: os invisuais não pagam passe? Ou será um bom negócio!?

E já que estamos nesta onda pessimistico-desabafa-aqui. Existem na bela Lisboa uma série de personagens típicos. Ele é o homem do saco de plástico a acenar no Saldanha (por acaso no outro dia vi-o às compras no Corte Inglês, mas isso agora não interessa para nada). Ele é o velho rasta e andrajoso a fingir-se de bêbado no Bairro. Ele é o jovem aprumado a pedir dinheiro para o chuto nos sinais das Amoreiras. E há também os dezenas / centenas de Cais a tentarem impingir as revistinhas. Bom, no metro do Marquês (lá está, este semi-jovem consultor é utilizador frequente do comboio subterrâneo – quando este funciona ou não lhe engole o bilhetinho à 3ª viagem das 10 já pagas. Gatunos!) há um dos ditos Cais dos seus 30 e tal aninhos, traços meio sul-americanos e óculos, que deve ser, muito provavelmente, a pessoa que mais sorriu para mim. Está por ali, junto à passadeira rolante, parado e sorridente de revistinha na mão, enquanto o povão passa e ele sorri, sorri, sorri… Fazendo umas continhas rápidas: desde os meus tempos de universidade e admitindo que andei uns 100 dias / ano de metro dá uns 1.300 sorrisos. É obra! E eu pergunto: o que é que a Cais fez ou faz por este ser? Proporciona sorrisos gratuitos ao povão? Opa lá lá, atribua-se desde já um subsídio à Cais!
E pergunto mesmo mais: será que vou sentir a falta do sorriso idiota e enjoativo da criatura no dia em que esta desaparecer?
Ufa!

(*) e não se ponham com estórias sobre o “estória” versus “história” senão passo a escrever tudo em inglês!

Tuesday, June 28, 2005

preacher’s son

Era uma daquelas noites de verão intenso em que o suor faz a camisa colar-se ao peito. Marcelino cantava agarrado ao microfone no único café-karaoke do Entroncamento, como se todo o sucesso da sua vida dependesse do acerto vocal naquela noite. Sentia-se meio Che Guevara, com a barba por fazer, e simultaneamente o melhor vendedor de automóveis usados do mundo com a gravata, bordeaux, semi-desapertada a querer alcançar o cinto de camurça entrelaçada que lhe segurava as calças do fato de linho azul. E num inglês polido debitava:

Billy-ray was a preacher’s son
And when his daddy would visit he’d come along
When they gathered round and started talkin’
That’s when billy would take me walkin’
A-through the back yard we’d go walkin’
Then he’d look into my eyes
Lord knows to my surprise

The only one who could ever reach me
Was the son of a preacher man
The only boy who could ever teach me
Was the son of a preacher man
Yes he was, he was, mmm, yes he was

Being good isn’t always easy
No matter how hard I try
When he started sweet-talkin’ to me
He’d come and tell me everything is all right
He’d kiss and tell me everything is all right
Can I get away again tonight?

O personagem encantava Constança, encostada ao balcão do bar com uma garrafa de super-bock green na mão e o pezinho a bater ao ritmo da música. Ao seu lado, Ezequiel e Raquel trocavam carícias mão na mão e mão no antebraço.

The only one who could ever reach me
Was the son of a preacher man
The only boy who could ever teach me
Was the son of a preacher man
Yes he was, he was, lord knows he was

How well I remember
The look that was in his eyes
Stealin’ kisses from me on the sly
Takin’ time to make time
Tellin’ me that he’s all mine
Learnin’ from each other’s knowing
Lookin’ to see how much we’ve grown

Constança esperava mais da vida. Deixar o ribatejo e ir viver para Lisboa. Largar o estereótipo de filha da cabeleireira local e embrenhar-se na cidade. Conhecer os bares da moda e cruzar-se com os famosos das novelas.

And the only one who could ever reach me
Was the son of a preacher man
The only boy who could ever teach me
Was the son of a preacher man
Yes he was, he was, oh, yes he was
He was the sweet-talking son of a preacher man
I guessed he was the son of a preacher man
Sweet-lovin’ son of a preacher man
Ahh, move me

Desde o liceu que fantasiava conhecer um médico ou um estudante de medicina, que tivesse um descapotável e uma casa no Algarve. Daqueles que conhecem os porteiros das discotecas e que sabia existirem para os lados de Cascais. Alguém que a arrancasse definitivamente do estatuto da classe-média semi-rural e que lhe permitisse os luxos das idas ao ginásio e ao solário em cada fim de tarde. E no entanto, ali estava ela compenetrada a despegar o autocolante da garrafa que segurava na mão, com as unhas bem pintadas, e a deixar-se fascinar pela voz rouca de Marcelino. Nunca o tinha visto antes e achava que ele tinha uma certa pinta. E então ele topou-a. Cruzaram os olhares e ela não se fez tímida. Ofereceu-lhe a expressão que treinara vezes sem conta de frente para o espelho e sentiu-se segura. Marcelino sorriu para ela enquanto deixava o estrado, passando o microfone ao cantante seguinte. Dirigiu-se para ela num passo firme e também cauteloso. Chegou-se bem perto e disse-lhe ao ouvido: tu és linda de morrer! E ela apaixonou-se.

Monday, June 27, 2005

Do It Yourself

Choose Life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television, choose washing machines, cars, compact disc players and electrical tin openers. Choose good health, low cholesterol, and dental insurance. Choose fixed interest mortgage repayments. Choose a starter home. Choose your friends. Choose leisurewear and matching luggage. Choose DIY and wondering who the fuck you are on a Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing, spirit-crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth. Choose rotting away at the end of it all, pishing your last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked up brats you spawned to replace yourself. Choose your future. Choose life...

Sunday, June 26, 2005

imperdível

para a gargalhada total: vitriolica webb's ite archive

vá para fora cá dentro

Sim, eu confesso. Tenho trabalho acumulado suficiente para me afundar até às orelhas. Uma “ToDo list” interminável que em cada semana parece crescer uns 400%. Documentação para analisar e apresentações para preparar. Três ou quatro pessoas à espera que lhes dê um OK para prosseguirem o que começaram a fazer. E no entanto, este fim-de-semana vinguei-me. Dos últimos 11 dias de labuta incansável, entenda-se. Desforrei-me e passei todas as horinhas de papo-pró-ar. Num doce faz nada, fiel à encantadora expressão “dolce fare niente”. A beber caipirinhas numa praia, longínqua da metrópole. A comer amêijoas à Dom Bulhão Pato. A regar uma feijoada de marisco com um tinto novo. A conduzir Alentejo fora com converseta e boa música em pano de fundo ou simplesmente com os amiguitos a dormitarem presos pelo cinto-de-segurança. Fui ao Bairro e ao cinema também. Explorei as funcionalidades do telemóvel novo (sim, desta vez saiu-me um nokia – estou contrariado mas rendido à razão das maiorias). Naveguei pelos blogs vizinhos e devorei o da neurótica. Esparramei-me no sofá a ver o Desperate Housewives. Deleitei-me com joaquinzinhos de dimensões proibitivas segundo as normativas comunitárias – encarnando o infanticida-piscícola. Apanhei algum sol. Não cumpri os limites de velocidade na estrada e até li qualquer coisita do “Espesso”. Em suma, aproveitei algumas das coisinhas boas, únicas e fúteis deste Portugalzinho com o IVA ainda nos 19%.

Tuesday, June 21, 2005

seize the moment

Estou no restaurante onde se come o melhor peixinho grelhado de Portugal. Debruçado sobre o Tejo, ao final de um dia solarengo. A brisa entra pelas janelas semi-abertas. Do lado de fora, na esplanada, está um casal com os seus dois filhotes. Dividem um jarro de sangria branca e uma travessa de amêijoas. Parecem entretidos a responder às interrogações inquisitórias dos catraios bem comportados. Ela é extremamente bonita e tem aquele ar afectuoso que se deseja para a mãe dos nossos filhos. Estou em modo “real-time” e gosto da sensação. Oblívio à converseta na minha mesa, vivo o momento. Desfruto o presente em compassos pequeníssimos de tempo. Gostava que a obsessão pelo presente fosse mais prosaica.

Thursday, June 16, 2005

do contra

Aviso já que hoje estou do contra e o blog serve de escapatória. Há cerca de um mês iniciaram umas “magníficas” obras cá na rua, à beirinha da minha janela. Parecia coisa simples. Basicamente, plantar uma ilha de calçada portuguesa no meio do alcatrão, instalar 4 ou 5 semáforos e respectivas passagens para peões. Como estas coisas obrigam a processos muito mais complexos do que passaria por qualquer cabecinha mentecapta, os notáveis trabalhadores da CML começaram por montar o belo do contentor chapa-de-zinco junto à obra – e eu pensei para os meus botões: por que raio montam uma casota para um “projecto” de uma semana!? Está bem de ver que deve servir de apoio às belas patuscadas de sardinhas assadas pela hora do almoço. Passados uns dias, apareceu uma cratera de dimensões consideráveis no meio da rua – obviamente, mal sinalizada como que a querer dizer ao motorista incauto: enfie aqui o seu carrito, se fizer favor. Mais uma semanita e já lá estava a bela da ilha toda calcetadinha – claramente desalinhada da que já lá existia uns metros mais à frente. Mais um dia ou dois e tinham espetado os postes dos futuros semáforos na dita ilha – ficando as pedrinhas espalhadas por todo o lado. Algum tempo depois, os postes ganharam o colorido daquelas caixinhas de “peão-aperta-aqui-o-botão-a-ver-se-o-sinal-fica-verde-ou-se-apanhas-choque”. Ao fim deste tempo todo, os postes já têm fios a sair pela parte de cima mas os semáforos propriamente nem vê-los. E assim continuamos à espera de ver a coisa concluída.


Bem sei que a vida anda dura. Que estamos em crise. Que as últimas semanas pareceram o pino do verão e a perspectiva da subida dos impostos dá cabo da motivação do trabalhador. Mas se qualquer um dos candidatos a presidente da Câmara prometer o outsourcing total das “grandes empreitadas municipais” (vulgo: tapar buracos, pintar marcações nas ruas ou garantir que a iluminação pública funciona) leva o meu voto. E se complementar com a promessa de uma esplanada em cada esquina e o fim de novos viadutos e túneis, até faço campanha.

Monday, June 13, 2005

Another Day on Earth

Isto é muito estranho: hoje é 13 de Junho e estou para aqui a ouvir o último disco do Brian Eno que, supostamente, só vai ser lançado… amanhã! Chama-se “Another Day on Earth” e, como seria de esperar, é mais uma obra-prima (atenção, esta opinião pode ser muito pouco consensual) – a começar pela metáfora da capa:


Brian Eno é a eminência parda da história da música nos últimos 40 anos. É assim como que uma espécie de arquitecto das sonoridades mais influentes do final do séc. XX. Começou por fazer parte dos Roxy Music antes destes se tornarem “foleiros”, emparelhou várias vezes com John Cale, participou no magnânimo “The Lamb Lies Down on Broadway” dos Genesis, ainda com Peter Gabriel, compôs os acordes para o peculiar “Ruth is stranger than Richard” do Robert Wyatt (1975), para além de ter trabalhado com Michael Nyman, David Bowie (muito), com os Camel, Talking Heads & David Byrne, ter ajudado os miúdos dos U2 a ser quem são e produzido com os James (a lista é quase interminável: INXS, Depeche Mode, Laurie Anderson, Suede, etc.). Para perceberem bem a omnipresença do “rapaz”, a música do start-up no Windows’95 é dele, influenciou a banda sonora do Trainspotting, do macabro Lost Highway e tudo o que os travestis Passengers ajudaram a projectar na tela. Trata-se portanto de um monstro – toda a gente já pensou: “eh pá, esta música é mesmo gira!” sem saber quem estava por detrás da coisa – mas não aprecia tributos.

Sunday, June 12, 2005

spokeneasy

Noite agradável. Jantar no La Trattoria com os amiguitos – não recomendo, a relação preço / qualidade deixa a desejar, embora o Chianti fosse de qualidade (e me fizesse recordar a passagem pelos campos amarelos da Toscânia / Toscana e uma noite bem dormida numa qualquer pousada de juventude entre Florença e Siena, em que a hospitalária de serviço nos tentou impingir umas garrafitas do belo néctar com o seu inglese macarrónico) – e música ao vivo num Speakeasy repleto de “cotas” encostados ao balcão em tentativa de engate casual. Para o final da noite, encontro um velho grande amigo de infância que não via há séculos e fico com este gostinho especial de quem já viveu uma vida inteira e tem lembranças de há meia vida atrás.