Monday, February 20, 2006

Ocre

Hoje apetecia-me pegar no portátil, apanhar um avião, alugar uma água-furtada em Siena e dedicar um ano de vida a escrever um romance.

Friday, February 17, 2006

excertos #2

3
Qui si lavora, non si parla di politica
- barbieri italiano




Conheço o Tomás desde os nossos 5 anos. Nunca conheceu o pai que foi uma das poucas vítimas da guerra colonial em Moçambique e ficou órfão de mãe na altura em que se mudou para o bairro, para casa do tio Simão, na altura um proeminente advogado em Lisboa. Tornámo-nos compinchas durante a primeira semana de aulas da 2ª classe. A mãe do Tomás estava nessa altura internada no hospital e ele decidiu rogar uma praga à imagem de Nossa Senhora existente na igreja de São Sebastião, ameaçando destruí-la se a mãe não ficasse boa. Durante dois meses, a coisa arrastou-se: brincadeiras na rua de trás ao final da tarde, visitas à mãe nos sábados à tarde com o tio Simão e a esposa – um péssimo modelo de mãe, casada em segundas núpcias com o tio Simão e com assinatura na ópera do São Carlos. Até que numa quarta-feira, o Tomás não apareceu na escola e no dia seguinte os meus pais foram ao funeral da mãe dele. Nessa tarde, não tive que ir à escola e fiquei a fazer companhia ao Tomás que me obrigou a acompanhá-lo até à igreja de São Sebastião onde derrubou a imagem de Nossa Senhora.
Hoje o Tomás trabalha como assistente na pujante indústria cinematográfica, nacional encharcada de dinheiro à custa dos subsídios estatais e da necessidade absoluta de entreter as gentes. O Tomás é um verdadeiro especialista em cinema, que deve ter passado mais tempo em frente ao ecrã do que qualquer outra pessoa que eu conheça. É também uma verdadeira enciclopédia ambulante, capaz de identificar os actores, citar as expressões e descrever as cenas de todos os tipos de filmes, desde os premiados até às produções alternativas. Vive desafogadamente, em função da herança que o tio lhe deixou e desde que apareceram os DVD já deve ter mandado fazer umas dez estantes em mogno que ocupam todas as paredes, de alto a baixo, da divisão que antigamente servia de escritório ao tio Simão, substituindo os antigos livros de direito. Para além disso é um tipo peculiar, que apesar de poder comprar um Ferrari, se assim o desejasse, jamais pôs as mãos num volante, deslocando-se sempre de táxi enquanto está em Lisboa e de comboio para se deslocar a Paris. Nunca leu um livro, defendendo que todos os romances que valha a pena ler acabarão por passar ao cinema e no entanto é o leitor mais compulsivo de revistas e jornais que conheço, coleccionando de forma interminável os artigos de opinião que vai lendo, e desde que descobriu a Internet, montou uma base de dados destes, acessível a qualquer um e que por isso gasta uma fortuna na subscrição das versões electrónicas das mais variadas publicações: The Economist, The Spectator, The New Yorker, O Expresso, Le Nouvelle Observateur, Der Spiegel, etc.
O Tomás é também o maior aficionado de futebol que conheço. Aliás, não de futebol mas sim do Benfica. Não me recordo de alguma vez o ter visto a seguir um jogo que não envolvesse o Benfica, nem sequer os da selecção nacional. Em 1982, foi, juntamente com mais meia dúzia de meninos ricos, o grande dinamizador do “Exército Rubro”, uma claque que não durou mais de duas épocas porque não possuía qualquer tipo de ideologia, subsistindo à custa do fornecimento de entrada à borla aos membros da claque, mas que ainda assim ficou célebre pelos problemas causados durante uma tentativa de espera ao árbitro quando o Benfica defrontou o Anderlecht na final da Taça UEFA de 1982/1983.


Nota do autor:
Este era o capítulo 3 e como é fácil de entender o melodrama tinha pinta de best-seller. Estava sobretudo a precisar de uma bela revisão mas "em bruto" também vale a pena.

excertos

1
Até aos 20 anos eu não tinha preocupações, levava uma vida boémia, depois eu casei e tive que começar a trabalhar, e aí eu escolhi a arquitectura.
- Óscar Niemeyer




Sete décimos da vida...

- Um Martini Rosso, por favor! E tu Magda o que queres?
- Pode ser um capuccino, se faz favor.
- Cappucino não temos. Café com natas?
- Sim, pode ser. Numa chávena grande, se possível!?
- Concerteza!
Pois, aqui estou eu no Rabat – o café frequentado pelos actuais teenagers de Lisboa, os sucedâneos da geração rasca – a tentar a minha sorte com a enfermeirinha de serviço.
- Bom, onde é que eu ia? Ah, já sei. Eu andava mesmo cansada, trabalhar na urgência era um stress. Principalmente, quando entravam acidentados acompanhados de familiares aos gritos e o serviço já estava cheio de criancinhas e mães histéricas. Para cúmulo, ao fim de semana ainda fazia uma perninha numa casa de saúde para doentes mentais, mulheres deprimidas e ex-drogados em fase de readaptação. Mas fazia bom dinheiro, compensava o sacrifício.
- Agora que falas nisso, estava no outro dia a ver uma reportagem num qualquer telejornal em que diziam que o rácio de depressões em Portugal é muito superior à média europeia.
Esta estúpida mania de comparar tudo o que se passa no nosso país com os indicadores estatísticos da União Europeia, ainda há de nos fazer afundar no Atlântico! Acho que seria bem capaz de patrocinar um qualquer grupo terrorista, desde que prometessem acabar com o Eurostat.
- Pois é. Há mesmo muitos portugueses à beira do precipício.
- Eu não entendo é porquê!? Até parece que somos todos uns fracos. À primeira dificuldade, entramos logo em parafuso.
- Pois é, pois é!
- No fundo, acho que a causa tem bastante que ver com a desorganização das nossas vidas. Se as pessoas parassem para pensar um bocadinho, chegavam rapidamente à conclusão que existem coisas que podem ser mudadas e que provocariam uma volta de cento e oitenta graus nas suas vidas. O exemplo típico, tem a ver com o facto de a grande maioria das pessoas trabalharem em Lisboa e viverem nos seus arredores. Tudo bem, não há dinheiro e as casas são muito mais baratas em Sintra ou Alverca mas na verdade também não são capazes de fazer um par de continhas para chegarem à conclusão de que o que não pagam com o empréstimo ao banco, acabam por gastar em gasolina, portagens ou carro. E depois não há... prii, prii – tocou o telemóvel da Magda.
Ela atendeu, e eu fiquei para ali a pensar, que raio de conversa estava a ter. Tudo bem que dar uma de intelectual moderno torna qualquer homem atraente, mas gastar o meu latim com teorias acerca da vida quando uma fútil conversa de engate bastaria, é pura perda de tempo, para resultados equivalentes.
A conversa telefónica dela demorou – era com o irmão, um tipo sensaborão conhecera à umas semanas atrás, numa almoçarada de ensopado de borrego ao pé de Sines, e que vivia em Serpa, depois de ter decidido que a grande cidade não era para ele. Casado e pai de três filhos, de certa forma encantadores mais não fosse pela ruralidade evidente sob a forma de faces rosadas e aparentemente, pelo teor da conversa, em vias de atingir os índices de fertilidade comuns na África subsahariana. Pena é que não abunde em Portugal esta necessidade de alcançar os índices terceiro mundistas realmente importantes – pensei eu para os meus botões.
Quando ela finalmente desligou, decidiu pôr-me a par das novidades, resultantes da mais recente ecografia:
- Desta vez é uma menina e vai-se chamar Carla! – Carla, no meu estereotipado mundo dos rótulos, significa frasco sem conteúdo digno de referência mas possibilidade de vidro de qualidade e certeza absoluta de faces rosadas, i.e., encaixe perfeito entre a prole já existente.
- Que bom. Depois de três rapazes devia ser mesmo isso que desejavam.
- Sim, já basta de homens a atazanarem a minha cunhada.
- Pois! – respondi eu, em tom melancólico, para ver se não íamos desfazer o novelo deste assunto por muito mais tempo.
- Sabes que essa questão de ser menino ou menina tem muito a ver com as fases da lua. Parece que as probabilidades de sair rapaz são muito grandes em quarto crescente e menores em quarto minguante.
- Sim!?
- Foi o que li numa revista de medicina, lá no hospital.
Era a minha quarta ou quinta saída com a Magda e pela quarta ou quinta vez, dei comigo a pensar: o que é que eu estou aqui a fazer. Ela tinha um corpinho jeitoso e o culto do bronzeado. Conhecera-a uns dois meses antes no casamento de uma antiga namorada de liceu, que, preocupada com os meus devaneios, me tinha promovido junto de seis ou sete colegas, recém chegadas ao hospital e com tendência para procurarem o homem ideal entre a classe dos trintões. A Magda destacara-se da concorrência, em primeiro lugar, pela voluptuosidade do seu peito e também por ser capaz de dançar sem a necessidade de pôr os seus pés por debaixo dos meus. Também fora capaz de aceitar facilmente o meu estado de embriaguez sem ter a necessidade de afirmar em demasia a disponibilidade para tomar conta de mim – o que não acontecera com as demais, cujos conselhos derivavam desde a rodela de ananás até ao “vamos caminhar pelo jardim”. Como dizia alguém, num filme qualquer, os casamentos são o sítio perfeito para se encontrar parceira mas esta nunca poderá ser perfeita nem que seja pelo simples facto de se tratar da situação mais propícia ao encontro motivado pelo desespero.
Encurtei a conversa, bebendo o que restava do meu Martini, suficientemente depressa para não chegar à fase da cara de enjoada e não tão depressa que ela pudesse ficar a pensar que a estava a despachar.
Saímos do Rabat e acompanhei-a ao carro que estava estacionado num praceta próxima. Na despedida, ela demorou o tempo quanto baste para ver se daquela vez saia beijo e eu encurtei a situação com a desculpa de que já era tarde e de que tinha trabalho no dia seguinte. Enquanto conduzia para casa, recebi uma mensagem dela, no telemóvel, em que dizia estar arrependida de não me ter roubado um beijo. Não respondi e quando cheguei a casa ainda tive que dedicar uma boa meia hora à leitura do jornal do fim de semana passado, tendo reafirmado para mim próprio que não voltaria a combinar nada com a Magda, antes de apagar a luz.

No dia seguinte, logo pela manhãzinha passei pelo Timbuctu, o café mais castiço do bairro – e também o único café do bairro – na esperança de encontrar o Tomás, para lhe relatar mais uma magnífica noite de proezas sexuais e o obrigar a prometer que me humilharia publicamente se eu voltasse a sair com a Magda. Mas não o encontrei e apenas o Sr. Margarido (o dono do Timbuctu) me fez uma grande festa por ser a segunda vez naquela semana que por lá aparecia para tomar o pequeno-almoço.


Nota do autor:
À falta de inspiração, estava para aqui a vadiar entre a centena de ficheiros “New Book” que me entopem o PC e encontrei esta tentativa frustrada de plágio à Margarida Rebelo Pinto, datada dos idos de 2003, quando achava – ou pretendia provar a mim próprio – que seria capaz de fazer fortuna a escrever ficção de qualidade duvidosa. Evidentemente, desatei-me a rir (em particular, com o ridículo dos nomes dos personagens) e concluí que é bem mais divertido divagar de vez em quando no ripples.

Tuesday, February 14, 2006

fy

In Liverpool
On Sunday
No traffic
On the avenue
The light is pale and thin
Like you
No sound, down
In this part of town
Except for the boy in the belfry
He's crazy, he's throwing himself
Down from the top of the tower
Like a hunchback in heaven
He's ringing the bells in the church
For the last half an hour
He sounds like he's missing something
Or someone that he knows he can't
Have now and if he isn't
I certainly am

Homesick for a clock
That told the same time
sometimes you made no sense to me
if you lie on the ground
in somebody's arms
you'll probably swallow some of their history

And the boy in the belfry
He's crazy, he's throwing himself
Down from the top of the tower
Like a hunchback in heaven
He's ringing the bells in the church
For the last half an hour
He sounds like he's missing something
Or someone that he knows he can't
Have now and if he isn't
I certainly am

Monday, February 6, 2006

...estamos contigo Miguel

O cerco

Já faltou mais para que um dia destes tenha de passar a clandestinidade ou, no mínimo, tenha de me enfiar em casa a viver os meus vícios secretos. Tenho um catalogo deles e todos me parecem ameaçados: sou heterossexual «full time»; fumo, incluindo charutos; bebo; como coisas como pézinhos de coentrada, joaquinzinhos fritos e tordos em vinha d'alhos; vibro com o futebol; jogo cartas, quando arranjo três parceiros para o «bridge» ou quando, de dois em dois anos, passo à porta de um casino e me apetece jogar «black-jack»; não troco por quase nada uma caçada às perdizes entre amigos; acho a tourada um espectáculo deslumbrante, embora não perceba nada do assunto; gosto de ir a pesca «ao corrido» e daquela luta de morte com o peixe, em que ele não quer vir para bordo e eu não quero que ele se solte do anzol; acredito que as pessoas valem pelo seu mérito próprio e que quem tem valor acaba fatalmente por se impor, e por isso sou contra as quotas; deixei de acreditar que o Estado deva gastar os recursos dos contribuintes a tentar reintegrar as «minorias» instaladas na assistência publica, como os ciganos, os drogados, os artistas de varias especialidades ou os desempregados profissionais; sou agnóstico (ou ateu, conforme preferirem) e cada vez mais militantemente, na medida que vou constatando a actualidade crescente da velha sentença de Marx de que "a religião é o ópio dos povos»; formado em direito, tornei-me descrente da lei e da justiça, das suas minudencias e espertezas e da sua falta de objectividade social, e hoje acredito apenas em três fontes legítimas de lei: a natureza, a liberdade e o bom senso.
Trogloditas como eu vivem cada vez mais a coberto da sua trincheira, numa batalha de retaguarda contra um exercito heterogéneo de moralistas diversos: os profetas do politicamente correcto, os fanáticos religiosos de todos os credos e confissões, os fascistas da saúde, os vigilantes dos bons costumes ou os arautos das ditaduras «alternativas» ou «fracturantes». Se eu digo que nada tenho contra os casamentos homossexuais, mas que, quanto à adopção, sou contra porque ninguém tem o direito de presumir a vontade «alternativa» de uma criança, chamam-me homofónico (e o Parlamento Europeu acaba de votar uma resolução contra esse flagelo, que, como está à vista, varre a Europa inteira); se a uma senhora que anteontem se indignava no «Público" porque detectou um sorriso condescendente do dr. Souto Moura perante a intervenção de uma deputada, na inquirirão sobre escutas na Assembleia da Republica, eu disser que também escutei a intervenção da deputada com um sorriso condescendente, não por ela ser mulher mas por ser notoriamente incompetente para a função, ela responder-me-ia de certeza que eu sou "machista» e jamais aceitaria que lhe invertesse a tese: que o problema não é aquela deputada ser mulher, o problema é aquela mulher ser deputada; se eu tentar explicar por que razão a caça civilizada é um acto natural, chamam-me assassino dos pobres animaizinhos, sem sequer quererem perceber que os animaizinhos só existem porque há quem os crie, quem os cace e quem os coma; se eu chego a Lisboa, co­mo me aconteceu há dias, e, a vinte quilómetros de distancia num céu límpido, vejo uma impressionante nuvem de poluição so­bre a cidade, vão-me dizer que o que incomoda verdadeiramente é o fumo do meu cigarro, e ate já em Espanha e Itália, os meus países mais queridos, tenho de fumar envergonhadameme à porta dos bares e restaurantes, como um cão tinhoso; enfim, se eu escrever velho em vez de «idoso», drogado em vez de «toxicodependente», cego em vez de «invisual», preso em vez de «recluso» ou impotente em vez de «portador de disfunção eréctil", vou ser adoptado nas escolas do país como exemplo do vocabulário que não se deve usar. Vou confessar tudo, vou abrir o peito as balas: estou a ficar farto desta gente, deste cerco de vigilantes da opinião e da moral, deste exército de eunucos intelectuais.
Agora vêm-nos com esta historia dos "cartoons» sobre Maomé saídos num jornal dinamarquês. Ao princípio a coisa não teve qualquer importância: um «fait-divers» na vida da liberdade de imprensa num pais democrático. Mas assim que o incidente foi crescendo e que os grandes exportadores de petróleo, com a Arabia Saudita à cabeça, começaram a exigir desculpas de Estado e a ameaçar com represálias ao comercio e às relações económicas e diplomáticas, as opiniões publicas assustaram-se, os governantes europeus meteram a viola da liberdade de imprensa ao saco e a sr.ª comissária europeia para os Direitos Humanos (!) anunciou um inquérito para apurar eventuais sintomas de «racismo» ou de «intolerância religiosa» nos cartoons profanos. Eis aonde se chega na estrada do politicamente correcto: a intolerância religiosa não é de quem quer proibir os «cartoons», mas de quem os publica!
A Dinamarca não tem petróleo, mas é um dos países mais civilizados do mundo: tem um verdadeiro Estado Social, uma sociedade aberta que pratica a igualdade de direitos a todos os níveis, respeita todas as crenças, protege todas as minorias, defende o cidadão contra os abusos do Estado e a liberdade contra os poderosos, socorre os doentes e os velhos, ajuda os desfavorecidos, acolhe os exilados, repudia as mordomias do poder, cobra impostos a todos os ricos, sem excepção, e distribui pelos pobres. A Arábia Saudita tem petróleo e pouco mais: é um país onde as mulheres estão excluídas dos direitos, onde a lei e o Estado se confundem com a religião, onde uma oligarquia corrupta e ostentatória divide entre si o grosso das receitas do petróleo, on­de uma policia de costumes varre as ruas em busca de sinais de "imoralidade privada», onde os condenados são enforcados em praça pública, os ladrões decepados e as «adulteras» apedrejadas em nome de um código moral escrito há quase seiscentos anos. E a Dinamarca tem de pedir desculpas à Arábia Saudita por ser como é e por acreditar nos valores em que acredita?
Eu não teria escrito nem publicado «cartoons» a troçar com Maomé ou com a Nossa Senhora de Fátima. Porque respeito as crenças e a sensibilidade religiosa dos outros, por mais absurdas que elas me possam parecer. Mas no meu código de valores — que é o da liberdade — não proíbo que outros o façam, porque a falta de gosto ou de sensibilidade também tem a liberdade de existir. E depois as pessoas escolhem o que adoptar. É essa a grande diferença: seguramente que vai haver quem pegue neste meu texto e o deite ao lixo, indignado. É o seu direito. Mas censurá-lo previamente, como alguns seguramente gostariam, isso não.É por isso que eu, que todavia sou um apaixonado pelo mundo árabe e islâmico, quanto toca ao essencial, sou europeu — graças a Deus. Pelo menos, enquanto nos deixarem ser e tivermos orgulho e vontade em continuar a ser a sociedade da liberdade e da tolerância.
© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 04.02.2006


Thursday, January 12, 2006

hoje apetece-me...

...concordar com o Miguel Sousa Tavares in "Sobreviverá Portugal depois de 2013?".

Sunday, January 8, 2006

god & Man

i don't believe in an interventionist god
but i know, darling, that you do
but if i did i would kneel down and ask him
not to intervene when it came to you
not to touch a hair on your head
to leave you as you are
and if he felt he had to direct you
then direct you into my arms

into my arms, o lord
into my arms, o lord
into my arms, o lord
into my arms

and i don't believe in the existence of angels
but looking at you i wonder if that's true
but if i did i would summon them together
and ask them to watch over you
to each burn a candle for you
to make bright and clear your path
and to walk, like christ, in grace and love
and guide you into my arms

and i believe in love
and i know that you do too
and i believe in some kind of path
that we can walk down, me and you
so keep your candle burning
and make her journey bright and pure
that she will keep returning
always and evermore

into my arms


Sunday, December 18, 2005

3-benzoyloxy-8-methyl-8-azabicyclo[3.2.1]octane-4-carboxylic acid methyl ester

Este fim-de-semana ofereceram-me cocaína à descarada no Bairro! Sinal dos tempos!?

Monday, November 21, 2005

tiger food

Crónica do futuro – by oInimigoPúblico, a notícia é de 18 de Novembro de 2035:

“Faleceu esta semana o último português que servia num café. O funeral, organizado pelos colegas, incluiu samba, caipirinha e o desfile da Escola Unidos da Tijuca de Arroios”

mais abaixo, na mesma página, “brilhante prancha” de BD a gozar com a Pimpinha Jardim – by Nuno Markl (que é suposto tratar-se de um humorista iluminado da nossa praça) – sobre um qualquer cruzeiro do socialite nacional a Marrocos:

“Tânger é bastante feia, muito suja e as pessoas têm um aspecto assustador”

Sejamos pragmáticos. As televisões insistem em enfiar-nos pelo cérebro adentro imagens de malis e outros povos sub-saharianos a escalarem as barreiras de fronteira em Melilla, putos argelinos a incendiarem voitures nos arredores de Paris e em cada dia que passa há mais uma remessa de uzbequis descoberta num qualquer contentor acabado de chegar às ilhas britânicas. É assustador e mesmo assim ninguém pára para pensar que talvez – só talvez – esta gente não saiba ao que vem. Que repletos de uma ilusão efémera, esta gente não discerne entre o que deixa para trás e as agruras que vem enfrentar. Que o que os espera pode não ser tão melhor assim. Que dentro da fortaleza Europa ou para norte do arame farpado da Califórnia não há um mar de rosas. E ninguém se esforça por lhes explicar que talvez – só talvez – seja melhor ser-se um guardador de cabras e poder contemplar um céu intacto do que ter de lutar por um lugar ao sol no meio da multidão inerte.

Wednesday, October 26, 2005

directamente para o "top"


Les Poupées Russes - ou a vida tal e qual como ela foi quando se chega aos trintas, sem clichés!

Tuesday, October 18, 2005

lugar místico

“Nas noites de Verão levava-me ao alto de uma árida colina para observar o céu. Fatigado de contar meteoros, eu adormecia num rego do solo. Ele ficava sentado, de cabeça erguida, rondando imperceptivelmente com os astros. Deve ter conhecido os sistemas de Filolau e de Hiparco e o de Aristarco de Samos, que eu preferi mais tarde, mas estas especulações já o não interessavam. Os astros eram para ele pontos inflamados, objectos como as pedras, e os lentos insectos de que ele tirava igualmente presságios, partes constituintes de um universo mágico que compreendia também as volições dos deuses, a influência dos demónios e o destino dos homens.”


Existe às portas de Sevilha um lugar místico. As ruínas romanas de Itálica, a terra natal de Adriano que Crayencour refere na passagem acima. Visitei-as em pequeno, num dia solarengo que me ficou na memória, e de cada vez que por ali passo, a caminho ou vindo da Sierra Morena, assola-me a vontade de perscrutar as estrelas e contemplar os astros.

Friday, October 7, 2005

O eclipse do regime

Ao longo dos últimos 2 anos tenho tentado abstrair-me o mais possível dos factos políticos de Portugal. Do governo ou desgoverno deste país. Assumi com rigor uma postura absentista. Deixei de queimar neurónios com a leitura supérflua dos pasquins nacionais. Ignorei ao máximo as bujardas da classe jornalística que contribui lentamente para o devorar da nação lusa. Saciei as minhas necessidades de realidade presente à custa da Economist e afins. Sentia-me bem com a desintoxicação. Com a perspectiva mais global da sociedade humana. E de repente, há coisa de um mês, surgiu-me um dilema: em quem votar nas próximas autárquicas. Considerando que estas acabam por ser as eleições mais próximas do meu quotidiano, queria conseguir escolher bem o próximo presidente da CML. Voltei a estar atento aos telejornais de qualidade duvidosa que passam nas nossas “tevês” e a tentar apanhar qualquer coisita de jeito sobre o assunto nas páginas deturpadas dos nossos jornais. Comecei por descobrir que não havia muita gente preocupada com o assunto. O tema do momento era, e ainda é, as presidenciais do próximo ano. Estava tudo mais concentrado no desfazer do tabu do hipotético candidato X, nas deambulações senis do candidato Y e nos lirismos do vai-não-vai candidato Z. Como se a prima-dona que vai habitar o palácio de Belém contribuísse de alguma forma para a felicidade comunal do Português normal. Depois, revelou-se-me muito mais importante analisar ao milímetro os passos, actividades e palavras inflamadas dos quatro caciques, candidatos independentes a câmaras de terceira linha, que estiveram envolvidos em coisas “tão escandalosas” como umas férias, à revelia da justiça, no Brasil, a oferta de frigoríficos a eleitores e a participação obscura nas negociatas do futebol nacional, o desvio de fundos para a conta bancária do primo taxista na Suiça ou a participação num qualquer reality-show do momento. Tudo temas suculentos para os energúmenos do 4º poder e respectivos leitores ou telespectadores, está bem de ver. Finalmente, a uma semana da data chave descobri uma pobre matriz de perguntas mal-engendradas aos cinco estarolas em quem posso por a cruzinha. Suficiente, pensei eu, para este pobre cidadão lisboeta fundamentar uma decisão sobre a matéria em apreço. E, veja-se bem, eu que sou um rapazinho “às direitas” estava convencido que tinha conseguido discernir o “menos mau” no espectro diametralmente oposto às minhas convicções. Eis senão quando, por causa das reticências e renitências, decidi assistir ao último debate entre os ditos candidatos. Resultado: vou votar em branco. O que se vai tornando um hábito nada feliz. E espero que muitos façam como eu porque esta tristeza de nem sequer se conseguir escolher o “menos mau” tem que acabar ou então acabe-se com este regime caduco. Porque mais vale ter a inteligência de compreender que algo vai mal, que não estamos preparados para esta forma de governo e que se calhar basta “puxar a rolha” do Alqueva para ver se nos afundamos definitivamente no Atlântico.
De borla, aqui ficam algumas ideias de um consultor altruísta para quem se quiser candidatar daqui a quatro anos:

1) Portagens à entrada da cidade – para equilibrar as vantagens de viver em Lisboa, já que não conseguem fazer as continhas à gasolina e tempo desperdiçado no vai-e-vem diário;
2) Habitação desabitada durante mais que X tempo é para quem a reabilitar;
3) Prédio com 5 ou mais andares: os dois primeiros obrigatoriamente para serviços e os outros compulsivamente para habitação – ou proporcional;
4) Buraco aberto na rua: obrigação de repavimentar a rua inteira;
5) Viatura mal estacionada ou em 2ª fila: fotografia com o telemóvel e repartição do valor da multa com o delator;
6) Jardinzinho de bairro: regador e ancinho a cargo do residente nas tardes de fim-de-semana;
7) Pombo morto e entregue nos serviços municipais: bilhetinho de metro como recompensa;
8) Arrumador ganzado ou pedinte errante: fardinha da EMEL ou vassourinha de palha, i.e., funcionário municipal encartado;
9) Motinha de escape aberto em circulação: uma semana de carrinho-aspirador ou cortador de relva na mão;
10) Lar de idosos e creches municipais debaixo do mesmo tecto – uns tomarão conta dos outros.
E prontos, para bom entendedor meia-palavra basta...

Thursday, October 6, 2005

fragments of a lovely season

Never win and never lose
There's nothing much to choose
Between the right and wrong
Nothing lost and nothing gained
Still things aren't quite the same
Between you and me

I keep a close watch on this heart of mine
I keep a close watch on this heart of mine

I still hear your voice at night
When I turn out the light
And try to settle down
But there's nothing much I can do
Because I can't live without you
Any way at all

I keep a close watch on this heart of mine
I keep a close watch on this heart of mine

(05Out05 - John Cale live at CCB)

Friday, September 23, 2005

chip

Gosto do conceito das “grandes ideias” que mudam o mundo. Das coisas simples que, sem darmos por elas, transformam a Vida. Dos objectos que inicialmente são novidade e lentamente se tornam banais, acessíveis e se massificam. Não sou fã de gadgets – tenho até alguma aversão aos ditos – mas reconheço o contributo dos “gecos” – geeks, entendidos como aqueles cromos que aderem sempre à 1ª vaga de tudo o que é novidade – para a democratização da espécie humana. Em jeito de exemplo, os tipos que na década de 80 ficaram corcundas por causa dos telemóveis-tijolo de 1ª geração, na década de 90 ceguetas por causa dos laptops de ecrã reduzido e nesta década alienados por causa dos iPod. Presto-lhes tributo por terem sido cobaias, arriscando a possibilidade do tumor cerebral, a córnea deslocada ou o tímpano martirizado, para que hoje muita gente tenha acesso a estes objectos semi-úteis. E também considero justo que as mentes visionárias que engendraram tais ideias, nadem em rios de dinheiro, até porque foram capazes de acrescentar blocos novos às cadeias de valor, criar complexidade e assegurar subsistências. Isto é fácil de entender se vos disser que dos 58 milhões de italianos, cerca de 500.000 contribuem directamente para que os 58 milhões de “telefoninos” estejam operacionais, o que se traduz em assegurar não só as comunicações móveis dos ditos 58 milhões mas também os futuros dos seus agregados familiares – por estimativa, 1 milhão de alminhas a irem aos “coleggios”, a acelerarem “piaggios” e a comerem “pastas-divella-la-massa-bela”. Pessoalmente, sou um bocadinho céptico em relação a toda esta evolução, que certamente poria a cabecinha do Darwin a andar à roda, e prefiro as 2ªs / 3ªs vagas – consegui resistir ao “telefonino” até 2000. Mas há-de estar por aí a rebentar o “invento do século” para o qual eu me candidato, desde já, a rato-de-laboratório: invente-se o bloco de notas mental, o chip registador de acoplagem cerebral, e lá estarei eu na 1ª fila para o comprar. Porque sinto que todos os dias me escapam pelo menos 10 ideias diferenciais, 3 temas para reflectir e meia-dúzia de imagens únicas a relembrar. E cada vez que tomo consciência disto mesmo, penso no desperdício de neurónios DNA registado que deixaram de existir sem proveito nenhum. Em conclusão: vou voltar à fosfoglutina.

Monday, September 12, 2005

changes

Já dizia o poeta perspicaz – apesar da pala – que “todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades…”. Pois, nos últimos tempos sobe-me a mostarda ao nariz cada vez que alguém próximo decide exigir de mim grandes planos, estratégias de vida renovadas ou intenções de porvir. Compreenda-se que considero escusado, ou demasiado, o tempo que investimos a conjecturar sobre o futuro próprio e alheio, a traçar grandes objectivos sem colher benefícios palpáveis. Que estou bem, agora e aqui, e me apetece viver por um bocadinho o presente. Que as grandes mudanças das vidas dos outros não têm obrigatoriamente que encontrar paralelos na minha própria vida, qual efeito-borboleta. Que as lógicas do tempo certo para se fazer isto e aquilo são impostas por regras de uma sociedade longe de perfeita. E que embora utópica me lembro muitas vezes da história de vida de um certo Douglas Bader, que li quando era pequeno, absorto à tentativa de pensar um dia de cada vez, sem desígnios intensos. O tempo das mudanças voltará, naturalmente, mas por agora apetece-me degustar o presente tal e qual como ele se apresenta, sem tirar nem pôr.

Monday, August 1, 2005

Feeling alive is…

Seating on the Piazza di Spagna stairs and crying inside while the sun sets over the rooftops...

Driving through Austrian yellow fields while listening to Suzanne Vega’s “In Liverpool”...

Having a meal & some red wine in Tate’s restaurant facing St. Paul’s Cathedral beneath a cloudy sky while writing life’s newest decisions on a piece of paper...

Driving on Donegal’s rollercoaster roads and catching the most beautiful Leonard Cohen’s program on the radio-waves...

Trying to concentrate on some love-letter words while your teardrops soak the paper...

Embracing my love inside a calm and salty sea and feeling the unique scent of her skin...

Tuesday, July 26, 2005

o fanático do sashimi

Fazia-me falta um novo vício na vida. Eis senão quando redescobri a bela da comidinha japonesa. Uns tempos passados após as primeiras tentativas frustrantes, sonho acordado com o “maguro tataki” a desfazer-se na minha boquinha como manteiga em pão quente. Em termos práticos, são apenas pedacinhos de atum cru, melhor, muito ligeiramente braseados e as minhas papilas gustativas em êxtase. E na última semana já lá vão quatro visitas à variada gastronomia nipónica. E gosto de quase tudo (passo bem sem o “nori” e o arroz do sushi adultera um bocadinho a essência do sashimi) porque é mesmo bom!

Sunday, July 17, 2005

anicha aqui

Ainda não percebi bem porquê mas dei por mim a tirar um livrinho bem antigo da prateleira poeirenta para o voltar a ler. “A Causa das Coisas”, by MEC. Li-o, pela primeira vez num verão distante de 1988, numas férias passadas entre o esturricar ao sol no monte de areia, diante da Anicha, o mergulho refrescante no final de cada crónica e a impaciência pela saída noctívaga até ao Seagull. Um verão descontraído de passeios de bicicleta com uma namoradinha estival de nome Benedita e peras verdes apanhadas directamente das árvores. Mas o engraçado é que as croniquetas do Miguel Esteves Cardoso, escritas em meados da década de 80 e retratando as peculiaridades do povo português permanecem impecavelmente válidas. Substituídos os escudos por euros e a CEE pela União Europeia, os estereótipos e figurões actuais estão lá todos, como se as “Coisas” tivessem permanecido estáticas ao longo destes vinte anos e as “Causas” fizessem parte do código genético desta Nação. E eu digo: podemos ter todos os defeitos do mundo mas temos também as virtudes de uma personalidade forte – sejam elas quais forem. Valha-nos isto!



Tuesday, July 12, 2005

human imperfection

It was one of those days. Woke up wandering why on earth did my dear soul end up trapped inside this imperfect body capsule. Hadn’t slept 10 minutes in a row during the night and spent the whole day wishing I was like “Marsellrebelldesosa”, who seems to be able to sleep only 4 hours a night. At 9h30 as I was finally reaching my REM stage, the damn phone rang: a hysterical secretary trying to get me on time to a recruiting session – it wasn’t my turn, obviously. Got dressed and went to “the bunker”. Nobody around and I was just going to nap over the laptop when a colleague arrived and switched the lights on – “Good morning!” Yeah, and I hate you bastard. The phone strikes again and I have to deal with half an hour of consulting bullshit on a low-coverage area, while feeling the brain getting fried next to my ear. Tried to work a bit and here comes the phone again: quality auditing to my project. Not during the next two weeks, pleeease… Keeping my eyelids in a horizontal position and guess what, the fucking phone rings again. Bad news, this time: a friend’s father just died last night, while sleeping. A father who had that kind of unique relationship with his daughter, so it seemed. Not that old, I believe. A “special parent” so it used to be commented. And I get to that inner line of thought on “how to deal with dead” and “why do we have to sleep”. Human imperfection, that’s it.


copyright: vitriolica

Friday, July 8, 2005

warum?

Impressionante! Graças ao “poder dos fotologs” soube rapidamente que toda a gente que conheço em Londres estava bem e fiquei descansado. Mas no “bunker” em que me encontro a trabalhar, havia um “bife” de um outro projecto absolutamente desesperado a tentar telefonar para a família para saber como estavam. Felizmente, bem. O mesmo homem que ainda ontem pulava de contente por causa dos jogos olímpicos, passou a manhã inteira agarrado ao telemóvel para conseguir saber notícias. E estas coisas deixam-nos a pensar. Se Alá é grande, se somos todos filhos de um Deus menor ou se o fortuito manda.

Copyright: abox