Tuesday, December 29, 2009

envidia

Este verão por terras de Boston fiz um bom amigo. De nacionalidade espanhola, nascido num pequeno pueblo não muito distante de Badajoz e por isso com o coração cheio de referências a Portugal, o bom do Manuel é, sem tirar nem pôr, a personificação do estereótipo que eu imagino para um espanhol castiço: estatura baixa, ossos vincados no queixo, tez morena mas caucasiana, arguto, convicto, argumentativo, excelente pessoa e amigo dos seus amigos. Depois de ter iniciado a sua carreira em Madrid, mudou-se, há alguns anos atrás, de armas mas sem muita bagagem, para a Cidade do México, onde subiu até Director-Geral da representação de uma multinacional espanhola. Fez muito negócio pelos Estados Unidos e ter-se-á apaixonado por uma mexicana de nome Arantxa com quem chegou a viver. Conheci-o num curso repleto de gente brilhante dos quatro cantos do mundo e, como sempre acontece quando se encontram portugueses e hermanos nestas situações, tornámo-nos compinchas. O bom do Manuel, em fase de recuperação do amor perdido, encontrava-se numa encruzilhada da vida, sem pretender saber o que faria depois do MIT. Voltámos a falar há uns dias atrás e o Manuel anda de viagem pelo Mundo durante os próximos meses, por agora pela América do Sul qual Che Guevara...




Monday, December 28, 2009

Counter-economics

À falta de informação interessante e de mais notícias parvas tão típicas da saison, os telejornais da terrinha enchem-nos com as estatísticas dos levantamentos e pagamentos multibanco (ao minuto, ao dia e ao cartão) para passarem a mensagem de que “a crise” acabou porque os portugueses “levantaram mais”, “pagaram mais” e, conclusão própria de jornalista letrado mas analfabruto “gastaram mais” (em presentes de Natal, entenda-se). Será que ninguém lhes explica que “antes” existiam menos cartões e mais dinheiro que não passava pelos caixas automáticos... é que se calhar, só se calhar, gastaram o mesmo...


Em formato similar, corre no meio internacional – bastião dessa minha favorita que é a The Economist – a tese de que o download ilegal de música diminuiu a olhos vistos nos últimos anos, e que tal se deve à maturidade dos iTunes, Spotify, bem como dos 2 ou 3 casos de condenações de piratas incautos. Até que alguém mais perspicaz:

SIR – Your article jogged me out of my headphone slumber. I suggest that a reduction in music piracy is not, in fact, due to “smarter” or “harsher” policing, but because most downloaders have filled their boots by now. They have already obtained as much music as they desire and are now merely drip-feeding their hard disks with new releases.

Shaun Askey
Annecy-le-Vieux, France


Isto é, se calhar, mas só mesmo se calhar, já todos “sacámos” musiquinha para uma vida inteira de iPod no ouvido! Counter-economics is a beautiful science...

Sunday, December 13, 2009

excertos #4

7
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.
- Mário de Sá Carneiro


Tomás sofria da ocasional depressão, sempre que lhe comunicavam o falecimento de alguém conhecido. Era nestas ocasiões assolado pelo discurso catastrofista de que a vida dos vivos, não mais passava do que de uma sucessão de anunciações de novas mortes. Impressionava-o que quanto mais a ciência moderna contribuía para a longevidade da vida mais sofridas eram as vidas dos que continuamente viam “partir” amigos, familiares e personagens das suas gerações. Invariavelmente, fazia-me sair mais cedo do trabalho, convocando-me para um café de início de noite no Bamako ou no Nouakchott e discorria sobre o tema por entre coca-colas servidas com gelo e limão:
- Tu já viste como apesar de toda a evolução da espécie a Humanidade continua a não saber lidar com uma coisa básica como a morte? Morre uma pessoa, e o que fazem as pessoas – reúnem-se em capelas claustrofóbicas, beijam-se e abraçam-se apresentando condolências, em redor de um paralelepípedo de madeira contendo um corpo. Fazem um cortejo fúnebre atrás do carro da funerária e chegados ao cemitério, percorrem silenciosamente as vielas formadas por jazigos de família há muito abandonados, lendo de quando em quando, penitenciosamente, os nomes de quatro e cinco palavras de anteriores defuntos. Cerimoniosamente, vêem enterrar, pelos coveiros, o dito paralelepípedo num buraco de terra, em seguida coberto pelos nem sempre tristes arranjos florais propositadamente preparados para a ocasião. E tudo aquilo me parece mal, mal arranjado, mal organizado, mal ambientado. Com vistas deslumbrantes – vá-se lá saber porque, os cemitérios têm sempre, tentativamente, vistas espectaculares sobre as cidades, vilas ou aldeias, como que a tentarem chegar aos céus, rodeados dessas magníficas árvores ciprestes.
E nesta fase, inevitavelmente, a nossa conversa divergia para as vantagens e desvantagens da cremação, a beleza dos cemitérios em redor das antigas igrejas anglicanas e para o pedido testamenteiro do Tomás:
- No dia em que eu morrer, por favor, assegura-te de que lançam o meu corpo ao mar.

Sunday, September 13, 2009

Plaza Mayor

Deception – que os imaginativos senhores-que-em-Portugal-se-encarregam-destas-coisas decidiram (vá-se lá saber porquê) nomear de “No Limite da Ilusão” é Ewan McGregor no seu melhor: auditor de carreira, cabelo sempre extremamente bem-penteadinho, pretensamente bem-comportadinho, solitário até à exaustão numa NY que poucos vislumbramos quando de visita, plena de escritórios de luzes acesas pela noite fora na Midtown, carregada de almas desgarradas, workaholics do capitalismo moderno. Uma cena preciosamente real na partilha de um charro com o senhor Australia, apenas possível a quem se dedicou à causa e sabe perfeitamente o efeito que induz num diálogo. Uma antevisão do que poderá trazer o futuro com um clube de sexo pelo sexo, anónimo, nos hotéis de Manhattan. O brilhantismo do personagem devidamente isolado em salas de reuniões e temido pelos pares das empresas a quem presta serviços. O cliché das diferenças entre as vidas dos outros, do outro lado do Atlântico, e a facilidade da felicidade sentida no quotidiano de uma Madrid representativa das características da Europa latina.
Não é um grande filme – acaba bem e andamos fartos de finais felizes – mas vale o tempo investido pelas 2 ou 3 ideias ou constatações que me deixou.

Sunday, September 6, 2009

sic transit gloria mundi

Assim vão os tempos que correm: fui literalmente empurrado para ir ver o filmezito cor-de-rosa do momento (*) ... “ABC da Sedução”.
Para além de fútil – ora não se tratasse de um argumento absolutamente dirigido para as massas femininas de índole urbana –, também futilmente previsível e despretensiosamente composto por uma sequência inaudita de cliché atrás de cliché, é com toda a certeza o filme mais ordinareco que já vi. Os impropérios cautelosamente traduzidos para as legendas em português sucedem-se a um ritmo alucinante assustando a projecção na tela e mereceriam uma nova classificação por parte de quem-quer-que-seja-que-trata-destas-coisas: interdito a menores de 18 anos e não recomendável para maiores de 38...

(*) troca por troca do fabuloso e espectacularmente demente Inglourious Basterds, o último do magnânimo Quentin Tarantino.

Thursday, September 3, 2009

Silly season goes on...

Chego a casa cedo depois de um jantar rápido na Zucchero – a propósito, servem as melhores pizzas do momento em Lisboa – e descubro que a silly season deste ano ameaça prolongar-se por todo o período eleitoral que nos espera.
Manuela Moura Guedes não poderá apresentar o Jornal Nacional de 6ª feira amanhã, porque nos pretendia presentear com uma qualquer peça escaldante sobre o “caso Freeport”... So what? Who cares? Não têm mais nada com que nos entreter as vidinhas insignificantes do que mais uns avanços sobre as malvadezas dos governantes do momento? Não haverá causas mais interessantes ou temas mais significantes para alimentar o neurónio?


Friday, August 28, 2009

and so it is...



Dexter has a new depressed-maniac girlfriend, the global economy seems to be rebounding, although China lies about its GDP growth, the nights are still way too hot to sleep early, Lisbon traffic jams will definitively get worse next week and I do need a new life…

Sunday, February 8, 2009

carinha laroca

Andará a pobre classe jornalística distraída, com as diatribes – plantadas ou não – do nosso filósofo de serviço, ou o orgulho nacional ao ritmo da suposta crise mas ainda ninguém deu em reclamar a nacionalidade(*) da carinha laroca de serviço?
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Pois é, Freida Pinto, atente-se no apelido, nascida em Mumbai, Índia – antes Bombaim, assim nomeada pelos Portugueses – provém de Mangalore, que logo em 1498 o nosso Vasco da Gama decidiu visitar e concerteza um bom dum Pinto “fez das suas” para que com o passar dos tempos se apurassem estas linhas de rosto...

Quanto a Slumdog Millionaire... bonzito, como Danny Boyle sabe fazer. Umas cenas chocantes para começar, entrecortadas com pitadas de humor – para quem não se lembra, no Trainspotting há a magnífica cena do lençol de Spud no pequeno-almoço com os pais da namorada a comerem baked beans – evitando assim a má disposição do público e em crescendo positivo até ao final – neste caso, o bairro-de-lata transformado em apartamentos modernos.

(*) à semelhança de Nelly Furtado, Keanu Reeves, Nuno Bettencourt ou até do Sr. Bush que às tantas já era descendente da Dona Urraca tia de Dom Afonso Henriques.
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Thursday, February 5, 2009

Adnan would understand

Por estes dias de chuva a rodos e lágrimas não justificadas eu tenho é muitas saudades do verão. Saudades de fazer snorkelling amador nos mares quentes do Índico, por entre cardumes de peixinhos felizes, e de brincar ao escafandro e à borboleta with you my love...
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Tuesday, February 3, 2009

New Little Ice Age

There is no agreed beginning year to the Little Ice Age, although there is a frequently referenced series of events preceding the known climatic minima. Starting in the 21st century, pack ice began advancing southwards in the North Atlantic, as did glaciers in Greenland. The three years of torrential rains beginning in 2009 ushered in an era of unpredictable weather in Europe.The Little Ice Age brought bitterly cold winters to many parts of the world, but is most thoroughly documented in Europe and North America. It probably brought about the demise of Capitalism. The Thames frost fair restarted in 2010, although changes to the bridges and the existence of an embankment affected the river flow and depth, hence the possibility of freezes.
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The severe winters affected human life in ways large and small. One researcher noted that, in many years, “snowfall was much heavier than recorded before or since, and the snow lay on the ground for many months long”. Many springs and summers were outstandingly cold and wet, although there was great variability between years and groups of years. Crop practices throughout Europe had to be altered to adapt to the shortened, less reliable growing season, and there were many years of death and famine. In Ethiopia and Mauritania[citation needed], permanent snow was reported on mountain peaks at levels where it does not occur today. Timbuktu was flooded at least 13 times by the Niger River; there are no records of similar flooding before. Scientists have identified two causes of the Little Ice Age from outside the ocean/atmosphere/land systems: decreased solar activity and increased Human activity. One of the difficulties in identifying the causes of the Little Ice Age is the lack of consensus on what constitutes "normal" life.
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Wednesday, January 28, 2009

high fidelity



Fui ver a Mafalda Veiga ao Coliseu. Foi um espectáculo bom. Como diriam os especialistas: “intimista”. Gostei dela, gostei do empenho e vibrar dos músicos que com ela tocam. Gostei da referência nostálgica à sua primeira actuação no Coliseu, com os Trovante, e senti-me velho – embora não tanto como o “Velho” – também pela capacidade que tem de manter um público bastante jovem. Ela, com um repertório já volumoso, algo repetitivo, e melhor criado no passado do que no mais recente, pôs-me a pensar. Porque em vez de perseguir novos temas e edição de novos discos, os bons músicos, cantores e bandas que vamos tendo, não apostam em espectáculos regulares, ano a ano, com regularidade, fidelizando os fãs do “ao vivo”.


Monday, January 19, 2009

The Curious Case of George Bush

Ainda não se sabe o que a História guardará na memória sobre o personagem mas o facto de nos ter permitido a melhor paródia de todos os tempos, abona em seu favor:

Playwright Jim Sherman wrote this after Hu Jintao was named Chief of the Communist Party in China.

(We take you now to the Oval Office.)

George: Condi! Nice to see you. What's happening?
Condi: Sir, I have the report here about the new leader of China.
George: Great. Lay it on me.
Condi: Hu is the new leader of China.
George: That's what I want to know.
Condi: That's what I'm telling you.
George: That's what I'm asking you. Who is the new leader of China?
Condi: Yes.
George: I mean the fellow's name.
Condi: Hu.
George: The guy in China.
Condi: Hu.
George: The new leader of China.
Condi: Hu.
George: The Chinaman!
Condi: Hu is leading China.
George: Now whaddya' asking me for?
Condi: I'm telling you Hu is leading China.
George: Well, I'm asking you. Who is leading China?
Condi: That's the man's name.
George: That's who's name?
Condi: Yes.
George: Will you or will you not tell me the name of the new leader of China?
Condi: Yes, sir.
George: Yassir? Yassir Arafat is in China? I thought he was in the Middle East.
Condi: That's correct.
George: Then who is in China?
Condi: Yes, sir.
George: Yassir is in China?
Condi: No, sir.
George: Then who is?
Condi: Yes, sir.
George: Yassir?
Condi: No, sir.
George: Look, Condi. I need to know the name of the new leader of China. Get me the Secretary General of the U.N. on the phone.
Condi: Kofi?
George: No, thanks.
Condi: You want Kofi?
George: No.
Condi: You don't want Kofi.
George: No. But now that you mention it, I could use a glass of milk. And then get me the U.N.
Condi: Yes, sir.
George: Not Yassir! The guy at the U.N.
Condi: Kofi?
George: Milk! Will you please make the call?
Condi: And call who?
George: Who is the guy at the U.N?
Condi: Hu is the guy in China.
George: Will you stay out of China?!
Condi: Yes, sir.
George: And stay out of the Middle East! Just get me the guy at the U.N.
Condi: Kofi.
George: All right! With cream and two sugars. Now get on the phone.
(Condi picks up the phone.)
Condi: Rice, here.
George: Rice? Good idea. And a couple of egg rolls, too. Maybe we should send some to the guy in China. And the Middle East. Can you get Chinese food in the Middle East?

Sunday, July 27, 2008

UCB


Há bastantes anos atrás um desconhecido – ou nem tanto – criativo da publicidade da Benetton imaginou uma surpreendente campanha que misturava a diversidade racial dos povos neste planeta Terra. Não sei se passaram 15 ou mesmo 20 anos desde então mas esta noite, enquanto aguardava a partida do voo com destino a Frankfurt na “Gate 7” do Doha International Airport constatei a estonteante evolução da Humanidade nos últimos anos: à minha volta, na sala de espera para o embarque, encontram-se misturadas todas as raças do mundo – negros, indianos, caucasianos, latino-americanos, orientais de género chinês e nipónico, entre outros.
Há uma negra de feições etíopes acompanhada de um branco de tez suíça. Há uma oriental de feições filipinas com um americano de barriga protuberante e portanto caucasiano. Há um par de rostos sul-americano, que parecem mãe e filho, ele com um corte de cabelo radical, ela com um vestido tradicional. Há um hindu de turbante e até um monge de ar tibetano que me oferece um sorriso aberto quando o fixo com o olhar.

Wednesday, July 2, 2008

cair

Por estes dias em que a cara-metade nos chama forreta porque fazemos uma cara estranha, do outro lado da mesa, quando nos trazem a conta do jantar. Por estes dias em que os mercados caem vertiginosamente, em que o Shanghai cai para os 2.600 quando eu já fiz dinheiro próximo dos 6.000, qual advento do falhanço do capitalismo, e só me sobra tempo e espaço ao final do dia para perceber que os parcos investimentos em bolsa caem aos 4% por cada dia que passa, relembro-me de um velho dogma muito meu, em que o apanágio de riqueza – vulgo felicidade – era poder comer sempre fora, almoço e jantar, bem acompanhado e onde bem me apetecesse, sem olhar para a maldita conta...


Sunday, June 1, 2008

Dia da Criança

Tras las quejas de un muchísimo especial "grupo de aficionados" de esto blog...
Esta noche venía dirigiendo a mi coche, oyendo a un viejo y sabio cantante de los ochenta y pensando en ti...

We're sailing in a strange boat, heading for a strange shore
We're sailing in a strange boat, heading for a strange shore
We're carrying the strangest cargo
that was ever hauled aboard

We're sailing on a strange sea, blown by a strange wind
We're sailing on a strange sea, blown by a strange wind
We're carrying the strangest crew
that ever sinned

We're riding in a strange car
We're following a strange star
We're climbing on the strangest ladder
that was ever there to climb

We're living in a strange time, working for a strange goal
We're living in a strange time, working for a strange goal
We're turning flesh and body
into Soul

by Mike Scott

Thursday, January 31, 2008

excertos #3

6
Le cinéma, c'est un stylo, du papier et des heures à observer le monde et les gens.
- Jacques Tati




Quinze de Abril era um dia bem marcado nas nossas agendas, físicas ou neuronais, e pelo qual penávamos durante um ano inteiro. Invariavelmente, era a mim que me tocava acordar mais cedo, ensonado, procurar o carro estacionado numa das ruas do bairro e dar início à procissão. Invariavelmente, começava por ir buscar Guilherme que nunca estava despachado às seis e meia da manhã, embora soubesse de antemão ser essa a espertina combinada, para depois recolhermos Tomás que encontrávamos sempre à porta do seu prédio já nervoso com a câmara de vídeo pendurada a tiracolo.
Condição sine qua non ou requisito número um de cada vez que trocava de automóvel: descapotável ou com tecto de abrir, de forma a não comprometer o esplendor da filmagem anual a quinze de Abril. O princípio de tudo, devidamente marcado em tempo e quilometragem, começava com a entrada em marcha lenta na rotunda do Marquês, com o Tomás de cabelos ao vento e o Guilherme atento aos pormenores no assento do passageiro. Foco essencial para o alto do Parque, seguido de descida em velocidade de cruzeiro pela Avenida, com pormenor particular dos edifícios à direita por entre as copas das árvores. São Jorge, Palácio, Edén, Estação e Rossio com primeiros movimentos da manhã. Subida lenta ao Chiado, esquerda para a Ivens, direita para pormenor do São Carlos já com a luz da manhã em bom ritmo, volta para baixo, esquerda para as Belas Artes, nova volta pelo Governo Civil e desta vez direita sucessivas, por entre a abertura dos cafés na Garrett, até ao Camões, giro ao largo, descida suave pelo Alecrim, bombeiros à direita, passo lento até ao Cais, apanhando o movimento matinal com entrada glorioso na Ribeira das Naus em direcção ao Terreiro. Seguia-se o percurso pela Madalena, Sé e Castelo, as vielas até São Vicente e a paragem momentânea na Graça. Depois Pena, Anjos, Penha e Deus, Avenidas em ritmo marcado pelo trânsito, Sete Rios, Campolide, Campo de Ourique e Prazeres, Alcântara, Santos e novamente Santa Catarina. Interrupção da película e em grande velocidade para Belém, onde se concluía a aventura em colóquio prévio ao repasto de peixe fresco com vista para o Tejo. Era assim, invariavelmente, a folga conservadora do quinze de Abril em que a tarde se passava por entre copos de cerveja fria já na sala do Tomás a visionar e comparar as mudanças factuais dos filmes dos anos anteriores, desde a arquitectura, ao pormenor das cores, às novas vestimentas e expressões diferentes das pessoas capturadas pelas lentes de ano para ano.
Diferentes também, os nossos estados de espírito que como sintoma do passar do tempo, naquele dia do ano pareciam mais aptos a absorver as imagens simultâneas do presente e dos passados.

Thursday, January 24, 2008

human junk


Leio num artigo interessante da Economist que existem mais de 12.000 objectos “visíveis” em órbita à volta da Terra. Cerca de 3.000 são satélites, activos e inactivos, mais ou menos 1 estação espacial e 1 telescópio orbital – o bom do Hubble.

De acordo com o artigo da Wiki dedicado ao tema, o space junk deixado em órbita desde o lançamento do Sputnik em 1953 – contas feitas, em apenas 54 aninhos – inclui uma luva perdida por um astronauta em 1965, uma câmara fotográfica deixada ao abandono em 1966 e múltiplos saquinhos de lixo produzido pelos ocupantes da Mir nos 15 anos em que a latinha de fabrico soviético se aguentou no espaço – pelo menos neste caso tiveram o cuidado de a fazer desintegrar-se cuidadosamente sobre o Pacífico Sul.

Concluindo os “factos interessantes” parece haver também pelo menos uma chave inglesa e uma escova de dentes à deriva, que qualquer um pode ver a passar muito rapidamente ao apontar um telescópio para o céu.

O resto... bom, o resto são fragmentos – que para serem considerados “visíveis” têm pelo menos o tamanho de uma bola de golfe – enviados lá para cima de cada vez que o Homem decidiu fazer uma visitinha ou colocar qualquer coisinha em órbita e que, de acordo com os especialistas na matéria, acabarão por vir a desfazer-se na atmosfera terrestre ao longo dos próximos 35 anos, podendo as respectivas partículas cair ao nosso lado quando vamos a passar na rua... eventually!

Monday, December 17, 2007

Pi-nó-ni...pi-nó-ni…

Ah, e esta agora de Lisboa parecer ter sido geminada com Nova Iorque e todo o maldito carro da polícia e a santa ambulância – em ambos os casos o número de voitures parece ter aumentado exponencialmente nos últimos tempos – não serem capazes de circular sem a bela da sirene a azucrinar os frágeis tímpanos do povão!?!

Friday, December 7, 2007

Portugal pós-moderno


Em definitivo, o que me faz subir a mostarda ao nariz neste Portugal pós-moderno:

1) Jornais gratuitos

Já não bastava a péssima imprensa paga (e pesada em termos de papel mal-gasto) e não é que decidiram importar a ideia da distribuição gratuita de jornais em cada semáforo de Lisboa. Existirá uma boa meia-dúzia de pasquins sofregamente entregues por brasileiros mal-pagos, miúdos andrajosos e raparigas produzidas (em plena competição!) aos estremunhados e mais que muitos solitários automobilistas que tentam chegar (ou nem por isso?) ao trabalho (ou será emprego!?).


2) Iluminações de Natal

Em cada ano que passa, começam mais cedo e são mais feias (o termo técnico é mesmo feias). Deve tratar-se de um negócio da China, sem demonstração prática do benefício directo para os enganados comerciantes que supostamente pagam a respectiva instalação sem pensarem que provavelmente as vendas da quadra natalícia seriam exactamente iguais sem as estrelinhas a piscar rua sim, rua sim.


3) Sensação de insegurança latente e não provada

Essa ideia mal engendrada de que é perigoso ou existem riscos em andar pela cidade à noite, como se em cada esquina fosse saltar um perigoso gatuno ou assassino com vontade de assediar o transeunte incauto (e para mais o discurso já gasto de que não se vê um polícia na rua!). Arranjem lá melhor desculpa para ficarem fechados em casa a justificarem as humildes existências, porque para dito peditório não é a Sociedade do “bora lá ver TV” que vai encontrar respostas.


4) Proibido fumar

Num país em que pelo menos metade do parque automóvel é constituído por fenomenais bólides a diesel, sempre com os injectores mal cuidados, a deitarem baforosas doses de fumos negros pelos escapes (já sem falar nos magníficos táxis Mercedes década de 80 que parecem saídos de um qualquer filme turco) está toda a gente muito preocupada com o fuminho dos SG Ventil e com a reserva de espaços para os imaculados pulmões da arraia.


Sunday, October 14, 2007

Unlikely.


Does the Universe Have a Purpose?

Perhaps you hoped for a stronger statement, one way or the other. But as a scientist I don't believe I can make one. While nothing in biology, chemistry, physics, geology, astronomy, or cosmology has ever provided direct evidence of purpose in nature, science can never unambiguously prove that there is no such purpose. As Carl Sagan said, in another context: Absence of evidence is not evidence of absence.

Of course, nothing would stop science from uncovering positive evidence of divine guidance and purpose if it were attainable. For example, tomorrow night if we look up at the stars and they have been rearranged into a pattern that reads, "I am here," I think even the most hard-nosed scientific skeptic would suspect something was up.

But no such unambiguous signs have been uncovered among the millions and millions of pieces of data we have gleaned about the natural world over centuries of exploration. And this is precisely why a scientist can conclude that it is very unlikely that there is any divine purpose. If a creator had such a purpose, she could choose to demonstrate it a little more clearly to the inhabitants of her creation.

One is always free, as some people do, to interpret the laws of nature as signs of purpose, as for example Pope Pius did when Belgian physicist-priest George Lemaitre demonstrated that Einstein's general theory of relativity implied the universe had a beginning. The Pope interpreted this as scientific proof of Genesis, but Lemaitre asked him to stop saying this. The big bang, as it has become known, can be interpreted in terms of a divine beginning, but it can equally be interpreted as removing God from the equation entirely. The conclusion is in the mind of the beholder, and it is outside of the realm of scientific theory and prediction.

Finally, even if the universe has a hidden purpose, everything we know about the cosmos suggests that we do not play a central role in it. We are, as a planet, cosmically insignificant. Life on Earth will end, as it has probably done on countless planets in the past, and will do in the future. And all the stars and all the galaxies we see could disappear in an instant and the universe would go on behaving more or less as it is doing right now. Nature seems as uncaring as it is unyielding.

Thus, organized religions, which put humanity at the center of some divine plan, seem to assault our dignity and intelligence. A universe without purpose should neither depress us nor suggest that our lives are purposeless. Through an awe-inspiring cosmic history we find ourselves on this remote planet in a remote corner of the universe, endowed with intelligence and self-awareness. We should not despair, but should humbly rejoice in making the most of these gifts, and celebrate our brief moment in the sun.


by Lawrence M. Krauss, Professor of Physics and Astronomy (in conversations about the “Big Questions” the John Templeton Foundation is conducting among leading scientists and scholars)