Tuesday, February 3, 2009

New Little Ice Age

There is no agreed beginning year to the Little Ice Age, although there is a frequently referenced series of events preceding the known climatic minima. Starting in the 21st century, pack ice began advancing southwards in the North Atlantic, as did glaciers in Greenland. The three years of torrential rains beginning in 2009 ushered in an era of unpredictable weather in Europe.The Little Ice Age brought bitterly cold winters to many parts of the world, but is most thoroughly documented in Europe and North America. It probably brought about the demise of Capitalism. The Thames frost fair restarted in 2010, although changes to the bridges and the existence of an embankment affected the river flow and depth, hence the possibility of freezes.
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The severe winters affected human life in ways large and small. One researcher noted that, in many years, “snowfall was much heavier than recorded before or since, and the snow lay on the ground for many months long”. Many springs and summers were outstandingly cold and wet, although there was great variability between years and groups of years. Crop practices throughout Europe had to be altered to adapt to the shortened, less reliable growing season, and there were many years of death and famine. In Ethiopia and Mauritania[citation needed], permanent snow was reported on mountain peaks at levels where it does not occur today. Timbuktu was flooded at least 13 times by the Niger River; there are no records of similar flooding before. Scientists have identified two causes of the Little Ice Age from outside the ocean/atmosphere/land systems: decreased solar activity and increased Human activity. One of the difficulties in identifying the causes of the Little Ice Age is the lack of consensus on what constitutes "normal" life.
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Wednesday, January 28, 2009

high fidelity



Fui ver a Mafalda Veiga ao Coliseu. Foi um espectáculo bom. Como diriam os especialistas: “intimista”. Gostei dela, gostei do empenho e vibrar dos músicos que com ela tocam. Gostei da referência nostálgica à sua primeira actuação no Coliseu, com os Trovante, e senti-me velho – embora não tanto como o “Velho” – também pela capacidade que tem de manter um público bastante jovem. Ela, com um repertório já volumoso, algo repetitivo, e melhor criado no passado do que no mais recente, pôs-me a pensar. Porque em vez de perseguir novos temas e edição de novos discos, os bons músicos, cantores e bandas que vamos tendo, não apostam em espectáculos regulares, ano a ano, com regularidade, fidelizando os fãs do “ao vivo”.


Monday, January 19, 2009

The Curious Case of George Bush

Ainda não se sabe o que a História guardará na memória sobre o personagem mas o facto de nos ter permitido a melhor paródia de todos os tempos, abona em seu favor:

Playwright Jim Sherman wrote this after Hu Jintao was named Chief of the Communist Party in China.

(We take you now to the Oval Office.)

George: Condi! Nice to see you. What's happening?
Condi: Sir, I have the report here about the new leader of China.
George: Great. Lay it on me.
Condi: Hu is the new leader of China.
George: That's what I want to know.
Condi: That's what I'm telling you.
George: That's what I'm asking you. Who is the new leader of China?
Condi: Yes.
George: I mean the fellow's name.
Condi: Hu.
George: The guy in China.
Condi: Hu.
George: The new leader of China.
Condi: Hu.
George: The Chinaman!
Condi: Hu is leading China.
George: Now whaddya' asking me for?
Condi: I'm telling you Hu is leading China.
George: Well, I'm asking you. Who is leading China?
Condi: That's the man's name.
George: That's who's name?
Condi: Yes.
George: Will you or will you not tell me the name of the new leader of China?
Condi: Yes, sir.
George: Yassir? Yassir Arafat is in China? I thought he was in the Middle East.
Condi: That's correct.
George: Then who is in China?
Condi: Yes, sir.
George: Yassir is in China?
Condi: No, sir.
George: Then who is?
Condi: Yes, sir.
George: Yassir?
Condi: No, sir.
George: Look, Condi. I need to know the name of the new leader of China. Get me the Secretary General of the U.N. on the phone.
Condi: Kofi?
George: No, thanks.
Condi: You want Kofi?
George: No.
Condi: You don't want Kofi.
George: No. But now that you mention it, I could use a glass of milk. And then get me the U.N.
Condi: Yes, sir.
George: Not Yassir! The guy at the U.N.
Condi: Kofi?
George: Milk! Will you please make the call?
Condi: And call who?
George: Who is the guy at the U.N?
Condi: Hu is the guy in China.
George: Will you stay out of China?!
Condi: Yes, sir.
George: And stay out of the Middle East! Just get me the guy at the U.N.
Condi: Kofi.
George: All right! With cream and two sugars. Now get on the phone.
(Condi picks up the phone.)
Condi: Rice, here.
George: Rice? Good idea. And a couple of egg rolls, too. Maybe we should send some to the guy in China. And the Middle East. Can you get Chinese food in the Middle East?

Sunday, July 27, 2008

UCB


Há bastantes anos atrás um desconhecido – ou nem tanto – criativo da publicidade da Benetton imaginou uma surpreendente campanha que misturava a diversidade racial dos povos neste planeta Terra. Não sei se passaram 15 ou mesmo 20 anos desde então mas esta noite, enquanto aguardava a partida do voo com destino a Frankfurt na “Gate 7” do Doha International Airport constatei a estonteante evolução da Humanidade nos últimos anos: à minha volta, na sala de espera para o embarque, encontram-se misturadas todas as raças do mundo – negros, indianos, caucasianos, latino-americanos, orientais de género chinês e nipónico, entre outros.
Há uma negra de feições etíopes acompanhada de um branco de tez suíça. Há uma oriental de feições filipinas com um americano de barriga protuberante e portanto caucasiano. Há um par de rostos sul-americano, que parecem mãe e filho, ele com um corte de cabelo radical, ela com um vestido tradicional. Há um hindu de turbante e até um monge de ar tibetano que me oferece um sorriso aberto quando o fixo com o olhar.

Wednesday, July 2, 2008

cair

Por estes dias em que a cara-metade nos chama forreta porque fazemos uma cara estranha, do outro lado da mesa, quando nos trazem a conta do jantar. Por estes dias em que os mercados caem vertiginosamente, em que o Shanghai cai para os 2.600 quando eu já fiz dinheiro próximo dos 6.000, qual advento do falhanço do capitalismo, e só me sobra tempo e espaço ao final do dia para perceber que os parcos investimentos em bolsa caem aos 4% por cada dia que passa, relembro-me de um velho dogma muito meu, em que o apanágio de riqueza – vulgo felicidade – era poder comer sempre fora, almoço e jantar, bem acompanhado e onde bem me apetecesse, sem olhar para a maldita conta...


Sunday, June 1, 2008

Dia da Criança

Tras las quejas de un muchísimo especial "grupo de aficionados" de esto blog...
Esta noche venía dirigiendo a mi coche, oyendo a un viejo y sabio cantante de los ochenta y pensando en ti...

We're sailing in a strange boat, heading for a strange shore
We're sailing in a strange boat, heading for a strange shore
We're carrying the strangest cargo
that was ever hauled aboard

We're sailing on a strange sea, blown by a strange wind
We're sailing on a strange sea, blown by a strange wind
We're carrying the strangest crew
that ever sinned

We're riding in a strange car
We're following a strange star
We're climbing on the strangest ladder
that was ever there to climb

We're living in a strange time, working for a strange goal
We're living in a strange time, working for a strange goal
We're turning flesh and body
into Soul

by Mike Scott

Thursday, January 31, 2008

excertos #3

6
Le cinéma, c'est un stylo, du papier et des heures à observer le monde et les gens.
- Jacques Tati




Quinze de Abril era um dia bem marcado nas nossas agendas, físicas ou neuronais, e pelo qual penávamos durante um ano inteiro. Invariavelmente, era a mim que me tocava acordar mais cedo, ensonado, procurar o carro estacionado numa das ruas do bairro e dar início à procissão. Invariavelmente, começava por ir buscar Guilherme que nunca estava despachado às seis e meia da manhã, embora soubesse de antemão ser essa a espertina combinada, para depois recolhermos Tomás que encontrávamos sempre à porta do seu prédio já nervoso com a câmara de vídeo pendurada a tiracolo.
Condição sine qua non ou requisito número um de cada vez que trocava de automóvel: descapotável ou com tecto de abrir, de forma a não comprometer o esplendor da filmagem anual a quinze de Abril. O princípio de tudo, devidamente marcado em tempo e quilometragem, começava com a entrada em marcha lenta na rotunda do Marquês, com o Tomás de cabelos ao vento e o Guilherme atento aos pormenores no assento do passageiro. Foco essencial para o alto do Parque, seguido de descida em velocidade de cruzeiro pela Avenida, com pormenor particular dos edifícios à direita por entre as copas das árvores. São Jorge, Palácio, Edén, Estação e Rossio com primeiros movimentos da manhã. Subida lenta ao Chiado, esquerda para a Ivens, direita para pormenor do São Carlos já com a luz da manhã em bom ritmo, volta para baixo, esquerda para as Belas Artes, nova volta pelo Governo Civil e desta vez direita sucessivas, por entre a abertura dos cafés na Garrett, até ao Camões, giro ao largo, descida suave pelo Alecrim, bombeiros à direita, passo lento até ao Cais, apanhando o movimento matinal com entrada glorioso na Ribeira das Naus em direcção ao Terreiro. Seguia-se o percurso pela Madalena, Sé e Castelo, as vielas até São Vicente e a paragem momentânea na Graça. Depois Pena, Anjos, Penha e Deus, Avenidas em ritmo marcado pelo trânsito, Sete Rios, Campolide, Campo de Ourique e Prazeres, Alcântara, Santos e novamente Santa Catarina. Interrupção da película e em grande velocidade para Belém, onde se concluía a aventura em colóquio prévio ao repasto de peixe fresco com vista para o Tejo. Era assim, invariavelmente, a folga conservadora do quinze de Abril em que a tarde se passava por entre copos de cerveja fria já na sala do Tomás a visionar e comparar as mudanças factuais dos filmes dos anos anteriores, desde a arquitectura, ao pormenor das cores, às novas vestimentas e expressões diferentes das pessoas capturadas pelas lentes de ano para ano.
Diferentes também, os nossos estados de espírito que como sintoma do passar do tempo, naquele dia do ano pareciam mais aptos a absorver as imagens simultâneas do presente e dos passados.

Thursday, January 24, 2008

human junk


Leio num artigo interessante da Economist que existem mais de 12.000 objectos “visíveis” em órbita à volta da Terra. Cerca de 3.000 são satélites, activos e inactivos, mais ou menos 1 estação espacial e 1 telescópio orbital – o bom do Hubble.

De acordo com o artigo da Wiki dedicado ao tema, o space junk deixado em órbita desde o lançamento do Sputnik em 1953 – contas feitas, em apenas 54 aninhos – inclui uma luva perdida por um astronauta em 1965, uma câmara fotográfica deixada ao abandono em 1966 e múltiplos saquinhos de lixo produzido pelos ocupantes da Mir nos 15 anos em que a latinha de fabrico soviético se aguentou no espaço – pelo menos neste caso tiveram o cuidado de a fazer desintegrar-se cuidadosamente sobre o Pacífico Sul.

Concluindo os “factos interessantes” parece haver também pelo menos uma chave inglesa e uma escova de dentes à deriva, que qualquer um pode ver a passar muito rapidamente ao apontar um telescópio para o céu.

O resto... bom, o resto são fragmentos – que para serem considerados “visíveis” têm pelo menos o tamanho de uma bola de golfe – enviados lá para cima de cada vez que o Homem decidiu fazer uma visitinha ou colocar qualquer coisinha em órbita e que, de acordo com os especialistas na matéria, acabarão por vir a desfazer-se na atmosfera terrestre ao longo dos próximos 35 anos, podendo as respectivas partículas cair ao nosso lado quando vamos a passar na rua... eventually!

Monday, December 17, 2007

Pi-nó-ni...pi-nó-ni…

Ah, e esta agora de Lisboa parecer ter sido geminada com Nova Iorque e todo o maldito carro da polícia e a santa ambulância – em ambos os casos o número de voitures parece ter aumentado exponencialmente nos últimos tempos – não serem capazes de circular sem a bela da sirene a azucrinar os frágeis tímpanos do povão!?!

Friday, December 7, 2007

Portugal pós-moderno


Em definitivo, o que me faz subir a mostarda ao nariz neste Portugal pós-moderno:

1) Jornais gratuitos

Já não bastava a péssima imprensa paga (e pesada em termos de papel mal-gasto) e não é que decidiram importar a ideia da distribuição gratuita de jornais em cada semáforo de Lisboa. Existirá uma boa meia-dúzia de pasquins sofregamente entregues por brasileiros mal-pagos, miúdos andrajosos e raparigas produzidas (em plena competição!) aos estremunhados e mais que muitos solitários automobilistas que tentam chegar (ou nem por isso?) ao trabalho (ou será emprego!?).


2) Iluminações de Natal

Em cada ano que passa, começam mais cedo e são mais feias (o termo técnico é mesmo feias). Deve tratar-se de um negócio da China, sem demonstração prática do benefício directo para os enganados comerciantes que supostamente pagam a respectiva instalação sem pensarem que provavelmente as vendas da quadra natalícia seriam exactamente iguais sem as estrelinhas a piscar rua sim, rua sim.


3) Sensação de insegurança latente e não provada

Essa ideia mal engendrada de que é perigoso ou existem riscos em andar pela cidade à noite, como se em cada esquina fosse saltar um perigoso gatuno ou assassino com vontade de assediar o transeunte incauto (e para mais o discurso já gasto de que não se vê um polícia na rua!). Arranjem lá melhor desculpa para ficarem fechados em casa a justificarem as humildes existências, porque para dito peditório não é a Sociedade do “bora lá ver TV” que vai encontrar respostas.


4) Proibido fumar

Num país em que pelo menos metade do parque automóvel é constituído por fenomenais bólides a diesel, sempre com os injectores mal cuidados, a deitarem baforosas doses de fumos negros pelos escapes (já sem falar nos magníficos táxis Mercedes década de 80 que parecem saídos de um qualquer filme turco) está toda a gente muito preocupada com o fuminho dos SG Ventil e com a reserva de espaços para os imaculados pulmões da arraia.


Sunday, October 14, 2007

Unlikely.


Does the Universe Have a Purpose?

Perhaps you hoped for a stronger statement, one way or the other. But as a scientist I don't believe I can make one. While nothing in biology, chemistry, physics, geology, astronomy, or cosmology has ever provided direct evidence of purpose in nature, science can never unambiguously prove that there is no such purpose. As Carl Sagan said, in another context: Absence of evidence is not evidence of absence.

Of course, nothing would stop science from uncovering positive evidence of divine guidance and purpose if it were attainable. For example, tomorrow night if we look up at the stars and they have been rearranged into a pattern that reads, "I am here," I think even the most hard-nosed scientific skeptic would suspect something was up.

But no such unambiguous signs have been uncovered among the millions and millions of pieces of data we have gleaned about the natural world over centuries of exploration. And this is precisely why a scientist can conclude that it is very unlikely that there is any divine purpose. If a creator had such a purpose, she could choose to demonstrate it a little more clearly to the inhabitants of her creation.

One is always free, as some people do, to interpret the laws of nature as signs of purpose, as for example Pope Pius did when Belgian physicist-priest George Lemaitre demonstrated that Einstein's general theory of relativity implied the universe had a beginning. The Pope interpreted this as scientific proof of Genesis, but Lemaitre asked him to stop saying this. The big bang, as it has become known, can be interpreted in terms of a divine beginning, but it can equally be interpreted as removing God from the equation entirely. The conclusion is in the mind of the beholder, and it is outside of the realm of scientific theory and prediction.

Finally, even if the universe has a hidden purpose, everything we know about the cosmos suggests that we do not play a central role in it. We are, as a planet, cosmically insignificant. Life on Earth will end, as it has probably done on countless planets in the past, and will do in the future. And all the stars and all the galaxies we see could disappear in an instant and the universe would go on behaving more or less as it is doing right now. Nature seems as uncaring as it is unyielding.

Thus, organized religions, which put humanity at the center of some divine plan, seem to assault our dignity and intelligence. A universe without purpose should neither depress us nor suggest that our lives are purposeless. Through an awe-inspiring cosmic history we find ourselves on this remote planet in a remote corner of the universe, endowed with intelligence and self-awareness. We should not despair, but should humbly rejoice in making the most of these gifts, and celebrate our brief moment in the sun.


by Lawrence M. Krauss, Professor of Physics and Astronomy (in conversations about the “Big Questions” the John Templeton Foundation is conducting among leading scientists and scholars)



Thursday, September 13, 2007

Memento ou será que os peixinhos morriam de saudade?

A common misconception that goldfish only have a three second memory has been proven completely false. Research by the School of Psychology at the University of Plymoth in 2003 demonstrated that goldfish have a memory-span of at least three months and can distinguish between different shapes, colours and sounds. They were trained to push a lever to earn a food reward; when the lever was fixed to work only for an hour a day, the fish soon learned to activate it at the correct time.
Scientific studies done on the matter have shown that goldfish have strong associative learning abilities, as well as social learning skills. In addition, their strong visual acuity allows them to distinguish between different humans. It is quite possible that owners will notice the fish react favorably to them (swimming to the front of the glass, swimming rapidly around the tank, and going to the surface mouthing for food) while hiding when other people approach the tank. Over time, goldfish should learn to associate their owners and other humans with food, often "begging" for food whenever their owners approach.




E assim se acaba com uma das mais bonitas intenções da natureza a de que o belo do peixinho dentro do aquário redondo olhava(*) para nós a cada 3 segundos como se fossemos um novo amiguito, estilo: olha um novo amiguito...(3s)...olha um novo amiguito...(3s)...olha um novo amiguito...

(*) devo ter tido uma meia-dúzia, durante a minha longa adolescência, aos pares ou solitários e nenhum deles terá durado mais de 3 meses!


Wednesday, September 12, 2007

Against the wall

What we have
What we give
What we take
Who we are
What we have
What we give
What we take
What we have
What we give
What we take
Who we are
What we have
What we give all away
Always
What we do if we throw it all away
All away
Always
What we do
If we throw it all away

by Nitin Sawhney, Philtre, Throw




Tuesday, September 11, 2007

for men that mean business

Férias “veranengas” em Bilbao. Hotel-giro-design-com-vista-para-o-Guggenheim. Chuva a cair lá fora e a estragar as fiestas da terrinha. Entre as revistinhas e livrinhos estrategicamente disponibilizados na prateleira de charme do hotel há uma Esquire de Setembro de 2007, preço em libras esterlinas(*). Folheio-a, descobrindo rapidamente que apesar do peso desproporcionado da publicidade página sim, página não – fundamentalmente dedicada a automóveis e relógios de pulso – e de ter sido fundada em 1933 se trata de mais uma tentativa condenada ao fracasso de convencer os homens a lerem revistinhas metrosexuais... women’s imagination at work!



(*) “esterlinas” – sempre quis dar uso a esta palavra – é linda, não é!?

Thursday, July 26, 2007

What makes perfect

Acredito que a verdadeira distinção entre o racional e o irracional tem a ver com a percepção da perfeição. A capacidade de juntar partes do todo para obter momentos perfeitos de harmonia e satisfação. Assim como quando se está perfeitamente rodeado de amigos a beber copos na noite e tudo, mesmo tudo, o que toda a gente diz ou faz parece sinfónico. Ou quando nos apanhamos a ver aquele filme mesmo ajustado ao estado da alma na companhia da cara-metade. Ou quando se sai para jantar e nos saem aquelas amêijoas temperadas com a dose exacta de coentros enquanto o sol se põe num mar tranquilo. Ou então quando com a alma pesada olhamos um céu carregado de amarelo e de repente desata a chover torrencialmente. Ou simplesmente quando damos por nós a conduzir com o carro cheio de gente a dormitar e a rádio decide tocar a musiquinha perfeita que nos faz sentir verdadeiramente vivos.




Tuesday, July 24, 2007

Insomnia

It all starts with an airplane flying over Alaskan thick ice. And it is the best film start one could imagine.
Good things in life come with good music.
Playwrights that make you feel alive and shining.
Endeavours of images you haven’t captured with a camera but that you’ve pictured in your mind.
Sensations you’ll definitively remember the second your soul expires. Because, just because, you’ll remember those strong images of amazing places you’ve been when shivering was still perceptive to your young age and time did not seem to pass by as quickly as it does as you become aged. A time when looking at the night sky felled like reaching the stars.


Sunday, March 4, 2007

Wednesday, December 27, 2006

Who Is "J" Anyway?

Há uns anos atrás aconteceu-me uma daquelas completamente inexplicáveis. Estava no meu segundo ou terceiro ano de consultoria, entretido com a ideia de que iria contribuir para mudar algumas coisas, criar valor, melhorar as empresas nacionais, blablabla, blablabla, quando um dia ao chegar a casa tenho à minha espera na caixa do correio uma carta. Dirigida a mim, nome e morada escritos “à máquina” sem remetente, selo postal das Filipinas, Pasay City 1300… Estranho, pensei: não me lembro de conhecer ninguém que ande pelas Filipinas. Abro o envelope e lá dentro apenas uma folha de revista rasgada da dita, não identificável, com um artigo «How Top Executives Manage to ‘Do it all’», e um post-it, daqueles tipicamente amarelos 3M, escrito à mão a dizer “Ricardo. Try this. It’s really good!”, assinatura não decifrável mas parecida com um “J”. De forma resumida, o artigo publicitava um livro chamado “The Organized Executive” e marcava pontos com um “If you still measure success by the hours you spend working, you’re missing the point. Success today is the time you spend doing what you want.”.


Está claro que não encomendei o livro mas durante este tempo me interroguei quem seria a alma preocupada que me pregara uma valente partida, de passagem pelas Filipinas, até que há uns dias atrás me lembrei de googlar e encontrei «Who Is “J” Anyway?»

Pareto’s once again

“…almost all of us believe ourselves to be in the top 20% of the population when it comes to driving, pleasing a partner, or managing a business…”

Sunday, October 29, 2006

Tarantino’s style

Nove e vinte de sexta-feira, encurralado no pára-arranca do eixo Norte-Sul a tentar alcançar a ponte. Para completar um dia de cão, parecia-lhe que meia Lisboa e arredores decidira partilhar a ideia de aproveitar a semana de feriado no Algarve. E ali estavam todos metidos nas suas caixas de metal de fabrico estrangeiro apoiadas sobre rodas. Sentia-se frustrado, desmotivado e cansado, a precisar definitivamente de recarregar baterias, no seu – e de muitos outros também, a avaliar pelo tráfego – refúgio algarvio. O seu T2 a dois blocos da linha da praia, perto de Lagos, que comprara com os ganhos da bolsa nos idos de 97…bons tempos. Infelizmente, as miúdas também lá estariam durante o fim-de-semana. Após a acalorada discussão telefónica da hora de almoço, Isabel seguira com as crianças pelas seis da tarde, e era certo e seguro que as três fêmeas lá de casa não o iam deixar sossegado durante sábado e domingo. Mas na segunda-feira ficaria sozinho, para se dedicar à leitura do último de Noam Chomsky, divagar um pouco e passar pelas brasas em horário de trabalho. Enfim, deixava para trás a azáfama do escritório, as intrigas palacianas dos colegas e a poluição sonora da capital. Estava realmente farto de tudo e de todos, dos compromissos que assumira, da vida persistentemente repetitiva, de acordar, trabalhar, ir buscar as miúdas ao colégio, fazer conversa ao jantar com Isabel, dormitar diante da televisão e deitar. Tinha dias em que lhe apetecia mesmo… Por isso, e por outros motivos mais, jogava compulsivamente no euromilhões, tal como anteriormente no totoloto. Todas as semanas empatava entre vinte e trinta euros nos jogos de azar popular – no passado ia também regularmente ao casino mas com o nascimento das miúdas tivera que se deixar disso. E naquela sexta-feira, tinha tido que aguardar meia-hora na fila interminável para meter os boletins e candidatar-se aos 113 milhões. Acelerava já na auto-estrada junto da Marateca, quando se lembrou de sintonizar o rádio para saber a chave – “e os números da chave vencedora do concurso desta semana do euromilhões são 3, 4, 8, 44 e 50, e as estrelas o 7 e o 8” – fixou-os de memória e puxou da carteira onde guardava religiosamente os boletins, concurso 42: “3 4 8 44 50 + 7 8” e naquele momento, lançou as mãos à cabeça e o carro fugiu para a vala de separação da auto-estrada…

Sociedade moderna


Segundo as estatísticas televisivas cá da terrinha existem cerca de 50 mil pessoas a trabalhar em Call Centers e Contact Centers em Portugal. Continhas de merceeiro: 4 turnos por dia, descontos de noite e fim-de-semana, em horário de expediente dá aproximadamente 10 mil marmelos a atenderem clientes e fregueses ou a fazerem contactos. Em permanência, existem sempre pelo menos uns 10 mil portugueses a fazerem pedidos, reclamações ou a serem vítimas do marketing enganoso ou não – i.e., em contacto com os outros 10 mil desgraçadinhos. É obra, e triste pensar ao que chegámos. E o comércio tradicional, o que é feito do comércio tradicional?

Wednesday, October 18, 2006

Awakening

Aparentemente falta cá na terrinha um pouco de tudo. Ele é o dinheirito para pagar as portagens nas Scut. Ele é o bom senso para deixar de prometer pensões de reforma que depois não são possíveis. Ele são as fontes de energia primária para impedir os incrementos desmesurados da electricidade. Ele é a “flexibilidade negocial” para ir ao encontro das reivindicações dos pobres professores e do seu magnânimo Estatuto da Carreira do Docento, vulgo ECD. Enfim, as coisas em geral vão tão mal que parece que também já faltam as maternidades e serviços de urgência com proximidade às parturientes e pacientes. Nesta época do ano, até nem o sol nos faz a vontadinha e temos que gramar a chuvinha a rodos.
Pensar em soluções para todas estas desgraças, necessidades e soluções também já não é causa a que muitos se dediquem – creio que por estas alturas também estamos todos mais ou menos conformados e confortáveis com a ideia de que o xico-espertismo genético vingará e passaremos todos mais ou menos incólumes pelas nossas humildes existências, apreciando pormenorizadamente os nossos próprios umbigos e fechando os olhos às agruras do vizinho do lado. Eu, pessoalmente, também já desisti de me pôr a gastar os neurónios a não ser que me paguem bom dinheiro pelo exercício. Assim sendo, e só porque me apetece – valha-nos a liberdade de irmos fazendo o que bem nos apetece – retomo a solução simples e imediata de copiar e plagiar ideias antigas de quando alguns de entre nós ainda se dedicavam a ter ideias radicais para dar a volta às coisas.



Baseando-me e acrescentando valor à magnífica ideia do “Europe’s West Coast” by BBDO, proponho:

- A construção de 10 ou 12 casinos à volta de Lisboa, para ajudar a malta a torrar os tostões que ainda restam enchendo os cofres do Estado, impedir a entrada das hordas de suburbanos nas noites de fim-de-semana, incentivar o turismo e com isto justificar o investimento no novo aeroporto e, duma forma geral, entreter a multidão mais regularmente do que com a espera pelos sorteios do euromilhões.

- Transformar toda a zona desde o Tejo até ao Douro num enorme espaço dedicado a urbanizações e lares para a terceira idade, para a nossa e para a dos outros. Há que ter visão para isto porque se trata do único futuro plausível: termas aqui e acolá, muita floresta cuidada, rios e serra q.b. para actividades ao ar livre não demasiado radicais, um pouco de praia atlântica para quem não gosta de ir a banhos, frutinha e vegetais de qualidade e vinho, muito vinho para ajudar a animar os espíritos. Emprego geriátrico para quem quiser e as pensões de reforma dos países ocidentais a entrarem em torrente.

- Fazer do belo Alentejo uma gigantesca hollywood, para produção de filmes, novelas e reality-shows também. Imaginem lá os montes alentejanos todos transformados em magníficos cenários de grandes produções, telenovelas mexicanas ou casas big-brother ou similar. Os velhotes indígenas a verem passar as estrelas, mais uns quantos resorts para entreter as ditas, meia-dúzia de aeródromos para os jatinhos particulares e toda a gente satisfeita a papar umas migas e a trincar costeletinhas de borrego. Uma delícia!

Enfim, com o Algarve já não temos que nos preocupar, as ilhas poderiam continuar a ser subsidiadas à custa do cash-flow do continente e para norte do Douro, poderíamos sempre ir pensando num parque jurássico. Bora lá?

Sunday, September 24, 2006

O despertar dos mágicos


Disseste-me há muitos anos atrás duas coisas que me ficaram na memória:

“O próximo milénio será o do regresso ao misticismo.”

“O grande negócio dos próximos anos passa pelo entreter das massas.”


Oh adivinho incauto, parece que estão dados os primeiros passos para a veracidade das tuas predestinações. Se a segunda me serviria de muito não fora eu o fruto dos teus genes, limitado empreendedor e cumulativamente desdenhoso da noção democrática de que há que permitir tudo a todos, já a primeira me assusta desmesuradamente. Dizem os arautos da desgraça que a História se repete, em ciclos temporais matematicamente demarcados. Afirmam com certeza absoluta que regressam os tempos das cruzadas, do choque das religiões ou entre civilizações. E eu papalvo inconsciente agarro-me com firmeza à ideia de que a evolução nos trouxe por um caminho sem retorno em que o racional prevalecerá sobre o místico, desprezando em bom rigor o poder do espiritual, o medo infligido pela fé sobre a lógica dos homens e não querendo acreditar no paralelo entre o “entreter das massas” e a necessidade mentecapta dos meus pares, que não semelhantes, em alimentarem as almas com o pregão dos magos.

Monday, August 28, 2006

Project Mayhem

"GOOD morning, ladies and gentlemen. We are delighted to welcome you aboard Veritas Airways, the airline that tells it like it is. Please ensure that your seat belt is fastened, your seat back is upright and your tray-table is stowed. At Veritas Airways, your safety is our first priority. Actually, that is not quite true: if it were, our seats would be rear-facing, like those in military aircraft, since they are safer in the event of an emergency landing. But then hardly anybody would buy our tickets and we would go bust.
The flight attendants are now pointing out the emergency exits. This is the part of the announcement that you might want to pay attention to. So stop your sudoku for a minute and listen: knowing in advance where the exits are makes a dramatic difference to your chances of survival if we have to evacuate the aircraft. Also, please keep your seat belt fastened when seated, even if the seat-belt light is not illuminated. This is to protect you from the risk of clear-air turbulence, a rare but extremely nasty form of disturbance that can cause severe injury. Imagine the heavy food trolleys jumping into the air and bashing into the overhead lockers, and you will have some idea of how nasty it can be. We don't want to scare you. Still, keep that seat belt fastened all thesame.
Your life-jacket can be found under your seat, but please do not remove it now. In fact, do not bother to look for it at all. In the event of a landing on water, an unprecedented miracle will have occurred, because in the history of aviation the number of wide-bodied aircraft that have made successful landings on water is zero. This aircraft is equipped with inflatable slides that detach to form life rafts, not that it makes any difference. Please remove high-heeled shoes before using the slides. We might as well add that space helmets and anti-gravity belts should also be removed, since even to mention the use of the slides as rafts is to enter the realm of science fiction.
Please switch off all mobile phones, since they can interfere with the aircraft's navigation systems. At least, that's what you've always been told. The real reason to switch them off is because they interfere with mobile networks on the ground, but somehow that doesn't sound quite so good. On most flights a few mobile phones are left on by mistake, so if they were really dangerous we would not allow them on board at all, if you think about it. We will have to come clean about this next year, when we introduce in-flight calling across the Veritas fleet. At that point the prospect of taking a cut of the sky-high calling charges will miraculously cause our safety concerns about mobile phones to evaporate.
On channel 11 of our in-flight entertainment system you will find a video consisting of abstract imagery and a new-age soundtrack, with a voice-over explaining some exercises you can do to reduce the risk of deep-vein thrombosis. We are aware that this video is tedious, but it is not meant to be fun. It is meant to limit our liability in the event of lawsuits. Once we have reached cruising altitude you will be offered a light meal and a choice of beverages - a wordthat sounds so much better than just saying 'drinks', don't you think? The purpose of these refreshments is partly to keep you in your seats where you cannot do yourselves or anyone else any harm. Please consume alcohol in moderate quantities so that you become mildly sedated but not rowdy. That said, we can always turn the cabin air-quality down a notch or two to help ensure that you are sufficiently drowsy.
After take-off, the most dangerous part of the flight, the captain will say a few words that will either be so quiet that you will not be able to hear them, or so loud that they could wake the dead. So please sit back, relax and enjoy the flight. We appreciate that you have a choice of airlines and we thank you forchoosing Veritas, a member of an incomprehensible alliance of obscure foreign outfits, most of which you have never heard of. Cabin crew, please make sure we have remembered to close the doors. Sorry, I mean: 'Doors to automatic and cross-check'. Thank you for flying Veritas."

Tuesday, August 1, 2006

Wednesday, July 19, 2006

Autopista del mediterráneo (A-7)

Nasci há 17 anos em Boukar e fui bafejado pela sorte. O sopro de Alá, pois meus pais emigraram para França há 14 anos atrás, quando eu ainda não tinha 14 anos de idade. Meu pai sempre foi um homem simples, de cultura modesta e mãos de trabalhador mas com uma visão alargada da maneira de ser dos homens e uma abertura de espírito singular. Estas características únicas deixaram-no aceitar e apaixonar-se por uma mulher diferente do que seria expectável para um filho de um pastor da montanha. Conheceu minha mãe em 1978 por ocasião de uma feira de gado em Dar Ben Karricha el Behri, na noite de festas que inaugurava o evento. Ela era então uma miúda franzina de longos cabelos negros e encaracolados que desafiava as convenções por não usar véu e mostrar abertamente os seus redondos olhos verdes sob o olhar dos velhos árabes. Tinha ela então a mesma idade que eu agora e embora fosse alvo das atenções dos rapazes locais, os costumes locais não lhes permitiam entabular conversa com aquela rapariga de sangue mestiço e frontalidade europeia. A meu pai não importavam aquelas regras e costumes mais próprios da cidade desenvolvida do que do meio rural e rapidamente se deixou levar pelos instintos para a ficar a conhecer. Ao quarto e último dia da feira, conhecia-a melhor do que ninguém e compreendia até a complexidade do mestiço, determinada pela sua raiz familiar catalã num clima de cisma associado à guerra de libertação argelina. Casaram 5 anos mais tarde em ambiente de felicidade e abertura, após numerosas visitas de meu pai a Dar Ben e tiveram entretanto um filho, meu irmão, que sucumbiu a uma pneumonia por falta de cuidados médicos. Por esta razão, no dia em que nasci, forte e saudável, meus pais tomaram uma decisão de destino e emigraram para França. Vivemos em Poitiers desde então, onde meu pai abriu uma padaria, fidelizando uma clientela mista de bons franceses e marroquinos emigrados, deixando a minha mãe o tempo e espaço para se dedicar ao estudo da literatura árabe e à minha própria educação. E desde que me recordo da minha infância, percorremos ano após ano a autopista del mediterráneo, largando de Poitiers, passando por La Jonquera, torneando Barcelona e Valência, em passo acelerado ao largo de Almeria, Málaga e Marbella também, em direcção a Algeciras, aonde chegamos invariavelmente pela madrugada. Meu pai arruma cuidadosamente o Renault, que já foi uma 4L, no dorso do ferry e ficamos a aguardar a largada do navio, aproveitando a bela vista desde o convés, entre o raiar do sol e a penumbra que envolve os pilares de Hércules. Este é o momento por que mais anseio em cada ano. O turbilhão dos sons misturados do mar no estreito em que o Mediterrâneo das minhas origens se encontra com o Atlântico da minha vivência, as sirenes vibrantes do porto em que África e Europa se juntam e os lamentos das orações profundamente místicas dos meus compatriotas vindos de todos os pontos do continente europeu para reencontrarem as sombras e cheiros do Atlas onde nasceram.

Thursday, May 18, 2006

How do you sail the ship from the bottle?

Your Blogging Type Is Thoughtful and Considerate

You're a well liked, though underrated, blogger.
You have a heart of gold, and are likely to blog for a cause.
You're a peaceful blogger - no drama for you!
A good listener and friend, you tend to leave thoughtful comments for others.


Yeah, right! And I love being "an underrated blogger" as for the “heart of gold” I really have my doubts…



Thursday, April 13, 2006

Gato-tónico

Vivia sozinho, desde há uns meses, num T1 de paredes castanhas ali para os lados do antigo cinema Mundial que comprara graças à facilidade de crédito que o banco concedia a todos os seus empregados. Incluindo aos empregados de balcão como era o caso de Adriano. Não tinha grandes ambições na vida e sentia-se um pouco perdido desde que se mudara para Lisboa. Deixara para trás os companheiros de meninice da sua terrinha saloia, na esperança de encontrar um futuro diferente. Sentia-se solitário, desterrado no meio de uma cidade atafulhada de gentes durante o dia e vazia de almas quando a noite caía. Faziam-lhe falta os cumprimentos cordiais de quem por ele passava, os “bons-dias” imperfeitos vindos dos rostos que conhecia de toda a vida e que também o reconheciam a ele. Não tinha nada em comum com os colegas, todos com pelo menos mais duas dezenas de primaveras que ele, ou com os clientes carrancudos que atendia. Não pretendia dar parte fraca e, por isso, refugiava-se nos vodkas tónicos, de que se abastecia invariavelmente às três garrafas e duas paletes no supermercado dos bancários ao sábado de manhã, para suportar a aspereza das paredes da sua casa. Ficava para ali com o copo na mão, entre o final do jantar e a hora de se arrastar para a cama, mortificado diante da televisão, inevitavelmente entediante, e fumava também, Lucky Strike’s que comprava diariamente ao sair do trabalho, pelas seis da tarde, num quiosque de esquina cujo proprietário pelo menos o saudava.
Naquela tarde, tomara uma decisão de mudança: arranjar um gato, para companhia, e comprar bilhete para os The Gift no Coliseu. Ao entrar na loja de animais, não reparou de imediato na rapariga do outro lado do balcão. Agripina, debruçada sobre um livro de Estatística Elementar, e passando a mão sobre o piercing que tinha no umbigo, vagueava na leitura do texto do seu horóscopo no jornal de distribuição gratuita que lhe haviam dado à saída do buraco do metro – “…dia propício a encontrar a sua alma-gémea…aceite os convites que lhe fizerem, em particular, para concertos”. (the end)

Wednesday, March 22, 2006

Baci per te

Parece saída num daqueles papelinhos semi-transparentes dos chocolatinhos Baci – traduzida em vários idiomas – mas em português esta frase é do melhor:

“A fidelidade não é proporcional ao amor mas sim à falta de oportunidade…”

Sunday, March 12, 2006

21 g


Retomo um Mishima de há meia vida atrás, Runaway Horses – seguramente muito difícil de pronunciar em japonês. E com ele retorno à fuga do “aqui e agora” e a perspectiva niilista das coisas quando estas me chateiam em demasia. Regresso à noção de que muito provavelmente nem existe o “aqui e agora” e à postura do crente na ideia de infinito, da existência resumida ao universo enquanto átomo na unha de um gigante, avançando lentamente para o precipício, num tempo demasiado distante para me preocupar. E recupero o pensamento, não cientificamente verificado, de que talvez a expansão a partir do Big Bang se faça em esfera invertida, desafiando os postulados da física, na direcção do centro que é a nossa própria singularidade de 21 gramas.

Tuesday, February 21, 2006

estrada da Beira

Quando eu era miúdo fazíamo-nos à estrada, no pino do Verão e por ocasião do Natal, num portentoso Fiat 128 de estofos de plástico. Eu equipava o banco de trás com uma dúzia de cassetes e um rádio-gravador, cheio de botões e frequências escritas em alemão, e partíamos para os fastidiosos 480 quilómetros rumo a Trás-os-Montes. A auto-estrada acabava em Aveiras e vinha a Nacional 1, pejada de camiões que faziam a minha delícia. Parávamos sempre na Batalha, onde eu bebia - sempre - uma coca-cola e fitava a estátua do Dom Nuno Álvares Pereira em frente ao mosteiro, e onde se compravam pastéis de Tentúgal – de que nunca gostei. Mais uns quilómetros e nova paragem para comprar as queijadas únicas dum restaurante à beira-estrada “São Sebastião”. Por alturas de Coimbra acompanhava-se por momentos o Mondego, em contra-corrente, antes de se apanhar a estrada da Beira, descampada de um lado e outro, quilómetros a fio de paisagem inóspita, calcorreada aqui e ali por imponentes pedras de granito entre a erva amarelecida do Verão ou o orvalho de final de tarde no Inverno. Paragem também obrigatória na Pousada de Santa Bárbara, para um carioca de limão sentado em poltronas art-deco do Portugal pós-moderno, vista para a Serra e o cheirinho do pinhal. Em Celorico da Beira era a hora da bela da sandes de salpicão antes de se enfrentarem as curvas cortadas em contra-mão desde Foz Côa – ainda sem a atracção das gravuras – até ao Pocinho e as suas fascinantes locomotivas a vapor a ganharem ferrugem.


Hoje atravessei meio Portugal desde Lisboa à Cidade Berço, ida e volta a 160 km/hora por auto-estradas moídas, na companhia dos sons dos “Boards of Canada” a 90 dB, a comiscar umas míseras bolachas de muesli, compradas numa qualquer estação-de-serviço, e com uma garrafa de coca-cola formato plástico no suporte que os brilhantes designers da Volkswagen colocaram mesmo em frente da saída dos CDs.

Monday, February 20, 2006

Ocre

Hoje apetecia-me pegar no portátil, apanhar um avião, alugar uma água-furtada em Siena e dedicar um ano de vida a escrever um romance.

Friday, February 17, 2006

excertos #2

3
Qui si lavora, non si parla di politica
- barbieri italiano




Conheço o Tomás desde os nossos 5 anos. Nunca conheceu o pai que foi uma das poucas vítimas da guerra colonial em Moçambique e ficou órfão de mãe na altura em que se mudou para o bairro, para casa do tio Simão, na altura um proeminente advogado em Lisboa. Tornámo-nos compinchas durante a primeira semana de aulas da 2ª classe. A mãe do Tomás estava nessa altura internada no hospital e ele decidiu rogar uma praga à imagem de Nossa Senhora existente na igreja de São Sebastião, ameaçando destruí-la se a mãe não ficasse boa. Durante dois meses, a coisa arrastou-se: brincadeiras na rua de trás ao final da tarde, visitas à mãe nos sábados à tarde com o tio Simão e a esposa – um péssimo modelo de mãe, casada em segundas núpcias com o tio Simão e com assinatura na ópera do São Carlos. Até que numa quarta-feira, o Tomás não apareceu na escola e no dia seguinte os meus pais foram ao funeral da mãe dele. Nessa tarde, não tive que ir à escola e fiquei a fazer companhia ao Tomás que me obrigou a acompanhá-lo até à igreja de São Sebastião onde derrubou a imagem de Nossa Senhora.
Hoje o Tomás trabalha como assistente na pujante indústria cinematográfica, nacional encharcada de dinheiro à custa dos subsídios estatais e da necessidade absoluta de entreter as gentes. O Tomás é um verdadeiro especialista em cinema, que deve ter passado mais tempo em frente ao ecrã do que qualquer outra pessoa que eu conheça. É também uma verdadeira enciclopédia ambulante, capaz de identificar os actores, citar as expressões e descrever as cenas de todos os tipos de filmes, desde os premiados até às produções alternativas. Vive desafogadamente, em função da herança que o tio lhe deixou e desde que apareceram os DVD já deve ter mandado fazer umas dez estantes em mogno que ocupam todas as paredes, de alto a baixo, da divisão que antigamente servia de escritório ao tio Simão, substituindo os antigos livros de direito. Para além disso é um tipo peculiar, que apesar de poder comprar um Ferrari, se assim o desejasse, jamais pôs as mãos num volante, deslocando-se sempre de táxi enquanto está em Lisboa e de comboio para se deslocar a Paris. Nunca leu um livro, defendendo que todos os romances que valha a pena ler acabarão por passar ao cinema e no entanto é o leitor mais compulsivo de revistas e jornais que conheço, coleccionando de forma interminável os artigos de opinião que vai lendo, e desde que descobriu a Internet, montou uma base de dados destes, acessível a qualquer um e que por isso gasta uma fortuna na subscrição das versões electrónicas das mais variadas publicações: The Economist, The Spectator, The New Yorker, O Expresso, Le Nouvelle Observateur, Der Spiegel, etc.
O Tomás é também o maior aficionado de futebol que conheço. Aliás, não de futebol mas sim do Benfica. Não me recordo de alguma vez o ter visto a seguir um jogo que não envolvesse o Benfica, nem sequer os da selecção nacional. Em 1982, foi, juntamente com mais meia dúzia de meninos ricos, o grande dinamizador do “Exército Rubro”, uma claque que não durou mais de duas épocas porque não possuía qualquer tipo de ideologia, subsistindo à custa do fornecimento de entrada à borla aos membros da claque, mas que ainda assim ficou célebre pelos problemas causados durante uma tentativa de espera ao árbitro quando o Benfica defrontou o Anderlecht na final da Taça UEFA de 1982/1983.


Nota do autor:
Este era o capítulo 3 e como é fácil de entender o melodrama tinha pinta de best-seller. Estava sobretudo a precisar de uma bela revisão mas "em bruto" também vale a pena.

excertos

1
Até aos 20 anos eu não tinha preocupações, levava uma vida boémia, depois eu casei e tive que começar a trabalhar, e aí eu escolhi a arquitectura.
- Óscar Niemeyer




Sete décimos da vida...

- Um Martini Rosso, por favor! E tu Magda o que queres?
- Pode ser um capuccino, se faz favor.
- Cappucino não temos. Café com natas?
- Sim, pode ser. Numa chávena grande, se possível!?
- Concerteza!
Pois, aqui estou eu no Rabat – o café frequentado pelos actuais teenagers de Lisboa, os sucedâneos da geração rasca – a tentar a minha sorte com a enfermeirinha de serviço.
- Bom, onde é que eu ia? Ah, já sei. Eu andava mesmo cansada, trabalhar na urgência era um stress. Principalmente, quando entravam acidentados acompanhados de familiares aos gritos e o serviço já estava cheio de criancinhas e mães histéricas. Para cúmulo, ao fim de semana ainda fazia uma perninha numa casa de saúde para doentes mentais, mulheres deprimidas e ex-drogados em fase de readaptação. Mas fazia bom dinheiro, compensava o sacrifício.
- Agora que falas nisso, estava no outro dia a ver uma reportagem num qualquer telejornal em que diziam que o rácio de depressões em Portugal é muito superior à média europeia.
Esta estúpida mania de comparar tudo o que se passa no nosso país com os indicadores estatísticos da União Europeia, ainda há de nos fazer afundar no Atlântico! Acho que seria bem capaz de patrocinar um qualquer grupo terrorista, desde que prometessem acabar com o Eurostat.
- Pois é. Há mesmo muitos portugueses à beira do precipício.
- Eu não entendo é porquê!? Até parece que somos todos uns fracos. À primeira dificuldade, entramos logo em parafuso.
- Pois é, pois é!
- No fundo, acho que a causa tem bastante que ver com a desorganização das nossas vidas. Se as pessoas parassem para pensar um bocadinho, chegavam rapidamente à conclusão que existem coisas que podem ser mudadas e que provocariam uma volta de cento e oitenta graus nas suas vidas. O exemplo típico, tem a ver com o facto de a grande maioria das pessoas trabalharem em Lisboa e viverem nos seus arredores. Tudo bem, não há dinheiro e as casas são muito mais baratas em Sintra ou Alverca mas na verdade também não são capazes de fazer um par de continhas para chegarem à conclusão de que o que não pagam com o empréstimo ao banco, acabam por gastar em gasolina, portagens ou carro. E depois não há... prii, prii – tocou o telemóvel da Magda.
Ela atendeu, e eu fiquei para ali a pensar, que raio de conversa estava a ter. Tudo bem que dar uma de intelectual moderno torna qualquer homem atraente, mas gastar o meu latim com teorias acerca da vida quando uma fútil conversa de engate bastaria, é pura perda de tempo, para resultados equivalentes.
A conversa telefónica dela demorou – era com o irmão, um tipo sensaborão conhecera à umas semanas atrás, numa almoçarada de ensopado de borrego ao pé de Sines, e que vivia em Serpa, depois de ter decidido que a grande cidade não era para ele. Casado e pai de três filhos, de certa forma encantadores mais não fosse pela ruralidade evidente sob a forma de faces rosadas e aparentemente, pelo teor da conversa, em vias de atingir os índices de fertilidade comuns na África subsahariana. Pena é que não abunde em Portugal esta necessidade de alcançar os índices terceiro mundistas realmente importantes – pensei eu para os meus botões.
Quando ela finalmente desligou, decidiu pôr-me a par das novidades, resultantes da mais recente ecografia:
- Desta vez é uma menina e vai-se chamar Carla! – Carla, no meu estereotipado mundo dos rótulos, significa frasco sem conteúdo digno de referência mas possibilidade de vidro de qualidade e certeza absoluta de faces rosadas, i.e., encaixe perfeito entre a prole já existente.
- Que bom. Depois de três rapazes devia ser mesmo isso que desejavam.
- Sim, já basta de homens a atazanarem a minha cunhada.
- Pois! – respondi eu, em tom melancólico, para ver se não íamos desfazer o novelo deste assunto por muito mais tempo.
- Sabes que essa questão de ser menino ou menina tem muito a ver com as fases da lua. Parece que as probabilidades de sair rapaz são muito grandes em quarto crescente e menores em quarto minguante.
- Sim!?
- Foi o que li numa revista de medicina, lá no hospital.
Era a minha quarta ou quinta saída com a Magda e pela quarta ou quinta vez, dei comigo a pensar: o que é que eu estou aqui a fazer. Ela tinha um corpinho jeitoso e o culto do bronzeado. Conhecera-a uns dois meses antes no casamento de uma antiga namorada de liceu, que, preocupada com os meus devaneios, me tinha promovido junto de seis ou sete colegas, recém chegadas ao hospital e com tendência para procurarem o homem ideal entre a classe dos trintões. A Magda destacara-se da concorrência, em primeiro lugar, pela voluptuosidade do seu peito e também por ser capaz de dançar sem a necessidade de pôr os seus pés por debaixo dos meus. Também fora capaz de aceitar facilmente o meu estado de embriaguez sem ter a necessidade de afirmar em demasia a disponibilidade para tomar conta de mim – o que não acontecera com as demais, cujos conselhos derivavam desde a rodela de ananás até ao “vamos caminhar pelo jardim”. Como dizia alguém, num filme qualquer, os casamentos são o sítio perfeito para se encontrar parceira mas esta nunca poderá ser perfeita nem que seja pelo simples facto de se tratar da situação mais propícia ao encontro motivado pelo desespero.
Encurtei a conversa, bebendo o que restava do meu Martini, suficientemente depressa para não chegar à fase da cara de enjoada e não tão depressa que ela pudesse ficar a pensar que a estava a despachar.
Saímos do Rabat e acompanhei-a ao carro que estava estacionado num praceta próxima. Na despedida, ela demorou o tempo quanto baste para ver se daquela vez saia beijo e eu encurtei a situação com a desculpa de que já era tarde e de que tinha trabalho no dia seguinte. Enquanto conduzia para casa, recebi uma mensagem dela, no telemóvel, em que dizia estar arrependida de não me ter roubado um beijo. Não respondi e quando cheguei a casa ainda tive que dedicar uma boa meia hora à leitura do jornal do fim de semana passado, tendo reafirmado para mim próprio que não voltaria a combinar nada com a Magda, antes de apagar a luz.

No dia seguinte, logo pela manhãzinha passei pelo Timbuctu, o café mais castiço do bairro – e também o único café do bairro – na esperança de encontrar o Tomás, para lhe relatar mais uma magnífica noite de proezas sexuais e o obrigar a prometer que me humilharia publicamente se eu voltasse a sair com a Magda. Mas não o encontrei e apenas o Sr. Margarido (o dono do Timbuctu) me fez uma grande festa por ser a segunda vez naquela semana que por lá aparecia para tomar o pequeno-almoço.


Nota do autor:
À falta de inspiração, estava para aqui a vadiar entre a centena de ficheiros “New Book” que me entopem o PC e encontrei esta tentativa frustrada de plágio à Margarida Rebelo Pinto, datada dos idos de 2003, quando achava – ou pretendia provar a mim próprio – que seria capaz de fazer fortuna a escrever ficção de qualidade duvidosa. Evidentemente, desatei-me a rir (em particular, com o ridículo dos nomes dos personagens) e concluí que é bem mais divertido divagar de vez em quando no ripples.

Tuesday, February 14, 2006

fy

In Liverpool
On Sunday
No traffic
On the avenue
The light is pale and thin
Like you
No sound, down
In this part of town
Except for the boy in the belfry
He's crazy, he's throwing himself
Down from the top of the tower
Like a hunchback in heaven
He's ringing the bells in the church
For the last half an hour
He sounds like he's missing something
Or someone that he knows he can't
Have now and if he isn't
I certainly am

Homesick for a clock
That told the same time
sometimes you made no sense to me
if you lie on the ground
in somebody's arms
you'll probably swallow some of their history

And the boy in the belfry
He's crazy, he's throwing himself
Down from the top of the tower
Like a hunchback in heaven
He's ringing the bells in the church
For the last half an hour
He sounds like he's missing something
Or someone that he knows he can't
Have now and if he isn't
I certainly am

Monday, February 6, 2006

...estamos contigo Miguel

O cerco

Já faltou mais para que um dia destes tenha de passar a clandestinidade ou, no mínimo, tenha de me enfiar em casa a viver os meus vícios secretos. Tenho um catalogo deles e todos me parecem ameaçados: sou heterossexual «full time»; fumo, incluindo charutos; bebo; como coisas como pézinhos de coentrada, joaquinzinhos fritos e tordos em vinha d'alhos; vibro com o futebol; jogo cartas, quando arranjo três parceiros para o «bridge» ou quando, de dois em dois anos, passo à porta de um casino e me apetece jogar «black-jack»; não troco por quase nada uma caçada às perdizes entre amigos; acho a tourada um espectáculo deslumbrante, embora não perceba nada do assunto; gosto de ir a pesca «ao corrido» e daquela luta de morte com o peixe, em que ele não quer vir para bordo e eu não quero que ele se solte do anzol; acredito que as pessoas valem pelo seu mérito próprio e que quem tem valor acaba fatalmente por se impor, e por isso sou contra as quotas; deixei de acreditar que o Estado deva gastar os recursos dos contribuintes a tentar reintegrar as «minorias» instaladas na assistência publica, como os ciganos, os drogados, os artistas de varias especialidades ou os desempregados profissionais; sou agnóstico (ou ateu, conforme preferirem) e cada vez mais militantemente, na medida que vou constatando a actualidade crescente da velha sentença de Marx de que "a religião é o ópio dos povos»; formado em direito, tornei-me descrente da lei e da justiça, das suas minudencias e espertezas e da sua falta de objectividade social, e hoje acredito apenas em três fontes legítimas de lei: a natureza, a liberdade e o bom senso.
Trogloditas como eu vivem cada vez mais a coberto da sua trincheira, numa batalha de retaguarda contra um exercito heterogéneo de moralistas diversos: os profetas do politicamente correcto, os fanáticos religiosos de todos os credos e confissões, os fascistas da saúde, os vigilantes dos bons costumes ou os arautos das ditaduras «alternativas» ou «fracturantes». Se eu digo que nada tenho contra os casamentos homossexuais, mas que, quanto à adopção, sou contra porque ninguém tem o direito de presumir a vontade «alternativa» de uma criança, chamam-me homofónico (e o Parlamento Europeu acaba de votar uma resolução contra esse flagelo, que, como está à vista, varre a Europa inteira); se a uma senhora que anteontem se indignava no «Público" porque detectou um sorriso condescendente do dr. Souto Moura perante a intervenção de uma deputada, na inquirirão sobre escutas na Assembleia da Republica, eu disser que também escutei a intervenção da deputada com um sorriso condescendente, não por ela ser mulher mas por ser notoriamente incompetente para a função, ela responder-me-ia de certeza que eu sou "machista» e jamais aceitaria que lhe invertesse a tese: que o problema não é aquela deputada ser mulher, o problema é aquela mulher ser deputada; se eu tentar explicar por que razão a caça civilizada é um acto natural, chamam-me assassino dos pobres animaizinhos, sem sequer quererem perceber que os animaizinhos só existem porque há quem os crie, quem os cace e quem os coma; se eu chego a Lisboa, co­mo me aconteceu há dias, e, a vinte quilómetros de distancia num céu límpido, vejo uma impressionante nuvem de poluição so­bre a cidade, vão-me dizer que o que incomoda verdadeiramente é o fumo do meu cigarro, e ate já em Espanha e Itália, os meus países mais queridos, tenho de fumar envergonhadameme à porta dos bares e restaurantes, como um cão tinhoso; enfim, se eu escrever velho em vez de «idoso», drogado em vez de «toxicodependente», cego em vez de «invisual», preso em vez de «recluso» ou impotente em vez de «portador de disfunção eréctil", vou ser adoptado nas escolas do país como exemplo do vocabulário que não se deve usar. Vou confessar tudo, vou abrir o peito as balas: estou a ficar farto desta gente, deste cerco de vigilantes da opinião e da moral, deste exército de eunucos intelectuais.
Agora vêm-nos com esta historia dos "cartoons» sobre Maomé saídos num jornal dinamarquês. Ao princípio a coisa não teve qualquer importância: um «fait-divers» na vida da liberdade de imprensa num pais democrático. Mas assim que o incidente foi crescendo e que os grandes exportadores de petróleo, com a Arabia Saudita à cabeça, começaram a exigir desculpas de Estado e a ameaçar com represálias ao comercio e às relações económicas e diplomáticas, as opiniões publicas assustaram-se, os governantes europeus meteram a viola da liberdade de imprensa ao saco e a sr.ª comissária europeia para os Direitos Humanos (!) anunciou um inquérito para apurar eventuais sintomas de «racismo» ou de «intolerância religiosa» nos cartoons profanos. Eis aonde se chega na estrada do politicamente correcto: a intolerância religiosa não é de quem quer proibir os «cartoons», mas de quem os publica!
A Dinamarca não tem petróleo, mas é um dos países mais civilizados do mundo: tem um verdadeiro Estado Social, uma sociedade aberta que pratica a igualdade de direitos a todos os níveis, respeita todas as crenças, protege todas as minorias, defende o cidadão contra os abusos do Estado e a liberdade contra os poderosos, socorre os doentes e os velhos, ajuda os desfavorecidos, acolhe os exilados, repudia as mordomias do poder, cobra impostos a todos os ricos, sem excepção, e distribui pelos pobres. A Arábia Saudita tem petróleo e pouco mais: é um país onde as mulheres estão excluídas dos direitos, onde a lei e o Estado se confundem com a religião, onde uma oligarquia corrupta e ostentatória divide entre si o grosso das receitas do petróleo, on­de uma policia de costumes varre as ruas em busca de sinais de "imoralidade privada», onde os condenados são enforcados em praça pública, os ladrões decepados e as «adulteras» apedrejadas em nome de um código moral escrito há quase seiscentos anos. E a Dinamarca tem de pedir desculpas à Arábia Saudita por ser como é e por acreditar nos valores em que acredita?
Eu não teria escrito nem publicado «cartoons» a troçar com Maomé ou com a Nossa Senhora de Fátima. Porque respeito as crenças e a sensibilidade religiosa dos outros, por mais absurdas que elas me possam parecer. Mas no meu código de valores — que é o da liberdade — não proíbo que outros o façam, porque a falta de gosto ou de sensibilidade também tem a liberdade de existir. E depois as pessoas escolhem o que adoptar. É essa a grande diferença: seguramente que vai haver quem pegue neste meu texto e o deite ao lixo, indignado. É o seu direito. Mas censurá-lo previamente, como alguns seguramente gostariam, isso não.É por isso que eu, que todavia sou um apaixonado pelo mundo árabe e islâmico, quanto toca ao essencial, sou europeu — graças a Deus. Pelo menos, enquanto nos deixarem ser e tivermos orgulho e vontade em continuar a ser a sociedade da liberdade e da tolerância.
© Miguel Sousa Tavares - Jornal "Expresso" - 04.02.2006


Thursday, January 12, 2006

hoje apetece-me...

...concordar com o Miguel Sousa Tavares in "Sobreviverá Portugal depois de 2013?".

Sunday, January 8, 2006

god & Man

i don't believe in an interventionist god
but i know, darling, that you do
but if i did i would kneel down and ask him
not to intervene when it came to you
not to touch a hair on your head
to leave you as you are
and if he felt he had to direct you
then direct you into my arms

into my arms, o lord
into my arms, o lord
into my arms, o lord
into my arms

and i don't believe in the existence of angels
but looking at you i wonder if that's true
but if i did i would summon them together
and ask them to watch over you
to each burn a candle for you
to make bright and clear your path
and to walk, like christ, in grace and love
and guide you into my arms

and i believe in love
and i know that you do too
and i believe in some kind of path
that we can walk down, me and you
so keep your candle burning
and make her journey bright and pure
that she will keep returning
always and evermore

into my arms


Sunday, December 18, 2005

3-benzoyloxy-8-methyl-8-azabicyclo[3.2.1]octane-4-carboxylic acid methyl ester

Este fim-de-semana ofereceram-me cocaína à descarada no Bairro! Sinal dos tempos!?

Monday, November 21, 2005

tiger food

Crónica do futuro – by oInimigoPúblico, a notícia é de 18 de Novembro de 2035:

“Faleceu esta semana o último português que servia num café. O funeral, organizado pelos colegas, incluiu samba, caipirinha e o desfile da Escola Unidos da Tijuca de Arroios”

mais abaixo, na mesma página, “brilhante prancha” de BD a gozar com a Pimpinha Jardim – by Nuno Markl (que é suposto tratar-se de um humorista iluminado da nossa praça) – sobre um qualquer cruzeiro do socialite nacional a Marrocos:

“Tânger é bastante feia, muito suja e as pessoas têm um aspecto assustador”

Sejamos pragmáticos. As televisões insistem em enfiar-nos pelo cérebro adentro imagens de malis e outros povos sub-saharianos a escalarem as barreiras de fronteira em Melilla, putos argelinos a incendiarem voitures nos arredores de Paris e em cada dia que passa há mais uma remessa de uzbequis descoberta num qualquer contentor acabado de chegar às ilhas britânicas. É assustador e mesmo assim ninguém pára para pensar que talvez – só talvez – esta gente não saiba ao que vem. Que repletos de uma ilusão efémera, esta gente não discerne entre o que deixa para trás e as agruras que vem enfrentar. Que o que os espera pode não ser tão melhor assim. Que dentro da fortaleza Europa ou para norte do arame farpado da Califórnia não há um mar de rosas. E ninguém se esforça por lhes explicar que talvez – só talvez – seja melhor ser-se um guardador de cabras e poder contemplar um céu intacto do que ter de lutar por um lugar ao sol no meio da multidão inerte.

Wednesday, October 26, 2005

directamente para o "top"


Les Poupées Russes - ou a vida tal e qual como ela foi quando se chega aos trintas, sem clichés!

Tuesday, October 18, 2005

lugar místico

“Nas noites de Verão levava-me ao alto de uma árida colina para observar o céu. Fatigado de contar meteoros, eu adormecia num rego do solo. Ele ficava sentado, de cabeça erguida, rondando imperceptivelmente com os astros. Deve ter conhecido os sistemas de Filolau e de Hiparco e o de Aristarco de Samos, que eu preferi mais tarde, mas estas especulações já o não interessavam. Os astros eram para ele pontos inflamados, objectos como as pedras, e os lentos insectos de que ele tirava igualmente presságios, partes constituintes de um universo mágico que compreendia também as volições dos deuses, a influência dos demónios e o destino dos homens.”


Existe às portas de Sevilha um lugar místico. As ruínas romanas de Itálica, a terra natal de Adriano que Crayencour refere na passagem acima. Visitei-as em pequeno, num dia solarengo que me ficou na memória, e de cada vez que por ali passo, a caminho ou vindo da Sierra Morena, assola-me a vontade de perscrutar as estrelas e contemplar os astros.

Friday, October 7, 2005

O eclipse do regime

Ao longo dos últimos 2 anos tenho tentado abstrair-me o mais possível dos factos políticos de Portugal. Do governo ou desgoverno deste país. Assumi com rigor uma postura absentista. Deixei de queimar neurónios com a leitura supérflua dos pasquins nacionais. Ignorei ao máximo as bujardas da classe jornalística que contribui lentamente para o devorar da nação lusa. Saciei as minhas necessidades de realidade presente à custa da Economist e afins. Sentia-me bem com a desintoxicação. Com a perspectiva mais global da sociedade humana. E de repente, há coisa de um mês, surgiu-me um dilema: em quem votar nas próximas autárquicas. Considerando que estas acabam por ser as eleições mais próximas do meu quotidiano, queria conseguir escolher bem o próximo presidente da CML. Voltei a estar atento aos telejornais de qualidade duvidosa que passam nas nossas “tevês” e a tentar apanhar qualquer coisita de jeito sobre o assunto nas páginas deturpadas dos nossos jornais. Comecei por descobrir que não havia muita gente preocupada com o assunto. O tema do momento era, e ainda é, as presidenciais do próximo ano. Estava tudo mais concentrado no desfazer do tabu do hipotético candidato X, nas deambulações senis do candidato Y e nos lirismos do vai-não-vai candidato Z. Como se a prima-dona que vai habitar o palácio de Belém contribuísse de alguma forma para a felicidade comunal do Português normal. Depois, revelou-se-me muito mais importante analisar ao milímetro os passos, actividades e palavras inflamadas dos quatro caciques, candidatos independentes a câmaras de terceira linha, que estiveram envolvidos em coisas “tão escandalosas” como umas férias, à revelia da justiça, no Brasil, a oferta de frigoríficos a eleitores e a participação obscura nas negociatas do futebol nacional, o desvio de fundos para a conta bancária do primo taxista na Suiça ou a participação num qualquer reality-show do momento. Tudo temas suculentos para os energúmenos do 4º poder e respectivos leitores ou telespectadores, está bem de ver. Finalmente, a uma semana da data chave descobri uma pobre matriz de perguntas mal-engendradas aos cinco estarolas em quem posso por a cruzinha. Suficiente, pensei eu, para este pobre cidadão lisboeta fundamentar uma decisão sobre a matéria em apreço. E, veja-se bem, eu que sou um rapazinho “às direitas” estava convencido que tinha conseguido discernir o “menos mau” no espectro diametralmente oposto às minhas convicções. Eis senão quando, por causa das reticências e renitências, decidi assistir ao último debate entre os ditos candidatos. Resultado: vou votar em branco. O que se vai tornando um hábito nada feliz. E espero que muitos façam como eu porque esta tristeza de nem sequer se conseguir escolher o “menos mau” tem que acabar ou então acabe-se com este regime caduco. Porque mais vale ter a inteligência de compreender que algo vai mal, que não estamos preparados para esta forma de governo e que se calhar basta “puxar a rolha” do Alqueva para ver se nos afundamos definitivamente no Atlântico.
De borla, aqui ficam algumas ideias de um consultor altruísta para quem se quiser candidatar daqui a quatro anos:

1) Portagens à entrada da cidade – para equilibrar as vantagens de viver em Lisboa, já que não conseguem fazer as continhas à gasolina e tempo desperdiçado no vai-e-vem diário;
2) Habitação desabitada durante mais que X tempo é para quem a reabilitar;
3) Prédio com 5 ou mais andares: os dois primeiros obrigatoriamente para serviços e os outros compulsivamente para habitação – ou proporcional;
4) Buraco aberto na rua: obrigação de repavimentar a rua inteira;
5) Viatura mal estacionada ou em 2ª fila: fotografia com o telemóvel e repartição do valor da multa com o delator;
6) Jardinzinho de bairro: regador e ancinho a cargo do residente nas tardes de fim-de-semana;
7) Pombo morto e entregue nos serviços municipais: bilhetinho de metro como recompensa;
8) Arrumador ganzado ou pedinte errante: fardinha da EMEL ou vassourinha de palha, i.e., funcionário municipal encartado;
9) Motinha de escape aberto em circulação: uma semana de carrinho-aspirador ou cortador de relva na mão;
10) Lar de idosos e creches municipais debaixo do mesmo tecto – uns tomarão conta dos outros.
E prontos, para bom entendedor meia-palavra basta...

Thursday, October 6, 2005

fragments of a lovely season

Never win and never lose
There's nothing much to choose
Between the right and wrong
Nothing lost and nothing gained
Still things aren't quite the same
Between you and me

I keep a close watch on this heart of mine
I keep a close watch on this heart of mine

I still hear your voice at night
When I turn out the light
And try to settle down
But there's nothing much I can do
Because I can't live without you
Any way at all

I keep a close watch on this heart of mine
I keep a close watch on this heart of mine

(05Out05 - John Cale live at CCB)

Friday, September 23, 2005

chip

Gosto do conceito das “grandes ideias” que mudam o mundo. Das coisas simples que, sem darmos por elas, transformam a Vida. Dos objectos que inicialmente são novidade e lentamente se tornam banais, acessíveis e se massificam. Não sou fã de gadgets – tenho até alguma aversão aos ditos – mas reconheço o contributo dos “gecos” – geeks, entendidos como aqueles cromos que aderem sempre à 1ª vaga de tudo o que é novidade – para a democratização da espécie humana. Em jeito de exemplo, os tipos que na década de 80 ficaram corcundas por causa dos telemóveis-tijolo de 1ª geração, na década de 90 ceguetas por causa dos laptops de ecrã reduzido e nesta década alienados por causa dos iPod. Presto-lhes tributo por terem sido cobaias, arriscando a possibilidade do tumor cerebral, a córnea deslocada ou o tímpano martirizado, para que hoje muita gente tenha acesso a estes objectos semi-úteis. E também considero justo que as mentes visionárias que engendraram tais ideias, nadem em rios de dinheiro, até porque foram capazes de acrescentar blocos novos às cadeias de valor, criar complexidade e assegurar subsistências. Isto é fácil de entender se vos disser que dos 58 milhões de italianos, cerca de 500.000 contribuem directamente para que os 58 milhões de “telefoninos” estejam operacionais, o que se traduz em assegurar não só as comunicações móveis dos ditos 58 milhões mas também os futuros dos seus agregados familiares – por estimativa, 1 milhão de alminhas a irem aos “coleggios”, a acelerarem “piaggios” e a comerem “pastas-divella-la-massa-bela”. Pessoalmente, sou um bocadinho céptico em relação a toda esta evolução, que certamente poria a cabecinha do Darwin a andar à roda, e prefiro as 2ªs / 3ªs vagas – consegui resistir ao “telefonino” até 2000. Mas há-de estar por aí a rebentar o “invento do século” para o qual eu me candidato, desde já, a rato-de-laboratório: invente-se o bloco de notas mental, o chip registador de acoplagem cerebral, e lá estarei eu na 1ª fila para o comprar. Porque sinto que todos os dias me escapam pelo menos 10 ideias diferenciais, 3 temas para reflectir e meia-dúzia de imagens únicas a relembrar. E cada vez que tomo consciência disto mesmo, penso no desperdício de neurónios DNA registado que deixaram de existir sem proveito nenhum. Em conclusão: vou voltar à fosfoglutina.

Monday, September 12, 2005

changes

Já dizia o poeta perspicaz – apesar da pala – que “todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades…”. Pois, nos últimos tempos sobe-me a mostarda ao nariz cada vez que alguém próximo decide exigir de mim grandes planos, estratégias de vida renovadas ou intenções de porvir. Compreenda-se que considero escusado, ou demasiado, o tempo que investimos a conjecturar sobre o futuro próprio e alheio, a traçar grandes objectivos sem colher benefícios palpáveis. Que estou bem, agora e aqui, e me apetece viver por um bocadinho o presente. Que as grandes mudanças das vidas dos outros não têm obrigatoriamente que encontrar paralelos na minha própria vida, qual efeito-borboleta. Que as lógicas do tempo certo para se fazer isto e aquilo são impostas por regras de uma sociedade longe de perfeita. E que embora utópica me lembro muitas vezes da história de vida de um certo Douglas Bader, que li quando era pequeno, absorto à tentativa de pensar um dia de cada vez, sem desígnios intensos. O tempo das mudanças voltará, naturalmente, mas por agora apetece-me degustar o presente tal e qual como ele se apresenta, sem tirar nem pôr.

Monday, August 1, 2005

Feeling alive is…

Seating on the Piazza di Spagna stairs and crying inside while the sun sets over the rooftops...

Driving through Austrian yellow fields while listening to Suzanne Vega’s “In Liverpool”...

Having a meal & some red wine in Tate’s restaurant facing St. Paul’s Cathedral beneath a cloudy sky while writing life’s newest decisions on a piece of paper...

Driving on Donegal’s rollercoaster roads and catching the most beautiful Leonard Cohen’s program on the radio-waves...

Trying to concentrate on some love-letter words while your teardrops soak the paper...

Embracing my love inside a calm and salty sea and feeling the unique scent of her skin...

Tuesday, July 26, 2005

o fanático do sashimi

Fazia-me falta um novo vício na vida. Eis senão quando redescobri a bela da comidinha japonesa. Uns tempos passados após as primeiras tentativas frustrantes, sonho acordado com o “maguro tataki” a desfazer-se na minha boquinha como manteiga em pão quente. Em termos práticos, são apenas pedacinhos de atum cru, melhor, muito ligeiramente braseados e as minhas papilas gustativas em êxtase. E na última semana já lá vão quatro visitas à variada gastronomia nipónica. E gosto de quase tudo (passo bem sem o “nori” e o arroz do sushi adultera um bocadinho a essência do sashimi) porque é mesmo bom!

Sunday, July 17, 2005

anicha aqui

Ainda não percebi bem porquê mas dei por mim a tirar um livrinho bem antigo da prateleira poeirenta para o voltar a ler. “A Causa das Coisas”, by MEC. Li-o, pela primeira vez num verão distante de 1988, numas férias passadas entre o esturricar ao sol no monte de areia, diante da Anicha, o mergulho refrescante no final de cada crónica e a impaciência pela saída noctívaga até ao Seagull. Um verão descontraído de passeios de bicicleta com uma namoradinha estival de nome Benedita e peras verdes apanhadas directamente das árvores. Mas o engraçado é que as croniquetas do Miguel Esteves Cardoso, escritas em meados da década de 80 e retratando as peculiaridades do povo português permanecem impecavelmente válidas. Substituídos os escudos por euros e a CEE pela União Europeia, os estereótipos e figurões actuais estão lá todos, como se as “Coisas” tivessem permanecido estáticas ao longo destes vinte anos e as “Causas” fizessem parte do código genético desta Nação. E eu digo: podemos ter todos os defeitos do mundo mas temos também as virtudes de uma personalidade forte – sejam elas quais forem. Valha-nos isto!



Tuesday, July 12, 2005

human imperfection

It was one of those days. Woke up wandering why on earth did my dear soul end up trapped inside this imperfect body capsule. Hadn’t slept 10 minutes in a row during the night and spent the whole day wishing I was like “Marsellrebelldesosa”, who seems to be able to sleep only 4 hours a night. At 9h30 as I was finally reaching my REM stage, the damn phone rang: a hysterical secretary trying to get me on time to a recruiting session – it wasn’t my turn, obviously. Got dressed and went to “the bunker”. Nobody around and I was just going to nap over the laptop when a colleague arrived and switched the lights on – “Good morning!” Yeah, and I hate you bastard. The phone strikes again and I have to deal with half an hour of consulting bullshit on a low-coverage area, while feeling the brain getting fried next to my ear. Tried to work a bit and here comes the phone again: quality auditing to my project. Not during the next two weeks, pleeease… Keeping my eyelids in a horizontal position and guess what, the fucking phone rings again. Bad news, this time: a friend’s father just died last night, while sleeping. A father who had that kind of unique relationship with his daughter, so it seemed. Not that old, I believe. A “special parent” so it used to be commented. And I get to that inner line of thought on “how to deal with dead” and “why do we have to sleep”. Human imperfection, that’s it.


copyright: vitriolica

Friday, July 8, 2005

warum?

Impressionante! Graças ao “poder dos fotologs” soube rapidamente que toda a gente que conheço em Londres estava bem e fiquei descansado. Mas no “bunker” em que me encontro a trabalhar, havia um “bife” de um outro projecto absolutamente desesperado a tentar telefonar para a família para saber como estavam. Felizmente, bem. O mesmo homem que ainda ontem pulava de contente por causa dos jogos olímpicos, passou a manhã inteira agarrado ao telemóvel para conseguir saber notícias. E estas coisas deixam-nos a pensar. Se Alá é grande, se somos todos filhos de um Deus menor ou se o fortuito manda.

Copyright: abox

Sunday, July 3, 2005

Manager

Pois é, para acabar com o mau humor dos últimos tempos, saiu-me no sapatinho a promoção desejada. E agora que a poeira já assentou sobre a novidade, fica a listinha de intenções para o novo desafio. Seis, está bem de ver, porque é este o número que faz toda a diferença – mas a ordem é perfeitamente irrelevante:

1) Chegar a partner em 3 anos (ou em 5, no limite) – sou totalmente a favor da ambição, esta é o sal da vida e o motor do progresso, mas sem confusões com ganância.
2) Ser um exemplo a seguir – creio que ao longo da vida, em particular da profissional, predomina o aprender pela negativa, isto é o evitar reproduzir o que os outros fazem mal. Como é evidente, isto implica uma dupla operação: discernir entre o malfeito e o bem-feito e estabelecer a forma correcta de fazer. É complexo e ineficiente. Quero, por isso, que quem trabalhe comigo aprenda pela positiva.
3) Incentivar o “pro bono” – poucas pessoas sabem mas as empresas de consultoria, para além de cobrarem rios de dinheiro, também desenvolvem actividades de filantropia. Tipo, dedicarem horas úteis a desenvolver projectos para Organizações e Instituições sem orçamento para nos contratarem. Quero fazer disto.
4) Tratar os “mentorados” nas palminhas – em boa verdade toda a gente precisa dum estímulo inicial e depois recorrente, de uma energia de activação para poder vencer, principalmente para quem saiu fresquinho da escola e não faz a menor ideia do que é executar. Mais do que pagar almocinhos quero mostrar caminhos.
5) Gerar resultados – esta é egocêntrica mas há lá coisa que dê mais pica do que fazer o negócio crescer, fazer prosperar e garantir futuros.
6) Não vender “gato por lebre” – isto é, não tentar vender o que o Cliente não precisa realmente ou gerar necessidades artificiais. Odeio publicidade enganosa e o marketing do supérfluo ou inútil.

Ui, até já estou assustado. Boa sorte para mim.

Friday, July 1, 2005

alcateias

Já contei esta estória(*) antes mas para o comum dos mortais, vulgo povão, que se levanta de manhã e apanha o metropolitano de Lisboa (a pior empresa pública do país – mas não me vou pôr a dissertar sobre isto) a sensação de déjà vu a cada ceguinho (em politicus correctus: invisual) que entra pela porta do fundo no preciso instante em que o anterior saiu pela porta da outra extremidade – normalmente auxiliado por uma qualquer alma pacóvio-caridosa – só pode suscitar um pensamento: alcateia. Alcateia, sem querer ofender os lobos mas na literal definição de “quadrilha de ladrões facinorosos”. E eu pergunto: os invisuais não pagam passe? Ou será um bom negócio!?

E já que estamos nesta onda pessimistico-desabafa-aqui. Existem na bela Lisboa uma série de personagens típicos. Ele é o homem do saco de plástico a acenar no Saldanha (por acaso no outro dia vi-o às compras no Corte Inglês, mas isso agora não interessa para nada). Ele é o velho rasta e andrajoso a fingir-se de bêbado no Bairro. Ele é o jovem aprumado a pedir dinheiro para o chuto nos sinais das Amoreiras. E há também os dezenas / centenas de Cais a tentarem impingir as revistinhas. Bom, no metro do Marquês (lá está, este semi-jovem consultor é utilizador frequente do comboio subterrâneo – quando este funciona ou não lhe engole o bilhetinho à 3ª viagem das 10 já pagas. Gatunos!) há um dos ditos Cais dos seus 30 e tal aninhos, traços meio sul-americanos e óculos, que deve ser, muito provavelmente, a pessoa que mais sorriu para mim. Está por ali, junto à passadeira rolante, parado e sorridente de revistinha na mão, enquanto o povão passa e ele sorri, sorri, sorri… Fazendo umas continhas rápidas: desde os meus tempos de universidade e admitindo que andei uns 100 dias / ano de metro dá uns 1.300 sorrisos. É obra! E eu pergunto: o que é que a Cais fez ou faz por este ser? Proporciona sorrisos gratuitos ao povão? Opa lá lá, atribua-se desde já um subsídio à Cais!
E pergunto mesmo mais: será que vou sentir a falta do sorriso idiota e enjoativo da criatura no dia em que esta desaparecer?
Ufa!

(*) e não se ponham com estórias sobre o “estória” versus “história” senão passo a escrever tudo em inglês!