Saturday, June 26, 2010

doutrina (*)

A característica que mais me arrelia na natureza humana é a falta de vontade, a falha do querer, a cobardia, a incapacidade de lutar, o “deixa lá ver se passo por entre a chuva”, o deixar-se encostar, a falta de energia para se correr pelo que se deseja. A vida, em sentido lato, é já demasiado imperfeita para se descortinar o que é mesmo importante para cada um, o que verdadeiramente se quer dela. Quando se tem a sorte de descobrir o objectivo, achar alguém absolutamente especial, sonhar ou imaginar algo de bom, há que ser determinado, convicto, ambicioso e ter a certeza de que o resultado está lá para nos fazer sentir bem. Como tudo o que faz realmente sentido, será difícil e complexo de alcançar, mas isso faz parte do desafio.


(*) desde que não interfira com a liberdade dos outros.

Wednesday, June 23, 2010

Primeiro amor

Primeiro amor. Quem os não teve? Lembrei-me hoje dele por causa deste aperto no coração com que acordei. Esta sensação insalubre de quem ama e não é correspondido. Esta motivação de me deixar entreter com tudo aquilo que me faça esquecer a dor no peito. Esta certeza parva de que a experiência só vai contribuir para enrijecer um coração já maduro. Esta noção nefasta de desperdiçar possibilidades. E isto dói, muito, como se ainda fosse um miúdo.

Monday, June 21, 2010

flares

É difícil imaginar uma coisa assim mas quando se sobrevoa a costa da Arábia Saudita durante a noite, sem nuvens, a imensidão de flares que se vêem parece quase infinita. E eu vou ali com os headphones a debitarem som para os meus ouvidos, hesitante entre a novidade do Sébastien Tellier, que profeticamente dá pelo nome de Sexuality, o “La Ritournelle” do mesmo mas já mais antiga, em repeat, e o canal 6 que passa o Alcorão cantado para muçulmano ouvir, atentamente, ou cristão se deixar encantar, a espreitar pela pequena janela do Airbus e a reflectir na imensidão dos campos de petróleo que nos alimentam o lifestyle moderno.


Oh nothing’s gonna change my love for you
I wanna spend my life with you
So we make love on the grass under the moon
No one can tell, damned if I do
Forever journeys on golden avenues
I drift in your eyes since I love you
I got that beat in my veins for only rule
Love is to share, mine is for you

La Ritournelle by Sébastien Tellier

Thursday, June 17, 2010

eu transparente

Naquela manhã, eu vi-te, pela primeira vez, com todo o teu glamour profissional, o cabelo bem escovado e a echarpe, que te faria companhia a muitos pés de altitude, já enrolada nesse teu pescoço absolutamente bonito. Se eu já estava apaixonado, naquele momento senti que te queria ainda mais e gravei o teu retrato no pensamento para recordar durante todos aqueles dias da tua ausência. E esta noite, à falta de inspiração, retomo o texto que deixei perdido, tão estranhamente perdido como tu me fazes sentir quando afinal estás apenas a ser natural, tu própria, e me deixas a hesitar entre a desordem das ideias difíceis de absorver mas que me fazem sentir simultaneamente enfeitiçado e tranquilo. Uma mistura deliciosa de sensações que me fazem apreciar este meu amor verdadeiro.

Wednesday, June 16, 2010

O vício

E hoje sou eu que chego a casa exausto mas com muita vontade de ti. Com muito desejo da tua meiguice e de voltar a adormecer com o teu cheiro nas minhas mãos...


Monday, June 14, 2010

à beira do chafariz

Foi um momento muito especial e muito nosso. Como tu me dizes, eu sou melhor com as palavras escritas e apetece-me registar aquela sensação muito especial. O graffiti meio apagado no chafariz iluminado gritava “Cláudia”. E eu, por um minuto, pus-me a pensar naquela alma apaixonada que um dia decidira empoleirar-se bem alto para gritar ao mundo o nome da amada, escrevendo-o em azul sobre a pedra branca. Dei então por mim a observar a multidão muito alegre a cantar ao som da música, gente bonita de Lisboa, e a ver-te aos pulos de contente, e a pensar para os meus botões como te assemelhas à perfeição, para mim. E então, tu vieste, aproximaste-te esplendorosa, e beijaste-me de forma deslumbrante, completando-me infinitamente o pensamento e abraçando-me com um aperto meigo que me diz muito mais do que qualquer palavra.

Wednesday, June 9, 2010

Chuva de Junho

Abro a torneira de água tépida e processo H2O por entre os dedos. Mergulho o rosto nas mãos cheias e arrebito as pestanas com as pontas dos dedos. Coloco um pouco de gel nas falanges e espalho-o pela pele húmida. É um gel de cheiro neutro que me faz lembrar uma mistura de aromas entre o sabão-macaco e o gin vertido sobre água tónica. Um bocadinho inebriante. Como por magia, o gel transforma-se em espuma e olho-me no espelho com o rosto coberto de branco. Adorno as patilhas com a lâmina, primeiro a esquerda depois a direita. Produzo movimentos rápidos ora de cima para baixo, ora de baixo para cima. Termino com mais água atirada para a cara e arrebito mais uma vez as pestanas. Volto a olhar-me no espelho mas desta vez vejo-me. Concluo que persisto no estado apaixonado.

Tuesday, June 8, 2010

Home is where the heart is… too many miles away

Já não me recordo há quantos anos não passava este dia em Lisboa. No ano passado estava em Boston. Há dois anos em Paris. Há três anos em Atenas. Há quatro anos em Oreposa. E logo este ano é que me havia de apetecer estar num outro lugar... many miles away... home is, definitively, where your heart is.


Monday, June 7, 2010

Awkward love ou a crise da meia-idade

Ele estava habituado a ser bem tratado. Nas palminhas, costumava pensar. Tinha uma certa dose de sucesso, especialmente entre as mulheres de vinte e alguns que se deixavam deslumbrar pelo charme. Ele encantava-as, quando era isso o que queria. Não pela aparência, não pelo embrulho. Mas se decidia meter conversa no seu estado espirituoso, era certo que ao fim de uns minutos, vá 1/2 hora, as coisas estariam encaminhadas para o que ele quisesse. Com o passar dos anos, foi percebendo que não queria muito, ou que o queria poucas vezes. Ficava-se pelo sabor do sucesso e, ocasionalmente, por uma ou outra relação infrutífera que depois trabalhava em sentido inverso, de forma a que o esquecessem sem mágoa. Ele gostava dessa sua capacidade, de fazer esquecer ou reduzir as relações passadas a recordações carinhosas. Chegava a considerar essa sua capacidade uma virtude. O seu dom. Gostava disso em si e aturava temporalmente as perseguições até alcançar o resultado pretendido.
Ah, mas ele não estava preparado para provar do seu próprio veneno. E descobriu-o quando se deixou encantar. Compreendeu então que afinal gostava pouco de montanhas-russas, porque se transformavam em circuitos fechados. E ele queria mais possibilidades. Caminhos de liberdade, sem destino. Então, encheu-se de coragem, ponderou o desconhecido e a viagem sem bússola. Sentiu-se um valente e deixou-se levar. Passou a amar.

Sunday, June 6, 2010

My Rijksmuseum’s t-shirt

Depois de Canal Street embrenhámo-nos no Soho. Final de tarde em New York. Chegamos a Tribeca e reencontramos o Michael Imperioli com a sua mulher, a filha pela mão e o filho às cavalitas, a passearem, alegres e contentes. Entramos numa loja fashion e uma cliente gaba-me a t-shirt, como se eu fosse um modelito e ela a quisesse comprar... it’s from Rijksmuseum, Amsterdam.


Gajo alheado em post fútil

Obrigado por hoje me terem explicado o significado do 2 coberto de “lantejoulas” que de há uns dias para cá me intrigava ali plantado no Saldanha – Sex and the City 2. Hummpf!

Thursday, June 3, 2010

Sweet May

Chego a casa cansado mas ainda sem sono. Ligo o iPod e sai-me expressamente Au Revoir Simone – “Through the Backyards of Our Neighbors”: Baby tell me please, Is this a dream, Spending the night with you, Beneath the cherry trees, Just make a wish and everything comes true… (esta sei que já a ouvi enquanto deixávamos os nossos corpos brincar um com o outro, e o CD a tocar na sala ao lado). Ponho-me a ler Maio no blog e constato que foi o mês recorde, 25 posts em apenas 31 dias – estado de alma: apaixonado. Produção literária não particularmente destacável, mas ainda assim muito cheia de significado. E dou por mim a pensar em ti, e sinto-me deliciado com o que Maio me (nos) deu, em crescendo...

Wednesday, June 2, 2010

non-mainstream

Tenho para mim que a maior parte dos que vivemos nesta época contemporânea não chegamos a dar-nos conta da maravilha dos tempos que correm. Findo o apogeu da globalização, é possível usufruir de quase tudo, em qualquer lugar. A sensação provocada pela liberdade do acesso a praticamente tudo o que faz o mundo é uma recompensa única para as aflições que nos traz o excesso de informação. Desde que se ganhe uma certa capacidade de abstracção, este início de século tem tudo de bom para se viver. O meu eu conservador mantém-se um profundo apreciador dos tempos do pós-modernismo, mas hoje dou por mim embevecido por tudo aquilo que a vida tem para dar. Viaja-se muito. Lê-se o que se quer. Descobrem-se novos ritmos e melodias. É possível ser-se original. Existem menos tabus. Observa-se tudo. Conhece-se o que se quer. Pouco se esconde. Há não muitos anos atrás, estávamos condenados ao “mainstream”. Toda a gente ia de férias para sul. Liam-se os clássicos. A música era imposta pela FM. Vestia-se o que estava na moda. A imprensa nacional ditava o pensamento. Existia censura a rodos, marcada pelo estado da civilização a que chegáramos. Hoje, vivemos como queremos e as escolhas são infinitas, desde que não se assuma o espírito da “carneirada”.


ps- dei por mim a concluir isto enquanto te “enchia” o .mp3 player de música indie, alternativa ou clássica não convencional, de que tenho a certeza que vais gostar!

Tuesday, June 1, 2010

A parvoeira dos trópicos

A geografia importa muito. Mesmo quando se vive na amenidade do clima mediterrânico, quando se acorda para os primeiros dias a 30º C já se sabe que o rectângulo à beira mar plantado vai ficar infestado de criaturinhas com pouco que fazer e com calor demais para ficarem quietas no seu canto. Subitamente, parece que meio-mundo fica afectado pela parvoeira dos trópicos e decide sair da casca. Depois de passarem o inverno quietinhos a carpirem as mágoas, sentem-se despertos pela temperatura e convertem-se em arrojados “stalkers” prontos a chatear o vizinho. Não tenho paciência para isto e acabei de ligar o modo censura no blog. Sorry!

As regras do jogo

Ela não conhecia as regras, as regras daquele jogo de palavras juntas em frases bonitas. Ela tinha passado incólume pela idade dos amores, provavelmente sempre convicta do seu namoro. Ela não tinha vivido e sofrido o amor do início da idade adulta ou o do final da adolescência. Ela não sabia que a um “gosto de ti” se responde com amor sincero mesmo de palavras feitas. E eu quis ensinar-lhe tudo o que tinha aprendido, muito devagarinho. Mas afinal quem me mostrava o caminho era ela, porque sabia agradar-me como ninguém...


How I tried to catch you while
You ran ahead of me, I lassoed Mars
To see if you were hiding there
But you'd already ran past Jupiter to Pluto's moon
And my rope won't reach that moon

This a state of electrical shock
You were so beautiful
I thought you'd last forever
But you came and you went
When the lights went out
You went like you came
In a lightning bolt

Why did you go like this?
I slam against the wall
It's crushing my skull
Why did you go like this?
I slam against the wall
Of permanence, permanence
Permanence

Why did you go like this?
I slam against the wall
It's crushing my skull
Why did you go like this?
I slam against the wall
Of permanence, permanence

And like a ghost
I'm spinning with you
In circles
The dance of Pluto's moon

Monday, May 31, 2010

amigos

Proponho uma esplanada para nos encontrarmos a apanhar sol. Sei que tenho andado desaparecido mas também sei que para vocês isso é bom sinal. Não foi hoje que nos consegui juntar, uns optam pela praia e outros pela festa da criança no Museu da Electricidade. Acabo por passar a tarde com apenas uma parte, num magnífico recanto de Lisboa à sombra desta magnífica árvore:

[o espaço chama-se “Fabric Infinit”, Rua D. Pedro V ao Príncipe Real – highly recommended]

Sunday, May 30, 2010

Caras comentaristas anónimas:

1) Arrelia-me a falta de coragem para se darem a conhecer – aliás, sou irascível no que toca a perseguições
2) Não estou disponível e muito menos “à procura” – como bem se percebe pelo que escrevo, estou apaixonado, como tal as vossas provocações não me trazem nada
3) O conceito BILF assusta-me – vá-se lá saber como alguém se pode tornar sexualmente apetecível pelo que escreve, quando muito BILL
4) Por estas e por outras é que este blog já teve que mudar de casa umas quantas vezes – há também a opção dos comentários censurados ou desactivados mas eu sou a favor da liberdade de expressão, não me obriguem a isso
e já agora:
5) Não gosto da coisa dos “selinhos”
6) Também não alinho em “desafios postados”
Fiquem bem!

ps- Eu não escrevo neste blog para que me leiam, muito menos para ser descoberto enquanto BILF, BILL ou qualquer outra coisa. Escrevo porque gosto, e publico aqui porque sou suficientemente arrogante para querer partilhar metade do que me passa pela alma.

Saturday, May 29, 2010

“A inspiração não me importa para nada...”

Eu lá sou miúdo de ídolos e cultos... mas se me dessem a escolher conhecer, conversar, discorrer longamente, tranquilamente, com alguém, nem hesitava: Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares Filho, 102 anos vividos a criar eternidades num tempo que já não está para estas causas. Senador da Humanidade, por direito próprio – digo eu! – é para além de um grande Arquitecto, o verdadeiro pensador, com quem eu trocaria alegremente a vida vivida. Atente-se na perspicácia (contraditória quanto basta) do Senhor:
“Na vida, nada é importante, somos pequenos demais em relação ao Universo.”
“Não me sinto importante. Arquitectura é meu jeito de expressar meus ideais: ser simples, criar um mundo igualitário para todos, olhar as pessoas com optimismo. Eu não quero nada além da felicidade geral.”
“Não é o ângulo recto que me atrai. Nem a linha recta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, nas nuvens do céu, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o Universo. O Universo curvo de Einstein.”
“Acho o optimismo uma coisa ridícula, uma coisa que não leva a nada. Nós não queremos o niilismo, mas queremos uma vida dentro do que existe, não é? É duro, mas existe realismo.”
“Sou pessimista diante da ideia de que o homem, quando nasce, já começa a morrer... é preciso, então, aproveitar o lado bom da vida, usufruir o melhor possível e aceitar os outros como eles são. Sempre digo: o importante é o homem sentir como é insignificante, é o homem olhar para o céu e ver como somos pequeninos.”
“Todo mundo tem um lado bom e um lado ruim. O homem nasce numa lotaria: é bom, é ruim, é inteligente ou não. Se a gente aceita este facto como uma condição inevitável, a gente tem de ser mais paciente com as pessoas, aceitá-las como elas são.”
“Acredito na natureza: tudo começou não se sabe quando nem como. Eu bem que gostaria de acreditar em Deus. Mas não. Sou pessimista diante da vida e do homem.”
“Quando eu estava em Paris, andava sempre com um grupo do qual fazia parte um cientista, um físico muito inteligente que tinha sido incumbido de estudar a lua, no laboratório em que trabalhava... nos mostrou pedrinhas brancas da lua. O engraçado é que era uma pedrinha como outra qualquer. Tive vontade de ficar com uma daquelas pedrinhas...”
“A gente tem que sonhar, senão as coisas não acontecem.”

O Talentoso Mr. Ridley

Matt Ridley possui uma daquelas qualidades que tornam os homens ímpares: a capacidade de decifrar para o comum dos mortais a essência da vida, expondo-a prosaicamente em palavras inscritas no papel. Parece que decidiu voltar a fazê-lo, e depois de há muitos anos atrás este humilde miúdo de ciências ter devorado o “Genome: The Autobiography of a Species in 23 Chapters”, apetece-me entrar de férias e dedicar-me ao “The Rational Optimist: How Prosperity Evolves”.
Pequena lista de outras obras monumentais, muito recomendadas para a compreensão das coisas (porque a divulgação científica é, mesmo, uma arte):
The Periodic Table, Primo Levi
Deep Simplicity, John Gribbin
Guns, Germs, and Steel, Jared Diamond
(e ainda, num registo muito próprio: Calvin and Hobbes, Bill Watterson)

tiro e queda

E foi logo ali, enquanto regressava pela 2ª circular, ligeiramente acima da velocidade permitida e a olhar o azul do céu compassado pela lua quase cheia, um crepúsculo que mais parecia saído do filme do Bertolucci, que tive a certeza de que iria escrever muito por estes dias, e também procurar um refúgio no Adriático ou no Egeu para acordarmos juntos, quando tu quiseres.