Friday, July 23, 2010

the end of the affair

Ele tinha claro que não iria deixar de gostar dela de um momento para o outro. Isso nunca poderia fazer sentido, depois do que havia vivido. No entanto, compreendia que tinha esgotado as possibilidades, e que ao contrário do que queria já não havia ali felicidade. Mesmo indeciso, deixou-se levar no sentido contrário ao que desejava. Sabia que tinha que respeitar o que ela lhe dissera, porque era essa a natureza dele. Não entendia mas aceitava, resignado, e aqui sim, contra uma das mais-valias da sua personalidade. Fechou profundamente os olhos e recordou-a mais uma vez, como se aqueles olhos dela e aquela expressão muito meiga estivessem ainda à distância das suas mãos. E ficou quieto, com os olhos bem fechados, por alguns minutos, para garantir que não a iria esquecer.

Thursday, July 22, 2010

desperdício de amor

Chegou a casa a horas tardias e a sentir-se cansado. Continuava a sentir-se perdido, sem rumo e vindo dos subúrbios já nem a visão da cidade o parecia animar. Com fome, abriu o frigorífico e retirou dois ovos que partiu, despreocupadamente, sobre a frigideira. Juntou-lhes meia dúzia de ingredientes também perdidos no frigorífico. Restos de refeições passadas que, sem escolher muito, atirou para cima dos ovos em ponto mexido. Afagou-os rapidamente com uma colher-de-pau. Por cima, colocou muitas folhas de coentros e sentiu-se o melhor cozinheiro do mundo. Enquanto se deleitava com o garfo na mão direita, sentiu-se inspirado e decidiu chamar aquele “prato” desperdício de amor. Experiência a não repetir.

Tuesday, July 20, 2010

“Homem moderno”

Ser homem moderno implica manter um certo distanciamento. Sobreviver aos silêncios. Resistir à vontade de abraçar. Fazer as vontades. Saber respeitar. Não ser demasiado lamechas. Cumprir objectivos. Estar disposto a mudar por se amar. Ir ao encontro dos sonhos. Garantir o carinho, mesmo sem reciprocidade. Ser capaz de dar. Fazer muitas das coisas de que só elas gostam, com um sorriso sincero. Conseguir arriscar, mesmo sabendo que nos podemos magoar. Esperar o melhor, sem nos desviarmos com todas as tentações à nossa volta. Saber falar com profundidade mas sem assustar. Ser forte para além do sentido estético. E parece que também implica aceitar um pouco das tendências modernas: estar na moda, alguma depilação, civismo na condução, emancipação, como se nós fossemos capazes de sobreviver sozinhos, limpezas do rosto e abdominais em forma, sem muito suor. Chorar, exclusivamente nos momentos certos. Amar porque é isso o que se quer. E tudo isto, não necessariamente por esta ordem, compensa? Parece que não...

de volta

A única constante destes últimos tempos passados na cidade: chuva em Lisboa. Acabaram de cair um pingos!


Sunday, July 18, 2010

o amor dos outros - Stratégie de la Rupture

Final de dia na praia, com algum vento vindo do noroeste. Eu a ouvir Wim Mertens – Stratégie de la Rupture no iPod. Vejo-os aproximarem-se. Ela de vestido azul. Ele de calção de banho e t-shirt encarnada. Vejo-os encontrarem-se. Beijam-se nas faces. Ficam ali, a dois metros da água. Falam muito, devagar, um com o outro. Pés fixos, semi-enterrados na areia. A maré vai subindo. As gentes vão abandonado a praia, à medida que o vento começa a levantar areia. Eles recuam meio metro e voltam a fixar os pés na areia molhada. Observo-os. Continuam a falar, uma vez um, depois o outro. Ponho o Wim em repeat. Falam mais e ela começa a chorar. Ele olha-a com ternura e coloca a mão direita sobre a cintura, nas costas dela. São jovens, vinte e poucos anos. O mar cobre-lhes os tornozelos. Ela leva as mãos à água e passa-as pelos olhos, para disfarçar as lágrimas. Falam mais um pouco. Despedem-se com mais dois beijos. Ela diz-lhe qualquer coisa e começa a afastar-se. Passa à minha frente, claramente triste e com vontade de chorar. Ele fica a olhá-la enquanto ela se afasta, ele com os pés ainda enterrados. Muito tempo, enquanto ela desaparece pelo meio da praia. Ele vira costas e corre pela areia, direcção sul.

Saturday, July 17, 2010

Back to New Wok

Elas - O que vais fazer nas férias?
Eu - Ainda não sei, só tenho uma semana. Talvez um cruzeiro de solteiros ou Ibiza.
Ela 1 - Um cruzeiro de solteiros... ainda fazes um “amigo”.
Eu - Não, um cruzeiro hetero!
Ela 2 - Agora a sério, o que vais fazer nas férias?
Eu - Já disse: um cruzeiro de solteiros ou então Ibiza. Ou então, Escandinávia. Nunca fui e já fui apaixonado por uma sueca.
Ela 1 - Por uma sueca? Quando?
Ela 2 - Ah, num colégio em Inglaterra, daqueles de verão.
Eu (para os meus botões) - (Pois foi... bons tempos)

Estampei-me

Estampei-me de forma mariquinhas. Sem airbags a saltarem, sem ferimentos graves, sem direito a férias de sopas e descanso no hospital, e visitas dos amigos para me verem enrolado em gaze. Limitei-me a ficar a sangrar de um dedo, porque a mão me escorregou do volante. Estupidamente, hoje até fiz parte da A5 em excesso de velocidade e podia ter-me despistado e capotado, dando cabo do Golf e encontrando motivo para comprar o novo Touareg. Mas não, limitei-me a enfiar o capot no carro da frente a 40 km/h em plena Defensores de Chaves – que nome de rua tão parvo, para se colocar na “declaração amigável”, à pressa e atrasado para uma reunião...


Thursday, July 15, 2010

estirpe surrealista

Chamava-se Maria e tinha um coração enorme, três vezes maior do que o comum dos corações. Na meninice sofrera de uma virose que lhe tinha afectado o coração e este crescera desmesuradamente, apertando-lhe o peito por dentro, mesmo à medida que crescia. E ela cresceu, tornando-se uma miúda bonita, primeiro, e transformando-se numa mulher perfeita, depois. Viveu sempre a vida despreocupada mesmo com aquele aperto vindo do interior. Encantava as pessoas com o seu jeito e com aquelas batidas compassadas que se ouviam quando ao perto. No dia em que conheceu o amor, encontrou-o numa esplanada abafada pelo sol quente do início da tarde. Era o final da época dos dias de chuva e ele apresentava-se constipado. Surgiu-lhe sem aviso, metendo conversa desde a mesa ao lado enquanto ela fumava um cigarro que o fizera sentir-se incomodado, com o fumo a interpor-se entre os olhos e o livro que lia. E logo ali, quando ele a interpelou, olhos nos olhos, ela sentiu o coração grande a querer sair do peito para fora, descompassado. E não se fez rogada, aprofundando a conversa, que surgira do nada, e apagando o cigarro. Ao cair da noite ambos estavam dominados um pelo outro, conhecendo-se tão devagar quanto o tempo, pausado, havia permitido. E ele arriscou beijá-la profundamente mas sem a agarrar ao que ela correspondeu prendendo-o simplesmente com os lábios. E sentiram-se bem, desejados um pelo outro como nunca ninguém. E com aquele beijo bem preso no ar, ela deixou-se contaminar por aquela estirpe de vírus moldada pela personalidade dele que se instalou no coração grande dela. Maravilha da genética, passaram a amar-se.

Abstand

Os alemães têm destas palavrinhas mágicas que, para além de produzirem um som delicioso tanto gritadas como sussurradas, conseguem condensar um estado de espírito em poucas sílabas arranhadas. “Abstand” pode servir para “dá-me espaço” e hoje, cansado que estou, é isto que me apetece: espaço e distância. Por isso vão lá às vossas vidinhas mais ou menos maravilhosas, repletas de sonhos idiossincráticos, objectivos preconcebidos e desejos de reconhecimento acumulados, e deixem-me ficar sossegadinho, vago das vossas preocupações terrenas e aberto a novas experiências.

Wednesday, July 14, 2010

tenacidade (*)

Ela insistiu, provocando-o com um segundo email e ele admirou-lhe a tenacidade. Só por isso, convidou-a para jantar sushi numa esplanada selecta. A noite nem estava particularmente quente, mas ele decidiu dar uma oportunidade ao que poderia ser amor. Desta vez fixou-lhe o rosto, definitivamente bonito, e deixou-se levar pela conversa tornando-a agradável. Mas quando a viu baralhar-se com os pauzinhos, ele sentiu saudades. E a partir daí, ele já não estava ali e nada daquilo poderia resultar. Sentiu-se triste porque sabia que ela tinha algo para lhe dar. Good placebos are hard to find...


(*) cada vez admiro mais esta qualidade.

Monday, July 12, 2010

Os amigos dos filhos dos amigos

Ontem, no mais esplêndido areal de que já nem me recordava, conheci esta menina de 7 ou 8 anos, carente de pai (divorciados?), e muito maravilhosa, que me deixou derretido e a pensar na vida, quando me pediu para lhe preparar “...um pão com manteiga... tio Ricardo” e me encantou com as suas certezas muito absolutas, para a idade minorca:

Ela - Eu odeiooo camarões...
Eu - Ah sim? E bife com batatas fritas?
Ela – Gosto muuuito...

Ela - Eu odeioo espanhóis...
Eu - Mas porquê, C.? Fizeram-te algum mal?
Ela - Porque odeiooo...
Eu - Mas C., tu conheces algum espanhol?
Ela - Eu não, mas odeiooo espanhóis...
Eu - Miúda, tens que ser mais positiva!

Ela (depois do jantar) - Quem ganhou o jogo?
Eu - Más novidades, os que nós não queríamos!
Ela - Nãooo! Eu odeiooo espanhóis...

(tudo dito)

Sunday, July 11, 2010

Destilar

Passo o dia a destilar a vodka da noite passada deitado na Praia Grande com os olhos muito fechados. Ouço o som do mar atlântico muito característico deste lugar. Conheço bem quem já tenha sido feliz nesta praia de sol incerto.

Friday, July 9, 2010

Sucesso é...

Esta semana ganhei um projecto muito importante, novo cliente e muito trabalho para o verão – logo para mim que nem estou nada a precisar de férias... Fiquei a saber que vou ter um aumento chorudo, mesmo em tempo de vacas magras – ainda não é oficial mas já sabe bem, apesar do novo escalão dos impostos... O primeiro “briefing” como candidato a Partner também correu bem – apesar das vacas escanzeladas, pode ser este o ano entre 48 candidatos para 15 promoções... Senti-me um par de vezes brilhante e a gostar do que faço – não está nada mal, às vezes nem sei como continuo nesta vida... Hoje até joguei no euromilhões – só não sei que ganhei porque ainda não fui ver a chave... E agora vou ali meter-me nos copos – para festejar...

Mariana

Conheceu-a numa reunião profissional. Ela sentou-se ao seu lado numa cadeira giratória que rodou com destreza, sem movimentos bruscos, para o observar. Ele fixou-lhe a cor das unhas, bem pintadas de azul, e as flores da camisola, encarnadas e engraçadas, mas não o rosto, simplesmente bonito. Ela olhou-o de soslaio, sorrindo-lhe, enquanto ele falava, e ele concentrou-se no que apresentava. Quando ele terminou, ela fez dois ou três comentários pispirretas, e ele sentiu-se demasiado criticado. Despediram-se com um aperto de mão, bem dado, e ficaram a pensar um no outro durante o que sobejava do dia. Ela tinha o contacto dele e arriscou enviar-lhe um email. Encontraram-se num bar de Lisboa, logo na noite seguinte. Poderia ter sido o efeito do fato de linho azul, meio amarrotado, ou o cabelo já comprido mas com ar macio, de que elas parecem gostar. Conversaram por uma hora ou duas, entretendo-se com banalidades, e ele sentiu-a cativada, mesmo sem usar do seu charme. Ele não se sentiu entusiasmado e ela sofreu um desgosto.

Wednesday, July 7, 2010

Amor portátil (geek post)

O amor devia ser portátil. Aliás, a paixão também. Portátil com “plug-in”. Desligava-se desta pessoa de quem se gostava, a bateria mantinha o processador em funcionamento, e ligava-se o coração a outra pessoa pronta para ser amada. Sem necessidade de “reboot” à memória. Imediatismo total, sem ponto final. Tudo o que de bom se havia sentido passava para a opção seguinte, sem tempo de arrefecimento, sem sofrimento. Acho que seríamos todos muito felizes e também faríamos os outros mais felizes. Mas afinal, somos uns imperfeitos – seres humanos, humpff!

O bom destes dias

O bom destes dias de calor africano é sentarmo-nos com os amigos, que por cá estão, junto ao rio largo onde corre uma aragem agradável, a trocarmos histórias corriqueiras, intercaladas com visões profundas de como a vida pode ser boa. E rirmo-nos dos disparates que a temperatura faz sobressair e das divagações, como se amanhã fosse um dia de praia com as toalhas ao sol e o mar pronto para mergulhar.


Tuesday, July 6, 2010

Porque será

Porque será que recebo um sms quando a noite já vai tão alta e quente, e não é o que eu quero, quem eu quero. Estas noites de calor vindo do Saara ameaçam tornar-se insuportáveis e eu tenho saudades do “Chá no Deserto”.

Sunday, July 4, 2010

Old friends

A sensação mais estranha é que parece que nos conhecemos desde sempre. Parece que somos todos irmãos e que não deixámos de crescer separados. Parece que sabemos as histórias que um e outro vai contar, a forma como alguém se vai rir, outro sorrir, e outro responder. E é uma impressão muito boa e que, creio, interpretamos todos como confortável. Praticamente todos têm já filhos, alguns vão no terceiro, outro há que já vai no segundo casamento e tem um enteado. Fomos todos aos diversos casamentos e alguns a muitos dos baptizados. Saímos juntos quando éramos recém-adultos. Fizemos férias juntos. Conhecemos as namoradas e os namorados que foram passando pela história do grupo. Acompanhámos as novelas, os sucessos e insucessos das nossas vidas amiúde partilhadas. E conhecemo-nos há muito e muito tempo, alguns desde os 5 anos de tenra idade.


Can you imagine us years from today, sharing a parkbench quietly
How terribly strange to be seventy

Old friends, memory brushes the same years, silently sharing the same fears

Coisa de que eu realmente gosto e já nem me lembrava

De chegar a casa com a noite semi-cerrada e de me enfiar debaixo do duche para sacudir a areia de um dia de praia.

E hoje estavam 37º à ida, na ponte sobre o Tejo, e 31º C à vinda – finalmente o calor dos trópicos deu à costa!

Saturday, July 3, 2010

brit

E eis que chego a casa depois de uma noite demasiado quente – apesar da temperatura até amena para a época do ano – e dou por mim a pensar onde raio a minha amiga S. desencantou aquela personagem de nome K. absolutamente neurótica – even by british standards –, que insistiu em oferecer rodadas de cerveja a toda a gente que cumprimentámos no bairro enquanto se agarrava a mim, pedindo-me que lhe contasse a minha história – como se a minha história tivesse algo de interessante para se contar, ainda para mais em inglês – e afagando-me o cabelo já comprido. E dou por mim a pensar porque, volta e meia, com a chegada do verão, a minha vidinha se vê invadida de gente “non-sense” em vez de repleta do que eu quero para mim. E ainda sem sono, e meio assustado, volto aqui e ponho-me a ouvir Animal Collective, semi-alucinados, enquanto leio um dos melhores blogs do circuito, escrito por um miúdo que eu sei que conheço da vida real.