Saturday, August 7, 2010

excertos #6

10
I was born when you kissed me. I died when you left me. I lived a few weeks while you loved me.
- Humphrey Bogart


Alguns dias mais tarde voltei a encontrar-me com o Tomás, desta vez no Timbuctu ao início da tarde. Eu sentia-me confuso com os desenvolvimentos da minha nova relação, ao ponto de nem saber se devia classificá-la assim ou se seria mais uma ligação, e aproveitava o facto de já ter aberto o coração com o Tomás.
- Sabes Tomás, isto evoluiu muito e muito rapidamente e eu estou a sentir-me muito perdido, sem norte. Ela enche-me tanto, mas tanto, as medidas que eu sinto-me realmente com medo de onde isto vai parar. E tu sabes como sentir-me inseguro é contra-natura para mim que sou sempre tão convicto das minhas certezas, opiniões e decisões. Mas ela tem aquela característica única de me fazer vacilar, tremer, e querer entregar-me como nunca me tinha acontecido antes. E tu sabes, o desconhecido pode ser extremamente fascinante mas também nos faz hesitar e eu tenho realmente medo de errar em algum pormenor que faça tudo isto desabar. É quase como se me estivesse a tornar supersticioso, logo eu que não suporto o místico.
- Isso não é definitivamente bom. Já te estou a ver a meteres os pés pelas mãos e a estragares tudo do dia para a noite. Estás a deixar-me cada vez mais curioso, por conhecer essa mulher tão fascinante que te faz querer entregar assim os pontos.
- Sim, é mesmo isso, alguém que me toca a alma e me faz duvidar sobre a existência antes de a conhecer. Alguém que me desperta os sentidos que eu desconhecia possuir até aqui. E isto até parece uma paixão bacoca, mas é tanto mais que isso que eu já não sinto os pés firmes na terra. E ela apetece-me muito, tantas vezes, que quase se torna real, mesmo quando não estamos verdadeiramente juntos. E depois tem aquela forma única de me abraçar, que oscila entre o imperfeito e o aperto profundo que me faz sentir desmesuradamente vivo.
- Humm… já pareces o Humphrey com a Bacall, em abraços cinematográficos.
- Ah pois, também penso nisso, ela encostada ao meu peito e os beijos perfeitos, mas isto não é cinema, é vida real.

Friday, August 6, 2010

Mar de sabedoria

E foi durante aquele jantar a dois, naquela esplanada num recanto da cidade, mergulhado num vento quente e seco, que ela lhe chamou de “Dalai Lama” e traduziu-lhe o significado das palavras tibetanas para: tu és o meu “mar de sabedoria”. Conheciam-se há alguns anos, 6 ou 7. Ele era mais velho, também 6 ou 7 anos, mais experiente, mais capaz de interpretar aqueles olhos azuis, inseguros, que o observavam desde o outro lado da mesa. Ele sempre soubera que não devia deixar-se levar pelo encantamento daquela miúda mais nova. Soubera-o desde o momento, alguns anos antes, em que se haviam encontrado pela última vez, num almoço tardio, numa outra esplanada aquecida pelo sol, apenas os dois, numa mesa isolada e envolta pelo calor do pino do verão. Fora talvez esse mesmo calor que lhes havia aguçado o apetite e a memória um do outro, e por isso tinham combinado aquele jantar. Ele conhecia-lhe o fascínio pelas religiões orientais e a admiração pelos costumes tibetanos. Ele falou-lhe vagamente sobre um artigo que havia lido recentemente, que propunha a mesma raiz genética para os povos Han e Tibetano – extremamente ofensivo para os dois “credos” que se consideravam reciprocamente superiores um ao outro. O pormenor das diferenças marcado por 3 mil anos de apuramento da “raça” e da vida a grande altitude. Em qualquer caso, deixava a questão no ar: seriam os Tibetanos descendentes dos Han ou vice-versa? Mas aquela conversa, mesmo se a dois, não passava dali e foi quando ela soltou aquela frase, verdadeira para ela, que ele se sentiu cansado de tudo aquilo, olhou-a nos olhos, bonitos, e deu-lhe o seu “namasté”.

Wednesday, August 4, 2010

O passado presente | “apetece... ou ias comigo”

E foi porque decidiu percorrer ignobilmente a lista de contactos no telefone que voltou a sentir-se capaz. Nos As não havia nada, amigas casadas e um affair passado a que jamais regressaria. Nos Bs uma espanhola que dele gostara. Nos Ds nem sequer existiam nomes no feminino. Nos Es apenas a mãe de uma antiga namorada. Nos Fs uma possibilidade demasiado problemática. Pelos Gs e Hs passou rapidamente, sem sequer parar. E quando chegou ao I descobriu o que desejava e enviou-lhe uma mensagem. E ela respondeu-lhe:
“Ricardo, perante esse sms apetece... Mas tenho 1 jantar + copos na fábrica braço de prata... Que ou ias comigo ou fica complicado, por isso sugiro: 'se amanhã ficar em lisboa, posso convidar-te para sushi ao jantar?'”
E ele fixou-se primeiro no “apetece”, depois no “...ou ias comigo” a tentar perceber se seria um convite. Definitivamente, I. tinha o dom de o surpreender e de o fazer sonhar. Uns olhos lindos, muito bom gosto, um espírito alegre misturado com um bocadinho de insegurança latente para uma miúda feita, do signo balança e solteira. E respondeu-lhe rápido:
“Humm, amanha tenho eu um jantar. O sushi parece-me muito bem, se quiseres domingo ou durante a proxima semana - ja foste ao novo do Olivier, no Tivoli Forum? Beijo”
Mas o sms não saiu logo e ele agradeceu o controlo de espontaneidade. Algumas horas mais tarde, chegou-lhe a resposta:
“Não.. Mas parece-me bem. Ou esse ou o umai. Então jantamos ou domingo ou próx semana. :) Beijo.”
E ele ficou a sentir-se feliz e um pouco fútil também, encantado com o smile, porque finalmente se abriam possibilidades.

Tell me a line, make it easy for me
Open your arms
Dance with me until I feel all right

But there's love in your eyes
Love in your eyes, love in your eyes
But maybe that's just what your lover finds

Tuesday, August 3, 2010

O pretensioso-e-fútil-em-transporte-alternativo

E pronto, tenho o carro na oficina por uns dias e dou por mim a recorrer ao táxi mais do que o trabalho me exige. Não bastavam os Mercedes fumegantes e a cair aos pedaços, que eu imagino sempre saídos de um filme turco, saem-me também os taxistas broncos que nem sabem o caminho para minha casa – que diga-se é numa das ruas emblemáticas de Lisboa. Hoje de manhã saiu-me um velho de suspensórios e com mãos de cavador que quase não conseguia escrevinhar o recibo que lhe pedi. Esta noite, um mancebo cavalgadura a quem tive que explicar como virar à esquerda depois do hotel, enquanto ele me confessava que era “novo aqui” – está certo, veio das berças, ainda existe disso?

O dilema

Como se explica a uma miúda cheia de vontade de entrar na minha vida, alguém que nos oferece muitas possibilidades de felicidade, que tenho o coração aberto em sangue e que tem que me dar o tempo suficiente para arrumar as ideias, porque não, não me vou apaixonar, à séria, duas vezes de seguida. "Vemo-nos depois das férias"?

O banho-maria

O banho-maria é aquele estado em que “se é” mas “não se é bem”. Aquela fase, regra geral infinita, em que “se poderia ser” mas “é melhor assim”. Aquela sensação dúbia e interessante do “pode vir a ser mais” mas “está tão bom como está”. O MEC que teve a graça de ser brilhante, antes de vivermos o pós-modernismo, percebia mesmo disto e escreveu sobre isto dos amores requentados e em banho-maria, dos bicos de fogão que se acedem e apagam para se manter a temperatura, numa crónica muito brilhante que agora não consigo encontrar, entre os livros cá de casa, para plagiar aqui. Mas também não interessa para nada, porque toda a gente sabe do que estou a falar. São aquelas paixões que se mantêm em “hibernação”, só porque “nunca se sabe” o que podem dar, um dia. E isto é bom? Já não sei.

Monday, August 2, 2010

Remember all

Enches-me muitas vezes o pensamento. Eu e tu no concerto das três miúdas, a tua conversa inteligente e charmosa, os beijos fortuitos “em público”, as nossas mãos bem dadas e a tua expressão muito apaixonada na cadeira ao meu lado.

Sunday, August 1, 2010

O princípio do princípio

Ontem fui ver o muito falado “A Origem” que passa por ser o melhor filme do ano – até ver. Para além de ter saído do cinema com muita vontade de condução furiosa – valeu-me Lisboa estar mais ou menos deserta de bólides –, a história não é muito original. Já todos os que temos dois neurónios a funcionar em condições, nos pusemos a questão do “viver dentro de um sonho” à espera de acordarmos para a “vida real”. Fiquei preocupado sim, com os que tendo algum neurónio menos funcional possam sair do filme cheios de vontade de porem um pião a girar ou a probabilidade de simplesmente cortarem os pulsos…
Quanto ao DiCaprio, até pode ser um galã mas de grande actor tem pouco – até a miúda do “Juno” vai melhor no filme – e mesmo assim arrisca-se a ganhar o perseguido Oscar.

Fútil em mais um dia de praia

Eu - Estou a pensar em trocar de carro… por um Alfa Romeu… o Spider. O que achas? Gostas?
Ela (minha amiga) - Ai Ricardo, se continuas assim não há quem te ature… ninguém tem paciência para depressivos!
Eu - …

Saturday, July 31, 2010

Corte de cabelo

Tenho que ir cortar o cabelo e sinto que vou apagar História. São as madeixas que já te fizeram calor no rosto, as pontas que já se enrolaram nas tuas e as raízes por onde os teus dedos já passearam, com carinho. Os rapazes usam o cabelo curto e vão menos ao barbeiro (cabeleireiro), mas isso não parece diminuir a memória destes pedacinhos de ti que a tesoura vai cortar. E hesito, entre ir hoje ou adiar para a semana, mesmo sabendo que já pareço um ciganito.

Friday, July 30, 2010

escrita

Escrevo porque gosto muito. Escrever é, para mim, o exercício supremo. A inteligência humana colocada perante o desafio de dizer o que lhe vai na alma. Escrevo mais, muito mais, do que o que vou publicando por aqui. Desde muito novo, em cadernos de folhas brancas, depois em Moleskines e no Word. Hoje em dia, até no Blackberry, de teclado completo. Já escrevi em inglês, espanhol e até um pouco em francês, para além do português, dependendo da vontade. Já escrevi ficção e muita realidade. Histórias curtas e capítulos avulsos, como esboços de um romance que um dia vou escrever numa janela com vista sobre Siena. Para além de quem gosta de me ler aqui, tenho fãs de carne e osso, que foram tendo a sorte de lhes escrever algo dedicado. Acho isso equivalente a pintar um quadro, ou compor uma melodia para se oferecer a alguém. Muito do que escrevi foi plenamente oferecido. Talvez não tão valorizado, porque o sentido da estética na escrita é menos imediato do que as sensações permitidas por um Rothko pendurado na parede, a perfeição das mãos de um Rodin ou o deslumbramento das Valquírias do Wagner. Actualmente, escrevo mais do que leio, porque escrever bem perdeu-se com a democratização da literacia, e restam poucos autores que mereçam realmente ser lidos. Estranhamente, creio que ao contrário da maior parte das pessoas, escrevo mais com o tempo quente do que no inverno, e gosto, particularmente, de ter água por perto. Uma praia é quase um lugar perfeito para eu escrever. Há também alguns lugares que me inspiram, para além do labirinto de Siena. Aviões. Quase sempre que voo apetece-me escrever, em particular se tenho a janela com uma vista sobre as nuvens ou a Terra. Já escrevi coisas bonitas no terraço da Tate Modern, no alto da escadaria da Piazza di Spagna e em algumas esplanadas com vista para Lisboa. Creio que o turbilhão das gentes lá em baixo, os telhados e a vista do céu me inspiram. Escrever tem o dom de não acompanhar o pensamento, escreve-se necessariamente mais lento do que se pensa e isso é fascinante porque obriga ao “ralenti”, permitindo o duplo ou triplo pensamento.

Thursday, July 29, 2010

o percurso

Foi talvez quando voltou a ouvir, por sugestão, o Keith Jarrett de há meia vida atrás, ou debaixo do chuveiro num final de tarde muito quente, que se apercebeu de que estava a mudar. Uma mudança astronómica que tinha parecido disciplinada no meio do turbilhão das sensações.
Constatou-o pela quantidade de palavras que vinha escrevendo, em crescendo, desde há uns 6 meses atrás. Constatou-o pela forma mais sentida como começava a interpretar a vida. Constatou-o pelas últimas conversas verdadeiramente profundas que havia tido. Constatou-o com o imenso calor do verão que lhe envolvia o corpo.
Alguns meses antes sentia-se feliz consigo mesmo, sem obrigações ou grandes desejos. Vivera uma larga temporada de olhos fechados e tranquilo, mesmo se entretido. Depois acontecera-lhe tudo de forma sinfónica e isso ajudara a despertá-lo.
Percebeu que na vida profissional estava a um passo do cume e que os novos desafios, a partir dali, seriam apenas uma questão de tempo ou vontade – sentiu-se realizado. Percebeu que sobre o significado da vida já muito havia explorado – as respostas importantes continuariam a surgir ao acaso. Percebeu que conhecia mais e melhor o mundo do que alguma vez concebera – faltava-lhe o imprevisto. Percebeu então o que realmente queria…

quadro à vista

Gosto muito quando as reuniões de trabalho me levam mesmo ao centro mais bonito da cidade. Hoje tive de ir ao Chiado às 3 da tarde e subir a Rua do Carmo com 35 graus à sombra, para uma reunião com este quadro à vista:

Elvis no evil

Aceitei o convite, bom, para o concerto do Costello. Fiquei com vontade de ouvir aquelas canções mesmo tristes que só ele sabe. Afinal enganou-me e mudou-se para a country music. Valeram os encores lamechas e a noite muito quente de Cascais.

She
Who always seems so happy in a crowd
Whose eyes can be so private and so proud
No one's allowed to see them when they cry

She
May be the love that cannot hope to last
May come to me from shadows of the past
That I'll remember till the day I die

Tuesday, July 27, 2010

Apontamentos

Apontamentos para o sucesso de uma relação amorosa (após um almoço com a ex-namorada):
1) Nunca sintas nem provoques ciúmes – não há nada mais cáustico para um amor que se quer verdadeiro.
2) Sê sempre irredutível no que toca às tentações – elas têm memória de elefante e uma imaginação assustadora.
3) Assume que a tua proporção do amor é sempre a maior dos dois – começar repetitivamente do zero é sempre melhor.
4) Pára, escuta-a e olha-a nos olhos, antes de começares a divagar – ela vai notar que conheces o sentido das prioridades e que és um cavalheiro.
5) Nunca hesites em demonstrar o amor que sentes – ser romântico nunca fica mal.

Nota: Ela hoje está apaixonada por um miúdo 6 anos mais novo e eu desejo, mesmo, que tudo lhes corra bem.

Monday, July 26, 2010

contrastes

Tenho um amigo que usa o facebook para anunciar ao mundo as novidades: “Just getting divorced and starting a GREAT LIVE”.

Admito ou assumo que esteja genuinamente feliz… ou então é só mesmo um truque.

Sunday, July 25, 2010

2ª Mãe

As pessoas que marcam definitivamente a minha vida, fazem-no deixando-me imagens gravadas na memória que sei nunca vou esquecer. Lembrei-me hoje de ti e de uma longa conversa que tivemos no meio da vinha, mesmo no início da época das vindimas. Eu acabara de fazer 15 anos e enfrentava uma temporada de mudanças significativas e que me assustavam. Tu que eras a mãe daqueles quatro miúdos maravilhosos que foram como irmãos para mim desde o momento em que me conheci, e que na verdade assumias o teu papel de 2ª Mãe como se eu fosse o teu mais novo, que aliás tinhas ajudado a trazer ao mundo, apercebeste-te ali, no meio das uvas carregadas por onde passeávamos, que o teu "mais novo" sofria, apesar de ser um estóico. Perguntaste-me o que se passava e conseguiste explicar-me com toda a tua sabedoria e experiência de grande médica que a vida era feita disso mesmo, de mudanças, e que estas eram geralmente boas. E foi tudo como adivinhaste, aquele ponto médio da minha adolescência revelou-se marcante e fez muito de mim, o que hoje sou.
Há menos anos atrás quando ficaste realmente doente, escreveste-me uma carta de despedida, desde a cama do hospital. Uma carta que me fez chorar perdidamente porque mencionavas o episódio na vinha. Estavas enganada com a despedida, e depois disso, quando recuperaste por uns tempos bons, levei-te a almoçar, reservando a mesa com a melhor vista de Lisboa. Só eu e tu no nosso último momento de cumplicidade, voltámos a conversar longamente, eu de executivo e tu de garrafa de oxigénio. Lembro-me que pediste salmonetes e gravei o teu sorriso de felicidade por estares ali com o teu “mais novo” transformado num homem.
Se tu soubesses, 2ª Mãe, a falta que me fazes por estes dias, creio que viajarias no tempo para me voltares a encontrar no meio da vinha.

a praia

Encontravam-se a meio da tarde no empedrado e desciam pela passadeira de madeira até à areia, lado a lado. Caminhavam, olhando um para o outro sem se falarem, num silêncio que ambos sabiam confortável, enquanto apreciavam os tons da pele um do outro que tão bem conheciam. Ele de cabelo algo comprido, meio despenteado e castanho esbatido pelo sol, de bermudas caqui e t-shirt azul-escura com a toalha na mão. Ela com um vestido giro sobre o bikini, saco gigante ao ombro, o cabelo loiro meio enfiado no chapéu de palha e olhos protegidos pelos óculos de sol. O vento soprava quente vindo do mar e por isso escolhiam estender as toalhas junto à protecção de um muro de pano para alugar. Deitavam-se na perpendicular com as caras muito próximas e ela tirava os óculos para se verem olhos nos olhos. Não se viam há muito tempo mas não se tinham perdido. Os dois sabiam o que havia ali, apesar da distância e da ausência quase extrema. Não precisavam de se tocar para continuarem a sentir-se enfeitiçados, embora o toque fosse verdadeiramente encantador para um e para o outro. Conversavam então, longamente e ao sabor do vento, mais sobre o presente do que sobre a história passada. Contavam-se as novidades e ansiedades do momento, de forma perfeita e em sintonia. Trocavam algumas ideias sobre o futuro, sabendo que se poderiam tornar reais. Ela passava-lhe a mão sobre a face percorrendo-a até às pontas do cabelo solto. Ele fazia-lhe festinhas no braço até à altura do ombro. Procuravam o beijo no preciso momento em que o vento os atacava do outro lado do muro e tinham que fechar os olhos para se protegerem da areia. Sorriam por saberem tão bem que só a eles lhes poderia acontecer assim, como se até os elementos conspirassem para que tudo fosse tão único. Adiavam então o beijo, e caminhavam pelas dunas com as mãos presas apenas pelas pontas dos dedos, finalmente.

“Queres haxe mano?”

Vestiu uma camisa fresca e as calças azul-escuras e saiu para a noite quente. Jantou com os amigos numa esplanada engraçada no centro cosmopolita de Lisboa e a conversa discorreu-lhes alegre, por entre os idiomas diferentes que os rodeavam. O casal da mesa anunciou que vão mudar de casa em Setembro, deixando desde logo o convite para uma festa. Pediram jarros de sangria branca e maravilharam-se com os pratos bem servidos aquelas horas tardias. Foram esmorecendo, entretidos pela excitação de um grupo de espanholas em despedida de solteira e pelo efeito do vinho misturado com a fruta fresca. Pediram sobremesas e deixaram-se levar pelo torpor induzido pelo calor da noite. Ele pediu um banana split, lembrando-se de prevenir a cãibra que o atormentara pela manhã. No caminho para o carro ofereceram-lhe “Queres haxe mano?” e ele respondeu “Não, obrigado!”. Regressou a casa cedo, sem desfrutar a noite como inicialmente desejara, mas a sentir-se ligeiramente feliz.

Saturday, July 24, 2010

Calor em Lisboa

Acordo triplamente atacado por uma melga que me entrou no quarto, uma cãibra aguda na barriga da perna esquerda e uma enxaqueca que me esmaga os olhos. Ainda tenho sono mas já não vou conseguir dormir mais. Abro a janela e constato que já faz um calor assustador em Lisboa. Um calor daqueles capaz de sublimar a água da chuva oculta no solo. Na bancada da cozinha encontro uma banana que decido comer, enquanto preparo um café muito forte, sem açúcar. No frigorífico descubro um pepino que me deixa a pensar em colocar rodelas sobre os olhos doridos. E o calor em Lisboa deixa-me indeciso entre ir destilar para a praia ou esparramar-me no sofá a dormir mais um pouco. Apetece-me mudar a estação.