Thursday, November 25, 2010

Imbecil auto-crítico

Ao ler este blog com algum distanciamento, fico assustado com a quantidade de imbecilidades que fui escrevendo ao longo dos últimos meses. Creio que lhe deveria mudar o nome para “Verborreia em Lisboa” ou “O prolixo em Lisboa”. Cai chuva, cai – com o frio que faz, pode ser que saia um granizado!

Sunday, November 21, 2010

Witty wish

Tínhamos o privilégio de uma lareira acesa em Lisboa – eu gosto do calor da madeira a arder quando faz este frio húmido incaracterístico da cidade. O jantar tinha sido descontraído, apesar de ambos imaginarmos ao que íamos – acho graça ao processo intencional dos amigos que tentam suprir o que acham que nos faz falta com base em equações magnânimes de “vamos convidar R e K para jantarem cá em casa, e deixamo-los sozinhos no momento (que imaginam ser o) certo”. Por um instante alimentei a esperança de que tudo fosse assim tão simples, quando ela se virou para mim, com os olhos muito abertos e as pestanas carregadas de rimmel, e me disse:

- You’re a witty kind of guy!

E eu que não sabia o que queria dizer “witty”, mas não quis dar parte fraca, deixei-a prosseguir a conversa, embora cheio de vontade de usar o BB para entender, realmente, o que ela me estava a querer dizer.

- You’ve got this great energy within you that most people will notice once they meet you.

- …

- Have you ever seen “Brick Lane”? It’s this movie about a young girl living in London against her will, she’s from Bangladesh, and she has this wonderful thought about “love”, that you can actually induce into most things in life, and I like to quote: “There are different kinds of love: the kind that starts deep and slowly wears away. It seems like you will never use it up and then, one day, almost suddenly, you just realize it’s finished. Then there is the kind you do not notice at first but which adds a little bit to itself every day like an oyster makes a pearl, grain by grain, a jewel from the sand.” Do you get it?

E eu respondi-lhe que sim, que entendia o que ela me estava a querer dizer, mas a partir dali já não me sentia nada no registo “witty” mas sim no “let’s call it a night”.
Get a life, boy. 

Thursday, November 18, 2010

O precipício

Sentaram-se no Orpheu. Ela atirou o casaco para a cadeira ao lado, ajeitou a camisola de gola alta, puxou ligeiramente as mangas descobrindo os pulsos, bonitos, e fixou os cotovelos na mesa de madeira:

Ela - O que foi agora?

Eu - Seria capaz de te voltar a amar…

Ela - Para quê? Já te perguntaste, para quê? Tu não percebes que não fomos feitos um para o outro? Não entendes o que sofremos por descobrir isso mesmo?

Eu - Desculpa-me, eu não entendo nada do que se passou assim. Para mim, tudo o que correu mal foi por causa da expectativa. Como tu sabes, naquela altura eu não esperava nada e foi porque te conheci que passei a esperar tudo. Passei a acreditar que a vida podia ser muito mais. Fiquei deslumbrado com os nossos momentos perfeitos e tornei-me num crente. A maldita da expectativa que não se deixa dominar, é que foi fatal. E foi isso o que aconteceu comigo, à medida que te ia descobrindo, mesmo nos pormenores em que sabia que não encaixávamos, fez-me acreditar. E não há nada pior do que acreditar. Faz-nos querer mudar, ajustar. Deixa-nos a divagar. E então a vida acontece.

Ela - A vida, qual vida? Não percebes que não há vida em nós. Há desilusão, há a mágoa do que me fizeste quando decidiste, por ti próprio, hesitar. Há o silêncio em que foste capaz de mergulhar e a forma como me decidiste informar das tuas conclusões muito próprias, como se eu não estivesse ali mesmo ao lado para me pores a par. Não foste capaz de perceber que, naquela altura, eu estava disposta a procurar respostas, soluções, que fizessem o futuro acontecer. Sim, eu estava apaixonada por ti, mas passou-me no instante em que tomaste as tuas opções. Depois disso, limitei-me a sofrer as consequências de ter decidido entregar-me. Em algum momento posso ter hesitado, posso ter pensado como tudo poderia ser diferente, mas a mim a vida ensinou-me que nestas circunstâncias já não faz sentido. E por cada vez que tentaste chegar até mim, novamente, eu fui acumulando a minha certeza de que estava certa, de que tudo contigo seria sempre demasiado complicado. Percebes? Gostava que percebesses, e que seguíssemos com as nossas vidas, cada um por si.

Eu - Não. Se fosse assim, simples, eu aceitava essa tua proposta de seguirmos em frente. Mas não é. Há tanto mais aqui, entre nós, para nós. Eu sei que sim, não apenas porque sei bem o que sinto, o que para mim já é um bom princípio porque nem sempre acontece com certeza vincada, mas também porque o “acreditar” de que te falava não me passou com o tempo. Como eu sei o que sou, como sou por dentro, esta é uma instrução clara de que não posso deixar-te passar. Tu és obstinada e eu sou convicto. Somos personalidades ímpares, que se deixaram seduzir a sério, apesar da improbabilidade, e isso faz a situação em que nos encontramos complexa, mas não inultrapassável. Se pelo menos percebesses isso, tínhamos um princípio.

Ela - Um precipício!

Eu - Chama-lhe o que quiseres, de qualquer forma eu vou lá estar para te agarrar.

Dog days are over (os dias da neura)

Sw: Alo, estou de neura! So me apetece carregar no botao do tempo e avancar uns quantos meses... Ate tudo estar resolvido!! Doi muito chegar a uma determinada fase da vida, termos nocao de que temos valor e nao percebermos em que parte falhamos!!!

Sw: Eu sei o que sou, quem sou e tudo o resto! So nao sei como fazer para ser feliz!

Sw: So queria isso! Voltar a sentir-me bem!

Ricardo: Come on girl, cheer up! Nao sei o que se passa mas tenho a certeza de que tudo vai correr bem.

Ricardo: (e olha que eu hoje tambem nao estou nada bem disposto com a vida, mas ainda assim dou-te o miminho que tu mereces)

Sw: Vai, mas doi! Sempre me levanto, sempre. Mas custa! Cada vez custa mais!

Ricardo: E agora vou dormir, faz muito frio em Lisboa e estou super-cansado, faça o mesmo.

Ricardo: Beijocas

Sw: Porque a ilusao vai sendo cada vez menor e porque as repeticoes vao sendo cada vez mais.

Sw: O tempo passa e estamos sempre na mesma luta contra ele.

Sw: Faz bem! Voce tem tudo ricardo, so nao tem coragem de arriscar e ir atras do que quer!

Ricardo: O tempo é invencível, nada a fazer. Há que vivê-lo.

Ricardo: Vá, beijinhos

Sw: E nao te das conta, que chegara um dia em que ja nao tera importancia ires atras ou nao. Ja te vai ser igual. Morremos aos pouquinhos. Umas vezes vencidos pelo cansaco, outras vezes pela inercia de nao fazer nada.

Sw: Beijos. Tchau.

Ricardo: Ui, tanto drama. Toca mas é a dormir.

Wednesday, November 17, 2010

O não (tornar) a querer saber

Com algum esforço, andei tão afastado da realidade nacional, concentrado na mais-valia da informação multinacional permitida pela globalização, que quando torno a seguir o estado do país fico sempre surpreendido (desiludido). Sinto-me um verdadeiro alienígena e assim de repente, surgem-me logo meia dúzia de boas ideias:

1) Para os candidatos presidenciais: toca a trocar as campanhas nos mercados tradicionais por acções nos hipermercados (parece que agora até estão abertos ao domingo…), debitando umas palavrinhas para os telejornais enquanto ajudam a família de pretensos apoiantes a arrumar as comprinhas.

2) Para os Portugueses, em geral: desliguem, de vez, a televisão. Diz um estudo que “O cérebro de um adulto muda tanto como o de uma criança, quando aprende a ler”, já vai sendo tempo de crescerem um bocadinho.

3) Para os Chineses: comprem lá as relíquias nacionais e ajudem-nos a pagar a dívida, quando se retomar a sede especulativa vão valer mais do que o petróleo africano.

4) Para os (tele-)jornalistas: ponham um ar menos grave e sisudo, das vossas expressões (sorrisos) dependem as cotações do meu portfolio amanhã.

5) Para os moradores na Expo (Espô): não há-de ser nada, o Estado paga, o Estado tem sempre dinheirinho à custa do contribuinte, carro incendiado pelos anarquistas que conseguirem entrar, vai ser dinheiro em caixa para os presentes deste Natal.

6) Para o Santana Lopes: agora que já se sente um Senador desta República falhada (com direito a 15 minutos de aparição solene e semanal na televisão), corte lá o cabelinho esgrouviado atrás, que já não tem charme nenhum e mexa menos as mãozinhas porque já não está no palanque dos congressos.

O Saber

A parte mais engraçada do meu presente profissional é poder dedicar horas a ouvir quem sabe. Ficou-me da minha formação académica este gosto por escutar, ver apresentações ou assistir a debates sobre temas interessantes que domino apenas superficialmente e dos quais me permito aproveitar ideias com aplicação mais ou menos prática para o que faço no dia-a-dia.

Esta semana já passei umas quantas horas a ouvir um tipo que sabe muito sobre o sector da Saúde em Portugal.
Desconfortavelmente enfiados na cantina de um hospital, o Senhor dissertou sobre os problemas, as causas dos problemas, as soluções não aplicáveis e as soluções plausíveis, quase em exclusivo para mim que fiquei a saber mais sobre a matéria do que alguma vez julguei. O resultado, serão duas ou três abordagens em “consultês” que eu espero poderem vir a produzir resultados palpáveis para os utentes dos hospitais públicos.

Com este mesmo propósito, hoje e amanhã, participo num dos poucos eventos onde se apresentam e debatem ideias de futuro para a economia e sociedade deste país. Gosto destes fóruns, onde se reúne quem sabe para trocar ideias com os seus pares. O conceito de Fórum é aliás significativo, porque não é bem a mesma coisa ler sobre um tema e as palavras sem a explicação subliminar de quem as escreveu alteram profundamente a mensagem. Entristece-me que nestes eventos verdadeiramente úteis, as plateias se apresentem mais vazias do que seria recomendável e que muitos dos assistentes estejam ali mais para o networking de influência, também uma característica dos fóruns, do que para o da dita troca de ideias.

É daquelas coisas que nos faz mesmo falta, enquanto povo, a capacidade de ouvir, escutar, e reflectir sobre o saber que os outros nos trazem.

Enfim, por vezes parecemos mesmo uns pinguins, aprumados de fato e gravata, apostados em impressionar mas sem vontade nenhuma de pôr o neurónio colectivo a funcionar.


Sky Mall (way too much fun tv)

Os Americanos (do Norte) que sabem ser despretensiosamente bimbos têm destas peculiaridades capazes de deixar extasiado qualquer Europeu armado em erudito. Naqueles voos internos que apanham como nós apanhamos um autocarro ou comboio para fazer 300 km (ameaçando que nos vai levar 1h30 de vida quando na realidade não passará dos 45 min, apenas para não arriscarem um processo judicial), servem-nos, a acompanhar a Coca-Cola num copo fundo de gelo, a revistinha do Sky Mall, cheia de acessórios ou gadgets capitalistas e divertidos, com preços terminados em 90 e qualquer coisa cêntimos, mas que bem embrulhadinhos fariam as delícias de qualquer árvore de Natal – Sky Mall online!

Destaques absolutamente idiotas (estes senhores não me pagam para isto):
 
Meerkat Garden Stakes

Quenching Big Thirst Fountain

Panda Rain Gauge

Bigfoot Garden Yeti Sculpture

Mobile Massage System

Cast Iron Giraffe Paper Holder

World War II Airplanes Tie

Monday, November 15, 2010

Remédio Santo

Contou-me, um dia, que quando se sentia verdadeiramente triste, assim com o coração dilacerado, por causa dos males da paixão, apostava em intensificar o efeito até rebentar em lágrimas. O truque, dizia-me, é procurares a música certa – eu cá gosto do “Into my arms” – e ouvires as palavras profundas com atenção. Caso sejas tão agnóstico quanto eu – pelo teu grau de esclarecimento sobre a vida, imagino que o és – verás que, por cada vez que o Nick Cave te alimenta com mais uma figura de estilo sobre a “existência dos anjos” ou sobre o “acreditar no amor”, vais soluçar em estilo. Podes ter que ouvir a melodia 3, 4 ou 5 vezes, mas acredita que no final, quando saíres do torpor, vais ver tudo de uma forma completamente diferente. E então atacas com o “I can see clearly now” do Johnny Nash – sabes, aquele do anúncio do nescafé – e voltas a acordar para a vida.

Sunday, November 14, 2010

Interminável

Ouvia a música inconfundível enquanto abria a porta. Encontrava-a deitada no sofá com as pernas atiradas para cima do encosto dos braços e os longos cabelos espraiados sobre uma almofada, a sua posição favorita para relaxar. Ela recebia-o com um sorriso rasgado e mágico e dizia-lhe:

- “Olá meu querido! Como foi o teu dia?”

Ele ficava parado por um momento, dois segundos, a fixá-la com os olhos semi-cerrados, observando-a fascinado, como que a querer guardar mais aquela imagem nas “polaroids” daquela vida a dois, enquanto sentia o seu próprio sorriso a abrir-se, encantado.

- “Deslumbrante… os meus dias são sempre deslumbrantes, quando te encontro assim.”

Descalçava os sapatos e pendurava o casaco no encosto de uma cadeira e dirigia-se ao sofá, sentando-se cuidadosamente para substituir a almofada em que ela se encostava. Passava-lhe carinhosamente as mãos pelos cabelos, estendendo-os sobre o seu regaço. Enquanto ela fechava os olhos de contentamento, falava-lhe baixinho:

- “Estavas a ouvir as nossas músicas…”

E ela:

- “Sim, estava aqui a pensar em ti, à espera que chegasses. Já te sentia saudades…”

Ficavam assim longos minutos a ouvir a música e a desfrutar da companhia um do outro. Ele movendo os dedos por entre os cabelos dela em cafunés doces e intermináveis.

I see you out sometimes by coincidence
Been reading about you, I know where you've been
You don't know how much I liked you and I think of you
So much to tell you, to fill you in
Where you go is where I want to be
Wherever you go is where I want to be
I wonder if it's right to call you a friend
I remember your eyes, they made me way too late
Now if I'm standing at a party waiting for the train
I know you're out there, can't wait till we meet again
Where you go is where I want to be
Wherever you go is where I want to be
Where you go is where I want to be
Wherever you go is where I want you to lead me, to lead me
So much to tell you, I have to find you
It's time I see you, I wish we were alone
And it was late at night, I met you at a party
It was a crowded room, I couldn't hear you talking
You tried to hold my hand and then you left without me
But don't you know that where you go is where I want to be



A música chegava ao fim e ela puxava-o pela gravata, devagarinho, fazendo-o curvar-se para o poder beijar e afagando-lhe o cabelo junto à nuca enquanto os lábios se encontravam.

- “O que queres fazer hoje? Saímos para jantar ou pedimos para entregar?”

- “Humm, ainda é cedo. Se te apetecer tomo um banho enquanto tu pões aquele teu vestido preto e os teus brincos, e saímos para jantar num sítio giro”

- “Sim, apetece-me sair. Mas conduzes tu.”

- “Miúda, tu estás relaxadinha, conduzias tu e íamos a um daqueles com valet-parking…”

- “És um preguiçoso, e eu faço-te as vontades… só mais uma música”

Do you think (When you know you know it)
If we could go back in time (When you know you know it)
Do you think (Listen now, listen now)
That I'd like you then (I will look for you there)

Would you try (when you see, you see it)
Not to be so mean (when you see, you see it)
And we'd ne- (Won't be long, it won't be long)
-ver just be friends (I will wait for you there)

Do you think (When you know you know it)
If we could go back in time (When you know you know it)
Do you think (Listen now, listen now)
That I liked you there (I will look for you there)

Won't you try (when you see, you see it)
Not to be so mean (when you see, you see it)
And we're now (Won't be long, it won't be long)
For just be friends (I will wait for you there)

There are times that I
Felt that this was right
There are times that I
Felt that this was right

Why do you think
This will never work
Why do you think
This will never work

There are times that I
Felt that this was right
There are times that I
Felt that this was right

Why do you think
This will never work
Why do you think
This will never work



Então, ela abria os olhos para lhe dizer:

- “Ainda bem que isto nos passou…”

E ele voltava a inclinar-se, elevando-a para si, para a beijar. Voltava a colocar-lhe a almofada confortável por debaixo da cabeça e a espraiar-lhe os cabelos, enquanto se erguia do sofá, ainda com o sorriso encantado.

Na fase do apetecível (corrigido)

Na fase do apetecível, o fácil é encontrar miúdas giras que nos deixam interessados. O difícil é ficar com a mulher brilhante que nos desperta para a vida.

Saturday, November 13, 2010

Na festa do moinho

Tinha 16 anos e apaixonou-se. Sabia que era apenas e só uma daquelas paixões fúteis de verão mas ainda assim achou que valia a pena arriscar. Na festa do moinho, agarrou-a pela mão e levou-a para um local sossegado. Declarou-se e viu que os olhos dela se lhe abriam e que não era por causa da lua cheia. Gostou daquela luz reflectida nos olhos dela e beijou-a com paixão. Ela correspondeu e depois, só depois, hesitou. Disse-lhe que não e de repente a lua escureceu. Ele não disse mais nada. Saiu a correr pelo monte abaixo na companhia de um amigo daquelas férias. Voltou para o que era seu, no final daquele verão.

My Nighttime Saving Time

A alegoria da isenção de horário é magnífica. Dois dias consecutivos com reuniões às 9h da manhã dão-me cabo do circuito. Gosto tanto mais de sair de casa no 2º turno. De não ter que “apanhar” o trânsito dos pais que deixam as crianças na escola às 8 e tal. De não ter que “gramar” as filas de trânsito dos que têm que entrar a horas para “picar o ponto”. Não fui feito para profissões de horário fixo. Não gosto de me sentir preso pela pressão do relógio logo pela manhã. Não gosto de me sentir farto do que ainda tenho para fazer quando chegam as 6 da tarde, quando meia Lisboa se encaixota nos carros em direcção a casa. Gosto das noites longas, dos jantares tardios, tipicamente latinos, e da sensação de que o dia não termina logo quando o sol se põe. Gosto do meridiano mediterrânico em que o bom das noites dura para lá da meia-noite, passado à conversa, a ler um livro ou a escrever. Não gosto de chegar a esta hora a sentir-me com o sono de quem despertou antes das 8. Gosto de persianas corridas que filtram os primeiros raios de sol. Gosto de acordar com vontade e não por obrigação. Gosto de me deitar tarde porque, então, me apetece.

Friday, November 12, 2010

A minha Secretária intelectual

Fui ao teatro e encontrei a minha Secretária com o namorado. Era uma peça para a intelligentsia, profunda, mesmo se encenada de forma descontraída e propositadamente embriagada (eu às tantas já desconfiava se os actores bebiam mesmo vodka...). Quem diria? A minha Secretária, ruiva natural (??? – os homens nunca sabem realmente a verdade sobre estas coisas), de olho azul (bom, ainda assim não faz jus à Christina Hendricks) e simpática, para além de eficiente – quando está para aí virada –, é uma intelectual. Gosto disto!

Wednesday, November 10, 2010

Para quê?

Para quê questionar? Para quê duvidar? Ele era um miúdo maravilhoso, capaz de a fazer sonhar. Perfeito? Não, claro que não. A perfeição só existe no mundo das estátuas e a maior parte das realmente perfeitas são do tempo dos clássicos. Ele também era um clássico, imperfeito é certo, mas dos bons. Mais tarde ou mais cedo toda a gente gosta, a sério, dos clássicos, nem que seja pelo efeito da idade. Bom rapaz, pleno de vontade, perfeito no olhar. Convicto e absolutamente convencido. Então, para quê questionar? Para quê pesar tanto os contras se também existem os prós? Para quê insistir em achar que não, quando sim, a felicidade mora a dois passos de distância. Mesmo...

Antecipar alternativo (porque o subconsciente não deixa de procurar o caminho)

Queria muito abraçá-lo mas ia resistir. Vinha investindo demasiado tempo, demasiado sofrimento, para agora deitar tudo a perder. Obstinada, sentou-se ao seu lado e olhou-o sem profundidade e com pouca vontade:

- Diz-me, o que pensas quando me lês?

- Eu? Eu já perdi completamente a capacidade de te interpretar. Sinto-me um índio perdido no meio do mato, incapaz de regressar a casa apesar dos sinais. Tu escreves “cair” e eu penso nas miúdas. Tu escreves Março e eu penso no “clique”. Tu escreves sobre fragrâncias e eu vou ver os compostos do meu perfume – e estão lá. É estranho e é ambivalente – eu não gosto de não perceber os significados. Não consigo interpretar-te e isso aborrece-me. 

Tuesday, November 9, 2010

Do concerto

Foi deslumbrante. Já me tinham dito que o homem, apesar de Belga e excêntrico, cola as mãos ao piano com uma intensidade que torna a música única.
E ao intervalo, encontrei-o. Creio que já o esperava, que já o sabia. Foi ele quem me ensinou a gostar daquelas melodias. Foi ele quem assumiu o papel de irmão mais velho, fazendo de mim o irmão mais novo que não tem. Era ele quem nas férias de verão punha as clássicas a tocar na Marantz quando acordávamos, tarde, de mais uma noite de borga, abrindo a janela para as vinhas que faziam crescer as uvas ao som daqueles acordes vespertinos. Era ele quem me assaltava as prateleiras de livros bons, da mesma forma que eu assaltava as dele. Temos tantos livros trocados, os meus em casa dele, os dele na minha que por vezes penso no significado verdadeiro da palavra influenciar. Gosto disso. Gosto de conhecer bem as pessoas que me marcam a vida, da dedicação que foram capazes de colocar em mostrar, apresentar, indicar, as coisas boas que a minha vida tem. E ele estava ali sozinho, recém-separado e meio macambúzio, deixando-me triste por não o ter convidado, a ele, para me fazer companhia no concerto:
- Estás a gostar?
- Muito!
- Magnífico, não?
- Sim, e a Tatiana – ou Tatjana –, a violinista: hipnótica.
- Sim, já o tinha visto aqui em 2005 e este está a ser ainda melhor.

Monday, November 8, 2010

Calzedonia

Entra-me no carro e reclama com a música que estou a ouvir: “Ricardo, essa música é deprimente”. E eu respondo-lhe que não, que é o Concerto para saxofone e violoncelo do Michael Nyman, que pode até ter umas partes tristes, mas que acaba em Allegro crescendo e que quem está a tocar é “só” o Julian Lloyd Webber.
Deprimentes ou deprimidos são os portugueses que param para observar minuciosamente cada batida de carros provocada pela chuva que cai, entupindo o trânsito à nossa frente. Deprimentes são os nossos governantes incapazes de controlar a situação a que os mercados acham que o país chegou. Deprimente é o Benfica levar uma goleada das sérias, sabendo que isso vai afectar metade do povo cá do rectângulo. Deprimentes são os jornalistas que não dão uso à boa cortiça nacional para enfiarem umas belas rolhas pelas bocas, insistindo em debitar notícias negativas e em perseguir mais um desgraçado de um funcionário público que teve o azar de se destacar e merecer um aumento em ano de apertar o cinto.
E depois chego a casa e na televisão passa este anúncio deslumbrante, cheio de vida, da Calzedonia (Calzedonia - Speriamo che sia femmina) e pergunto-me porque é que nestas alturas de depressão colectiva ninguém se lembra do importante que são as imagens boas do “West Coast of Europe”, do “Wonderful Portugal” ou do “Vá para fora cá dentro”.

Sunday, November 7, 2010

o banzé

Estes dias em que durmo até tarde e sonho contigo (connosco) horas a fio são um banzé. Sentir-te assim tão intensamente próxima, como se estivesses mesmo ao meu lado, é um banzé dos grandes. E quando acordo, tenho o cabelo comprido todo espetado como o do meu cartoon favorito.

Saturday, November 6, 2010

O schmuck em “A Woman to Love”

“Yes, honey. The schmuck, who deserves to die, worries about you. Sometimes worrying about you feels like a full-time job.”
- Jack Nicholson – brilhante, como só ele sabe

a Muralha

Mesmo depois de afirmar que não acreditava em muros, construiu uma Muralha. Uma Muralha mesmo grande, daquelas com “M” grande e com a largueza da Muralha da China. Fechou-se do lado de lá, do lado do Reino do Meio. Apesar de dizer que não gostava, foi lá que se refugiou, deixando-o do lado de cá. Do lado de cá das pedras intransponíveis, mesmo para um David Copperfield (foleiro) desesperado pela Claudia Schiffer (gira, mas kitsch). Deixou-o perdido por tempo indeterminado, sem saber nada mais do que a ilusão do que ainda sonhava, com ela.

(David Copperfield Going Through Great Wall of China Revealed - um bocadinho seca, mas sempre dá ver como se cria uma ilusão.)

Nick Hornby’s top-lists-technique – Japoneses em Lisboa

Depois de completar a ronda pelas novidades que este ano trouxe, temos:
1. Suntory
2. Sushi Bar @ Bica do Sapato
3. Yakuza
4. Assuka
5. SushiRio
Fora da lista mas dignos de menção ficam: Clube do Sushi, Café Sushi e Origami.
O melhor na categoria Oriental-degustação (definitivamente, a novidade do ano): Umai
O melhor (pra' sempre?) na categoria Oriental-noodles-descontraído: New Wok

Thursday, November 4, 2010

Ainda o brilho complicado e complexo das mulheres

Não sei se é efeito deste início de pequeno Verão de São Martinho em que depois do fim-de-semana de chuva copiosa parece que toda a gente decidiu sair da toca, mas estes últimos dias têm sido um manancial de reencontros. Será também por causa do avançar da idade, eu gosto cada vez mais de reencontros do que de encontros, definitivamente.
Saí para jantar e reencontrei a R. que para quase todos os homens que conheço e a conhecem a ela é sinónimo de “a mulher perfeita”. Bonita, bem-disposta, com neurónio e bem sucedida, tem aquele brilho suave e encantador de miúda que foi capaz de ultrapassar todos os obstáculos da vida e conseguir o que sempre quis. Admiro-a por isto tudo e também porque consegue ser, honestamente, simpática com todos, como só as miúdas do norte. Mas (nestas reflexões sobre o alheio, há sempre um “mas”) eu que a conheço bem e que durante largos meses com ela privei, dia após dia, sei que lá por dentro é uma complicada das fortes. Um dia chegará a CEO de uma qualquer grande empresa, porque tem “garra” para isso e, provavelmente, até será casuisticamente feliz com o, por agora, namorado que por acaso também é meu conhecido, por intermédio de um amigo em comum que recordo me costumava dizer “complicado, nada é complicado, quando muito complexo... complicadas são as mulheres!”.
(Nota: este post está no mínimo confuso mas não me apetece desfazer o novelo)
De volta ao bom dos reencontros, a parte singular destes é que nos trazem sempre à memória o encontro anterior. Da última vez que tinha visto a R., ela estava no meio de uma multidão, numa espécie de concerto, e eu, naquela noite, estava tão próximo da felicidade suprema, tão próximo do apaixonado absoluto, absolutamente convicto do meu amor por uma miúda verdadeiramente complexa e que me sabia derreter com a sua complexidade brilhante, que me lembro de ao ver aquela “mulher perfeita”, para todos os outros, me ter apanhado num pensamento paralelo e linear a concluir que o encanto das mulheres depende mesmo do grau do complexo e não do complicado.

Monday, November 1, 2010

mar de prata

Mais um almoço de domingo junto ao rio, com os progenitores e uma prima. Dia de chuva, sem regatas. Na mesa ao lado, senta-se uma miúda loira e gira, muito gira mesmo, alta e com um corpo fabuloso, tão afirmativa que chega a ser provocadora. Mas falta-lhe o charme, falta-lhe o brilho, na realidade falta-lhe quase tudo. E eu dou por mim a olhar o rio marcado pelo sol, um mar de prata, e a concluir que nem tudo o que reluz é ouro.

Saturday, October 30, 2010

do outro lado do mundo

Enquanto ela acordava lá, adiantada, ele adormecia, tardiamente, do lado de cá. Entre o final da noite e o início do dia, marcados pelo girar do sol em volta do berlinde perdido, encontravam-se no pensamento. Lá, como cá, fazia frio, uma temperatura pouco agradável para a conjectura do que eram, um para o outro. Cá, como lá, com toda aquela distância de permeio, a vontade de serem mais. Lá e cá, o desejo de que tudo esteja bem, do outro lado do mundo.

Thursday, October 28, 2010

Mad Women

As miúdas da agência de publicidade que sobem comigo no elevador, em cada manhã, começam por ter um ar fresquinho e bem-disposto. Parecem confiantes e cheias de vontade de acontecer. Regra geral, nesta fase, dizem-me “bom dia” com um sorriso simpático e (eu acho que) pensam: “Olha, que executivo engraçado!”
Um mês passado já têm um ar um bocadinho desgrenhado e nota-se que vão quase sempre agarradas ao Blackberry com ar preocupado e nervosamente atrasadas para qualquer coisa. Já não há cá “bom dia” para ninguém.
Quando as volto a encontrar, ocasionalmente, vários meses depois, apresentam-se com um ar gasto, olheiras despreocupadas e involuntariamente mal-encaradas. Qual “bom dia”, qual quê!
Depois desaparecem subitamente e para sempre, deixando-se substituir por outras em algum dos estágios anteriores. O mundo da publicidade criativa deve ser tramado e com altos índices de rotação.


melhor

Gosto do conceito “Best of”. Aprendi ainda miúdo que é importante distinguirmos o melhor da vida do “assim-assim”, sem os confundir. O “Best of” não tem que ser único ou inequívoco, seria triste se assim fosse, e depende, obrigatoriamente, do estado de espírito e do estágio da vida em que nos encontramos. Há momentos próprios para cada “Best of” e por isto mesmo é-nos possível marcar vários “Best of” que são mesmo do melhor. Hoje, apeteceu-me marcar os “Best of” deste blog, correlacionados com esta vida, ali ao lado – nos labels.

Wednesday, October 27, 2010

excertos #7

12

Clavo mi remo en el agua
llevo tu remo en el mío.
Creo que he visto una luz
al otro lado del río.

- Jorge Drexler en "Al Otro Lado del Río"


Saio para a noite de Lisboa com o Tomás e o Guilherme – já não fazia isto há tanto tempo que me parece estranho. Apesar do cabelo demasiado curto, vale-me o bronzeado notável e a boa forma física para ganhar confiança. O “spot” esta noite está “hot”. Miúdas giras, também bronzeadas, com ares saudáveis – vantagens do verão. Nós os três temos bom ar, apesar das idades acumuladas. Comentamos que em somatório, perfazemos 106 anos – já fazíamos um velhote rígido a desafiar a cova, mas dividido em três dá no charme dos trinta-e-alguns com estilos diversos. Um quase careca, o outro com muita barriga, e eu, bem, ainda “bem conservado” – que trio… As miúdas dos vinte-e-poucos reparam, as miúdas dos vinte-e-muitos aos quarenta-e-qualquer-coisa, vê-se que gostam. Nós comentamos as que passam – os homens nestas coisas conseguem ser realmente parvos. Deveras.
Rodadas de bebidas brancas, pedidas à vez aos miúdos, demasiado jovens, atrás do balcão. Surgem caras conhecidas, trocam-se dedos de conversa e algumas apresentações. Troco olhares com uma morena gira com o cabelo preso atrás que deixa ver uns brincos com estilo. Sinto-me bem e arrisco meter conversa. Ela está com uma amiga, que fica meio pendurada, enquanto eu lhe falo ao ouvido. Cheira bem, o que é sempre um bom princípio, e sorri com o que lhe digo – conversa fiada. Pergunto-lhes se querem juntar-se a nós e elas dizem que sim. Passamos às apresentações, a morena chama-se Cláudia e a amiga Rute, comentam que é a primeira vez que ali vão e que depois seguem para o Lusaka. Ah, o Lusaka… há 10 anos atrás era uma varanda de encontros. Contamos-lhes a história, gasta, de quando eu e o meu amigo, agora quase careca, entrávamos pela porta da direita porque achavam que éramos gays. Elas acham-nos graça e a amiga da morena, pispirreta, pergunta se o éramos mesmo. A conversa flui ao sabor das parvoíces que saem naturalmente quando tudo parecem possibilidades. Para acompanhar a situação, o DJ passa uma música que diz “…so tell the girls that I’m back in town”.
E então, do nada, para me deixar sem refúgio, vejo-a. É mesmo ela, com os amigos que lhe conheço e apresso-me para sair dali, quase a correr para não a reencontrar.

Lógica singular (post de gaja!)

A vantagem de não estarmos juntos é não te sentir mais (tanto) a falta quando vais de viagem. De outra forma, terias mesmo que me levar junto com a tua mala (sim, eu pagaria pelo excesso de bagagem).

Tuesday, October 26, 2010

os consumistas pessimistas, i.e., os tugas

Em tese, estamos em crise, certo? Para contrariar a tese no último fim-de-semana – pico do já-torrámos-o-vencimento-todo-do-mês-e-agora-o-que-fazemos?:
- Fui ao melhor oriental-degustação de Lisboa – carote – e aquilo estava cheio e com reservas pela noite fora.
- Saí para o Bairro e a fauna enchia de tal forma as ruas que foi difícil circular.
- Tive que ir encher o depósito do bólide e estive 15 minutos para chegar a minha vez, tantos eram os tugas a abastecer.
- Fui almoçar ao melhor peixe fresco da capital – caro, mesmo caro – e a varanda estava populada de famílias encantadas com as regatas.
- Quis ir ao hipermercado e nem me atrevi a estacionar, tanta era a gente a concorrer na catedral do consumo – ok, depois explicaram-me que havia 10% de desconto.

Ah sim, mas as estatísticas é que contam – até prova em contrário:



Quid crisis? Os tugas podem até ter abdicado de manter os filhos em colégios particulares, mas o desvario consumista persiste.

Sunday, October 24, 2010

a auréola negra dos meus olhos

Estes olhos castanhos, muito normais mas pretensiosamente distintos, têm uma auréola negra que já me disseram meter medo e a quem uma apreciadora de ópera chamou de “Anel do Nibelungo” – na ocasião, era um trocadilho, muito erudito, entre o Ricardo e o Wagner.
Fora de horas, observo-a no espelho, a esta auréola negra, e concluo que mais parece um anel forjado para se fixar, até à eternidade e com a pupila bem dilatada, na cor castanha e verde dos teus olhos. Sim, são mesmo os teus… Será que me percebes?

Thursday, October 21, 2010

Apresentar

Mais um verbo dos meus. Ao fazer apresentações profissionais sou capaz de embalar um Conselho de Administração inteirinho. É um dos meus skills de consultor bem treinado. Hoje foi dia de uma actuação destas. Eu e o .ppt de 6 mil euros por página diante dos Administradores de uma grande Empresa portuguesa oblívia à “Crise” (qual crise?). Eu e a grande apresentação dos resultados do projecto que me ocupou todo o verão. Eu a sentir-me a pregar aos peixes: o ex-político fazia que sim com a cabeça, o das perguntas inusitadas, logo no início, literalmente a dormir quando cheguei a meio e o Sr. Presidente a bocejar à descarada. No final: “…muito boa apresentação!” e eu com vontade de perguntar “ah, a soneca soube-lhe mesmo bem, foi não foi?”. Rico “show business” – continuem a pagar-me para isto… que eu gosto.

Ainda em Italiano

Nos tempos dos colégios de verão conheci um Italiano de nome Francesco Reggiani. Cabelo encaracolado, inglese sofrível, milanese sorridente, apaixonou-se naquele verão por Marta, uma espanhola de Madrid, super-simpática, soberba em quase tudo, mas que não estava para ali virada. Durante 3 semanas, partilhámos um quarto demasiado próximo da porta onde os alarmes de incêndio não tocavam, motivando as escapadelas nocturnas. Invariavelmente, ao final de poucos dias de companheirismo, obrigava-me a partilhar os seus devaneios amorosos, em inglês macarrónico, levando-me à risota por cada vez que dizia “shi’is so prity, I think I’m inlove”. E eu, naquele tempo, pensava: o amor é simples, simples como só os latinos o sabem exprimir.

Wednesday, October 20, 2010

Procurar e encontrar

Na manhã em que sentiu uma vontade enorme de a procurar, soube, logo ao acordar, que não seria dia de a encontrar.
Inspirado, havia voltado a sonhar com ela e com um mar azul, no sul de Itália. Uma praia de areia espessa, daquela que não deixa marcar os passos para se reconhecer a origem e o destino, mas em que sabe bem deitar o corpo, plantado ao sol. Um sol luminoso mas pouco dourado, suave com os olhos sem a protecção dos óculos-de-sol. Um chapéu de palha para a proteger e um cesto cheio de fruta fresca para a satisfazer, ciliegie e albicocche, como lhes chamara o rapaz do hotel. E aquela linha do horizonte, magnífica e bem marcada sobre o infinito azul, observado sobre as curvas deliciosas do corpo dela.
Mas pressentiu-a ainda mais distante, no espaço e no tempo que os separava, deixando-se encantar apenas pelo facto de pressentir que ela também gostaria de o encontrar assim.

da frescura do cinema Europeu



Por vezes andamos tão absorvidos com o realmente importante e pelos “fast flicks” que vêm do outro lado do “charco” que nos esquecemos da frescura do cinema Europeu: “Mine vaganti”, que algum essere scarsamente illuminato decidiu chamar em português de “Uma família moderna”, entra directamente para o 1º lugar dos filmes que fui ver em 2010 – muito recomendado, de preferência sem ler a sinopse. E fiquei com vontade de ir conhecer Lecce.

Monday, October 18, 2010

Antecipar (porque quando o subconsciente não aguenta a espera, decide sonhar)

Queria muito abraçá-lo mas ia resistir. Por isso, agarrava-lhe as duas mãos com força, segura, e olhava-o de frente com os olhos bem abertos:

- Diz-me, o que queres de mim?
- Miúda, há uns dias atrás pus estas mãos – que agora estás a agarrar com tanta força que me começas a magoar… e estou a falar a sério, por favor, não as apertes tanto! – em “ponto de reza”, assim com os dedos perfeitamente encostados uns aos outros, em simetria, e pronunciei o teu nome bem alto, projectando a voz para ser ouvido. Depois, fiquei a sentir-me parvo de todo, porque como tu sabes não acredito nada no efeito prático destas coisas.
- E…?
- E nada, foi estranho ter feito aquilo e agora estar aqui, assim, contigo. Quase me leva a desconfiar de certas convicções que tenho como muito minhas.
- Sim, e voltando à minha pergunta, de que pareces estar a querer fugir...
- Não, eu não fujo. Fugir não é um verbo meu. Gosto é de perceber e explorar com exactidão as impressões que me surgem de vez em quando e que, de repente, num determinado contexto ou situação ainda me conseguem surpreender.
- Vá lá… não divagues. Já sei que estás a tentar ganhar tempo, mas responde-me!
- O que eu quero para nós é complexo. Bom, mas também difícil e não te quero assustar. Prefiro que comecemos pelas partes simples e que vamos construindo a partir daí. Por agora, apetece-me estar contigo. Sair contigo, trocar ideias, sentir-te, ter a tua companhia. Tu sabes, aquela parte do namoriscar. Não posso partir do pressuposto de que há uma base maior para o que podemos ser. Mas também sei que cá dentro, continuo cheio de sentimentos bons por ti, que não fui capaz de expurgar. E compreende que eu tentei. Apeteces-me, como nunca ninguém antes, é o que é. E sim, francamente, tenho receio que seja pela forma como deixámos as coisas acontecerem. No entanto, acredito nisto e eu sou irrepreensível com este verbo, mas isso tu já sabes. Por isto tudo: não voltes a fugir, deixa-te sim vir ter comigo…
- Abraça-me, com força!

Sunday, October 17, 2010

a minha fase “Noir”

Decido chamar-lhe a minha fase “Noir”: esta semana encomendei um carro preto com os estofos em pele negra, comprei bilhetes para o Wim Mertens, ex-líbris do minimalismo, e fui ver uma exposição de Arquitectura redutora na Trienal de Lisboa. Que vidinha interessante…
Tenho um amigo e antigo colega de trabalho, que é talvez o melhor consultor que já conheci – depois de mim próprio –, que oscilava entre os .ppts pintados com demasiado laranja e os carregados de preto e cinzentos. Quando lhe saíam os últimos, eu metia-me com ele, dizendo-lhe: “João, estás outra vez na fase Noir!”; e ele ria-se com a minha observação. Entre as muitas ideias que partilhamos, temos em comum o gosto pela música clássica minimalista, Nyman, Glass e Mertens, e pela Arquitectura redutora. Somos uns intelectuais, o João e eu!

Saturday, October 16, 2010

chegar

Chego de mais um jantar destes, que me animam as noites, bem passadas entre amigos. Gosto do regresso do Outono em que toda a gente tem vontade de se rever, contar histórias banais mas também entretidas, as últimas novidades de quem já não via há algum tempo. É este o meu conceito de socializar, estar com os meus e mais duas ou três caras novas. Saber como estão, ficar a par do que fizeram, por onde passaram, para onde vão. Ontem estive com uma das grupetas, hoje com outra e amanhã tenho mais um. Mas estranhamente, ou nem tanto, é no momento em que chego a casa e me volto a encontrar sozinho, comigo próprio, que te sinto mesmo a falta. A falta que só tu me fazes, nesta história absurdamente inacabada.

Thursday, October 14, 2010

O “clique”

O “clique” é aquele momento instantâneo e único em que sabemos tudo o que há para saber, convictamente. Aquela fracção de tempo infinitesimal em que tudo se revela como tem que ser, perfeito. A sensação e a certeza do saber proprietário, sem dúvida e sem hesitação, inexplicável.
Acho que nos acontece duas, vá, três vezes no máximo, ao longo de toda uma vida. Mais vezes, implica não ser um “clique” verdadeiro. O “clique” verdadeiro chega a ser místico, essencial e profano de tão profundo. A partir deste “clique” temos uma alma ligada à nossa, muitas vezes para sempre. Deixamos de apenas sentir para pressentir, não importa a distância, não importa o passar do tempo, somos capazes de saber.
Privilegiado que sou, aconteceu-me (mesmo a mim que não acredito nada nestas coisas) e estou certo (porque este “clique” é, ou foi, primordial) que do outro lado da ligação etéreo-cósmica também se sente assim. Sem princípio e sem fim à vista.

Tuesday, October 12, 2010

coisas que todos sabemos, sem razão

Já todos sabemos que estas coisas são mesmo assim. Quando nos parece que queremos, afinal descobrimos que não queremos tanto. No dia seguinte, justificamos que “não, não queríamos nada”. A uma semana de distância, passamos ao estado “parvo, fui um parvo… queríamos tanto”. Seguem-se os tempos de confusão difusa, a oscilação do “sim, queríamos a sério” e do “não, não queríamos mesmo”. Esta é a fase em que o tempo custa muito a passar. O tempo em que não há entretém ou substituto para o que achamos que “queríamos realmente”. É também o tempo em que o subconsciente desperta com partidas incógnitas, o tempo das vontades instáveis que nos levam a errar, uma vez após outra. Então, chega-se ao estágio do “nada a fazer… isto passa” e à técnica do “So miss her. Send her some love and light every time you think about her, then drop it.”. Alcançamos, então, algum equilíbrio que parece aceitável, com o tempo todo que passou, mas com este chegam os dias disparatados e aleatórios em que do nada, voltamos a querer, sem razão.

Monday, October 11, 2010

brilhante

“people are programmed to desire, not to appreciate”

Gosto de ideias brilhantes. Aliás, gosto de pessoas brilhantes, capazes de considerações ou constatações simples mas nada óbvias até nos pormos a pensar realmente sobre elas. Esta é brilhante.

Saturday, October 9, 2010

A Quinta

Passeio pelo Chiado numa destas primeiras noites de Outono e dou por mim ao lado do Convento do Carmo ao pé de um restaurante que antigamente se chamava “A Quinta” com uma vista magnífica sobre a cidade. Recordo-me que vinha aqui muito, quando era miúdo. Hoje em dia é uma pizzaria que não tenciono experimentar mas ainda tem as janelas com aquela vista magnífica para a cidade.

incommunicado

Ontem ao início da noite o meu BB deu o badagaio e fiquei “incommunicado”. Hoje quando consegui ressuscitar o BBicho, descobri que ela me tinha tentado contactar 11 vezes. Apesar da ressaca e da ameaça de mais chuva, fiz-lhe o carinho e convidei-a para o melhor late brunch de Lisboa no Royale. Salada casino e chá frio (sem hortelã) para acalmar o estômago. Passeio amigo pelo Chiado e Sachertorte na Kaffehaus para fechar uma tarde boa.

Les nits de dijous a Barcelona

Vivi quase um ano em Barcelona. Durante aquele quase ano que atravessou todo um Inverno, não choveu em Barcelona. Fez frio, muito, e até nevou mas não houve um único dia em que a chuva caísse do céu. Guardo na memória aquele estereótipo de cidade em que a chuva não aparecia, Barcelona. O meu quase ano de Barcelona, sem chuva, ficou marcado pelas noites loucas de quinta-feira em que invariavelmente, saíamos para jantares fabulosos, condimentados de mexicano, entre a Via Augusta e a Diagonal, ou pela experiência da cozinha basca entre Pi e o Barrio Gótico. Seguiam-se copos e conhecimentos fugazes no Otto Zutz, música ao vivo e dançar até de madrugada no Bikini, mesmo a dois passos de minha casa. Eram noites de “cubatas”, caras bonitas, corpos devassos, bandas locais e de “Parli'm una mica de catalã?”. Hoje apanhei duas “molhas” em Lisboa, onde por vezes a chuva parece interminável, e senti saudades dos tempos de Barcelona.

Vaig viure gairebé un any a Barcelona. Durant aquest any que va durar gairebé tot l'hivern, no plou a Barcelona. Feia fred, massa, i fins va nevar, però no un sol dia la pluja va caure des del cel. En la meva memòria d'aquest estereotip de ciutat on la pluja no va aparèixer, Barcelona. El meu gairebé tot l'any a Barcelona, sense pluja, va estar marcada per les nits boges de dijous en el qual sempre va anar a un sopar esplèndida, el mexicà picant entre la Via Augusta i Diagonal, o l'experiència de la cuina basca entre Pi i el Barri Gòtic. Després van venir les copes i fugaç coneixement a Otto Zutz, música en viu i ball fins a la matinada en Bikini, a poca distància de casa meva. Hi va haver nits de “cubatas”, bells rostres, cossos immorals, bandes locals i “Parli'm una mica de catalã?”. Avui vaig agafar dos “pluja” a Lisboa, on la pluja sembla no tenir fi, i trobava a faltar els temps de Barcelona.

Friday, October 8, 2010

Partir

De vez em quando desafiam-me para partir. Partir de vez. Tenho amigos em alguns cantos do mundo: Nova Iorque, Boston, Barcelona, Londres, Holanda, Cidade do México e Singapura. Tenho conhecidos espraiados pelo planeta, que me ofereceriam abrigo: Brasil, Chile, Japão, Indonésia, Angola, Dubai e mais alguns destinos. Tenho um curriculum invejável que me proporcionaria um futuro, diferente, e por vezes apetece-me mesmo, partir. Partir, sem pensar muito no que deixaria para trás. Mas depois penso como esta cidade, este país, estas gentes conseguem ser únicas e encantadoras e deixo-me ficar.

Thursday, October 7, 2010

a tese (post sério)

Passo o jantar, profissional, à conversa com o Administrador de uma das instituições de maior prestígio do país. Republicano convicto, laico e de símbolo maçon na lapela, explica-me a sua tese de que o problema do Portugal contemporâneo, republicano e falido, não passa de uma questão psicológica. Diz que apesar do grau de abertura ao mundo, da facilidade com que aceitamos perspectivas diferentes e da capacidade de enfrentarmos o desconhecido, que ele defende ser inata ao povo que somos, afinal não fomos capazes de nos adaptarmos à globalização. Diz que mais valia termos encharcado uma agência de imagem internacional com os muitos milhões que o crédito concedido nos está a custar, projectando a ideia de um país moderno, preparado e com estatísticas sobrevalorizadas, do que deixarmo-nos comparar com os gregos. Diz que nos falta a confiança, a sobranceria e a vontade de enfrentarmos as adversidades impostas desde fora. E eu, monárquico não convicto, descendente de facções confusamente absolutistas e liberais pelo lado materno, que se guerrearam há uns séculos atrás, admiro-lhe a análise, como nem sempre acontece com os espécimes seus pares que vou conhecendo.
Quando saímos do restaurante, chove cá fora e ele encerra a noite com uma frase sábia: “… o desaparecimento das estações intermédias, Primavera e Outono, também não ajuda ao estado da nação.”

Wednesday, October 6, 2010

Eat Pray (or) Love

Levam-me ao cinema para ver este “chick flick”. Lamechas q.b., parece-me inevitável que toda a gente se reconheça em alguma parte da história, porque é sempre fácil quando não se trata da nossa e há sempre algum pormenor que parece muito nosso.
Exemplos fáceis de entender, mesmo sem imagens (*):

“People think a soul mate is your perfect fit, and that's what everyone wants. But a true soul mate is a mirror, the person who shows you everything that is holding you back, the person who brings you to your own attention so you can change your life.
A true soul mate is probably the most important person you'll ever meet, because they tear down your walls and smack you awake. But to live with a soul mate forever? Nah. Too painful. Soul mates, they come into your life just to reveal another layer of yourself to you, and then leave.
A soul mates purpose is to shake you up, tear apart your ego a little bit, show you your obstacles and addictions, break your heart open so new light can get in, make you so desperate and out of control that you have to transform your life, then introduce you to your spiritual master...”

“This is a good sign, having a broken heart. It means we have tried for something.”

“To lose balance sometimes for love is part of living a balanced life.”

“- But I love him.
- So love him.
- But I miss him.
- So miss him. Send him some love and light every time you think about him, then drop it. You’re just afraid to let go of the last bits of David because then you’ll be really alone, and Liz Gilbert is scared to death of what will happen if she’s really alone. But here’s what you gotta understand, Groceries. If you clear out all that space in your mind that you’re using right now to obsess about this guy, you’ll have a vacuum there, an open spot – a doorway. And guess what the universe will do with the doorway? It will rush in – God will rush in – and fill you with more love than you ever dreamed. So stop using David to block that door. Let it go.”

(*) o filme tem também grandes imagens da mais bela cidade do Universo.

Tuesday, October 5, 2010

kaleidoscope from London

So, one of his girl friends brought him a kaleidoscope from London as a late birthday present, and as he was laying on his bed, he decided to put off his book and concentrate on the little images shining through the tube.

Friday, October 1, 2010

as confusões

Saio para jantar com o passado e encontro o futuro, em dia de aniversário na companhia de dois amigos (que espero sejam gays). Chateio-me porque afinal é o presente que não me sai da cabeça e já me chegavam as confusões. Pisco o olho, declaradamente, ao futuro, enquanto saio do restaurante com o passado, e ela responde-me “beijinhos”. Enquanto estaciono na garagem, recebo uma mensagem. Quero que seja do futuro, mas penso outra vez no presente, apesar da improbabilidade, e chateio-me outra vez comigo mesmo. É mesmo do futuro e eu penso: “mais instável que isto, é difícil”.

Wednesday, September 29, 2010

Game over

Eu - Gosto de ti!
Ela - Obrigada, és muito querido :-)))


Ela - Não me deixaste dormir nada.
Eu - Podias ter-me dito para me ir embora...
Ela - Mas eu disse: pira-te!


Eu - Depois, manda notícias...
Ela - És um chato!

Monday, September 27, 2010

(gostei de te ver no outro dia)

Acordou na escuridão das persianas bem fechadas e ficou para ali, quieto, a especular se teria uma mensagem à sua espera. Queria. Por um lado, queria que ela lhe tivesse respondido. Em paralelo, alternativo, também pensava na facilidade de sofrer, naquele tempo, um desgosto de amor. De olhos semi-cerrados, ponderava, quase infantilmente, as possibilidades que aquela outra mensagem pouco subtil de há dois dias atrás, entre parêntesis, abria na sua nova vida. Um enorme buraco negro para se atirar de cabeça. Convidá-la-ia para uma bebida ao final da tarde. Deixar-se-ia encantar, sofregamente, pela profundidade daqueles olhos azuis. Jogaria o seu charme. Sabia, por aquele parêntesis, que o conseguiria se o quisesse. Sabia-o, pelo olhar dela que fixara no espelho retrovisor há não mais de uma semana atrás. Pensou na simplicidade da opção e, desta vez, sentiu-se mesmo fútil. Deixou-se adormecer novamente, aproveitando a manhã daquele feriado e a tranquilidade da cidade. Quando se levantou, abriu a persiana para um dia cinzento, incaracterístico do seu Junho, e correu para o telemóvel. A mensagem estava lá. Não dizia tudo o que ele desejava mas ainda assim sentiu-se confortável.

You used to have all the answers
And you, you still have them too
And we, we live half in the daytime
And we, we live half at night

Watch things on VCRs
With me and talk about big love
I think we’re superstars
You say you think we are the best thing
And you, you just know
You just do

I wanna find myself by the sea
In anothers company
By the sea
I wanna walk out to the pier
I’m gonna dive and have no fear
Cos you, you just know
You just do

Watch things on VCRs
With me and talk about big love
I think we’re superstars
You say you think we are the best thing
And you, you just know
You just do

A repetição

Sem saber, levou-me a percorrer o mesmo trajecto que fiz há uns meses atrás de mãos dadas com alguém especial. O miradouro arranjado, a calçada escorregadia e a passagem estreita em direcção ao sítio da cidade onde eu gostaria realmente de morar. Sem saber, quase repetiu aquela outra tarde de domingo que proporcionou aquele encontro fugaz, capaz de colocar a dúvida dentro de mim que, em última análise, fez com que tudo corresse mal. Não gosto de repetições, prefiro déjà vus.

Saturday, September 25, 2010

debaixo do chuveiro

Encontro-me comigo mesmo debaixo do chuveiro quando a tarde já vai longa. Parece-me que os dias de praia suave se esgotaram no último fim-de-semana. Não gostei deste verão que se acabou. Um destes dias meto-me num avião com destino ao hemisfério sul. Austrália ou Uruguai, ainda não decidi.

Thursday, September 23, 2010

O Panteão

Pôs o pêndulo em movimento e afastou-se, recuando com passos seguros. Fixou o olhar naquele ponto absolutamente parado no universo, apesar do movimento constante a cortar o ar impregnado de um cheiro passado. Lembrou-se de como gostava dos edifícios antigos, plenos de pedra, repletos de passos invisivelmente marcados nas lajes. Pensou na ideia insofismável das arquitecturas daqueles lugares únicos, dedicadamente construídos pelas grandes cidades do mundo. Deixou-se absorver pelas memórias da sua Deusa já distante mas ainda tão perfeita no seu pedestal. Percebeu o quanto queria e como desejava que a oscilação do pêndulo o levasse de volta ao “aqui e agora”, aos dias suaves de ternura que lhe marcavam a vida. Escreveu as palavras cheias do que sentia e dedicou-as a ti.

Monday, September 20, 2010

o óbvio ou o bom partido

Sabemos bem o que aí vem quando nos colocam a pergunta do tipo: “o que pensas, quando pensas em mim…?”. (deixam arrastar as reticências, antes do sentido de interrogação – na verdade trata-se de um interrogatório) Esperam de nós a resposta espontânea, simples e directa de quem dedicou horas a fio a pensar no assunto e tem resposta pronta… como se tal fosse possível!

Exemplos:

Ela1 - O que vês em mim?

Eu - Sabes, quando tu tinhas 24 anos e eu 30, jogávamos em campeonatos diferentes. Agora, já estamos no mesmo escalão e apetece-me descobrir-te. Temos tudo para nos fazermos felizes. Só preciso de algum tempo para voltar a juntar os pedacinhos do meu coração e depois vou estar pronto para ti.

Ela1 - Está bem, estamos quando quiseres…


Ela2 - Porque decidiste voltar a estar comigo?

Eu - Acho que te deixei por insegurança, estávamos tão distantes nos objectivos para a nossa relação que eu não podia continuar assim. Desta vez vai ser diferente, ainda estou na fase instável, mas quando me encontrar, vou conseguir decidir se isto vai ser a sério.

Ela2 - Não demores muito…


Na realidade, estamos perdidos… continuamos perdidos e doridos, sem a menor capacidade de tomar decisões. Vale-nos o sermos transparentes…

Game’s game

Ele tinha um ar de aristocrata que me fascinava quando eu era miúdo. A barba usada de quem já havia percorrido muito do mundo. Gostava particularmente quando me entretinha com as suas aventuras nas caçadas, deliciando-me com as imagens contadas das perseguições na savana africana, fazendo-me rir com as historietas e descrições dos serões passados à volta de uma fogueira, com as tendas no meio do mato expostas à simplicidade dos elementos. Eu gostava de o ouvir a imitar os sons da bicharada que lhe atormentavam o sono, naquelas noites sem enfeites. Um dia, quando eu era já um pouco mais crescido e ele há já muito abandonara o hábito da caça, tanto em África como no Alentejo, contou-me, em pormenor, a sensação mais estranha que experimentara, por várias vezes, quando apontava a espingarda a pequenos quadrúpedes, gazelas, impalas ou veados, e estes, apercebendo-se da sua presença, o olhavam nos olhos, fitando-o com tamanha profundidade que ele se arrependia sempre do que faria em seguida – a sensação de que aqueles pequenos seres lhe atingiam a alma, antes de ele lhes atingir a vida. E eu, lembro-me agora, fiquei muito triste a recordar os olhos chorosos do pequeno Bambi.

Friday, September 17, 2010

freaky

Já não te percebo. Já não te consigo ler as entrelinhas. É estranho. Não sei dizer se é bom ou mau. É estranho.

Thursday, September 16, 2010

treat your soul

This city is filled with tanned skins. September is gentle with performing bodies. And yet, virtuous souls are hard to come by. And as I read the words painted on the wall, I truthfully know my soul is mourning for yours. Reciprocally, I’m sure...


Tuesday, September 14, 2010

Num blog, dos mesmos bons, destes aqui ao lado

Num blog, dos mesmos bons, destes aqui ao lado, fala-se de “esquecer” com profundidade e sem filtros. Leio os comentários e constato que há por aí mais vidas adiadas, corações partidos, esperanças desenraizadas, almas que perderam a vontade, personalidades fortes que decidiram, e conseguiram, “cortar”. Há entrelinhas perdidas, vontades atónitas, desejos inacabados e sonhos por realizar. O amor não é cruel, nós, imperfeitos, é que o fazemos difícil.

Monday, September 13, 2010

gostar vs. arrebatar

Explicam-me com carinho e cautela que gostar assim, a sério, pode durar muito tempo. Meses? Pergunto eu. Anos! Respondem-me. E eu que sou um duro, não acredito mas fico a pensar no assunto. Dizem-me, com convicção afirmativa, que nestes casos o melhor mesmo é arrebatar, já que pouco mais há a perder. E eu que sou um estóico, digo que não, que se a felicidade depende de um grande gesto, é porque o amor não é sincero.

Gin & vodka

Foi muito bom voltar a falar com ela assim. Descontraídos e sem medo de deitar cá para fora as verdades do âmago da vida. Foi muito bom voltar a sentir-nos como éramos no passado, íntimos até à exaustão do coração. Somos tão diferentes e no entanto, conhecemo-nos, reconhecemo-nos, como ninguém, por dentro e por fora. Foi preciso voltar a sofrer um desgosto de amor intenso, para nos voltarmos a encontrar no nosso melhor. A comungar das razões que nos fazem tão próximos, das ideias e ideais que eu sei que são mesmo dela, e que ela sabe que são precisamente meus. Foi muito bom. Temos que repetir, de vez em quando.

Friday, September 10, 2010

O das promessas

O das promessas sabe bem que te quer. Sabe bem que gosta de ti, muito e em exclusivo. Sabe bem que um destes dias, não muito distante, te vai fazer feliz, seriamente feliz. Escreveu-o na areia, de propósito para ti, num dia cheio da vontade que sente agora, com as mãos grandes e ávidas de ti. Sabe, porque sabe, que um dia destes, próximo, te vai voltar a abraçar, daquela forma deslumbrante. No tempo que vos separa da sensação de mais um abraço, daqueles vossos, capaz de ser único entre as almas do universo, entre a vontade e a possibilidade, vai ter que recuperar a confiança perdida, a capacidade de te voltar a fazer sorrir. Não vai demorar.


Tuesday, September 7, 2010

desistir - pequeno rol de instruções para a (minha) vida

Nova palavra no vocabulário da minha vida.
Desistir não tem glória mas é mais difícil do que persistir. Desistir não tem charme mas é mais complicado do que resistir. Desistir pode confundir-se com “querer esquecer” mas não é a mesma coisa, desistir é cobardia e aplica-se quando não somos capazes de esquecer. Nestes últimos dias, fiz o exercício de rever a minha vida em fast-playback e não consegui encontrar um único episódio em que tivesse decidido desistir de algo que quisesse mesmo (eu era mesmo bom). Desta vez (é uma primeira vez, aprende-se sempre com estas) teve que ser, antes que o excesso de endorfinas me provocasse um enfarte do miocárdio. Preparei então um prontuário para acompanhar a nova palavra do vocabulário da minha vida:

1) Quando acordares a sonhar com o que não podes, levanta-te da cama e sai para correr – já diziam os outros, antigos, “mens sana in corpore sano”.

2) Junta numa lista 3 ou 4 defeitos que, mesmo não sendo verdadeiros, te façam resistir à vontade – com a mentira te convencerás.

3) Agarra-te com força a tudo aquilo que és, às pessoas brilhantes e especiais que foste conhecendo ao longo da vida, aos sítios esplendorosos por onde passaste – é mesmo para isso que o passado persiste na tua memória.

4) Em último caso, aceita que nada tem importância e que podemos estar a viver num átomo da unha do gigante – usar com cuidado, o efeito pode ser uma bomba atómica.

Não sei se aprender a desistir vai fazer de mim uma pessoa melhor, provavelmente não, mas se toda a gente o faz, porquê (para quê) ser diferente? Temos pena.

Monday, September 6, 2010

KaDee Strickland

Não sou muito de televisão mas, muito de vez em quando, dou por mim fascinado pela Katherine Dee Strickland. Um verdadeiro “figo”, para além de boa actriz.

Saturday, September 4, 2010

A frescura de Setembro

Gosto muito destas noites em que me encontro (reencontro) com amigos que não vejo tanto quanto devia, porque, com o tempo que vai passando, há novidades para contar e a ideia, subjacente, de nos conhecermos bem deixa a conversa flutuar entre o presente e as memórias do passado comum.
E gosto da sensação do movimento de volta à cidade em que se encontram peles morenas, acompanhadas de roupas frescas e descontraídas, junto ao rio, que fazem de Lisboa um sítio bastante perfeito para se viver.

Friday, September 3, 2010

Clutching at straws

Sentaram-se no sofá grande e encostaram-se bem atrás para ficarem confortáveis. Pediram bebidas frescas. Ela uma Margarita com muito sal e ele um Grey Goose apenas com gelo. Olharam-se nos olhos. Ele achou-a cansada e ela disse-lhe que o via triste. A música à distância não era só deles e oferecia-lhes sensações diferentes. Falaram das férias por uns minutos. Ela disse-lhe que gostava de o ver assim moreno, enquanto ele pensava que ela estava giraça. Afundaram-se então numa conversa profunda sobre o estado das suas almas. Discorreram sobre as vicissitudes das suas vidas e os apertos dos corações. Ao fim de meia-hora estavam cansados de sacudir as amarguras. Ele sentia-se aliviado e pensou que ela também. Agarrou-a pela mão e juntaram-se à multidão para um pezinho de dança.

Thursday, September 2, 2010

A maior prova de amor

A maior prova de amor que ele tinha para lhe dar, era sentir-se capaz de mudar coisas, pequenas e grandes, algumas mesmo grandes, que eram muito dele.
Da mesma forma que ela tinha sido capaz de arriscar abrir uma escova de dentes, novinha “em folha”, logo na primeira noite, para ele.

Monday, August 30, 2010

fotos & smiles

Regressa das férias e o primeiro sinal de vida que me dá, é postar no facebook meia dúzia de fotografias do pôr-do-sol que lhe recomendei. Sei que as tirou com a câmara fotográfica que me disse que ia comprar antes de partir. Numa das fotos, bonitas, diz que afinal o “pôr-do-sol brutal” tem nevoeiro e pisca(-me) o olho.
Arrisco e convido-a para jantar, é certo que muito em cima da hora, ela recusa, dizendo-me que vemos agendas no início da semana :)
Já imagino o que aí vem: ela vai fazer-me esperar (ou mesmo desesperar) ainda para mais sabendo o que não era suposto sobre o meu estado “broken heart”. Parece-me bem, de outra forma isto não teria futuro. Mas, por outro lado, estou a precisar das possibilidades, tanto…

Malibu | em segurança

Passou três dias no Mondrian, perdido entre as refeições encomendadas no quarto, a vista nebulosa da baixa de Los Angeles, passagens breves pela piscina repleta de beldades e uma saída fortuita até aos bares do Boulevard, demasiado gays para o seu estado de espírito. Ao quarto dia, pediu que lhe encontrassem uma casa para alugar em Malibu. Percorreu a Pacific no Mustang e enfiou-se numa villa com 6 divisões e uma escada de acesso directo à praia. Encomendou víveres para uma semana inteira, presenteando o porto-riquenho que lhe trouxe o supermercado a casa com uma nota de 5 dólares, e preparou-se para o que imaginava ser um retiro espiritual. Na primeira manhã, optou por estender-se na praia a olhar o mar, e pensou para si mesmo “suponho que, em teoria, já passei por piores bocados, mas não foram muitos, e não foram muito piores”. Sentiu-se em segurança.

Sunday, August 29, 2010

Diálogo (dos surreais)

Eu - Miúda, já te esqueci...

Ela - Ainda bem Ricardo, começava a ficar preocupada contigo.

Eu - Sim? Mas agora apetece-me voltar a amar-te! Deixas?

Mondrian Hotel | sem conforto

Fez a incrível recta perdida no meio do deserto com o prego a fundo e o sol do meio-dia a bater-lhe forte no cabelo ao vento, sentindo o inóspito Mojave enquanto ultrapassava carro após carro. Chegou à “cidade dos anjos” quando esta já se mostrava cansada de mais um dia de tráfego pesado e virou, cuidadosamente, em cada placa que lhe indicava West Hollywood, sem vontade de se perder. Entregou a chave do bólide ao rapaz mexicano e entrou para o lobby do Mondrian. Sentiu-se subitamente melhor no meio da decoração minimalista que sempre o deixava tranquilo e pediu a penthouse, puxando do cartão de crédito. Subiu no elevador com outro rapaz latino que lhe carregava a única mala e entregou-lhe quatro notas de dólar à porta do quarto, pedindo que o não incomodassem. Deitou-se na cama larga, com a roupa ainda vestida, e adormeceu rapidamente. Acordou passado uns minutos a pensar porque ela não lhe largava o pensamento se já não o amava. Sentiu-se sem conforto.

Thursday, August 26, 2010

Arrábida (blasé)

Aquele foi um ano de aventuras grandes e emoções férteis. Num verão não demasiado quente de calor, recordo-me de esperar por ela, mal desperto, pouco passava das 7 da manhã. Papillion selado e com os arreios bem postos, esperei uns bons 20 minutos, numa manhã fria para Agosto, até ouvir os cascos do Rouxinol a passo pelo alcatrão. Nunca entendi, porque decidiu dar nome de passarinho a um cavalo – há lá espécies mais diferentes. Saí pelo portão da quinta ao seu encontro e inclinámo-nos para nos beijarmos. Descemos a passo e a par pela estrada até ao cruzamento. Ali, metemos pela terra batida e começámos o trote. Ela a olhar-me de esguia, enquanto eu lhe dava primazia, com o cabelo ondulado e selvagem pretensamente preso por um “frufru”, daqueles que se usavam na época. No final do caminho encontrámos o que sabíamos, campo livre e Arrábida à vista para o galope em corrida, mesmo que cautelosa. “Até ao outeiro, Ricardo!”, gritou-me e, naturalmente, ganhou-me porque sabia montar tão melhor que eu, medroso, mesmo sendo o Papillion mais rápido que o grosso Rouxinol. Sorriu para mim, competitiva, sabendo o que isso me agradava – sempre gostei de miúdas assim, desafiantes para depois se tornarem meigas, como com aquele sorriso. Ela poderia ter sido a “mulher da minha vida”, se naquele tempo eu não me tivesse perdido de amores por outra ainda menos dócil. Voltei a vê-la há uns dias, mãe e feliz – como provavelmente não teria sido se tivesse continuado comigo. Deve ter-me achado triste e estranhado como ainda estou “sozinho”.

Wednesday, August 25, 2010

Hoover Dam | sem ar

Tomou a 215, depois a 95 e cortou para a 93. Sintonizou uma rádio que passava ópera e aumentou o volume enquanto percorria as curvas e contra-curvas sob o bafo do calor da manhã, com a capota aberta. Observou as montanhas que o rodeavam, sentindo-se cercado por fora e apertado por dentro. Atravessou a Hoover Dam e estacionou do outro lado. Saiu do carro pisando a gravilha do Arizona. Caminhou lentamente até ao meio da estrutura e debruçou-se sobre o precipício de betão. Ficou ali parado, por longos minutos, fixado na torrente de água que saía das turbinas à sua direita, a pensar em como ali havia chegado. Amor descoberto com profundidade, prazer inusitado, carinho desmesurado por parte daquele ser, único e tão perfeito. À medida que lhe começou a doer o peito, encostado com força ao parapeito, apercebeu-se que já não lhe recordava o rosto, como queria, e sentiu-se sem ar.

femme heureuse (pas fatale)

Encontrava-o perdido na vida. Agarrava-lhe as duas mãos com firmeza. Sorria para ele enquanto lhe contava uma história de encantar. Envolvia-o com os braços e fazia-lhe uma festa carinhosa através do cabelo. Beijava-o repetidamente nas bochechas. Enchia-lhe novamente o coração de sentimentos doces, como se nada tivesse passado de uma pequena anomalia no filme das suas vidas.
Ele nunca conhecera uma mulher assim. Tão capaz de o encantar apenas com o olhar. Tão clara na forma como lhe dizia que gostava dele. Tão complexa no abraçar. Assustadora na ausência. Persistente na distância. Convicta no silêncio.

Tuesday, August 24, 2010

Wynn | sem destino

Passou quatro dias a deambular pelo Wynn Resort, aproveitando os 92º F na piscina pelas tardes, jogando Blackjack ao início das noites, e conhecendo miúdas estereotipadas no XS pelas noites fora. Dormiu pelas manhãs, acordando sempre a pensar no que sentia e se ainda sentia alguma coisa. Fartou-se disso e dos cocktails que foi experimentando ao longo daqueles dias. Na quinta manhã, já com um bronzeado invejável, levantou-se cedo e alugou um Ford Mustang descapotável, percorreu a strip em direcção a sul, sem destino.

AirTrain | sem saudades

Chegou ao Liberty muito adiantado para o voo que tinha marcado. Podia mudar os planos e apanhar um avião mais cedo, pagando mais 50 dólares. Não hesitou e apanhou o AirTrain para o terminal C da Continental Airlines. Perdeu-se a olhar o skyline de Manhattan, uma última vez. Chegou em cima da hora à porta de embarque. Naturalmente, calhou-lhe a penúltima fila e o lugar do meio ensanduichado entre um estudante estrangeiro e gordo de iPod enfiado nos ouvidos, e uma americana mal-cheirosa de iPad ligado a percorrer revistas femininas. Adormeceu de imediato, como nunca lhe acontecia, sem saudades.

Monday, August 23, 2010

Get a life or else get a new car

Neste final de Agosto desinteressante, a “grande decisão” da minha vida resume-se ao carro que vou escolher para fugir aos exagerados novos escalões de impostos do filósofo de serviço. Bom, é certo que também estou a precisar de um carro novo porque o Golf já tem 4 aninhos em cima e, desta vez, vou por um que não seja meu, mesmo que me saia do bolso na mesma, só para evitar as chatices da propriedade.
Após aturada pesquisa (nem por isso) as opções trazem conotações diferentes que me põem a pensar na vida:

- O Spider – verdinho e “bora lá” impressionar as miúdas de vinte-e-alguns:

- O Série 5 – azulinho e vamos lá pensar, seriamente, em constituir família:

- O “amostra de jipe” Q5 – cinzento e deixa-me cá chegar a Administrador, solteiro e com uma amante fiel:

Central Park | sem retorno

Deixou-o sair para a sua corrida matinal no Central Park, fingindo-se adormecida e aconchegada pelo édredon. Levantou-se quando ouviu a porta bater e pôs-se a espreitar pela janela do quarto, observando-o a atravessar a 59ª, pela passadeira, e começar a correr pela East Drive. Sabia que dispunha de aproximadamente 1 hora até que regressasse com os bagels barrados com queijo creme, como todas as manhãs daqueles últimos dias. Olhou-se no espelho e gostou da sua imagem, meio despenteada e com cara de sono. Enfiou-se no chuveiro e abriu apenas a torneira da água quente, lavando-se profundamente com a água a escaldar e sentindo-se certa da sua decisão. Enxugou-se com a toalha de turco macio e vestiu-se de forma casual, calçando uns ténis que sabia confortáveis. Tirou a mala de rodas do armário e enfiou nela todas as suas coisas, de forma desordenada. Antes de sair escreveu-lhe um bilhete que depositou sobre a almofada, ainda com a forma da cabeça dele lá marcada: “Amor, desta vez é que te deixo mesmo. Sem retorno.”.

Sunday, August 22, 2010

Yellow cab | sem álibi

Apanharam um táxi amarelo, direcção norte, na 1ª avenida. Tinham acabado de jantar no Yaffa Café e dado um passeio demorado por Tompkins Park, repleto de East Villagers a passear os caninos, onde ela parara para fazer festas a um cachorrito dálmata que achara encantador. Indicaram o nome do hotel ao motorista de turbante Sikh e afundaram-se no estofo de plástico. Ele tomou-lhe a mão direita e percorreu-lhe, vagarosamente, o antebraço com as pontas dos dedos. Ela olhava fixamente os prédios que lhe apareciam pelo vidro sujo, sentindo o movimento dos olhos, da direita para a esquerda, acompanhando o movimento do carro. Ao mesmo tempo, ele escrevia-lhe, com o indicador, o seu nome na palma da mão, com doçura. À altura das Nações Unidas, ela virou-se finalmente para ele e, enquanto observava o edifício, disse-lhe: “Tu vais ser o meu fim… porque será que não aprendes que tudo na vida pode passar de mau a pior!”. Deixou-o sem álibi.

Friday, August 20, 2010

fast love

Apercebi-me das inconsequências do amor rápido enquanto lia de enfiada emails há algum tempo trocados. Acho que as pessoas, em geral, tendem a apaixonar-se muito aceleradamente apenas porque querem acreditar. Acreditar está na moda e acreditar que estamos apaixonados faz-nos sentir úteis num mundo repleto de futilidade. Gostamos dos appetizers mesmo sem sabermos ao que vão saber, devoramos as sensações da nova companhia, abusamos no tempero quando os corpos se encontram, rematamos com beijos doces que parecem cheios de significado. E é bom, como não poderia deixar de ser, tudo o que é novidade para a alma. Depois ficam os restos. Recordações boas ou más. Intenções falhadas e convicções esmagadas. E eu que não sou nada disto, sinto-me inadaptado, frugal e parvamente romântico, a querer acreditar que as causas eram mais profundas.

Wednesday, August 18, 2010

das leituras de verão (as dos outros e a minha)

O que os bimbos lêem nas férias (títulos percebidos num final de tarde na piscina de um aparthotel-kitsch-na-moda):
Vários do Nicholas Sparks – nunca li, dizem que é mais ou menos o Paulo Coelho dos anglo-saxónicos… tudo dito!
“Um amor em tempos de guerra”, Júlio Magalhães – isto dos pivots acharem que são escritores, ainda acaba mal… recomendo antes o plagiado “Amor em tempos de cólera” do GGM, esse sim é um escritor a sério!
“[título não percebido]”, Francisco Moita Flores – quem?
“[um título qualquer]”, Nick Hornby – uma bimba com melhor gosto… ajuda a confirmar a regra.
“A Ilha”, Victoria Hislop – fui ver na Amazon, passa-se numa antiga colónia de leprosos… não se arranja um destino mais macabro?
A minha leitura de férias (modo-arrogante-sou-tão-melhor-que-os-bimbos): “Money” by Martin Amis – um grande, grande, clássico de 1984 que nunca tinha lido; Nova Iorque na década da decadência e Londres no fim da era punk; sexo, drogas e um pouco de rock-n-roll, q.b.; egocentrismo a roçar o extremismo; pós-modernismo capitalista; o fascínio pela “princesa” Diana antes do casamento real… condimentos mais que suficientes para uma Grande história.
Retomo o MEC numa crónica “ante-pós-modernismo” (i.e., mais ou menos do tempo do Grande clássico) que li há muitos anos atrás, no monte-branco – que já não existe – ali na Arrábida:
De todo o tempo que perdem os portugueses, não há eternidade como o tempo que perdem a não ler. Durante o Verão, o país enche-se de turistas estrangeiros e quase todos – seja na praia, seja no hotel – andam quase permanentemente com um livro na mão. Esta estranha proclividade deixa o português perplexo: Estes bifes são todos malucos – pagam um balúrdio para cá virem e depois, em vez de aproveitarem, passam o tempo todo a ler… até usam os livros abertos para marcar lugares!”
É o facto cultural mais assustador de todos – os portugueses não lêem livros. Em nenhum outro país da Europa é tão raro ver alguém a ler um livro em público. Causa genuína aflição vê-los a não ler. Na praia, nas salas de espera, nos comboios, enquanto almoçam sozinhos, nos cafés… em toda a parte se vê uma população atarefadamente dedicada à actividade de não-ler. Porque é que não aproveitam estes tempos mortos?
Não se sabe. Uma das causas será o facto de o português ter horror à solidão. Esteja onde estiver, e por muito entediada que seja a sua condição, o português prefere estar a olhar para os outros – os tais que, por sua vez (e em vez de estar a ler), estão a olhar para ele. O português tem medo de se mergulhar num livro, porque isso significa que deixa de estar à coca. Não pode estar em lado nenhum sem sentir que está de serviço, a controlar a situação. Olha os que entram, os que saem; os que ficam, os que voam e fazem “Bzzz…”. Nem é só por bisbilhotice – é por desconfiança. Não pegam num livro porque têm medo de apanhar uma paulada nas costas enquanto estão distraídos. Para um português, ler é estar desprevenido.
Os preconceitos contra a leitura são terríveis. Entre o povo, diz-se que faz mal à digestão ler a seguir ao almoço ou ao jantar.
Existe também a noção grosseira de que ler “cansa a vista”, porque “faz mal puxar muito pela cabeça”. O típico brutamontes defende-se destas acusações dizendo que “ando a trabalhar todo o dia e, quando chego a casa, é para descansar, não é para ler”. A realidade é triste, mas tem de ser revelada: o português prefere cansar-se a trabalhar (e lembremo-nos que tem a capacidade singular de cansar-se muito a trabalhar pouco) ao descanso que seria ele ler. Resiste aos livros como aos castelhanos.
Inexperiência! Aí está a raiz do mal. Viver é experimentar, enquanto ler é deixar de viver. É por isso que, nos lugares públicos, preferem passar o tempo a viver – a ver a vida dos outros. No fundo, os portugueses querem saber o que se passa, mais do que querem, através da leitura de livros, passar a saber. Se lêem jornais, é com esta mesma intenção de “saber o que se passa”- folhear as páginas é como estar fechado num café ainda maior.
Têm medo de entrar nas livrarias, que pensam serem só para intelectuais, segundo a definição corrente de “intelectual” – alguém que lê um livro de vez em quando, por estrita obrigação profissional. Preferem receber os livros pelo correio, num invólucro castanho, como outros povos encomendam publicações pornográficas e clandestinas. Livros esses que não são geralmente para ler, mas para ver, e chamam-se quase sempre “Os animais da Terra”.
Em contrapartida, não há português que não escreva. O português é uma criatura maravilhosa – assim como fala, mas não ouve; escreve, mas não lê. Uma das consequências deste desnível entre quem escreve e quem lê é o seguinte: em Portugal há somente quarenta leitores para cada trinta mil autores. Não há nada mais fácil, hoje em dia, que escrever um livro e publicá-lo. E nada mais difícil que achar alguém que o compre e que o leia.
É um círculo vicioso. Como os que escrevem não lêem, não escrevem muito bem. E como, de qualquer modo, não há quem os leia, ainda escrevem pior. É por isso que tantos escritores produzem livros absolutamente ilegíveis.
A tranquilidade necessária à leitura (que nem é assim tanta) não parece abundar no nosso povo. Dizem que o povo é sereno, mas um polvo com epilepsia é mais. Nas salas de espera, passam horas a folhear revistas velhas a um ritmo alucinante, como se estivessem a tentar criar um efeito televisivo de animação com os bonecos. Curiosamente, os analfabetos ainda são os que mais se interessam pela leitura propriamente dita. Como não sabem ler, os livros têm para eles um mistério e uma dignidade que só os bons leitores ainda lhes atribuem.
E pronto, passados muitos anos, os factos já não são exactamente assim, mas as leituras de verão dos portugueses são no mínimo assustadoras (as dos outros e a minha)!

Tuesday, August 17, 2010

O silêncio

O melhor silêncio é o que se ouve quando se encontra uma praia com um areal gigante deserto de gente. Tranquilidade absoluta acompanhada pelo som do mar. Adormeço profundamente, sob a protecção de pequenas nuvens, e sonho contigo. Esta poderia ter sido a nossa praia. O teu silêncio é o pior e magoa-me muito.

Monday, August 16, 2010

Diálogo (dos alternativos)

Ela - ...
Eu - O que se passa, miúda?
Ela - Ricardo, já não sei o que fazer com todo esse teu amor...
Eu - Toma-o, e corresponde-me com um daqueles abraços.

…ou então urbanista

Sou só eu que acho Lisboa tão mais agradável nestas semanas de Agosto em que a turba se muda quase toda para sul? (ou para Maiorca que parece estar na moda e em conta)
É que esta cidade seria ainda mais bela se houvesse sempre pouca gente, menos carros, filas diminutas e muita qualidade de vida. E pergunta o consultor, porque raio não “deslocalizam”, de vez, os jobs desta gentinha para o “Allgarve”?

Sunday, August 15, 2010

a noite

Passo a noite entre amigos no “hotspot” de Lisboa. Amigos daqueles que sei nunca me vão esquecer, por mais tempo que passe – dizem que faz bem, nesta situação. Um deles, espanhol, conta-me que projectou o aeroporto das Bahamas, parte do T5 de Heathrow e um estádio de criquet, na Índia para 55 mil pessoas. Invejo-o, porque já criou coisas concretas – eu devia mesmo ter sido arquitecto. Depois de 4 vodka-tónicos, acho que já não me vou lembrar de ti, mas afinal continuas a encher-me o pensamento.

Friday, August 13, 2010

Ghardaia

Naquele dia, há cerca de 1 ano atrás, chegámos cedo ao Meco e alugámos uma palhota na 1ª linha. Ao contrário de hoje, não fazia vento. Emprestaste-me o “No teu deserto” que eu devorei em 3 horas, mesmo fazendo intervalos de tempos a tempos para conversar contigo. Partilhámos uma sangria enquanto eu te falava de Ghardaia e Le Corbusier. Quando terminei o livro, disse-te por palavras suaves e escolhidas que necessitava de voltar a amar. Tu não me quiseste entender e desfizeste a conversa, dizendo-me com lágrimas nos olhos que talvez se tratasse de uma fase. Não era assim. Amanhã, partes para o Nepal e eu só espero que já não me leves contigo, porque sei o que isso dói. Eu por mim, também partia, já amanhã, para Ghardaia.

Thursday, August 12, 2010

wish upon a star

Recebo duas mensagens iguais através do Facebook: "Na noite de 12 para 13 de agosto, dezenas de estrelas cadentes por hora podem ser vistas a olho nú ;) Boa sorte!"
Já tinha visto duas e pedido os respectivos desejos, será que estou a abusar!?

The day I decided to write the novel | 34º Celsius cooking my brain

So Rick and Kate have been in love for quite some time. They look like English characters in a French movie. Some shyness on the first scenes, too much perfection in the middle chapters, a lot of drama by the last ones. An extraordinary soundtrack, rightly chosen among indie musicians. Deep feelings all over the screenplay. Dialogs written in strong words, an exchange of thoughts hard to understand. They met on a spring night, fell on each-other’s arms on a park bench, made love in the sweetest way every time. They held hands in small concerts, beautiful theatre plays and while walking through the narrow streets of their city. They embarked on a dream of togetherness and seemed ready to change some of their deepest convictions, in a way that would impress their souls, making sense of one another even throughout the periods they were apart. Then Rick’s senseless personality surfaced and he made the wrong moves, mistook his lines and remained silent when he should not. It scared Kate and made her loose faith. Time, that unbeatable foe, passed very slowly, while they were together no more, although still remembering the sweet taste of the good times. And nowadays, they find themselves a world apart. Rick still deeply in love, not wanting to give that feeling up, and strangely betting on the possibilities. Kate only seeing herself getting even more hurt, and imagining him as he really is not. Time passing doesn’t seem to help these two, even if there is still a lot of film to shoot further scenes.

Wednesday, August 11, 2010

Já ninguém morre de amor?

Naquela manhã ele voltou a acordar muito cedo, pouco passava das 7 da manhã. Vestiu uma t-shirt cinzenta, os calções desportivos e calçou os ténis por cima das meias caneladas. Saiu para a rua onde já fazia calor. Dirigiu-se ao caminho de tartan e começou a correr. A primeira volta custou-lhe, sentiu os músculos doridos pelo esforço dos dias anteriores. Percebeu que estava a dar passos curtos e alargou bastante a passada. Na segunda volta ao percurso sentiu o coração descompassado mas a respiração já estava segura. Concentrou o pensamento naquilo mesmo, no coração descompassado, tentando interpretar se seria por causa da corrida ou ainda pela dor imensa que lhe ocupava o peito. Começou a terceira volta, a correr a bom ritmo, pensando como tudo deveria ser diferente, mais justo. Foi então que deu por si no meio de uma dúzia de trabalhadores que se dirigiam às obras, em contra-mão. Observou-lhes os rostos carregados e as mãos calejadas, segurando sacolas aos ombros. Gritou-lhes “bom dia” e imaginou-se um personagem do Tolstoy, daqueles cujos nomes terminam sempre em “itch” e que garbosamente vestidos, reflectem sobre a cena em que montando a cavalo, no meio da floresta, dão por si no meio dos camponeses esfarrapados e ao frio. Sentiu-se um príncipe dos tempos modernos, a fazer jogging concentrado nos males da paixão, quando a vida tem tantas outras preocupações. Já ninguém morre de amor?