Sunday, December 12, 2010

a temporada

E (re)começa a temporada dos jantares de Natal, este ano inaugurada pelo dos amigos mais velhos (antigos). Um clássico de espírito positivo, sem a fantasia bacoca da troca de presentes e com muitas reminiscências divertidas da infância e da pré-adolescência. Estes são do melhor que há, sempre afoitos para os copos, mesmo antes do jantar, as trocas de galhardetes repetidos mas ainda assim divertidos. O carinho de sabermos como estamos, uns e outros, mesmo entre os que estivemos juntos há poucos meses. A dimensão despreocupada de quem sabe que estaremos sempre presentes uns para os outros mesmo quando estivermos velhinhos, porque vem sendo assim ao longo dos anos – e há lá melhor presente. E acabamos quase todos no Lux, armados em neo-clássicos, a dançar os sons demasiado batidos do Rui Vargas e perdidos em conversas descontraídas e sinceras na varanda. Muito bom.

Friday, December 10, 2010

insónia

A minha vida não projectada é ela e a inquietação de saber que está bem. O desejo de que esteja mesmo bem, feliz. A vontade de que consiga estar melhor do que eu. A ansiedade de a sentir acarinhada como eu a faria sentir-se. E eu a sentir-me muito cansado mas sem conseguir pregar o olho.

Thursday, December 9, 2010

do blog e do cipreste

Este blog não é muito dado à introspecção (do blog) mas faz agora um ano que mudou de nome e ganhou balanço. E que balanço. Aquele dia em que nos deixaste ameaçava chuva em Lisboa e à noite quando cheguei a casa, vindo do teu velório, já chovia muito a sério. Eu sentia uma necessidade imensa de deitar cá bem para fora tudo o que sentia e um ano volvido parece-me que ainda não parei de o fazer. Perdido no meio destas páginas há um texto que te é inteiramente dedicado, escrito na modernidade do Blackberry, numa praia, ao final da tarde, por entre as lágrimas que não saciavam a minha vontade de chorar as saudades que sentia de ti. Uns dias depois desloquei-me a um viveiro e comprei um cipreste mediterrânico, importado da Toscânia, que plantei num sítio que era nosso. Fui vê-lo há algum tempo, cresceu forte e verde e já tem mais altura do que eu. Vejo-o como se fosse uma antena para comunicar contigo, e tu sabes que eu nem acredito nestas coisas, dos crentes, do Céu e da Terra, porque em algum momento falámos sobre isto. Graças a ti eu já plantei uma árvore e praticamente escrevi um livro, falta-me o que falta, que gostaria que tivesse uma referência para a vida como tu foste para mim.

Wednesday, December 8, 2010

manhã de feriado

Aprendi esta receita no verão e quis aproveitar o estranho dia que julgava quente. Saí para correr quando ainda não chovia. Desta vez, escolhi a parte antiga da cidade – não é o ideal porque os passeios são estreitos e propícios a entorses. Ainda assim valeu a pena. Lisboa consegue ser encantadora numa manhã de feriado – eu, dorminhoco, gosto de dormir até tarde e não estou habituado a vê-la assim. Nestas manhãs é também uma cidade de encontros com quem cá vive. Encontrei um amigo entretido com as filhas numa esplanada – quem tem crianças obriga-se a aproveitar as manhãs – e uma amiga às compras para o Natal. Foi refrescante e até me esqueci que não tinha levado o iPod ou como não é fácil conduzir no regresso, molhado, com os vidros muito embaciados por dentro.

significados

Faço o esforço de tentar recordar um outro dia em que me senti assim, triste. Houve pelo menos um, recordo-me, e foi bem pior. Sobrevivi ao dito. Vou sobreviver a este. Há uns dias atrás estava aconchegado nos braços de uma miúda que gosta de mim, a dormitar. Não me sentia feliz e eu até gosto de dormitar. Gosto, principalmente, de explorar as sensações que sinto como minhas. Creio que são os momentos em que nos sentimos extremamente tristes ou felizes que nos fazem sentir realmente vivos. Os outros, intermédios, são apenas instantes do percurso que temos como nosso e andamos fartos de percursos, queremos fins, objectivos, significados. Eu gosto de significados.

bored to death, sad as a owl, insofismável

Sempre achei o mocho o bicho mais triste à face da Terra. Esta noite, a sentir-me triste como um mocho, recusei o convite para o programa alternativo embora estivesse mesmo a precisar de uma noite de copos entre amigos. Em boa hora, porque com o tempo que faz lá fora, mais vale insistir no romance que deixei parado desde o verão:

Há três anos, quando comecei a ganhar dinheiro a sério em vez de toda aquela merda que tinha estado a ganhar até então, o meu pai meteu-se em sarilhos nas mesas de jogo e nas apostas…
Sabem o que aquele sacana fez? Passou-me uma factura com todas as despesas que tinha feito com a minha educação.
É verdade: mandou-ma à cobrança. E a minha infância nem sequer tinha sido dispendiosa, porque sete anos, tinha-os passado eu com a irmã da minha mãe nos Estados Unidos.
Ainda tenho esse documento para aí guardado. Seis páginas A4 escritas à máquina com um só dedo. Por 30 pares de sapatos (aprox.), tanto. Por quatro estadas em Nailsea, tanto. Por despesas de gasolina com as mesmas, tanto. Cobrava-me tudo, mesadas, gelados, cortes-de-cabelo, tudo. E juntou uma nota, explicando num grosseiro tom de manga-de-alpaca, que aquilo era apenas uma estimativa, e que eu não precisava de o reembolsar até ao último tostão. A inflação fora tida em conta. Em suma, eu custara-lhe dezanove mil libras.
Fosse como fosse, ambos tivemos uma reacção visceral. Quando recebi a carta do meu pai, apanhei uma piela e mandei-lhe um cheque de vinte mil.
Quando recebeu o meu cheque, o meu pai apanhou uma piela e apostou o dinheiro todo num cavalo que ia correr no Cheltenham Colden Shield, um bicho que se chamava, sei lá… Dickshead, ou sei lá o quê.
O cavalo era jovem de mais para uma prova daquelas e não estava em grande forma, mas o meu pai tivera uma informação confidencial de uma fonte segura. Cem para oito pareceu-lhe bom. Fez a aposta por um intermediário. Dez minutos depois, o meu pai entrou em pânico e tentou cancelar a aposta. Mas o agente já tinha contratado o pessoal de mão, e a aposta teve de se manter.
Agarrado à garrafa de whisky, o meu pai ouviu o relato da corrida pela rádio. Como era de esperar, o Dickshead saiu a andar com cada pata para seu lado, a relinchar, tentando livrar-se das palas e do cavaleiro. Quando este, por fim, conseguiu dominá-lo o Dickshead começou a galopar atrás dos seus companheiros de corrida que já desapareciam ao longe. O locutor referiu-se uma ou outra vez a este cavalo, mas sempre no gozo, até que o meu pai esborrachou a telefonia, acabou o whisky e teve uma hemorragia nasal que lhe ia custando a vida.
Posteriormente, o meu pai comprou uma vídeo-cassete da corrida, e ainda hoje se baba todo quando a vê. Não só ganhou o Dickshead, como foi quase o único sobrevivente. No penúltimo salto, houve um daqueles amontoados terríveis que envolveu quase todos os competidores. O Dickshead passou por cima daquilo tudo aos tropeções e adiantou-se aos seus adversários, restando-lhe apenas um obstáculo para vencer.
O cavalo solitário prosseguia o seu caminho, sem pressas. Nem sequer chegou a saltar o último obstáculo. Praticamente, comeu-o, continuando assim sem esforço. Por fim quando à sua frente já não tinha mais que um pequeno relvado a uns dez metros da meta, o Dickshead tropeçou e caiu. O jockey, que, nesta altura, já via o triunfo ao seu alcance, tentou montar de novo. O mesmo aconteceu a alguns dos seus adversários, que haviam caído mais atrás. Ao cabo de dez minutos – já diversos cavalos sem cavaleiro tinham cortado a meta, e um outro competidor conseguira saltar o último obstáculo e parecia que iria ser o vencedor – o cavaleiro conseguiu dominar o Dickshead, convencendo-o a deixar de andar às voltas, e passou a linha de chegada à rasca, ganhando por meio comprimento.


Conclusão: Martin Amis, brilhante e com atenção aos pormenores, e eu a gastar o neurónio com literatura boa que até parece de cordel…

Tuesday, December 7, 2010

NYC & Lisboa – não geminar

Das poucas coisas que eu não gosto na Big Apple é da sensação latente de insegurança provocada pelos carros dos bombeiros em “fire drills” permanentes. Ainda assim é algo que se aceita numa metrópole exposta ao risco dos edifícios altos mas que não se entende numa cidade como Lisboa em que todo o “santo” condutor de ambulância ou carro da polícia parece deleitar-se a azucrinar os ouvidos da população. Vá-se lá saber, um destes dias ainda se lembram de reclamar “fire lanes”.

Monday, December 6, 2010

as qualidades

Ela junta duas qualidades que ele considera excepcionais:

1) Encontrá-lo espontaneamente no meio de uma multidão, como quem possui uma bússola no coração…

2) Fazê-lo sonhar com toda a meiguice do mundo, deslumbrante como o abraço…

Chega? Sim, tudo o resto vem por acréscimo. E ele? Ele… ele oferece-lhe as palavras. Humm, é pouco…

Sunday, December 5, 2010

Certezas (de pasteleiro)

O que as mulheres esperam de nós? Certezas. Obcecadas pela resposta pronta para a pergunta fulcral “O que pensas quando pensas em mim?”, elas esperam tudo e um bocadinho mais ainda. Não ficam satisfeitas com uma base, um princípio, querem o topping com sabor romântico-para-sempre. Entendidas que se julgam em cupcakes, acham que o bolinho tem que trazer a cobertura quando sai do forno. Que os macarons já vêm com o recheio. Que os éclairs já nascem com o chocolate dentro. São umas impacientes que só devoram certezas. E não é nada assim. Nós os homens necessitamos de tempo, precisamos de saber, de sentir, e isso demora tempo e cuidado no passar do estado apaixonado ao “é a ti que quero, com toda a certeza do mundo”. E sim, pelo meio há confusões, escolhas e decisões difíceis que por si mesmo contribuem para o sabor perfeito do que ambos queremos. O tempo é essencial.

latest novel

In my latest novel you are a fearless secret agent. Always ready to face many perils to rescue whomever you have to save from some ubiquitous strange international plot. From time to time you jump on a jet plane disguised as a sweet girl just ready to change the order of things. I play the role of “Mr. Nice Guy” unable to understand what’s going on, since you are very well trained to put me off and I just don’t get it. Maybe it was the Israelis or other kept away organization that told you to keep me at large, and I just don’t get it. That would explain your singular way of life, your addictiveness to order and why you’ve left me behind. You are not just a Bond girl, you are “Bond” yourself and I was a menace to your purpose in life. Anyway I didn’t get it and you didn’t want to justify.

Saturday, December 4, 2010

racional

Creio entender hoje melhor porque se amavam. Havia ali um sentido forte concebido pela imaginação que se sobrepunha a qualquer desejo racional. E eu tenho esta necessidade absoluta de ser racional. Está-me no sangue como a capacidade de escrever espontaneamente sobre o que me vai na alma. Tenho pouco lugar para o místico, porque a maior parte das vezes não acredito nessas coisas que aos outros parecem fazer sentido. Para mim, o mundo é feito de coisas muito palpáveis, mesmo nos sentimentos. Não se sofre pelo que não se conhece. Não se sonha com o que não aconteceu. Há sempre um fundo para o que se sente. Pode ser ligeiro ou baseado numa sensação, mas tem que existir matéria-prima para tudo o que se deseja ou anseia. A vida é feita dessas pequenas coisas, como a água da chuva a sublimar mesmo num dia muito frio como o de hoje.

Thursday, December 2, 2010

o estado “what's a boy to do?”

Utilizou as mãos em concha para atirar várias vezes água ao rosto, procurando um segundo de lucidez. Sabia que a sensação da água a escorrer pela face o ajudaria a encontrar respostas – é por isso que gosta da chuva. Pensou porque não se sentia magoado. Tinha todas as condições para isso, desde há muitos meses. Sabia que a mágoa seria um catalisador para esquecer tudo o que queria, para o fazer despertar do que sentia. Pensou porque não insistira em colocar em prática o plano de sair magoado para se libertar. Sentiu-se descontente com o efeito da idade. A maturidade que não o deixava assumir com propriedade a angústia de perder. Achava que devia ser ao contrário, que a experiência deveria contribuir para deixar passar o que não pode ser seu. Por um momento, odiou a sua personalidade vincada de não saber aceitar a derrota. Desejou não querer saber mais. Imaginou como tudo seria mais fácil se não fosse tão persistente. Olhou-se no espelho e sentiu vergonha de ser assim, pretensioso. Não chegou a conclusão nenhuma e definhou.

We walked arm in arm
But I didn't feel his touch
The desire I'd first tried to hide
That tingling inside was gone


And when he asked me
“Do you still love me”
I had to look away
I didn't want to tell him
That my heart grows colder with each day


When you've loved so long
That the thrill is gone
And your kisses at night
Are replaced with tears


And when your dreams are on
A train to train-wreck town
Then I ask you now
What's a girl to do


He said he'd take me away
That we'd work things out
And I didn't want to tell him
But it was then I had to say


Over the times we've shared
It's all blackened out
And my bat lightning heart
Wants to fly away


When you've loved so long
That the thrill is gone
And your kisses at night
Are replaced with tears


And when your dreams are on
A train to train-wreck town
Then I ask you now
What's a girl to do


What's a girl to do
What's a girl to do
What's a girl to do

Tuesday, November 30, 2010

Multiverse theory – ohlala, munivers et la vie est toujours fascinante!

Tanto tempo passado a pensar que perdera a metade do meu puzzle em pecinhas descoladas para sempre. Perdido numa vontade indómita sem reciprocidade. Armado em “miúdo” a quem a vida foi sempre servida numa “bandeja de prata”. E de repente, sem aviso, abre-se um universo paralelo para uma perspectiva de vida absolutamente diferente, como a um pinguim nos antípodas. Premonição? Ainda este fim-de-semana divagava que lá para o início do ano, teria que tomar decisões resolutas e de repente, elas aparecem-me como por magia. Afinal, há vida para além do presente. Afinal, há sempre algo diferente prestes a acontecer. Uma perspectiva que eu desdenharia se estivéssemos juntos. Um desafio que não me saberia bem se não tivéssemos passado. Uma resposta que seria uma certeza se as coisas tivessem acontecido como eu queria. Assim, agora, tudo é absolutamente fácil e o futuro aparece de forma completamente diferente, mesmo que eu não deseje com convicção este universo paralelo.

Sunday, November 28, 2010

a dupla traição

Traiu-a. Havia-lhe prometido que a inauguração daquele japonês seria com ela, da mesma forma que uns meses antes lhe dissera que a primeira experiência do oriental de degustação seria na sua companhia. Não cumpriram, apesar das mensagens trocadas do “vou guardar este para ir contigo”, de parte a parte. Ela foi ao japonês com amigos, tal como ele fora ao oriental com uma amiga. Lembrou-se disso enquanto esperava pelos seus convidados diante de um Sapphire com água tónica. Lembrou-se de como a ilusão lhe parecera boa há uns meses atrás, e nenhum dos dois tinha sido capaz de a aprofundar. Constatou que ambos haviam desistido da possibilidade.

fiquei na dúvida mas parece-me que tinha razão ;)


remição
(remir + -ção)
s. f.
1. Acto! ou efeito de remir ou de se remir.
2. Desobrigação do cumprimento de uma obrigação ou pena. = quitação, resgate
 
remir
(latim redimo, -ere, resgatar, salvar, arrendar)
v. tr.
1. Adquirir de novo. = conseguir, resgatar
v. tr. e pron.
2. Conseguir a libertação de outrem ou de si. = libertar, livrar
3. Tirar ou sair do perigo ou da condenação. = salvarperder
4. Ser reabilitado em relação a (crime, falha ou pecado); tornar-se puro em relação a. = expiar
5. Oferecer ou receber compensação. = compensar, ressarcir
v. pron.
6. Sentir arrependimento. = arrepender-se


vs.

remissão
(latim remissio, -onis, restituição, entrega, afrouxamento, brandura, indulgência)
s. f.
1. Acto! ou efeito de remitir.
2. Disposição para desobrigar o cumprimento de uma obrigação ou pena. = clemência, indulgência, misericórdia, perdão
3. Acto! de remeter.
4. Acção! de transferir a atenção do leitor ou consulente para outro texto ou outra parte do texto (ex.: remissão de um dicionário)
5. Falta de energia. = fraqueza, frouxidão
6. Diminuição do sofrimento ou do cansaço. = alívio, consolo
7. Med. Diminuição momentânea dos sintomas de uma doença. = remitência
8. Med. Desaparecimento da febre entre os acessos de malária. = remitência
sem remissão: inexoravelmente, impreterivelmente.

o filme do Senhor Nespresso

Fazia tanto frio como na altitude dos Apeninos mas a sala estava cheia para ver o filme do Senhor Nespresso. É um filme tranquilo e honesto, com muito boa fotografia e que não acaba bem – gosto disso no cinema, porque o aproxima da realidade. O Senhor Nespresso faz de Senhor Farfalle com consciência e aparência pesadas, em remição dos pecados, e acaba no paraíso mas não encontra o John Malkovich – gostei desta parte da alegoria. Gostei principalmente de recordar as paisagens dos Apeninos que já atravessei por duas vezes. De entre as espécies de montanhas são talvez as mais graciosas que conheço por se deixarem adornar pelas nuvens de forma maravilhosa – no filme há umas quantas imagens que reflectem isto mesmo. Recomendam-se, portanto, o filme e o passeio pelos Apeninos d’Abruzzo.


Saturday, November 27, 2010

auto-profundo

Ficou-me (como defeito) da minha formação científica esta prática de experimentar para depois analisar. Hoje “experimentei” sair com uma miúda, daquelas mesmo giras, cheia de enfeites e vontade de me agradar. Fiz tudo bem (para mim próprio) de forma concentrada e concertada, colocando o meu melhor sorriso e fazendo-me entendido quando ela divagava sobre os assuntos que a ela interessam e a mim não me dizem nada. Fui capaz de ser eu mesmo (no meu melhor) enquanto ela me olhava com aquela perspectiva de homem que se quer para a vida: maduro, gentil (não gosto deste adjectivo), bons genes e sucesso alcançado. Fui divertido, charmoso e um pouco misterioso para a deliciar. Tentei. A sério que tentei, assumindo o auto-desafio. Mas a páginas tantas, o bom da experiência tinha acabado e não era ali que eu queria estar. Pensava eu que já era hora de recuperar, mas afinal senti o coração preso num fecho-éclair perro, sem vontade de se soltar. E é isto. Sinto-me preso e não há coisa pior, para mim. É a sensação de que o futuro não nos reserva nada e de que chegámos ao pico da evolução, sem sentido e sem sentir, ou a sentir-me assim.

Thursday, November 25, 2010

Imbecil auto-crítico

Ao ler este blog com algum distanciamento, fico assustado com a quantidade de imbecilidades que fui escrevendo ao longo dos últimos meses. Creio que lhe deveria mudar o nome para “Verborreia em Lisboa” ou “O prolixo em Lisboa”. Cai chuva, cai – com o frio que faz, pode ser que saia um granizado!

Sunday, November 21, 2010

Witty wish

Tínhamos o privilégio de uma lareira acesa em Lisboa – eu gosto do calor da madeira a arder quando faz este frio húmido incaracterístico da cidade. O jantar tinha sido descontraído, apesar de ambos imaginarmos ao que íamos – acho graça ao processo intencional dos amigos que tentam suprir o que acham que nos faz falta com base em equações magnânimes de “vamos convidar R e K para jantarem cá em casa, e deixamo-los sozinhos no momento (que imaginam ser o) certo”. Por um instante alimentei a esperança de que tudo fosse assim tão simples, quando ela se virou para mim, com os olhos muito abertos e as pestanas carregadas de rimmel, e me disse:

- You’re a witty kind of guy!

E eu que não sabia o que queria dizer “witty”, mas não quis dar parte fraca, deixei-a prosseguir a conversa, embora cheio de vontade de usar o BB para entender, realmente, o que ela me estava a querer dizer.

- You’ve got this great energy within you that most people will notice once they meet you.

- …

- Have you ever seen “Brick Lane”? It’s this movie about a young girl living in London against her will, she’s from Bangladesh, and she has this wonderful thought about “love”, that you can actually induce into most things in life, and I like to quote: “There are different kinds of love: the kind that starts deep and slowly wears away. It seems like you will never use it up and then, one day, almost suddenly, you just realize it’s finished. Then there is the kind you do not notice at first but which adds a little bit to itself every day like an oyster makes a pearl, grain by grain, a jewel from the sand.” Do you get it?

E eu respondi-lhe que sim, que entendia o que ela me estava a querer dizer, mas a partir dali já não me sentia nada no registo “witty” mas sim no “let’s call it a night”.
Get a life, boy. 

Thursday, November 18, 2010

O precipício

Sentaram-se no Orpheu. Ela atirou o casaco para a cadeira ao lado, ajeitou a camisola de gola alta, puxou ligeiramente as mangas descobrindo os pulsos, bonitos, e fixou os cotovelos na mesa de madeira:

Ela - O que foi agora?

Eu - Seria capaz de te voltar a amar…

Ela - Para quê? Já te perguntaste, para quê? Tu não percebes que não fomos feitos um para o outro? Não entendes o que sofremos por descobrir isso mesmo?

Eu - Desculpa-me, eu não entendo nada do que se passou assim. Para mim, tudo o que correu mal foi por causa da expectativa. Como tu sabes, naquela altura eu não esperava nada e foi porque te conheci que passei a esperar tudo. Passei a acreditar que a vida podia ser muito mais. Fiquei deslumbrado com os nossos momentos perfeitos e tornei-me num crente. A maldita da expectativa que não se deixa dominar, é que foi fatal. E foi isso o que aconteceu comigo, à medida que te ia descobrindo, mesmo nos pormenores em que sabia que não encaixávamos, fez-me acreditar. E não há nada pior do que acreditar. Faz-nos querer mudar, ajustar. Deixa-nos a divagar. E então a vida acontece.

Ela - A vida, qual vida? Não percebes que não há vida em nós. Há desilusão, há a mágoa do que me fizeste quando decidiste, por ti próprio, hesitar. Há o silêncio em que foste capaz de mergulhar e a forma como me decidiste informar das tuas conclusões muito próprias, como se eu não estivesse ali mesmo ao lado para me pores a par. Não foste capaz de perceber que, naquela altura, eu estava disposta a procurar respostas, soluções, que fizessem o futuro acontecer. Sim, eu estava apaixonada por ti, mas passou-me no instante em que tomaste as tuas opções. Depois disso, limitei-me a sofrer as consequências de ter decidido entregar-me. Em algum momento posso ter hesitado, posso ter pensado como tudo poderia ser diferente, mas a mim a vida ensinou-me que nestas circunstâncias já não faz sentido. E por cada vez que tentaste chegar até mim, novamente, eu fui acumulando a minha certeza de que estava certa, de que tudo contigo seria sempre demasiado complicado. Percebes? Gostava que percebesses, e que seguíssemos com as nossas vidas, cada um por si.

Eu - Não. Se fosse assim, simples, eu aceitava essa tua proposta de seguirmos em frente. Mas não é. Há tanto mais aqui, entre nós, para nós. Eu sei que sim, não apenas porque sei bem o que sinto, o que para mim já é um bom princípio porque nem sempre acontece com certeza vincada, mas também porque o “acreditar” de que te falava não me passou com o tempo. Como eu sei o que sou, como sou por dentro, esta é uma instrução clara de que não posso deixar-te passar. Tu és obstinada e eu sou convicto. Somos personalidades ímpares, que se deixaram seduzir a sério, apesar da improbabilidade, e isso faz a situação em que nos encontramos complexa, mas não inultrapassável. Se pelo menos percebesses isso, tínhamos um princípio.

Ela - Um precipício!

Eu - Chama-lhe o que quiseres, de qualquer forma eu vou lá estar para te agarrar.