Sunday, November 28, 2010

fiquei na dúvida mas parece-me que tinha razão ;)


remição
(remir + -ção)
s. f.
1. Acto! ou efeito de remir ou de se remir.
2. Desobrigação do cumprimento de uma obrigação ou pena. = quitação, resgate
 
remir
(latim redimo, -ere, resgatar, salvar, arrendar)
v. tr.
1. Adquirir de novo. = conseguir, resgatar
v. tr. e pron.
2. Conseguir a libertação de outrem ou de si. = libertar, livrar
3. Tirar ou sair do perigo ou da condenação. = salvarperder
4. Ser reabilitado em relação a (crime, falha ou pecado); tornar-se puro em relação a. = expiar
5. Oferecer ou receber compensação. = compensar, ressarcir
v. pron.
6. Sentir arrependimento. = arrepender-se


vs.

remissão
(latim remissio, -onis, restituição, entrega, afrouxamento, brandura, indulgência)
s. f.
1. Acto! ou efeito de remitir.
2. Disposição para desobrigar o cumprimento de uma obrigação ou pena. = clemência, indulgência, misericórdia, perdão
3. Acto! de remeter.
4. Acção! de transferir a atenção do leitor ou consulente para outro texto ou outra parte do texto (ex.: remissão de um dicionário)
5. Falta de energia. = fraqueza, frouxidão
6. Diminuição do sofrimento ou do cansaço. = alívio, consolo
7. Med. Diminuição momentânea dos sintomas de uma doença. = remitência
8. Med. Desaparecimento da febre entre os acessos de malária. = remitência
sem remissão: inexoravelmente, impreterivelmente.

o filme do Senhor Nespresso

Fazia tanto frio como na altitude dos Apeninos mas a sala estava cheia para ver o filme do Senhor Nespresso. É um filme tranquilo e honesto, com muito boa fotografia e que não acaba bem – gosto disso no cinema, porque o aproxima da realidade. O Senhor Nespresso faz de Senhor Farfalle com consciência e aparência pesadas, em remição dos pecados, e acaba no paraíso mas não encontra o John Malkovich – gostei desta parte da alegoria. Gostei principalmente de recordar as paisagens dos Apeninos que já atravessei por duas vezes. De entre as espécies de montanhas são talvez as mais graciosas que conheço por se deixarem adornar pelas nuvens de forma maravilhosa – no filme há umas quantas imagens que reflectem isto mesmo. Recomendam-se, portanto, o filme e o passeio pelos Apeninos d’Abruzzo.


Saturday, November 27, 2010

auto-profundo

Ficou-me (como defeito) da minha formação científica esta prática de experimentar para depois analisar. Hoje “experimentei” sair com uma miúda, daquelas mesmo giras, cheia de enfeites e vontade de me agradar. Fiz tudo bem (para mim próprio) de forma concentrada e concertada, colocando o meu melhor sorriso e fazendo-me entendido quando ela divagava sobre os assuntos que a ela interessam e a mim não me dizem nada. Fui capaz de ser eu mesmo (no meu melhor) enquanto ela me olhava com aquela perspectiva de homem que se quer para a vida: maduro, gentil (não gosto deste adjectivo), bons genes e sucesso alcançado. Fui divertido, charmoso e um pouco misterioso para a deliciar. Tentei. A sério que tentei, assumindo o auto-desafio. Mas a páginas tantas, o bom da experiência tinha acabado e não era ali que eu queria estar. Pensava eu que já era hora de recuperar, mas afinal senti o coração preso num fecho-éclair perro, sem vontade de se soltar. E é isto. Sinto-me preso e não há coisa pior, para mim. É a sensação de que o futuro não nos reserva nada e de que chegámos ao pico da evolução, sem sentido e sem sentir, ou a sentir-me assim.

Thursday, November 25, 2010

Imbecil auto-crítico

Ao ler este blog com algum distanciamento, fico assustado com a quantidade de imbecilidades que fui escrevendo ao longo dos últimos meses. Creio que lhe deveria mudar o nome para “Verborreia em Lisboa” ou “O prolixo em Lisboa”. Cai chuva, cai – com o frio que faz, pode ser que saia um granizado!

Sunday, November 21, 2010

Witty wish

Tínhamos o privilégio de uma lareira acesa em Lisboa – eu gosto do calor da madeira a arder quando faz este frio húmido incaracterístico da cidade. O jantar tinha sido descontraído, apesar de ambos imaginarmos ao que íamos – acho graça ao processo intencional dos amigos que tentam suprir o que acham que nos faz falta com base em equações magnânimes de “vamos convidar R e K para jantarem cá em casa, e deixamo-los sozinhos no momento (que imaginam ser o) certo”. Por um instante alimentei a esperança de que tudo fosse assim tão simples, quando ela se virou para mim, com os olhos muito abertos e as pestanas carregadas de rimmel, e me disse:

- You’re a witty kind of guy!

E eu que não sabia o que queria dizer “witty”, mas não quis dar parte fraca, deixei-a prosseguir a conversa, embora cheio de vontade de usar o BB para entender, realmente, o que ela me estava a querer dizer.

- You’ve got this great energy within you that most people will notice once they meet you.

- …

- Have you ever seen “Brick Lane”? It’s this movie about a young girl living in London against her will, she’s from Bangladesh, and she has this wonderful thought about “love”, that you can actually induce into most things in life, and I like to quote: “There are different kinds of love: the kind that starts deep and slowly wears away. It seems like you will never use it up and then, one day, almost suddenly, you just realize it’s finished. Then there is the kind you do not notice at first but which adds a little bit to itself every day like an oyster makes a pearl, grain by grain, a jewel from the sand.” Do you get it?

E eu respondi-lhe que sim, que entendia o que ela me estava a querer dizer, mas a partir dali já não me sentia nada no registo “witty” mas sim no “let’s call it a night”.
Get a life, boy. 

Thursday, November 18, 2010

O precipício

Sentaram-se no Orpheu. Ela atirou o casaco para a cadeira ao lado, ajeitou a camisola de gola alta, puxou ligeiramente as mangas descobrindo os pulsos, bonitos, e fixou os cotovelos na mesa de madeira:

Ela - O que foi agora?

Eu - Seria capaz de te voltar a amar…

Ela - Para quê? Já te perguntaste, para quê? Tu não percebes que não fomos feitos um para o outro? Não entendes o que sofremos por descobrir isso mesmo?

Eu - Desculpa-me, eu não entendo nada do que se passou assim. Para mim, tudo o que correu mal foi por causa da expectativa. Como tu sabes, naquela altura eu não esperava nada e foi porque te conheci que passei a esperar tudo. Passei a acreditar que a vida podia ser muito mais. Fiquei deslumbrado com os nossos momentos perfeitos e tornei-me num crente. A maldita da expectativa que não se deixa dominar, é que foi fatal. E foi isso o que aconteceu comigo, à medida que te ia descobrindo, mesmo nos pormenores em que sabia que não encaixávamos, fez-me acreditar. E não há nada pior do que acreditar. Faz-nos querer mudar, ajustar. Deixa-nos a divagar. E então a vida acontece.

Ela - A vida, qual vida? Não percebes que não há vida em nós. Há desilusão, há a mágoa do que me fizeste quando decidiste, por ti próprio, hesitar. Há o silêncio em que foste capaz de mergulhar e a forma como me decidiste informar das tuas conclusões muito próprias, como se eu não estivesse ali mesmo ao lado para me pores a par. Não foste capaz de perceber que, naquela altura, eu estava disposta a procurar respostas, soluções, que fizessem o futuro acontecer. Sim, eu estava apaixonada por ti, mas passou-me no instante em que tomaste as tuas opções. Depois disso, limitei-me a sofrer as consequências de ter decidido entregar-me. Em algum momento posso ter hesitado, posso ter pensado como tudo poderia ser diferente, mas a mim a vida ensinou-me que nestas circunstâncias já não faz sentido. E por cada vez que tentaste chegar até mim, novamente, eu fui acumulando a minha certeza de que estava certa, de que tudo contigo seria sempre demasiado complicado. Percebes? Gostava que percebesses, e que seguíssemos com as nossas vidas, cada um por si.

Eu - Não. Se fosse assim, simples, eu aceitava essa tua proposta de seguirmos em frente. Mas não é. Há tanto mais aqui, entre nós, para nós. Eu sei que sim, não apenas porque sei bem o que sinto, o que para mim já é um bom princípio porque nem sempre acontece com certeza vincada, mas também porque o “acreditar” de que te falava não me passou com o tempo. Como eu sei o que sou, como sou por dentro, esta é uma instrução clara de que não posso deixar-te passar. Tu és obstinada e eu sou convicto. Somos personalidades ímpares, que se deixaram seduzir a sério, apesar da improbabilidade, e isso faz a situação em que nos encontramos complexa, mas não inultrapassável. Se pelo menos percebesses isso, tínhamos um princípio.

Ela - Um precipício!

Eu - Chama-lhe o que quiseres, de qualquer forma eu vou lá estar para te agarrar.

Dog days are over (os dias da neura)

Sw: Alo, estou de neura! So me apetece carregar no botao do tempo e avancar uns quantos meses... Ate tudo estar resolvido!! Doi muito chegar a uma determinada fase da vida, termos nocao de que temos valor e nao percebermos em que parte falhamos!!!

Sw: Eu sei o que sou, quem sou e tudo o resto! So nao sei como fazer para ser feliz!

Sw: So queria isso! Voltar a sentir-me bem!

Ricardo: Come on girl, cheer up! Nao sei o que se passa mas tenho a certeza de que tudo vai correr bem.

Ricardo: (e olha que eu hoje tambem nao estou nada bem disposto com a vida, mas ainda assim dou-te o miminho que tu mereces)

Sw: Vai, mas doi! Sempre me levanto, sempre. Mas custa! Cada vez custa mais!

Ricardo: E agora vou dormir, faz muito frio em Lisboa e estou super-cansado, faça o mesmo.

Ricardo: Beijocas

Sw: Porque a ilusao vai sendo cada vez menor e porque as repeticoes vao sendo cada vez mais.

Sw: O tempo passa e estamos sempre na mesma luta contra ele.

Sw: Faz bem! Voce tem tudo ricardo, so nao tem coragem de arriscar e ir atras do que quer!

Ricardo: O tempo é invencível, nada a fazer. Há que vivê-lo.

Ricardo: Vá, beijinhos

Sw: E nao te das conta, que chegara um dia em que ja nao tera importancia ires atras ou nao. Ja te vai ser igual. Morremos aos pouquinhos. Umas vezes vencidos pelo cansaco, outras vezes pela inercia de nao fazer nada.

Sw: Beijos. Tchau.

Ricardo: Ui, tanto drama. Toca mas é a dormir.

Wednesday, November 17, 2010

O não (tornar) a querer saber

Com algum esforço, andei tão afastado da realidade nacional, concentrado na mais-valia da informação multinacional permitida pela globalização, que quando torno a seguir o estado do país fico sempre surpreendido (desiludido). Sinto-me um verdadeiro alienígena e assim de repente, surgem-me logo meia dúzia de boas ideias:

1) Para os candidatos presidenciais: toca a trocar as campanhas nos mercados tradicionais por acções nos hipermercados (parece que agora até estão abertos ao domingo…), debitando umas palavrinhas para os telejornais enquanto ajudam a família de pretensos apoiantes a arrumar as comprinhas.

2) Para os Portugueses, em geral: desliguem, de vez, a televisão. Diz um estudo que “O cérebro de um adulto muda tanto como o de uma criança, quando aprende a ler”, já vai sendo tempo de crescerem um bocadinho.

3) Para os Chineses: comprem lá as relíquias nacionais e ajudem-nos a pagar a dívida, quando se retomar a sede especulativa vão valer mais do que o petróleo africano.

4) Para os (tele-)jornalistas: ponham um ar menos grave e sisudo, das vossas expressões (sorrisos) dependem as cotações do meu portfolio amanhã.

5) Para os moradores na Expo (Espô): não há-de ser nada, o Estado paga, o Estado tem sempre dinheirinho à custa do contribuinte, carro incendiado pelos anarquistas que conseguirem entrar, vai ser dinheiro em caixa para os presentes deste Natal.

6) Para o Santana Lopes: agora que já se sente um Senador desta República falhada (com direito a 15 minutos de aparição solene e semanal na televisão), corte lá o cabelinho esgrouviado atrás, que já não tem charme nenhum e mexa menos as mãozinhas porque já não está no palanque dos congressos.

O Saber

A parte mais engraçada do meu presente profissional é poder dedicar horas a ouvir quem sabe. Ficou-me da minha formação académica este gosto por escutar, ver apresentações ou assistir a debates sobre temas interessantes que domino apenas superficialmente e dos quais me permito aproveitar ideias com aplicação mais ou menos prática para o que faço no dia-a-dia.

Esta semana já passei umas quantas horas a ouvir um tipo que sabe muito sobre o sector da Saúde em Portugal.
Desconfortavelmente enfiados na cantina de um hospital, o Senhor dissertou sobre os problemas, as causas dos problemas, as soluções não aplicáveis e as soluções plausíveis, quase em exclusivo para mim que fiquei a saber mais sobre a matéria do que alguma vez julguei. O resultado, serão duas ou três abordagens em “consultês” que eu espero poderem vir a produzir resultados palpáveis para os utentes dos hospitais públicos.

Com este mesmo propósito, hoje e amanhã, participo num dos poucos eventos onde se apresentam e debatem ideias de futuro para a economia e sociedade deste país. Gosto destes fóruns, onde se reúne quem sabe para trocar ideias com os seus pares. O conceito de Fórum é aliás significativo, porque não é bem a mesma coisa ler sobre um tema e as palavras sem a explicação subliminar de quem as escreveu alteram profundamente a mensagem. Entristece-me que nestes eventos verdadeiramente úteis, as plateias se apresentem mais vazias do que seria recomendável e que muitos dos assistentes estejam ali mais para o networking de influência, também uma característica dos fóruns, do que para o da dita troca de ideias.

É daquelas coisas que nos faz mesmo falta, enquanto povo, a capacidade de ouvir, escutar, e reflectir sobre o saber que os outros nos trazem.

Enfim, por vezes parecemos mesmo uns pinguins, aprumados de fato e gravata, apostados em impressionar mas sem vontade nenhuma de pôr o neurónio colectivo a funcionar.


Sky Mall (way too much fun tv)

Os Americanos (do Norte) que sabem ser despretensiosamente bimbos têm destas peculiaridades capazes de deixar extasiado qualquer Europeu armado em erudito. Naqueles voos internos que apanham como nós apanhamos um autocarro ou comboio para fazer 300 km (ameaçando que nos vai levar 1h30 de vida quando na realidade não passará dos 45 min, apenas para não arriscarem um processo judicial), servem-nos, a acompanhar a Coca-Cola num copo fundo de gelo, a revistinha do Sky Mall, cheia de acessórios ou gadgets capitalistas e divertidos, com preços terminados em 90 e qualquer coisa cêntimos, mas que bem embrulhadinhos fariam as delícias de qualquer árvore de Natal – Sky Mall online!

Destaques absolutamente idiotas (estes senhores não me pagam para isto):
 
Meerkat Garden Stakes

Quenching Big Thirst Fountain

Panda Rain Gauge

Bigfoot Garden Yeti Sculpture

Mobile Massage System

Cast Iron Giraffe Paper Holder

World War II Airplanes Tie

Monday, November 15, 2010

Remédio Santo

Contou-me, um dia, que quando se sentia verdadeiramente triste, assim com o coração dilacerado, por causa dos males da paixão, apostava em intensificar o efeito até rebentar em lágrimas. O truque, dizia-me, é procurares a música certa – eu cá gosto do “Into my arms” – e ouvires as palavras profundas com atenção. Caso sejas tão agnóstico quanto eu – pelo teu grau de esclarecimento sobre a vida, imagino que o és – verás que, por cada vez que o Nick Cave te alimenta com mais uma figura de estilo sobre a “existência dos anjos” ou sobre o “acreditar no amor”, vais soluçar em estilo. Podes ter que ouvir a melodia 3, 4 ou 5 vezes, mas acredita que no final, quando saíres do torpor, vais ver tudo de uma forma completamente diferente. E então atacas com o “I can see clearly now” do Johnny Nash – sabes, aquele do anúncio do nescafé – e voltas a acordar para a vida.

Sunday, November 14, 2010

Interminável

Ouvia a música inconfundível enquanto abria a porta. Encontrava-a deitada no sofá com as pernas atiradas para cima do encosto dos braços e os longos cabelos espraiados sobre uma almofada, a sua posição favorita para relaxar. Ela recebia-o com um sorriso rasgado e mágico e dizia-lhe:

- “Olá meu querido! Como foi o teu dia?”

Ele ficava parado por um momento, dois segundos, a fixá-la com os olhos semi-cerrados, observando-a fascinado, como que a querer guardar mais aquela imagem nas “polaroids” daquela vida a dois, enquanto sentia o seu próprio sorriso a abrir-se, encantado.

- “Deslumbrante… os meus dias são sempre deslumbrantes, quando te encontro assim.”

Descalçava os sapatos e pendurava o casaco no encosto de uma cadeira e dirigia-se ao sofá, sentando-se cuidadosamente para substituir a almofada em que ela se encostava. Passava-lhe carinhosamente as mãos pelos cabelos, estendendo-os sobre o seu regaço. Enquanto ela fechava os olhos de contentamento, falava-lhe baixinho:

- “Estavas a ouvir as nossas músicas…”

E ela:

- “Sim, estava aqui a pensar em ti, à espera que chegasses. Já te sentia saudades…”

Ficavam assim longos minutos a ouvir a música e a desfrutar da companhia um do outro. Ele movendo os dedos por entre os cabelos dela em cafunés doces e intermináveis.

I see you out sometimes by coincidence
Been reading about you, I know where you've been
You don't know how much I liked you and I think of you
So much to tell you, to fill you in
Where you go is where I want to be
Wherever you go is where I want to be
I wonder if it's right to call you a friend
I remember your eyes, they made me way too late
Now if I'm standing at a party waiting for the train
I know you're out there, can't wait till we meet again
Where you go is where I want to be
Wherever you go is where I want to be
Where you go is where I want to be
Wherever you go is where I want you to lead me, to lead me
So much to tell you, I have to find you
It's time I see you, I wish we were alone
And it was late at night, I met you at a party
It was a crowded room, I couldn't hear you talking
You tried to hold my hand and then you left without me
But don't you know that where you go is where I want to be



A música chegava ao fim e ela puxava-o pela gravata, devagarinho, fazendo-o curvar-se para o poder beijar e afagando-lhe o cabelo junto à nuca enquanto os lábios se encontravam.

- “O que queres fazer hoje? Saímos para jantar ou pedimos para entregar?”

- “Humm, ainda é cedo. Se te apetecer tomo um banho enquanto tu pões aquele teu vestido preto e os teus brincos, e saímos para jantar num sítio giro”

- “Sim, apetece-me sair. Mas conduzes tu.”

- “Miúda, tu estás relaxadinha, conduzias tu e íamos a um daqueles com valet-parking…”

- “És um preguiçoso, e eu faço-te as vontades… só mais uma música”

Do you think (When you know you know it)
If we could go back in time (When you know you know it)
Do you think (Listen now, listen now)
That I'd like you then (I will look for you there)

Would you try (when you see, you see it)
Not to be so mean (when you see, you see it)
And we'd ne- (Won't be long, it won't be long)
-ver just be friends (I will wait for you there)

Do you think (When you know you know it)
If we could go back in time (When you know you know it)
Do you think (Listen now, listen now)
That I liked you there (I will look for you there)

Won't you try (when you see, you see it)
Not to be so mean (when you see, you see it)
And we're now (Won't be long, it won't be long)
For just be friends (I will wait for you there)

There are times that I
Felt that this was right
There are times that I
Felt that this was right

Why do you think
This will never work
Why do you think
This will never work

There are times that I
Felt that this was right
There are times that I
Felt that this was right

Why do you think
This will never work
Why do you think
This will never work



Então, ela abria os olhos para lhe dizer:

- “Ainda bem que isto nos passou…”

E ele voltava a inclinar-se, elevando-a para si, para a beijar. Voltava a colocar-lhe a almofada confortável por debaixo da cabeça e a espraiar-lhe os cabelos, enquanto se erguia do sofá, ainda com o sorriso encantado.

Na fase do apetecível (corrigido)

Na fase do apetecível, o fácil é encontrar miúdas giras que nos deixam interessados. O difícil é ficar com a mulher brilhante que nos desperta para a vida.

Saturday, November 13, 2010

Na festa do moinho

Tinha 16 anos e apaixonou-se. Sabia que era apenas e só uma daquelas paixões fúteis de verão mas ainda assim achou que valia a pena arriscar. Na festa do moinho, agarrou-a pela mão e levou-a para um local sossegado. Declarou-se e viu que os olhos dela se lhe abriam e que não era por causa da lua cheia. Gostou daquela luz reflectida nos olhos dela e beijou-a com paixão. Ela correspondeu e depois, só depois, hesitou. Disse-lhe que não e de repente a lua escureceu. Ele não disse mais nada. Saiu a correr pelo monte abaixo na companhia de um amigo daquelas férias. Voltou para o que era seu, no final daquele verão.

My Nighttime Saving Time

A alegoria da isenção de horário é magnífica. Dois dias consecutivos com reuniões às 9h da manhã dão-me cabo do circuito. Gosto tanto mais de sair de casa no 2º turno. De não ter que “apanhar” o trânsito dos pais que deixam as crianças na escola às 8 e tal. De não ter que “gramar” as filas de trânsito dos que têm que entrar a horas para “picar o ponto”. Não fui feito para profissões de horário fixo. Não gosto de me sentir preso pela pressão do relógio logo pela manhã. Não gosto de me sentir farto do que ainda tenho para fazer quando chegam as 6 da tarde, quando meia Lisboa se encaixota nos carros em direcção a casa. Gosto das noites longas, dos jantares tardios, tipicamente latinos, e da sensação de que o dia não termina logo quando o sol se põe. Gosto do meridiano mediterrânico em que o bom das noites dura para lá da meia-noite, passado à conversa, a ler um livro ou a escrever. Não gosto de chegar a esta hora a sentir-me com o sono de quem despertou antes das 8. Gosto de persianas corridas que filtram os primeiros raios de sol. Gosto de acordar com vontade e não por obrigação. Gosto de me deitar tarde porque, então, me apetece.

Friday, November 12, 2010

A minha Secretária intelectual

Fui ao teatro e encontrei a minha Secretária com o namorado. Era uma peça para a intelligentsia, profunda, mesmo se encenada de forma descontraída e propositadamente embriagada (eu às tantas já desconfiava se os actores bebiam mesmo vodka...). Quem diria? A minha Secretária, ruiva natural (??? – os homens nunca sabem realmente a verdade sobre estas coisas), de olho azul (bom, ainda assim não faz jus à Christina Hendricks) e simpática, para além de eficiente – quando está para aí virada –, é uma intelectual. Gosto disto!

Wednesday, November 10, 2010

Para quê?

Para quê questionar? Para quê duvidar? Ele era um miúdo maravilhoso, capaz de a fazer sonhar. Perfeito? Não, claro que não. A perfeição só existe no mundo das estátuas e a maior parte das realmente perfeitas são do tempo dos clássicos. Ele também era um clássico, imperfeito é certo, mas dos bons. Mais tarde ou mais cedo toda a gente gosta, a sério, dos clássicos, nem que seja pelo efeito da idade. Bom rapaz, pleno de vontade, perfeito no olhar. Convicto e absolutamente convencido. Então, para quê questionar? Para quê pesar tanto os contras se também existem os prós? Para quê insistir em achar que não, quando sim, a felicidade mora a dois passos de distância. Mesmo...

Antecipar alternativo (porque o subconsciente não deixa de procurar o caminho)

Queria muito abraçá-lo mas ia resistir. Vinha investindo demasiado tempo, demasiado sofrimento, para agora deitar tudo a perder. Obstinada, sentou-se ao seu lado e olhou-o sem profundidade e com pouca vontade:

- Diz-me, o que pensas quando me lês?

- Eu? Eu já perdi completamente a capacidade de te interpretar. Sinto-me um índio perdido no meio do mato, incapaz de regressar a casa apesar dos sinais. Tu escreves “cair” e eu penso nas miúdas. Tu escreves Março e eu penso no “clique”. Tu escreves sobre fragrâncias e eu vou ver os compostos do meu perfume – e estão lá. É estranho e é ambivalente – eu não gosto de não perceber os significados. Não consigo interpretar-te e isso aborrece-me. 

Tuesday, November 9, 2010

Do concerto

Foi deslumbrante. Já me tinham dito que o homem, apesar de Belga e excêntrico, cola as mãos ao piano com uma intensidade que torna a música única.
E ao intervalo, encontrei-o. Creio que já o esperava, que já o sabia. Foi ele quem me ensinou a gostar daquelas melodias. Foi ele quem assumiu o papel de irmão mais velho, fazendo de mim o irmão mais novo que não tem. Era ele quem nas férias de verão punha as clássicas a tocar na Marantz quando acordávamos, tarde, de mais uma noite de borga, abrindo a janela para as vinhas que faziam crescer as uvas ao som daqueles acordes vespertinos. Era ele quem me assaltava as prateleiras de livros bons, da mesma forma que eu assaltava as dele. Temos tantos livros trocados, os meus em casa dele, os dele na minha que por vezes penso no significado verdadeiro da palavra influenciar. Gosto disso. Gosto de conhecer bem as pessoas que me marcam a vida, da dedicação que foram capazes de colocar em mostrar, apresentar, indicar, as coisas boas que a minha vida tem. E ele estava ali sozinho, recém-separado e meio macambúzio, deixando-me triste por não o ter convidado, a ele, para me fazer companhia no concerto:
- Estás a gostar?
- Muito!
- Magnífico, não?
- Sim, e a Tatiana – ou Tatjana –, a violinista: hipnótica.
- Sim, já o tinha visto aqui em 2005 e este está a ser ainda melhor.

Monday, November 8, 2010

Calzedonia

Entra-me no carro e reclama com a música que estou a ouvir: “Ricardo, essa música é deprimente”. E eu respondo-lhe que não, que é o Concerto para saxofone e violoncelo do Michael Nyman, que pode até ter umas partes tristes, mas que acaba em Allegro crescendo e que quem está a tocar é “só” o Julian Lloyd Webber.
Deprimentes ou deprimidos são os portugueses que param para observar minuciosamente cada batida de carros provocada pela chuva que cai, entupindo o trânsito à nossa frente. Deprimentes são os nossos governantes incapazes de controlar a situação a que os mercados acham que o país chegou. Deprimente é o Benfica levar uma goleada das sérias, sabendo que isso vai afectar metade do povo cá do rectângulo. Deprimentes são os jornalistas que não dão uso à boa cortiça nacional para enfiarem umas belas rolhas pelas bocas, insistindo em debitar notícias negativas e em perseguir mais um desgraçado de um funcionário público que teve o azar de se destacar e merecer um aumento em ano de apertar o cinto.
E depois chego a casa e na televisão passa este anúncio deslumbrante, cheio de vida, da Calzedonia (Calzedonia - Speriamo che sia femmina) e pergunto-me porque é que nestas alturas de depressão colectiva ninguém se lembra do importante que são as imagens boas do “West Coast of Europe”, do “Wonderful Portugal” ou do “Vá para fora cá dentro”.

Sunday, November 7, 2010

o banzé

Estes dias em que durmo até tarde e sonho contigo (connosco) horas a fio são um banzé. Sentir-te assim tão intensamente próxima, como se estivesses mesmo ao meu lado, é um banzé dos grandes. E quando acordo, tenho o cabelo comprido todo espetado como o do meu cartoon favorito.

Saturday, November 6, 2010

O schmuck em “A Woman to Love”

“Yes, honey. The schmuck, who deserves to die, worries about you. Sometimes worrying about you feels like a full-time job.”
- Jack Nicholson – brilhante, como só ele sabe

a Muralha

Mesmo depois de afirmar que não acreditava em muros, construiu uma Muralha. Uma Muralha mesmo grande, daquelas com “M” grande e com a largueza da Muralha da China. Fechou-se do lado de lá, do lado do Reino do Meio. Apesar de dizer que não gostava, foi lá que se refugiou, deixando-o do lado de cá. Do lado de cá das pedras intransponíveis, mesmo para um David Copperfield (foleiro) desesperado pela Claudia Schiffer (gira, mas kitsch). Deixou-o perdido por tempo indeterminado, sem saber nada mais do que a ilusão do que ainda sonhava, com ela.

(David Copperfield Going Through Great Wall of China Revealed - um bocadinho seca, mas sempre dá ver como se cria uma ilusão.)

Nick Hornby’s top-lists-technique – Japoneses em Lisboa

Depois de completar a ronda pelas novidades que este ano trouxe, temos:
1. Suntory
2. Sushi Bar @ Bica do Sapato
3. Yakuza
4. Assuka
5. SushiRio
Fora da lista mas dignos de menção ficam: Clube do Sushi, Café Sushi e Origami.
O melhor na categoria Oriental-degustação (definitivamente, a novidade do ano): Umai
O melhor (pra' sempre?) na categoria Oriental-noodles-descontraído: New Wok

Thursday, November 4, 2010

Ainda o brilho complicado e complexo das mulheres

Não sei se é efeito deste início de pequeno Verão de São Martinho em que depois do fim-de-semana de chuva copiosa parece que toda a gente decidiu sair da toca, mas estes últimos dias têm sido um manancial de reencontros. Será também por causa do avançar da idade, eu gosto cada vez mais de reencontros do que de encontros, definitivamente.
Saí para jantar e reencontrei a R. que para quase todos os homens que conheço e a conhecem a ela é sinónimo de “a mulher perfeita”. Bonita, bem-disposta, com neurónio e bem sucedida, tem aquele brilho suave e encantador de miúda que foi capaz de ultrapassar todos os obstáculos da vida e conseguir o que sempre quis. Admiro-a por isto tudo e também porque consegue ser, honestamente, simpática com todos, como só as miúdas do norte. Mas (nestas reflexões sobre o alheio, há sempre um “mas”) eu que a conheço bem e que durante largos meses com ela privei, dia após dia, sei que lá por dentro é uma complicada das fortes. Um dia chegará a CEO de uma qualquer grande empresa, porque tem “garra” para isso e, provavelmente, até será casuisticamente feliz com o, por agora, namorado que por acaso também é meu conhecido, por intermédio de um amigo em comum que recordo me costumava dizer “complicado, nada é complicado, quando muito complexo... complicadas são as mulheres!”.
(Nota: este post está no mínimo confuso mas não me apetece desfazer o novelo)
De volta ao bom dos reencontros, a parte singular destes é que nos trazem sempre à memória o encontro anterior. Da última vez que tinha visto a R., ela estava no meio de uma multidão, numa espécie de concerto, e eu, naquela noite, estava tão próximo da felicidade suprema, tão próximo do apaixonado absoluto, absolutamente convicto do meu amor por uma miúda verdadeiramente complexa e que me sabia derreter com a sua complexidade brilhante, que me lembro de ao ver aquela “mulher perfeita”, para todos os outros, me ter apanhado num pensamento paralelo e linear a concluir que o encanto das mulheres depende mesmo do grau do complexo e não do complicado.

Monday, November 1, 2010

mar de prata

Mais um almoço de domingo junto ao rio, com os progenitores e uma prima. Dia de chuva, sem regatas. Na mesa ao lado, senta-se uma miúda loira e gira, muito gira mesmo, alta e com um corpo fabuloso, tão afirmativa que chega a ser provocadora. Mas falta-lhe o charme, falta-lhe o brilho, na realidade falta-lhe quase tudo. E eu dou por mim a olhar o rio marcado pelo sol, um mar de prata, e a concluir que nem tudo o que reluz é ouro.

Saturday, October 30, 2010

do outro lado do mundo

Enquanto ela acordava lá, adiantada, ele adormecia, tardiamente, do lado de cá. Entre o final da noite e o início do dia, marcados pelo girar do sol em volta do berlinde perdido, encontravam-se no pensamento. Lá, como cá, fazia frio, uma temperatura pouco agradável para a conjectura do que eram, um para o outro. Cá, como lá, com toda aquela distância de permeio, a vontade de serem mais. Lá e cá, o desejo de que tudo esteja bem, do outro lado do mundo.

Thursday, October 28, 2010

Mad Women

As miúdas da agência de publicidade que sobem comigo no elevador, em cada manhã, começam por ter um ar fresquinho e bem-disposto. Parecem confiantes e cheias de vontade de acontecer. Regra geral, nesta fase, dizem-me “bom dia” com um sorriso simpático e (eu acho que) pensam: “Olha, que executivo engraçado!”
Um mês passado já têm um ar um bocadinho desgrenhado e nota-se que vão quase sempre agarradas ao Blackberry com ar preocupado e nervosamente atrasadas para qualquer coisa. Já não há cá “bom dia” para ninguém.
Quando as volto a encontrar, ocasionalmente, vários meses depois, apresentam-se com um ar gasto, olheiras despreocupadas e involuntariamente mal-encaradas. Qual “bom dia”, qual quê!
Depois desaparecem subitamente e para sempre, deixando-se substituir por outras em algum dos estágios anteriores. O mundo da publicidade criativa deve ser tramado e com altos índices de rotação.


melhor

Gosto do conceito “Best of”. Aprendi ainda miúdo que é importante distinguirmos o melhor da vida do “assim-assim”, sem os confundir. O “Best of” não tem que ser único ou inequívoco, seria triste se assim fosse, e depende, obrigatoriamente, do estado de espírito e do estágio da vida em que nos encontramos. Há momentos próprios para cada “Best of” e por isto mesmo é-nos possível marcar vários “Best of” que são mesmo do melhor. Hoje, apeteceu-me marcar os “Best of” deste blog, correlacionados com esta vida, ali ao lado – nos labels.

Wednesday, October 27, 2010

excertos #7

12

Clavo mi remo en el agua
llevo tu remo en el mío.
Creo que he visto una luz
al otro lado del río.

- Jorge Drexler en "Al Otro Lado del Río"


Saio para a noite de Lisboa com o Tomás e o Guilherme – já não fazia isto há tanto tempo que me parece estranho. Apesar do cabelo demasiado curto, vale-me o bronzeado notável e a boa forma física para ganhar confiança. O “spot” esta noite está “hot”. Miúdas giras, também bronzeadas, com ares saudáveis – vantagens do verão. Nós os três temos bom ar, apesar das idades acumuladas. Comentamos que em somatório, perfazemos 106 anos – já fazíamos um velhote rígido a desafiar a cova, mas dividido em três dá no charme dos trinta-e-alguns com estilos diversos. Um quase careca, o outro com muita barriga, e eu, bem, ainda “bem conservado” – que trio… As miúdas dos vinte-e-poucos reparam, as miúdas dos vinte-e-muitos aos quarenta-e-qualquer-coisa, vê-se que gostam. Nós comentamos as que passam – os homens nestas coisas conseguem ser realmente parvos. Deveras.
Rodadas de bebidas brancas, pedidas à vez aos miúdos, demasiado jovens, atrás do balcão. Surgem caras conhecidas, trocam-se dedos de conversa e algumas apresentações. Troco olhares com uma morena gira com o cabelo preso atrás que deixa ver uns brincos com estilo. Sinto-me bem e arrisco meter conversa. Ela está com uma amiga, que fica meio pendurada, enquanto eu lhe falo ao ouvido. Cheira bem, o que é sempre um bom princípio, e sorri com o que lhe digo – conversa fiada. Pergunto-lhes se querem juntar-se a nós e elas dizem que sim. Passamos às apresentações, a morena chama-se Cláudia e a amiga Rute, comentam que é a primeira vez que ali vão e que depois seguem para o Lusaka. Ah, o Lusaka… há 10 anos atrás era uma varanda de encontros. Contamos-lhes a história, gasta, de quando eu e o meu amigo, agora quase careca, entrávamos pela porta da direita porque achavam que éramos gays. Elas acham-nos graça e a amiga da morena, pispirreta, pergunta se o éramos mesmo. A conversa flui ao sabor das parvoíces que saem naturalmente quando tudo parecem possibilidades. Para acompanhar a situação, o DJ passa uma música que diz “…so tell the girls that I’m back in town”.
E então, do nada, para me deixar sem refúgio, vejo-a. É mesmo ela, com os amigos que lhe conheço e apresso-me para sair dali, quase a correr para não a reencontrar.

Lógica singular (post de gaja!)

A vantagem de não estarmos juntos é não te sentir mais (tanto) a falta quando vais de viagem. De outra forma, terias mesmo que me levar junto com a tua mala (sim, eu pagaria pelo excesso de bagagem).

Tuesday, October 26, 2010

os consumistas pessimistas, i.e., os tugas

Em tese, estamos em crise, certo? Para contrariar a tese no último fim-de-semana – pico do já-torrámos-o-vencimento-todo-do-mês-e-agora-o-que-fazemos?:
- Fui ao melhor oriental-degustação de Lisboa – carote – e aquilo estava cheio e com reservas pela noite fora.
- Saí para o Bairro e a fauna enchia de tal forma as ruas que foi difícil circular.
- Tive que ir encher o depósito do bólide e estive 15 minutos para chegar a minha vez, tantos eram os tugas a abastecer.
- Fui almoçar ao melhor peixe fresco da capital – caro, mesmo caro – e a varanda estava populada de famílias encantadas com as regatas.
- Quis ir ao hipermercado e nem me atrevi a estacionar, tanta era a gente a concorrer na catedral do consumo – ok, depois explicaram-me que havia 10% de desconto.

Ah sim, mas as estatísticas é que contam – até prova em contrário:



Quid crisis? Os tugas podem até ter abdicado de manter os filhos em colégios particulares, mas o desvario consumista persiste.

Sunday, October 24, 2010

a auréola negra dos meus olhos

Estes olhos castanhos, muito normais mas pretensiosamente distintos, têm uma auréola negra que já me disseram meter medo e a quem uma apreciadora de ópera chamou de “Anel do Nibelungo” – na ocasião, era um trocadilho, muito erudito, entre o Ricardo e o Wagner.
Fora de horas, observo-a no espelho, a esta auréola negra, e concluo que mais parece um anel forjado para se fixar, até à eternidade e com a pupila bem dilatada, na cor castanha e verde dos teus olhos. Sim, são mesmo os teus… Será que me percebes?

Thursday, October 21, 2010

Apresentar

Mais um verbo dos meus. Ao fazer apresentações profissionais sou capaz de embalar um Conselho de Administração inteirinho. É um dos meus skills de consultor bem treinado. Hoje foi dia de uma actuação destas. Eu e o .ppt de 6 mil euros por página diante dos Administradores de uma grande Empresa portuguesa oblívia à “Crise” (qual crise?). Eu e a grande apresentação dos resultados do projecto que me ocupou todo o verão. Eu a sentir-me a pregar aos peixes: o ex-político fazia que sim com a cabeça, o das perguntas inusitadas, logo no início, literalmente a dormir quando cheguei a meio e o Sr. Presidente a bocejar à descarada. No final: “…muito boa apresentação!” e eu com vontade de perguntar “ah, a soneca soube-lhe mesmo bem, foi não foi?”. Rico “show business” – continuem a pagar-me para isto… que eu gosto.

Ainda em Italiano

Nos tempos dos colégios de verão conheci um Italiano de nome Francesco Reggiani. Cabelo encaracolado, inglese sofrível, milanese sorridente, apaixonou-se naquele verão por Marta, uma espanhola de Madrid, super-simpática, soberba em quase tudo, mas que não estava para ali virada. Durante 3 semanas, partilhámos um quarto demasiado próximo da porta onde os alarmes de incêndio não tocavam, motivando as escapadelas nocturnas. Invariavelmente, ao final de poucos dias de companheirismo, obrigava-me a partilhar os seus devaneios amorosos, em inglês macarrónico, levando-me à risota por cada vez que dizia “shi’is so prity, I think I’m inlove”. E eu, naquele tempo, pensava: o amor é simples, simples como só os latinos o sabem exprimir.

Wednesday, October 20, 2010

Procurar e encontrar

Na manhã em que sentiu uma vontade enorme de a procurar, soube, logo ao acordar, que não seria dia de a encontrar.
Inspirado, havia voltado a sonhar com ela e com um mar azul, no sul de Itália. Uma praia de areia espessa, daquela que não deixa marcar os passos para se reconhecer a origem e o destino, mas em que sabe bem deitar o corpo, plantado ao sol. Um sol luminoso mas pouco dourado, suave com os olhos sem a protecção dos óculos-de-sol. Um chapéu de palha para a proteger e um cesto cheio de fruta fresca para a satisfazer, ciliegie e albicocche, como lhes chamara o rapaz do hotel. E aquela linha do horizonte, magnífica e bem marcada sobre o infinito azul, observado sobre as curvas deliciosas do corpo dela.
Mas pressentiu-a ainda mais distante, no espaço e no tempo que os separava, deixando-se encantar apenas pelo facto de pressentir que ela também gostaria de o encontrar assim.

da frescura do cinema Europeu



Por vezes andamos tão absorvidos com o realmente importante e pelos “fast flicks” que vêm do outro lado do “charco” que nos esquecemos da frescura do cinema Europeu: “Mine vaganti”, que algum essere scarsamente illuminato decidiu chamar em português de “Uma família moderna”, entra directamente para o 1º lugar dos filmes que fui ver em 2010 – muito recomendado, de preferência sem ler a sinopse. E fiquei com vontade de ir conhecer Lecce.

Monday, October 18, 2010

Antecipar (porque quando o subconsciente não aguenta a espera, decide sonhar)

Queria muito abraçá-lo mas ia resistir. Por isso, agarrava-lhe as duas mãos com força, segura, e olhava-o de frente com os olhos bem abertos:

- Diz-me, o que queres de mim?
- Miúda, há uns dias atrás pus estas mãos – que agora estás a agarrar com tanta força que me começas a magoar… e estou a falar a sério, por favor, não as apertes tanto! – em “ponto de reza”, assim com os dedos perfeitamente encostados uns aos outros, em simetria, e pronunciei o teu nome bem alto, projectando a voz para ser ouvido. Depois, fiquei a sentir-me parvo de todo, porque como tu sabes não acredito nada no efeito prático destas coisas.
- E…?
- E nada, foi estranho ter feito aquilo e agora estar aqui, assim, contigo. Quase me leva a desconfiar de certas convicções que tenho como muito minhas.
- Sim, e voltando à minha pergunta, de que pareces estar a querer fugir...
- Não, eu não fujo. Fugir não é um verbo meu. Gosto é de perceber e explorar com exactidão as impressões que me surgem de vez em quando e que, de repente, num determinado contexto ou situação ainda me conseguem surpreender.
- Vá lá… não divagues. Já sei que estás a tentar ganhar tempo, mas responde-me!
- O que eu quero para nós é complexo. Bom, mas também difícil e não te quero assustar. Prefiro que comecemos pelas partes simples e que vamos construindo a partir daí. Por agora, apetece-me estar contigo. Sair contigo, trocar ideias, sentir-te, ter a tua companhia. Tu sabes, aquela parte do namoriscar. Não posso partir do pressuposto de que há uma base maior para o que podemos ser. Mas também sei que cá dentro, continuo cheio de sentimentos bons por ti, que não fui capaz de expurgar. E compreende que eu tentei. Apeteces-me, como nunca ninguém antes, é o que é. E sim, francamente, tenho receio que seja pela forma como deixámos as coisas acontecerem. No entanto, acredito nisto e eu sou irrepreensível com este verbo, mas isso tu já sabes. Por isto tudo: não voltes a fugir, deixa-te sim vir ter comigo…
- Abraça-me, com força!

Sunday, October 17, 2010

a minha fase “Noir”

Decido chamar-lhe a minha fase “Noir”: esta semana encomendei um carro preto com os estofos em pele negra, comprei bilhetes para o Wim Mertens, ex-líbris do minimalismo, e fui ver uma exposição de Arquitectura redutora na Trienal de Lisboa. Que vidinha interessante…
Tenho um amigo e antigo colega de trabalho, que é talvez o melhor consultor que já conheci – depois de mim próprio –, que oscilava entre os .ppts pintados com demasiado laranja e os carregados de preto e cinzentos. Quando lhe saíam os últimos, eu metia-me com ele, dizendo-lhe: “João, estás outra vez na fase Noir!”; e ele ria-se com a minha observação. Entre as muitas ideias que partilhamos, temos em comum o gosto pela música clássica minimalista, Nyman, Glass e Mertens, e pela Arquitectura redutora. Somos uns intelectuais, o João e eu!

Saturday, October 16, 2010

chegar

Chego de mais um jantar destes, que me animam as noites, bem passadas entre amigos. Gosto do regresso do Outono em que toda a gente tem vontade de se rever, contar histórias banais mas também entretidas, as últimas novidades de quem já não via há algum tempo. É este o meu conceito de socializar, estar com os meus e mais duas ou três caras novas. Saber como estão, ficar a par do que fizeram, por onde passaram, para onde vão. Ontem estive com uma das grupetas, hoje com outra e amanhã tenho mais um. Mas estranhamente, ou nem tanto, é no momento em que chego a casa e me volto a encontrar sozinho, comigo próprio, que te sinto mesmo a falta. A falta que só tu me fazes, nesta história absurdamente inacabada.

Thursday, October 14, 2010

O “clique”

O “clique” é aquele momento instantâneo e único em que sabemos tudo o que há para saber, convictamente. Aquela fracção de tempo infinitesimal em que tudo se revela como tem que ser, perfeito. A sensação e a certeza do saber proprietário, sem dúvida e sem hesitação, inexplicável.
Acho que nos acontece duas, vá, três vezes no máximo, ao longo de toda uma vida. Mais vezes, implica não ser um “clique” verdadeiro. O “clique” verdadeiro chega a ser místico, essencial e profano de tão profundo. A partir deste “clique” temos uma alma ligada à nossa, muitas vezes para sempre. Deixamos de apenas sentir para pressentir, não importa a distância, não importa o passar do tempo, somos capazes de saber.
Privilegiado que sou, aconteceu-me (mesmo a mim que não acredito nada nestas coisas) e estou certo (porque este “clique” é, ou foi, primordial) que do outro lado da ligação etéreo-cósmica também se sente assim. Sem princípio e sem fim à vista.

Tuesday, October 12, 2010

coisas que todos sabemos, sem razão

Já todos sabemos que estas coisas são mesmo assim. Quando nos parece que queremos, afinal descobrimos que não queremos tanto. No dia seguinte, justificamos que “não, não queríamos nada”. A uma semana de distância, passamos ao estado “parvo, fui um parvo… queríamos tanto”. Seguem-se os tempos de confusão difusa, a oscilação do “sim, queríamos a sério” e do “não, não queríamos mesmo”. Esta é a fase em que o tempo custa muito a passar. O tempo em que não há entretém ou substituto para o que achamos que “queríamos realmente”. É também o tempo em que o subconsciente desperta com partidas incógnitas, o tempo das vontades instáveis que nos levam a errar, uma vez após outra. Então, chega-se ao estágio do “nada a fazer… isto passa” e à técnica do “So miss her. Send her some love and light every time you think about her, then drop it.”. Alcançamos, então, algum equilíbrio que parece aceitável, com o tempo todo que passou, mas com este chegam os dias disparatados e aleatórios em que do nada, voltamos a querer, sem razão.

Monday, October 11, 2010

brilhante

“people are programmed to desire, not to appreciate”

Gosto de ideias brilhantes. Aliás, gosto de pessoas brilhantes, capazes de considerações ou constatações simples mas nada óbvias até nos pormos a pensar realmente sobre elas. Esta é brilhante.

Saturday, October 9, 2010

A Quinta

Passeio pelo Chiado numa destas primeiras noites de Outono e dou por mim ao lado do Convento do Carmo ao pé de um restaurante que antigamente se chamava “A Quinta” com uma vista magnífica sobre a cidade. Recordo-me que vinha aqui muito, quando era miúdo. Hoje em dia é uma pizzaria que não tenciono experimentar mas ainda tem as janelas com aquela vista magnífica para a cidade.

incommunicado

Ontem ao início da noite o meu BB deu o badagaio e fiquei “incommunicado”. Hoje quando consegui ressuscitar o BBicho, descobri que ela me tinha tentado contactar 11 vezes. Apesar da ressaca e da ameaça de mais chuva, fiz-lhe o carinho e convidei-a para o melhor late brunch de Lisboa no Royale. Salada casino e chá frio (sem hortelã) para acalmar o estômago. Passeio amigo pelo Chiado e Sachertorte na Kaffehaus para fechar uma tarde boa.

Les nits de dijous a Barcelona

Vivi quase um ano em Barcelona. Durante aquele quase ano que atravessou todo um Inverno, não choveu em Barcelona. Fez frio, muito, e até nevou mas não houve um único dia em que a chuva caísse do céu. Guardo na memória aquele estereótipo de cidade em que a chuva não aparecia, Barcelona. O meu quase ano de Barcelona, sem chuva, ficou marcado pelas noites loucas de quinta-feira em que invariavelmente, saíamos para jantares fabulosos, condimentados de mexicano, entre a Via Augusta e a Diagonal, ou pela experiência da cozinha basca entre Pi e o Barrio Gótico. Seguiam-se copos e conhecimentos fugazes no Otto Zutz, música ao vivo e dançar até de madrugada no Bikini, mesmo a dois passos de minha casa. Eram noites de “cubatas”, caras bonitas, corpos devassos, bandas locais e de “Parli'm una mica de catalã?”. Hoje apanhei duas “molhas” em Lisboa, onde por vezes a chuva parece interminável, e senti saudades dos tempos de Barcelona.

Vaig viure gairebé un any a Barcelona. Durant aquest any que va durar gairebé tot l'hivern, no plou a Barcelona. Feia fred, massa, i fins va nevar, però no un sol dia la pluja va caure des del cel. En la meva memòria d'aquest estereotip de ciutat on la pluja no va aparèixer, Barcelona. El meu gairebé tot l'any a Barcelona, sense pluja, va estar marcada per les nits boges de dijous en el qual sempre va anar a un sopar esplèndida, el mexicà picant entre la Via Augusta i Diagonal, o l'experiència de la cuina basca entre Pi i el Barri Gòtic. Després van venir les copes i fugaç coneixement a Otto Zutz, música en viu i ball fins a la matinada en Bikini, a poca distància de casa meva. Hi va haver nits de “cubatas”, bells rostres, cossos immorals, bandes locals i “Parli'm una mica de catalã?”. Avui vaig agafar dos “pluja” a Lisboa, on la pluja sembla no tenir fi, i trobava a faltar els temps de Barcelona.

Friday, October 8, 2010

Partir

De vez em quando desafiam-me para partir. Partir de vez. Tenho amigos em alguns cantos do mundo: Nova Iorque, Boston, Barcelona, Londres, Holanda, Cidade do México e Singapura. Tenho conhecidos espraiados pelo planeta, que me ofereceriam abrigo: Brasil, Chile, Japão, Indonésia, Angola, Dubai e mais alguns destinos. Tenho um curriculum invejável que me proporcionaria um futuro, diferente, e por vezes apetece-me mesmo, partir. Partir, sem pensar muito no que deixaria para trás. Mas depois penso como esta cidade, este país, estas gentes conseguem ser únicas e encantadoras e deixo-me ficar.

Thursday, October 7, 2010

a tese (post sério)

Passo o jantar, profissional, à conversa com o Administrador de uma das instituições de maior prestígio do país. Republicano convicto, laico e de símbolo maçon na lapela, explica-me a sua tese de que o problema do Portugal contemporâneo, republicano e falido, não passa de uma questão psicológica. Diz que apesar do grau de abertura ao mundo, da facilidade com que aceitamos perspectivas diferentes e da capacidade de enfrentarmos o desconhecido, que ele defende ser inata ao povo que somos, afinal não fomos capazes de nos adaptarmos à globalização. Diz que mais valia termos encharcado uma agência de imagem internacional com os muitos milhões que o crédito concedido nos está a custar, projectando a ideia de um país moderno, preparado e com estatísticas sobrevalorizadas, do que deixarmo-nos comparar com os gregos. Diz que nos falta a confiança, a sobranceria e a vontade de enfrentarmos as adversidades impostas desde fora. E eu, monárquico não convicto, descendente de facções confusamente absolutistas e liberais pelo lado materno, que se guerrearam há uns séculos atrás, admiro-lhe a análise, como nem sempre acontece com os espécimes seus pares que vou conhecendo.
Quando saímos do restaurante, chove cá fora e ele encerra a noite com uma frase sábia: “… o desaparecimento das estações intermédias, Primavera e Outono, também não ajuda ao estado da nação.”

Wednesday, October 6, 2010

Eat Pray (or) Love

Levam-me ao cinema para ver este “chick flick”. Lamechas q.b., parece-me inevitável que toda a gente se reconheça em alguma parte da história, porque é sempre fácil quando não se trata da nossa e há sempre algum pormenor que parece muito nosso.
Exemplos fáceis de entender, mesmo sem imagens (*):

“People think a soul mate is your perfect fit, and that's what everyone wants. But a true soul mate is a mirror, the person who shows you everything that is holding you back, the person who brings you to your own attention so you can change your life.
A true soul mate is probably the most important person you'll ever meet, because they tear down your walls and smack you awake. But to live with a soul mate forever? Nah. Too painful. Soul mates, they come into your life just to reveal another layer of yourself to you, and then leave.
A soul mates purpose is to shake you up, tear apart your ego a little bit, show you your obstacles and addictions, break your heart open so new light can get in, make you so desperate and out of control that you have to transform your life, then introduce you to your spiritual master...”

“This is a good sign, having a broken heart. It means we have tried for something.”

“To lose balance sometimes for love is part of living a balanced life.”

“- But I love him.
- So love him.
- But I miss him.
- So miss him. Send him some love and light every time you think about him, then drop it. You’re just afraid to let go of the last bits of David because then you’ll be really alone, and Liz Gilbert is scared to death of what will happen if she’s really alone. But here’s what you gotta understand, Groceries. If you clear out all that space in your mind that you’re using right now to obsess about this guy, you’ll have a vacuum there, an open spot – a doorway. And guess what the universe will do with the doorway? It will rush in – God will rush in – and fill you with more love than you ever dreamed. So stop using David to block that door. Let it go.”

(*) o filme tem também grandes imagens da mais bela cidade do Universo.

Tuesday, October 5, 2010

kaleidoscope from London

So, one of his girl friends brought him a kaleidoscope from London as a late birthday present, and as he was laying on his bed, he decided to put off his book and concentrate on the little images shining through the tube.

Friday, October 1, 2010

as confusões

Saio para jantar com o passado e encontro o futuro, em dia de aniversário na companhia de dois amigos (que espero sejam gays). Chateio-me porque afinal é o presente que não me sai da cabeça e já me chegavam as confusões. Pisco o olho, declaradamente, ao futuro, enquanto saio do restaurante com o passado, e ela responde-me “beijinhos”. Enquanto estaciono na garagem, recebo uma mensagem. Quero que seja do futuro, mas penso outra vez no presente, apesar da improbabilidade, e chateio-me outra vez comigo mesmo. É mesmo do futuro e eu penso: “mais instável que isto, é difícil”.

Wednesday, September 29, 2010

Game over

Eu - Gosto de ti!
Ela - Obrigada, és muito querido :-)))


Ela - Não me deixaste dormir nada.
Eu - Podias ter-me dito para me ir embora...
Ela - Mas eu disse: pira-te!


Eu - Depois, manda notícias...
Ela - És um chato!

Monday, September 27, 2010

(gostei de te ver no outro dia)

Acordou na escuridão das persianas bem fechadas e ficou para ali, quieto, a especular se teria uma mensagem à sua espera. Queria. Por um lado, queria que ela lhe tivesse respondido. Em paralelo, alternativo, também pensava na facilidade de sofrer, naquele tempo, um desgosto de amor. De olhos semi-cerrados, ponderava, quase infantilmente, as possibilidades que aquela outra mensagem pouco subtil de há dois dias atrás, entre parêntesis, abria na sua nova vida. Um enorme buraco negro para se atirar de cabeça. Convidá-la-ia para uma bebida ao final da tarde. Deixar-se-ia encantar, sofregamente, pela profundidade daqueles olhos azuis. Jogaria o seu charme. Sabia, por aquele parêntesis, que o conseguiria se o quisesse. Sabia-o, pelo olhar dela que fixara no espelho retrovisor há não mais de uma semana atrás. Pensou na simplicidade da opção e, desta vez, sentiu-se mesmo fútil. Deixou-se adormecer novamente, aproveitando a manhã daquele feriado e a tranquilidade da cidade. Quando se levantou, abriu a persiana para um dia cinzento, incaracterístico do seu Junho, e correu para o telemóvel. A mensagem estava lá. Não dizia tudo o que ele desejava mas ainda assim sentiu-se confortável.

You used to have all the answers
And you, you still have them too
And we, we live half in the daytime
And we, we live half at night

Watch things on VCRs
With me and talk about big love
I think we’re superstars
You say you think we are the best thing
And you, you just know
You just do

I wanna find myself by the sea
In anothers company
By the sea
I wanna walk out to the pier
I’m gonna dive and have no fear
Cos you, you just know
You just do

Watch things on VCRs
With me and talk about big love
I think we’re superstars
You say you think we are the best thing
And you, you just know
You just do

A repetição

Sem saber, levou-me a percorrer o mesmo trajecto que fiz há uns meses atrás de mãos dadas com alguém especial. O miradouro arranjado, a calçada escorregadia e a passagem estreita em direcção ao sítio da cidade onde eu gostaria realmente de morar. Sem saber, quase repetiu aquela outra tarde de domingo que proporcionou aquele encontro fugaz, capaz de colocar a dúvida dentro de mim que, em última análise, fez com que tudo corresse mal. Não gosto de repetições, prefiro déjà vus.

Saturday, September 25, 2010

debaixo do chuveiro

Encontro-me comigo mesmo debaixo do chuveiro quando a tarde já vai longa. Parece-me que os dias de praia suave se esgotaram no último fim-de-semana. Não gostei deste verão que se acabou. Um destes dias meto-me num avião com destino ao hemisfério sul. Austrália ou Uruguai, ainda não decidi.

Thursday, September 23, 2010

O Panteão

Pôs o pêndulo em movimento e afastou-se, recuando com passos seguros. Fixou o olhar naquele ponto absolutamente parado no universo, apesar do movimento constante a cortar o ar impregnado de um cheiro passado. Lembrou-se de como gostava dos edifícios antigos, plenos de pedra, repletos de passos invisivelmente marcados nas lajes. Pensou na ideia insofismável das arquitecturas daqueles lugares únicos, dedicadamente construídos pelas grandes cidades do mundo. Deixou-se absorver pelas memórias da sua Deusa já distante mas ainda tão perfeita no seu pedestal. Percebeu o quanto queria e como desejava que a oscilação do pêndulo o levasse de volta ao “aqui e agora”, aos dias suaves de ternura que lhe marcavam a vida. Escreveu as palavras cheias do que sentia e dedicou-as a ti.

Monday, September 20, 2010

o óbvio ou o bom partido

Sabemos bem o que aí vem quando nos colocam a pergunta do tipo: “o que pensas, quando pensas em mim…?”. (deixam arrastar as reticências, antes do sentido de interrogação – na verdade trata-se de um interrogatório) Esperam de nós a resposta espontânea, simples e directa de quem dedicou horas a fio a pensar no assunto e tem resposta pronta… como se tal fosse possível!

Exemplos:

Ela1 - O que vês em mim?

Eu - Sabes, quando tu tinhas 24 anos e eu 30, jogávamos em campeonatos diferentes. Agora, já estamos no mesmo escalão e apetece-me descobrir-te. Temos tudo para nos fazermos felizes. Só preciso de algum tempo para voltar a juntar os pedacinhos do meu coração e depois vou estar pronto para ti.

Ela1 - Está bem, estamos quando quiseres…


Ela2 - Porque decidiste voltar a estar comigo?

Eu - Acho que te deixei por insegurança, estávamos tão distantes nos objectivos para a nossa relação que eu não podia continuar assim. Desta vez vai ser diferente, ainda estou na fase instável, mas quando me encontrar, vou conseguir decidir se isto vai ser a sério.

Ela2 - Não demores muito…


Na realidade, estamos perdidos… continuamos perdidos e doridos, sem a menor capacidade de tomar decisões. Vale-nos o sermos transparentes…

Game’s game

Ele tinha um ar de aristocrata que me fascinava quando eu era miúdo. A barba usada de quem já havia percorrido muito do mundo. Gostava particularmente quando me entretinha com as suas aventuras nas caçadas, deliciando-me com as imagens contadas das perseguições na savana africana, fazendo-me rir com as historietas e descrições dos serões passados à volta de uma fogueira, com as tendas no meio do mato expostas à simplicidade dos elementos. Eu gostava de o ouvir a imitar os sons da bicharada que lhe atormentavam o sono, naquelas noites sem enfeites. Um dia, quando eu era já um pouco mais crescido e ele há já muito abandonara o hábito da caça, tanto em África como no Alentejo, contou-me, em pormenor, a sensação mais estranha que experimentara, por várias vezes, quando apontava a espingarda a pequenos quadrúpedes, gazelas, impalas ou veados, e estes, apercebendo-se da sua presença, o olhavam nos olhos, fitando-o com tamanha profundidade que ele se arrependia sempre do que faria em seguida – a sensação de que aqueles pequenos seres lhe atingiam a alma, antes de ele lhes atingir a vida. E eu, lembro-me agora, fiquei muito triste a recordar os olhos chorosos do pequeno Bambi.

Friday, September 17, 2010

freaky

Já não te percebo. Já não te consigo ler as entrelinhas. É estranho. Não sei dizer se é bom ou mau. É estranho.

Thursday, September 16, 2010

treat your soul

This city is filled with tanned skins. September is gentle with performing bodies. And yet, virtuous souls are hard to come by. And as I read the words painted on the wall, I truthfully know my soul is mourning for yours. Reciprocally, I’m sure...


Tuesday, September 14, 2010

Num blog, dos mesmos bons, destes aqui ao lado

Num blog, dos mesmos bons, destes aqui ao lado, fala-se de “esquecer” com profundidade e sem filtros. Leio os comentários e constato que há por aí mais vidas adiadas, corações partidos, esperanças desenraizadas, almas que perderam a vontade, personalidades fortes que decidiram, e conseguiram, “cortar”. Há entrelinhas perdidas, vontades atónitas, desejos inacabados e sonhos por realizar. O amor não é cruel, nós, imperfeitos, é que o fazemos difícil.

Monday, September 13, 2010

gostar vs. arrebatar

Explicam-me com carinho e cautela que gostar assim, a sério, pode durar muito tempo. Meses? Pergunto eu. Anos! Respondem-me. E eu que sou um duro, não acredito mas fico a pensar no assunto. Dizem-me, com convicção afirmativa, que nestes casos o melhor mesmo é arrebatar, já que pouco mais há a perder. E eu que sou um estóico, digo que não, que se a felicidade depende de um grande gesto, é porque o amor não é sincero.

Gin & vodka

Foi muito bom voltar a falar com ela assim. Descontraídos e sem medo de deitar cá para fora as verdades do âmago da vida. Foi muito bom voltar a sentir-nos como éramos no passado, íntimos até à exaustão do coração. Somos tão diferentes e no entanto, conhecemo-nos, reconhecemo-nos, como ninguém, por dentro e por fora. Foi preciso voltar a sofrer um desgosto de amor intenso, para nos voltarmos a encontrar no nosso melhor. A comungar das razões que nos fazem tão próximos, das ideias e ideais que eu sei que são mesmo dela, e que ela sabe que são precisamente meus. Foi muito bom. Temos que repetir, de vez em quando.

Friday, September 10, 2010

O das promessas

O das promessas sabe bem que te quer. Sabe bem que gosta de ti, muito e em exclusivo. Sabe bem que um destes dias, não muito distante, te vai fazer feliz, seriamente feliz. Escreveu-o na areia, de propósito para ti, num dia cheio da vontade que sente agora, com as mãos grandes e ávidas de ti. Sabe, porque sabe, que um dia destes, próximo, te vai voltar a abraçar, daquela forma deslumbrante. No tempo que vos separa da sensação de mais um abraço, daqueles vossos, capaz de ser único entre as almas do universo, entre a vontade e a possibilidade, vai ter que recuperar a confiança perdida, a capacidade de te voltar a fazer sorrir. Não vai demorar.


Tuesday, September 7, 2010

desistir - pequeno rol de instruções para a (minha) vida

Nova palavra no vocabulário da minha vida.
Desistir não tem glória mas é mais difícil do que persistir. Desistir não tem charme mas é mais complicado do que resistir. Desistir pode confundir-se com “querer esquecer” mas não é a mesma coisa, desistir é cobardia e aplica-se quando não somos capazes de esquecer. Nestes últimos dias, fiz o exercício de rever a minha vida em fast-playback e não consegui encontrar um único episódio em que tivesse decidido desistir de algo que quisesse mesmo (eu era mesmo bom). Desta vez (é uma primeira vez, aprende-se sempre com estas) teve que ser, antes que o excesso de endorfinas me provocasse um enfarte do miocárdio. Preparei então um prontuário para acompanhar a nova palavra do vocabulário da minha vida:

1) Quando acordares a sonhar com o que não podes, levanta-te da cama e sai para correr – já diziam os outros, antigos, “mens sana in corpore sano”.

2) Junta numa lista 3 ou 4 defeitos que, mesmo não sendo verdadeiros, te façam resistir à vontade – com a mentira te convencerás.

3) Agarra-te com força a tudo aquilo que és, às pessoas brilhantes e especiais que foste conhecendo ao longo da vida, aos sítios esplendorosos por onde passaste – é mesmo para isso que o passado persiste na tua memória.

4) Em último caso, aceita que nada tem importância e que podemos estar a viver num átomo da unha do gigante – usar com cuidado, o efeito pode ser uma bomba atómica.

Não sei se aprender a desistir vai fazer de mim uma pessoa melhor, provavelmente não, mas se toda a gente o faz, porquê (para quê) ser diferente? Temos pena.