Wednesday, January 12, 2011

almost Mad Men

Passei alguns dias a trabalhar numa proposta com alguma gente brilhante da melhor agência de publicidade do mundo. Foi giro. O mundo deles é giro. Diferente. Gosto disso.

Tuesday, January 11, 2011

romance

Tenho numa prateleira do meu quarto, um guerreiro de terracotta que me trouxeram há uns tempos de Xi’an. Reprodução fiel do exército a que pertenceu, guarda-me uns quantos Moleskine que fui inscrevendo ao longo da vida e faz companhia ao “A Montanha da Alma” (Gao Xingjian) que foi o único romance made in China que já me atrevi a ler. Recordo-me que é uma história de viagens. Abro-o ao acaso e sai-me um capítulo perfeito, adaptável, e decido adaptá-lo ou adoptá-lo:

“Encontraste-a junto ao hotel. Era uma expectativa difusa, uma esperança vaga, um encontro fortuito, inesperado. Ela aparece-te e tu não podes deixar de a olhar. Ela sobressai bastante do habitual: a sua silhueta, a sua atitude, o seu ar perdido. Olhas para ela e começam a rir os dois. Era este sorriso que esperavas.

- Entramos? Encontraste qualquer coisa para dizer. Começas a conduzi-la contornando as mesas. Escolhem umas poltronas cheias de espaço e ficam mal encostados.

Sentes um perfume subtil que trespassa todos os outros. Emana dos seus cabelos, emana dela.

[…]

- Sinto-me um pouco constipada

- Sentes-te mal?

- Não, já está melhor.

[…]”

E o diálogo discorre, praticamente perfeito, sem pressas e sem ansiedades de porvir. E tu sabes, pelo teu sorriso aberto, que já não pretendes esconder, que está ali, diante de ti, alguém que vais amar intensamente. Então descobres que o brilhante da felicidade não está no ser amado, isso já havias experimentado, mas sim no gostar de alguém assim. Então, não te interessa a história, não te importa o passado, sentes-te temperado, robusto e convicto de que é ela que queres.

“- Gostas disto?

- Sim.

- Não achas que é maravilhoso?

- Não sei, não posso dizer isso. Não mo perguntes.”

A magia dos bons romances é esta capacidade de se deixarem adaptar, adoptar, como se neles pudéssemos encaixar partes perfeitas da nossa vida, imaginadas e escritas por outros mas que têm tudo a ver com a nossa realidade.

Saturday, January 8, 2011

O velho do Restelo

O velho do Restelo nascido em Lisboa, no Restelo, ainda no tempo da 2ª República, partira para o Brasil na década de 50, numa embarcação cheia de gentes da província. Instalara-se primeiro no Rio onde não conseguira subsistir à custa de trabalho honesto, por isso mudara-se para uma praia no Pernambuco. Ali montara um boteco onde servira, anos a fio, caipirinhas muito açucaradas e coxinhas de frango fritas em óleo sujo. Por certo polígamo, desde o desembarque, vivia em pecado com duas mulatas sempre demasiado descobertas pelos bikinis de pano barato. Uma cortava as limas, a outra tratava dos fritos.
Um dia uma amiga minha pintou-nos, a lápis de cera, diante do boteco a beber caipirinha, a partir de uma fotografia (estive à procura da obra de arte oferecida mas não a encontro).
Por vezes pergunto-me o que será feito do velho do Restelo. Creio que se chamava Senhor António.

repreensíveis

Nós, os homens, conseguimos ser absolutamente repreensíveis. Há poucas coisas piores do que a conversa entre homens medianamente bebidos. Ali pelo segundo copo de uma bebida destilada é seguro que a coisa perdeu qualquer rumo e já não há porto seguro, em particular se for whisky – tenho uma amiga que há muito me avisou que o whisky é o néctar dos tristes. Eu nem queria sair, fi-lo por obrigação, para não me acusarem de faltar aos encontros marcados. Aceitei o segundo JM, demasiado envelhecido, demasiado doce e demasiado caro, apenas porque me sentia a ficar constipado e achei que ia ser bom remédio. E eu nem sou apreciador de whiskys. E foi quando o resto da companhia começou a perder o controlo sobre o neurónio, levando-os a enveredar pelo lado redutor da vida, que eu tive mesmo que sair à rua para fumar um cigarro. Quando regressei a coisa tinha degenerado de tal forma que me desculpei e apanhei um táxi para casa. Felizmente, perdurava-me na memória a sensação de ter acordado com o sol a entrar pelas frestas da persiana e com um sorriso rasgado. E hoje acordei ressacado mas não doente.

Thursday, January 6, 2011

mais quadros

É engraçado como com o passar dos anos se aprende a apreciar Rothko. Faz agora uns 10 anos, sentei-me na sala das quatro paredes forradas a Rothkos da recém-inaugurada Tate Modern e aquilo não me disse nada...
 
Uns anos mais tarde descobri que não gostava mesmo era do Mondrian...

E com a idade descobri mesmo do que gostava...

Wednesday, January 5, 2011

singularidades de um homem solteiro

Ao fim de uns anos e de acumularmos quatro dezenas de gravatas, adoptamos um sistema. Eu uso gravata todos os dias em que trabalho, não há cá “casual fridays” e não quero gastar o neurónio a lembrar-me das que usei nos dias anteriores. Para o evitar, inventa-se um sistema que, no meu caso, passa por pendurá-las em dois cabides, um para as que vão bem com camisas aos quadrados e outro para as lisas ou às riscas. O sistema serve para pô-las a rodar, garantindo que não se repetem. Também se põem os fatos a rodar, no roupeiro, mas isso é um outro sistema, que não resulta tão bem porque vão à lavandaria. O sistema das gravatas só resulta enquanto os cabides aguentam o peso acumulado. Este Natal recebi demasiadas gravatas – há lá presente mais fácil para tias e primas de um executivo – e um dos malditos cabines partiu-se, deixando-me as malditas gravatas espalhadas no chão. Saí apressado e quando regressei a casa encontrei as demasiadas gravatas perfeitamente organizadas por cores sobre a cama. Constatei que a mulher-a-dias não é daltónica mas estragou-me o sistema e eu estou a precisar de uns cabides de aço.

dicotomias (post blasé feito de clichés sem nexo, muito mau)

As dicotomias da minha vida não deixam de me surpreender. Ainda há pouco, enquanto acelerava pelos túneis apercebi-me da bifurcação mesmo antes de escolher a faixa direita. Vinha meio absorto num pensamento de "been there, done that", frase repetida na música, gira, a tocar na rádio que não conhecia. Porque há coisas na vida que não nos apetece repetir e outras que só nos apetece mesmo voltar a viver. Despertei e senti-me a abrir um sorriso.

Sunday, January 2, 2011

génios simbióticos

Os seres humanos possuem esta faculdade extraordinária de se juntarem para criarem obras maravilhosas – tributo a Giuseppe Tornatore e Ennio Morricone:

o final da época – post mundano

Finalmente chegou ao fim. Levo tantos dias seguidos de jantaradas e almoços prolongados, pratadas de carnes assadas com molhos variados e doçarias rebuscadas a passarem-me à frente dos olhos, que ainda sinto o peru do dia 25 atravessado no esófago. Hoje ao almoço quase vomitava, por isso meti-me no carro e furtei-me ao jantar. Não fora um intermezzo de sushi a meio da semana e acho que esta época rebentava mesmo a sério.

o difícil

Ele - Tu sabes, bem, que eu acredito.

Ela - Acreditas? Em quê?

Ele - Em nós.

Ela - Não sei como...

Ele - Eu sou de certezas. E sei que é difícil mas vais ter que investir. Isto não vai funcionar se for de um lado só. Começa por aceitar fitar-me nos olhos.

Saturday, January 1, 2011

Mad Men – shallow in Rome

Estava ali a ver o último episódio do Mad Men e saiu-me esta cena esplêndida, cheia de clichés  e passada em Roma:



quadros

Quando foram horas de me deitar fiquei uns instantes a rever a tua interpretação e o quadro da última manhã do ano – tu e a Minie com os olhares muito abertos, e as almofadas como pano de fundo. Não sou nada de obsessões e há até quem diga que me fazem falta as paixões mas eu sei exactamente do que gosto. E é uma pena que nem sempre me consigam interpretar.
Para fechar a noite, liguei o portátil e encontrei o blog de que me falaste, passei várias páginas e fiquei a rir-me com a inocência do modo reportagem. Fiquei também a especular sobre como vou fazer para pintar o quadro do futuro.

The skyline (fotografia tirada do terraço do Metropolitan)


Thursday, December 30, 2010

às décadas

E ontem à noite faziam-se balanços, de forma diferente, às décadas em vez de aos anos que é a forma própria dos amigos que já se sentem suficientemente antigos para assinalarem os marcos em períodos de dez anos. Sem surpresas, o consenso elegeu a dos 80s como a melhor, nostalgia marcada pelos factos partilhados mesmo para os que ainda não nos conhecíamos, porque naquela época quase tudo era comum, independentemente da geografia ou do estado de espírito individual. É talvez por isso que a música dos 80s marcou toda a gente, como um denominador.
Para mim, os 90s foram confusos e os 2000s prometedores, até chegar 2010, uma caixinha de surpresas que desejo boas, para mim e para toda a gente, mesmo se não sou de ligar a esta coisa das voltinhas ao Sol.

Monday, December 27, 2010

vida assim descontraída

Há uns quantos anos atrás, numa noite de demasiadas caipirinhas, conheci este par de amigos que poderiam também ser um casal – não cheguei a confirmá-lo. Creio que ela era Argentina de raízes alemãs, ele Brasileiro de ascendência portuguesa. Ela já nos cinquenta, ele nos quarenta e qualquer coisa. Ela tinha um restaurante que servia comida tailandesa – muito boa –, ele explorava um bar com o nome diminutivo do Guevara, repleto de ícones revolucionários. Ela olhava-o com um misto de carinho e desejo – por isso digo que poderiam ser um casal –, ele recitava poesia, cuidando de traduzir as palavras mais estranhas em castelhano para que ela percebesse. Ela vigiava o serviço, pelo canto do olho, ele fumava cigarrilhas. Eles jantavam juntos, pelo menos uma vez por semana, no restaurante dela, e foi por estar na mesa ao lado que os conheci. Eles vieram sentar-se connosco e por entre as caipirinhas fabulosas contaram-nos as suas histórias complexas, de que já não me recordo bem. Lembro-me sim que, por entre o torpor da cachaça, desejei chegar aquelas idades e levar uma vida assim descontraída, feita.

Sunday, December 26, 2010

os dias assim

Regressam estes dias chochos, frios e tranquilos, para ficarmos horas a fio a fazer ronha e a conversar, por entre as carícias e o satisfazer do desejo que sentimos um pelo outro. Na penumbra, eu a olhar-te os olhos e tu a tentares acordar, um bocadinho estremunhada mas feliz. Alguém, sublime, criou os dias assim, imperfeitos no tempo, com as nuvens lá fora, mas perfeitos na temperatura, fria, para procurarmos o corpo um do outro, devagar, e o aconchego da pele sentida. Adoro o sentir da tua pele, já te tinha dito? Foi talvez isto, entre muitas outras coisas que tenho para te contar, que me fez persistir até aqui e daqui para a frente. E o teu cheiro bom, ninguém cheira assim, divino, disse-to no outro dia e estava a ser espontâneo. Ronha, ronha e mais ronha, beijos amiúde e as mãos em movimentos ternos. E eu saía pelo meio da manhã só para comprar os éclairs fresquinhos de que tu gostas e que eu nunca tinha experimentado até te conhecer, nesta história que nunca imaginei possível. Sonho contigo assim, apeteces-me, e é real.

Saturday, December 25, 2010

o meu tio (-avô) Quim

Num dos Natais, dessa vez passado na casa senhorial dos meus bisavós, na aldeia, que um dia fora vila, com toda a família maior reunida, o meu tio (-avô) Quim que era um grande advogado no Porto, muito viajado, e que associo ao Monsieur Hulot porque era igualmente excêntrico, mascarou-se de Pai Natal, como parece que era tradição nos tempos de menina da minha mãe, distribuindo os presentes também junto à lareira e fazendo as delícias de mais de uma vintena de crianças que éramos. Apesar de, posteriormente, eu lhe ter descoberto o fato-máscara debaixo da cama, aquele foi o meu melhor Natal de sempre.

em modo Natal-nostálgico

Até aos meus 15 anos todos os Natais de que me recordo foram passados em Trás-os-Montes. Quando chegávamos, a minha avó recebia o neto vindo da cidade com uns bolinhos de coco, muito especiais, que eu adorava – desde que se acabaram, acho que não sou muito de coco. O jantar, em que apesar do bacalhau assado nas brasas, era o polvo cozido e em filetes que reinava, era servido na imponente sala de jantar que por se situar justamente no meio da grande casa tinha por soalho tábuas de madeira maciça que rangiam com os passos dos adultos mas, irritantemente, não com os meus. Em volta da mesa existiam uns louceiros magníficos com superfícies de pedra que ficavam repletos dos doces de Natal: lampreia de ovos, filhoses de vários tipos, aletrias de massa fina e grossa, arroz-doce, sonhos, rabanadas, torta de marmelo doce e uma travessa dos ditos bolinhos de coco, que eram a única coisa de que eu realmente gostava. O meu avô imponente sentava-se à cabeceira e fazia-me sentar ao seu lado, olhando-me com ar circunspecto quando eu afastava a couve-flor para a borda do prato. Aquela sala de jantar era decorada com naturezas-mortas dos artistas experimentais da família que me tiravam o sono. Os presentes abriam-se no regresso da missa do galo, junto à lareira na cozinha, connosco miúdos aos pulos em cima do escano.

E ainda há quem não acredite no gordo sorridente das barbas brancas!?

Ontem, um dos meus “sobrinhos emprestados” dizia que não sabia se podia acreditar no Pai Natal porque não estava “cientificamente provado”– esperto o miúdo… deve estar na idade dos “porquês” mas como pertence à geração do virtual, a quem tudo entra pelos olhos em ecrãs de plasma ou em 3D, precisa da “prova científica”.

A parte má de ter passado o Natal em Lisboa é que cá em casa não há lareira. Apesar do frio, fiquei a ver um filme italiano e deitei-me tarde. Pouco depois, ouvi um barulho e fiquei a pensar se o gordo sorridente das barbas brancas teria encontrado remédio e descido pela chaminé do fogão. Confirmei-o hoje de manhã: “cientificamente provado”!

Thursday, December 23, 2010

o “puxe” e o “push”

Mesmo os portugueses inteligentes têm esta tendência infantil para confundirem o “puxe” e o “push” quando encontram uma porta, uma saída.
Não gosto de ser empurrado ou de me sentir encostado contra a parede e já há muito aprendi que as portas que necessitam de informação abrem para fora, pelo menos no mundo civilizado.
Sou avesso a processos de “convencimento” porque quando alguém necessita de ser convencido é porque não sabe o que quer da vida, e eu não sou nada assim.
Prefiro o “pull”. Gosto que puxem por mim. Aí sim, perante um desafio sou capaz de me deixar convencer.
E tenho esta tese facilmente demonstrável de que se aprende melhor pela positiva, com os bons exemplos, do que pela negativa, porque esta obriga a compreender o que está mal e a imaginar a forma correcta de proceder, e nem sempre se acerta. Isto aplica-se na “gestão de pessoas” da mesma forma que a “Thumper´s rule”: “If you can´t say something nice, don´t say nothing at all”. E saí porta fora, fazendo o esforço de não me mostrar insensível e desejando-lhe um “Bom Natal”, apenas e só pelo respeito que a idade do senhor merece.

Envolver

E hoje fiz a experiência ao contrário e sonhei com esta palavra. Envolver traz a sensação daqueles abraços muito sinceros em que se vai apertando lentamente e cada vez mais, e que são progressivamente melhores. Envolver é sermos como o calor que sai da lareira feita de brasas com laivos perfeitos do ardor das chamas. Envolver é abrangente e comprometedor, implica partilhar proximidade e reduzir os tempos de afastamento. Envolver significa sair da zona de conforto e assumir a responsabilidade de quem estima de forma única, de quem assume que vai cuidar bem, sem vacilar, divagar ou divergir. Devo estar a ficar mesmo crescido e apetece-me envolver-te. E é bom.