Monday, January 17, 2011

coreografias para um pinguim abismado

(para ver em full-screen, sem som)

short version: http://www.youtube.com/watch?v=dBd4sNHBnYc

longer version: http://www.youtube.com/watch?v=xYl4m0xFcCU

generation gap & lifetime differences

Aconteceu-me no outro dia. Estava com um amigo numa festa com bastante gente mais nova (Generation Y). Já íamos no terceiro copo de vinho branco, servido como aperitivo, e creio que entre as conversas e o olharmos em volta nos sentimos antigos, e nos ocorreu o mesmo pensamento: generation gap. Ele lembrou-se do conceito porque era o título do livro de inglês nos nossos tempos de liceu / colégio (orgulhosamente, Generation X), apesar de não termos sido colegas.
E hoje estava entre uma grupeta de amigos, metidos nas suas vidas de filhos, felicidade conjugal e divórcios também, e dei por mim a prolongar, em pensamento paralelo, uma conversa de ontem e a constatar as “lifetime differences”.
É engraçado como as diferenças de gerações e focos trazidos pela idade acrescenta diversidade às nossas vidas.
Eu gosto de diversidade, de pensamentos paralelos e de ideias simultâneas.

Sunday, January 16, 2011

o efeito (lamechas)

Ela não o sabia e ele tinha vontade de lho dizer abertamente:

- Sabes, quando te vejo contente, a dançar e a pular entre os teus amigos, apaixono-me por ti perdidamente.

Saturday, January 15, 2011

saber ganhar

Havia entre aqueles dois pormenores simplesmente deliciosos. Ela gostava das frases fortes com significado e sabia muitas de cor. Ele gostava de a ouvir dizê-las, fazendo destas pensamentos conjuntos. Ela gostava de o impressionar. Ele gostava da sensação da altivez dela, mesmo se isso o fazia sentir-se intimidado. Por vezes, parecia que faltava ali o ritmo que haviam conhecido antes. Ela pensava se ele teria perdido a capacidade de a seduzir e desejava o contrário. Ele sabia que não a queria magoar e ponderava as palavras que eram só para ela. Creio que se sentiam distantes e sem vontade de arriscar, mas o que sentiam era robusto. Um dia aninharam-se na chaise famosa, bem aconchegados um com o outro, e deixaram-se levar. Saíram a ganhar.

Friday, January 14, 2011

amor a saca-rolhas (post quase de gaja)

O título é altamente ostensivo mas esta história não tem nada a ver com a devassa que ocupa a blogosfera por estes dias. Posso parecer estranho mas eu não ocupo o neurónio com mortes que me são alheias nem com vidas que não me dizem nada. Passo. Tenho mais que fazer. Não sou mirone. Não abrando para ver o acidente que aconteceu na faixa ao lado. Desprezo, solenemente, os que o fazem. Entendo a minha educação como racional (e sim, esta é uma directa para um dos blogs ali ao lado, dos meus preferidos). Prefiro ocupar o espírito com selecção. Gosto de eleger (mas desta vez nem vou votar, é que nem sequer em branco). É que passo, mesmo. Passo de saber. Passo de ter que comentar. Passo a conversa. Prefiro concentrar. É que gosto mesmo desta palavra. Já escolhi o que quero. Sei perfeitamente o que quero. Mesmo sabendo que é uma escolha independente. Mesmo que seja a saca-rolhas. Mau gosto? Não. Convicção, que é o que se quer.


I was never too hysterical
I thought myself too smart
But I loved your music
Words right from the heart

Well, sometimes I changed them
Into what I want them to be
But you changed something
You changed me

Now I try to be just like you
Though I won't admit it
I've been digging my
Heels in the ground
But you, knocked me over, you did

Now I try to be just like you
Though I won't admit
Because I try to be me all the time
But you won me over, you did

So many voices all one of a kind
Make me feel unnecessary
But why leave the telling
Up to any one but me
I'll shout and I'll sing


Mmm...gumbo? - by Room Eleven (good music)

Thursday, January 13, 2011

do Sebastianismo

É daqueles ideais absolutamente fascinantes para as crianças que aprendem a história na escola. Não há cá herói de banda desenhada capaz de o suplantar. Aprende-se que virá numa manhã de nevoeiro denso como o algodão-doce. Sonha-se com o desembarque majestoso numa praia de areia molhada. Peripatético, porque atravessa o tempo com desdém. E a partir daí, espera-se pelo desejado. Estou certo que muitos Portugueses pensaram nele, nesta manhã – dia – de nevoeiro total em Lisboa. Pensaram que talvez, desta vez, surgisse o Rei para os salvar do absurdo em que viram transformadas as suas vidas ao longo dos últimos anos. E eu imagino-os a escrevinharem “Viva o Rei!” no boletim de voto. Mas afinal, é só o clima que está a mudar – e eu tive uns professores de História um bocadinho “fascizóides”.

Wednesday, January 12, 2011

almost Mad Men

Passei alguns dias a trabalhar numa proposta com alguma gente brilhante da melhor agência de publicidade do mundo. Foi giro. O mundo deles é giro. Diferente. Gosto disso.

Tuesday, January 11, 2011

romance

Tenho numa prateleira do meu quarto, um guerreiro de terracotta que me trouxeram há uns tempos de Xi’an. Reprodução fiel do exército a que pertenceu, guarda-me uns quantos Moleskine que fui inscrevendo ao longo da vida e faz companhia ao “A Montanha da Alma” (Gao Xingjian) que foi o único romance made in China que já me atrevi a ler. Recordo-me que é uma história de viagens. Abro-o ao acaso e sai-me um capítulo perfeito, adaptável, e decido adaptá-lo ou adoptá-lo:

“Encontraste-a junto ao hotel. Era uma expectativa difusa, uma esperança vaga, um encontro fortuito, inesperado. Ela aparece-te e tu não podes deixar de a olhar. Ela sobressai bastante do habitual: a sua silhueta, a sua atitude, o seu ar perdido. Olhas para ela e começam a rir os dois. Era este sorriso que esperavas.

- Entramos? Encontraste qualquer coisa para dizer. Começas a conduzi-la contornando as mesas. Escolhem umas poltronas cheias de espaço e ficam mal encostados.

Sentes um perfume subtil que trespassa todos os outros. Emana dos seus cabelos, emana dela.

[…]

- Sinto-me um pouco constipada

- Sentes-te mal?

- Não, já está melhor.

[…]”

E o diálogo discorre, praticamente perfeito, sem pressas e sem ansiedades de porvir. E tu sabes, pelo teu sorriso aberto, que já não pretendes esconder, que está ali, diante de ti, alguém que vais amar intensamente. Então descobres que o brilhante da felicidade não está no ser amado, isso já havias experimentado, mas sim no gostar de alguém assim. Então, não te interessa a história, não te importa o passado, sentes-te temperado, robusto e convicto de que é ela que queres.

“- Gostas disto?

- Sim.

- Não achas que é maravilhoso?

- Não sei, não posso dizer isso. Não mo perguntes.”

A magia dos bons romances é esta capacidade de se deixarem adaptar, adoptar, como se neles pudéssemos encaixar partes perfeitas da nossa vida, imaginadas e escritas por outros mas que têm tudo a ver com a nossa realidade.

Saturday, January 8, 2011

O velho do Restelo

O velho do Restelo nascido em Lisboa, no Restelo, ainda no tempo da 2ª República, partira para o Brasil na década de 50, numa embarcação cheia de gentes da província. Instalara-se primeiro no Rio onde não conseguira subsistir à custa de trabalho honesto, por isso mudara-se para uma praia no Pernambuco. Ali montara um boteco onde servira, anos a fio, caipirinhas muito açucaradas e coxinhas de frango fritas em óleo sujo. Por certo polígamo, desde o desembarque, vivia em pecado com duas mulatas sempre demasiado descobertas pelos bikinis de pano barato. Uma cortava as limas, a outra tratava dos fritos.
Um dia uma amiga minha pintou-nos, a lápis de cera, diante do boteco a beber caipirinha, a partir de uma fotografia (estive à procura da obra de arte oferecida mas não a encontro).
Por vezes pergunto-me o que será feito do velho do Restelo. Creio que se chamava Senhor António.

repreensíveis

Nós, os homens, conseguimos ser absolutamente repreensíveis. Há poucas coisas piores do que a conversa entre homens medianamente bebidos. Ali pelo segundo copo de uma bebida destilada é seguro que a coisa perdeu qualquer rumo e já não há porto seguro, em particular se for whisky – tenho uma amiga que há muito me avisou que o whisky é o néctar dos tristes. Eu nem queria sair, fi-lo por obrigação, para não me acusarem de faltar aos encontros marcados. Aceitei o segundo JM, demasiado envelhecido, demasiado doce e demasiado caro, apenas porque me sentia a ficar constipado e achei que ia ser bom remédio. E eu nem sou apreciador de whiskys. E foi quando o resto da companhia começou a perder o controlo sobre o neurónio, levando-os a enveredar pelo lado redutor da vida, que eu tive mesmo que sair à rua para fumar um cigarro. Quando regressei a coisa tinha degenerado de tal forma que me desculpei e apanhei um táxi para casa. Felizmente, perdurava-me na memória a sensação de ter acordado com o sol a entrar pelas frestas da persiana e com um sorriso rasgado. E hoje acordei ressacado mas não doente.

Thursday, January 6, 2011

mais quadros

É engraçado como com o passar dos anos se aprende a apreciar Rothko. Faz agora uns 10 anos, sentei-me na sala das quatro paredes forradas a Rothkos da recém-inaugurada Tate Modern e aquilo não me disse nada...
 
Uns anos mais tarde descobri que não gostava mesmo era do Mondrian...

E com a idade descobri mesmo do que gostava...

Wednesday, January 5, 2011

singularidades de um homem solteiro

Ao fim de uns anos e de acumularmos quatro dezenas de gravatas, adoptamos um sistema. Eu uso gravata todos os dias em que trabalho, não há cá “casual fridays” e não quero gastar o neurónio a lembrar-me das que usei nos dias anteriores. Para o evitar, inventa-se um sistema que, no meu caso, passa por pendurá-las em dois cabides, um para as que vão bem com camisas aos quadrados e outro para as lisas ou às riscas. O sistema serve para pô-las a rodar, garantindo que não se repetem. Também se põem os fatos a rodar, no roupeiro, mas isso é um outro sistema, que não resulta tão bem porque vão à lavandaria. O sistema das gravatas só resulta enquanto os cabides aguentam o peso acumulado. Este Natal recebi demasiadas gravatas – há lá presente mais fácil para tias e primas de um executivo – e um dos malditos cabines partiu-se, deixando-me as malditas gravatas espalhadas no chão. Saí apressado e quando regressei a casa encontrei as demasiadas gravatas perfeitamente organizadas por cores sobre a cama. Constatei que a mulher-a-dias não é daltónica mas estragou-me o sistema e eu estou a precisar de uns cabides de aço.

dicotomias (post blasé feito de clichés sem nexo, muito mau)

As dicotomias da minha vida não deixam de me surpreender. Ainda há pouco, enquanto acelerava pelos túneis apercebi-me da bifurcação mesmo antes de escolher a faixa direita. Vinha meio absorto num pensamento de "been there, done that", frase repetida na música, gira, a tocar na rádio que não conhecia. Porque há coisas na vida que não nos apetece repetir e outras que só nos apetece mesmo voltar a viver. Despertei e senti-me a abrir um sorriso.

Sunday, January 2, 2011

génios simbióticos

Os seres humanos possuem esta faculdade extraordinária de se juntarem para criarem obras maravilhosas – tributo a Giuseppe Tornatore e Ennio Morricone:

o final da época – post mundano

Finalmente chegou ao fim. Levo tantos dias seguidos de jantaradas e almoços prolongados, pratadas de carnes assadas com molhos variados e doçarias rebuscadas a passarem-me à frente dos olhos, que ainda sinto o peru do dia 25 atravessado no esófago. Hoje ao almoço quase vomitava, por isso meti-me no carro e furtei-me ao jantar. Não fora um intermezzo de sushi a meio da semana e acho que esta época rebentava mesmo a sério.

o difícil

Ele - Tu sabes, bem, que eu acredito.

Ela - Acreditas? Em quê?

Ele - Em nós.

Ela - Não sei como...

Ele - Eu sou de certezas. E sei que é difícil mas vais ter que investir. Isto não vai funcionar se for de um lado só. Começa por aceitar fitar-me nos olhos.

Saturday, January 1, 2011

Mad Men – shallow in Rome

Estava ali a ver o último episódio do Mad Men e saiu-me esta cena esplêndida, cheia de clichés  e passada em Roma:



quadros

Quando foram horas de me deitar fiquei uns instantes a rever a tua interpretação e o quadro da última manhã do ano – tu e a Minie com os olhares muito abertos, e as almofadas como pano de fundo. Não sou nada de obsessões e há até quem diga que me fazem falta as paixões mas eu sei exactamente do que gosto. E é uma pena que nem sempre me consigam interpretar.
Para fechar a noite, liguei o portátil e encontrei o blog de que me falaste, passei várias páginas e fiquei a rir-me com a inocência do modo reportagem. Fiquei também a especular sobre como vou fazer para pintar o quadro do futuro.

The skyline (fotografia tirada do terraço do Metropolitan)


Thursday, December 30, 2010

às décadas

E ontem à noite faziam-se balanços, de forma diferente, às décadas em vez de aos anos que é a forma própria dos amigos que já se sentem suficientemente antigos para assinalarem os marcos em períodos de dez anos. Sem surpresas, o consenso elegeu a dos 80s como a melhor, nostalgia marcada pelos factos partilhados mesmo para os que ainda não nos conhecíamos, porque naquela época quase tudo era comum, independentemente da geografia ou do estado de espírito individual. É talvez por isso que a música dos 80s marcou toda a gente, como um denominador.
Para mim, os 90s foram confusos e os 2000s prometedores, até chegar 2010, uma caixinha de surpresas que desejo boas, para mim e para toda a gente, mesmo se não sou de ligar a esta coisa das voltinhas ao Sol.

Monday, December 27, 2010

vida assim descontraída

Há uns quantos anos atrás, numa noite de demasiadas caipirinhas, conheci este par de amigos que poderiam também ser um casal – não cheguei a confirmá-lo. Creio que ela era Argentina de raízes alemãs, ele Brasileiro de ascendência portuguesa. Ela já nos cinquenta, ele nos quarenta e qualquer coisa. Ela tinha um restaurante que servia comida tailandesa – muito boa –, ele explorava um bar com o nome diminutivo do Guevara, repleto de ícones revolucionários. Ela olhava-o com um misto de carinho e desejo – por isso digo que poderiam ser um casal –, ele recitava poesia, cuidando de traduzir as palavras mais estranhas em castelhano para que ela percebesse. Ela vigiava o serviço, pelo canto do olho, ele fumava cigarrilhas. Eles jantavam juntos, pelo menos uma vez por semana, no restaurante dela, e foi por estar na mesa ao lado que os conheci. Eles vieram sentar-se connosco e por entre as caipirinhas fabulosas contaram-nos as suas histórias complexas, de que já não me recordo bem. Lembro-me sim que, por entre o torpor da cachaça, desejei chegar aquelas idades e levar uma vida assim descontraída, feita.