Sunday, February 6, 2011

inércia

Há poucas coisas que me arreliam na vida – eu não sou de me zangar. A inércia é uma delas. Para mim, inércia não é bem a mesma coisa que preguiça, apesar do que diz o Priberam. Preguiça tem aquele sentido do tempo gozado, bem passado do “dolce fare niente”, positivo e prazenteiro. Isso, eu suporto – até sou capaz de gostar. O que não suporto são pessoas inertes, sem vontade de se mexerem, incapazes de decidir – como se tivessem os neurónios presos num baraço –, para quem o fácil é deixarem-se arrastar – que também não é bem a mesma coisa que deixar-se levar. Dou-lhes o desconto todo – sou bom nisto – a conjuntura, as preocupações terrenas, o cansaço acumulado, o frio da noite… o que quiserem, mas não me deixem a falar sozinho. É que tenho mais o que fazer, onde ir e com quem estar. Não “tirei” a noite para os aturar, assim.

Friday, February 4, 2011

o contraponto

Fez umas gravações para a televisão a precisar de ponto porque as frases não lhe saiam como queria. (camisa às riscas para baralhar!? ...a rolar ...acção ...corta ...acção ...corta ...já está)

Tomou um duche quente, custando-lhe o acordar. (água com pouca pressão)

Combinou um ovo mexido em manteiga com atum em lata. (não gostou... empanturrou-se com batatas fritas do pacote)

Assinou meia dúzia de missivas completando o legado. (caneta de tinta permanente a ameaçar ficar sem tinta)

Desceu no elevador compondo o cabelo com a mão. (mensagem no telemóvel: Tem um cachecol muita giro :p)

Petrificou a equipa num discurso correcto. (mensagem no telemóvel: Muitos muitos parabéns... Ainda a digerir :-)

Quase atropelou um miúdo esgrouviado na passadeira. (pálpebras a pesar)

ao nível do mar

Sentia sono mas apetecia-lhe o calor reconfortante do abraço, como quem sente o ar frio vindo do alto da montanha, projectado contra o nariz, e descobre que é capaz de respirar fundo para, em seguida, deitar cá para fora palavras sentidas, capazes de serem ouvidas na altitude e ao nível do mar.

Thursday, February 3, 2011

o meu tigre e a neve...



…amanhã, feliz e contente!

Wednesday, February 2, 2011

exacto

Eu, em estado cansado acumulado e melancólico, ponho-me a ler Fevereiro e já havia tanto ali, apesar de tudo o que estava por descobrir e do tanto que havia para mudar a minha vida.
Para o dilema as soluções são múltiplas, mais que muitas, o que importa é o resultado e esse é exacto.

Monday, January 31, 2011

music

E há esta música que foi a primeira do nosso concerto. Eu e tu descontraídos, tão encantados um com o outro. Oblívios a tudo o que nos rodeava. Absolutamente expectantes com o que o futuro, bom, nos reservava mas concentrados apenas no presente, de mãos dadas. Maravilhosos, eu e tu, miúda, muito tranquilos como só os amantes quando se começam a conhecer bem, alcançam. E eu, miúda, quando ouço esta música, desejo tanto que tivéssemos uma fotografia das nossas expressões apaixonadas, para hoje retomarmos o que é inexplicavelmente nosso. 

Don't tell me
It's another likely story
Could've pinned it on you from the start
Well I’m new here
Doesn't mean I have to answer
Silly questions or a shot in the dark

You know I’m a child
I keep this alive

It gets harder
I remember to remember
Waking up again all over again
If there's an echo
Repeat days I’d likely let go
And be the changes we are noticing

When we're running wild
We keep this alive

Still I wonder
Sights around us fade and underneath
The ground shakes, things fall apart
And no other than the voice of one another
Keeps us safely moving on in the dark

You know I’m a child
I keep this alive

Sunday, January 30, 2011

os meninos

No outro dia saí à rua, a seguir ao almoço, para fumar um cigarro junto às colunas, como nunca faço. E estava entretido a ver o meu próprio sorriso, narciso, reflectido nas portas de vidro do outro lado da rua, quando se aproxima um mendigo que quase sem voz me pergunta se lhe dava algo para ele comer. E eu penso para comigo que o mínimo que tenho são notas de 10 e digo-lhe que não. E observo-o pelo canto do olho a cirandar por ali e a receber mais “nãos” entre os fumadores habituais ou de ocasião. E passado um bocado, quando termino o meu cigarro, dou com ele a dialogar, já com a voz desperta, com o seu próprio reflexo numa outra porta de vidro, narciso: “… isto é só meninos, cheios de valores... Tivessem passado pelo mesmo que eu e logo viam…”. E lembrei-me da minha conversa fácil, de menino, de que não há crise nenhuma, e espetei-lhe com uma nota de 20 entre as mãos abertas em concha.

turbilhão

Tu sentes subitamente frio quando aterras na cidade e estão 6 graus.

Tu sentes-te triste quando a tua mãe te dá um abraço sentido para te informar que alguém partiu.

Tu sentes-te esquecido quando reencontras uma mulher que já tomaste como a miúda perfeita, há muitos anos atrás, e a confundes com a mãe dela.

Tu sentes-te revoltado quando observas os rostos dos que te são próximos marcados pelas lágrimas dos dias que passaram e não podes mais do que passar-lhes a mão pelos ombros caídos.

Tu sentes-te sem palavras quando o ouves a ler na missa com a voz trémula e sabes que para ele o ano que passou foi horribilis.

Tu sentes-te mal quando anuncias a novidade e uma amiga fica petrificada.

Tu sentes-te acordado quando sonhas com o jogo dos vossos corpos em movimentos feitos de uma intensidade perfeita.

Tu sentes-te impotente quando interpretam o teu sorriso quase sempre aberto como um efeito de deslumbramento.

Tu sentes-te confiante quando sabes que não tens a resposta mas que há sempre uma solução melhor.

a dupla dos verbos

Ele - Sabes, apetece-me ter uma relação “real” contigo.

Ela - Se pões as coisas assim, também quero querer isso...

Tuesday, January 25, 2011

Do amor e outros demónios

Não lhe chegava o desassossego do amor empolado pela distância, ainda tinha que despertar para uma insónia brutal a meio da noite.
Ligou a televisão e saiu-lhe o início de um bom filme que nunca tinha visto: “Before the devil knows you're dead” do Sidney Lumet.
Prendeu-o por mais de duas horas, à conta da história bem engendrada e do cliché da Marisa Tomei, mais uma diva de segurança para o que sabe bem.
Felizmente, amanhã é dia de aniversário do Tom Jobim, descobriu pelo Google.
Ah!, se eu pudesse te encontrar serena
Eu juro, pegaria sua mão pequena
E juntos vendo o mar
Dizendo aquilo tudo, quase sem falar

Monday, January 24, 2011

a trovoada

De cada vez que desaba a trovoada com raios de luz sobre os arranha-céus, que tem sido muitas vezes nestes dias, lembro-me de ti a dizeres que gostas muito disto.

Sunday, January 23, 2011

do Facebook e o outro

Entre as opções só considero duas: o filme do Facebook e o outro. Com a minha tendência, pretensiosa, para o intelectual escolho o outro. É um filme fácil, com o Michael Douglas. O Michael começa a parecer-me um melhor actor – mas eu já vou no 5º whisky e entretanto troquei o Dewars pelo Glenfiddich –, para além das oportunidades que teve de contracenar com actrizes boas. Também entram o puto do Facebook e o Danny DeVito – porque será que os baixinhos gordos são sempre bem-humorados? O filme tem alguns silêncios estranhos que me fazem duvidar sobre o bom funcionamento dos auscultadores, mas a “cenas tantas” sai esta barbaridade ao Michael: “No one over forty is thick-thin really, trust me” – não se podem dizer estas coisas quando se contracena com a Marie-Louise Parker e eu próprio conheço quem desafie o postulado. Mas o bom do Michael, que faz um bom papel, óbvio e escorreito para lá da crise da meia-idade, é a conclusão que oferece ao puto do Facebook, referindo-se às mulheres: “sometimes you get a good one, they’re rare...”. (creio que é nesta cena que nós os homens choramos, se quiserem experimentar, levem-nos a ver “Solitary Man” – o filme em si não é nada de especial mas vale a pena na mesma)

as garotas e os saltos altos

Incrível como todas as garotas daqui se esforçam por esticar o pernão à custa dos saltos altos. Nem assim te chegam aos calcanhares porque tu és muito à frente.

Friday, January 21, 2011

chocalhar

Apesar da tentativa de anestesia com bom whisky, passei a noite a chocalhar debaixo de uma tormenta que não me deixou pregar o olho mais de 30 minutos seguidos. Para ajudar, chegado ao destino, entre o cansaço e o inóspito do verão, caiu-me uma trovoada bestial em cima, que ainda não decifrei se também é emocional. Preciso de descansar mas esta gente ainda quer ir chocalhar.

Thursday, January 20, 2011

o nosso complicómetro

Para mim, o melhor de viajar é a visão alargada do mundo que me entra forçosamente pelos olhos adentro. Hoje de manhã, vinha pespegado à janela do A319 e quando passámos as nuvens, logo à saída de Lisboa, dei por mim bafejado pelo sol nascente e quente sobre o meu rosto. Só por isso e pelo contraste deslumbrante das nuvens escuras lá em baixo, tive logo meia dúzia de ideias brilhantes para coisas que quero fazer, negócios milionários e textos para escrever. Entre os negócios, lembrei-me que talvez seja viável proporcionar voltinhas de avião em formato solário nas temporadas de Inverno: os ciclos no hemisfério Norte ou Sul asseguram facturação todo o ano; voar está cada vez mais barato; e apenas seria necessário investir numa fuselagem em plexiglass, mais umas cadeiras de respaldo e nuns guarda-sóis listados. Brilhante, eu sei (mais uma ideia de borla para quem lê o blog).
Agora, estou aqui em modo solitário no “lounge” do “home hub” da “flagship”, à espera do transatlântico (com esta palavra imagino sempre um grande navio, pr’aí do tamanho do Titanic, a atracar, quando na realidade o que se vê daqui são aviões a levantar). Entalado entre o buffet onde pairam duas tortillas de espécies diferentes mas que sabem igualmente a “patatas” e uma escolha demasiado abundante de Riojas já abertos à espera que eu me sirva (quando eu queria que alguém me servisse). O espaço (grande) está pejado de israelitas (suspeitosamente existem dois voos para Tel Aviv com diferença de 70 min…) que parecem todos da Mossad (devem ser colegas…) a arranharem o hebreu, enquanto olham para mim como se fosse a ovelha negra (talvez por ser o único que me vou meter no transatlântico de fato).
Voltando às ideias (feito o tributo aos agentes aqui do lado, por serem inovadores como poucos povos), nós os portugueses parece que ligámos)em definitivo o complicómetro:
- Há uns dias atrás, foi a cena das vacinas dos viajantes que supostamente passaram a ser pagas (há uns locais em que ainda não, porque não foram capazes de interpretar correctamente as novas regras), excepção feita (no reino do complicómetro, esta expressão é chave) a quem viaja em trabalho humanitário ou ao abrigo do interesse nacional (como se prova isso, ninguém pensou).
- Uns meses antes, foi a história da cobrança das portagens “sem custos” que, lá para o Norte, parece que resultou na procura da A3, porque essa se cobra da forma tradicional e sem a confusão das excepções às excepções das complicações.
- Hoje, a novidade (leio na imprensa nacional) é que os “veículos mais poluentes vão ser proibidos de entrar na Baixa de Lisboa” e eu pergunto-me se alguém no país do complicómetro pensou como vai controlar isso e o que vão fazer com os Mercedes 180 D importados da Turquia.
E pensar que este povo, modesto mas iluminado já foi capaz de feitos tão simples quanto plantar um pinhal a pensar no futuro ou lançar-se mar adentro sem destino conhecido.
Nesta altura já vou no meu terceiro whisky, para ajudar à digestão das “patatas” e ainda me falta 1 hora para o embarque no transatlântico, mas pelo menos vou dormir que nem um bebé (dos tranquilos).

abraço sem profundidade

Combinámos encontro no estacionamento. À hora marcada telefonei-lhe e ela apareceu-me com dois sacos cheios de coisas minhas que foi acumulando: os livros de estudo para o gmat, uns quantos DVDs, mais alguns livros, um jogo de xadrez (bonito) que me ofereceu para as férias que fazíamos a dois, e o meu adaptador de tomadas internacionais, que era tudo o que eu lhe havia pedido. Dei-lhe um beijinho e pedi-lhe um abraço, que nos saiu sem profundidade. Começou a dizer "Ricardo, não te quero mal..." (e eu pensei: "right, porque havias de querer?"), ela ia continuar mas eu disse-lhe adeus. Enquanto nos afastávamos, concluí que não amei, a sério, muitas vezes.

Wednesday, January 19, 2011

as palavras com sentido ao acaso

Gosto muito disto. Descobri-o no outro dia e faz sentido. De estender a mão e abrir ao acaso um livro da prateleira – Brideshead Revisited (Evelyn Waugh), que era também aquela série muito adulta que me prendia à caixinha mágica, às terças-feiras (eu lembro-me), quando era miúdo:

This was the creature, neither child nor woman, that drove me through the dusk that spring evening, untroubled by love, taken aback by the power of her own beauty, hesitating on the cool edge of life; one who had suddenly found herself armed, unawares; the heroine of a fairy story turning over in her hands the magic ring; she had only to stroke it with her fingertips and whisper the charmed word, for the earth to open at her feet and belch forth her titanic servant, the fawning monster who would bring her whatever she asked, but bring it, perhaps, in unwelcome shape.
She had no interest in me that evening; the jinn rumbled below us uncalled; she lived apart in a little world, within a little world, the innermost of a system of concentric spheres, like the ivory balls laboriously carved in China; a little problem troubling her mind – little, as she saw it, in abstract terms and symbols. She was wondering, dispassionately and leagues distant from reality, whom she should love.

Muito bom. Muito “on the cool edge of life”.

cupcakes

Ele - Definitivamente, tu és o meu bombordo.

Ela - Mas tu não mo dizes…

Ele - É só isso que falta?

Ela - Olha!? Claro que não!

Tuesday, January 18, 2011

8 de Agosto

Por vezes lembro-me daquele dia de Agosto em que parti para férias. Saí depois de um almoço ligeiro, um ovo cozido com uma fatias de salmão fumado e folhas de alface que encontrei no frigorífico, já lavadas. Deitei uma pitada de pimenta por cima daquilo tudo, só porque me apetecia mas exagerei e quando atravessava a ponte sentia-me indisposto. Sobre o rio, reparei que o céu estava amarelo-castanho e começou mesmo a chover, chuva grossa daquela que tira a visibilidade a grande velocidade. Sentia-me pesaroso, creio até que a chuva me induzia lágrimas nos olhos e apetecia-me o 125 azul, mas aquela não era a ponte velha nem fazia sol e o que tocava no meu CD era “The xx” que na minha superstição diminuta eram as músicas do fim. Foi já depois de passar a portagem, deixando a auto-estrada para trás e enveredando para a Comporta, com o CD em repeat, que recebi a mensagem, bonita e simples, depois de meses passados em silêncio ou em frases contraditórias. Mas aquela tua mensagem, no meu BB, era firme e deixou-me seguro da certeza de quem sabe o que quer, de quem sabe que há uma espécie de amor que é mais do que real, que nos faz sentir para lá de vivos. E eu gosto mesmo de explorar as sensações que me deixam a flutuar quando olho para ti e que me fazem escrever estes textos quase sem nexo, porque tu me fazes sentir assim.
Abraço.

Monday, January 17, 2011

coreografias para um pinguim abismado

(para ver em full-screen, sem som)

short version: http://www.youtube.com/watch?v=dBd4sNHBnYc

longer version: http://www.youtube.com/watch?v=xYl4m0xFcCU

generation gap & lifetime differences

Aconteceu-me no outro dia. Estava com um amigo numa festa com bastante gente mais nova (Generation Y). Já íamos no terceiro copo de vinho branco, servido como aperitivo, e creio que entre as conversas e o olharmos em volta nos sentimos antigos, e nos ocorreu o mesmo pensamento: generation gap. Ele lembrou-se do conceito porque era o título do livro de inglês nos nossos tempos de liceu / colégio (orgulhosamente, Generation X), apesar de não termos sido colegas.
E hoje estava entre uma grupeta de amigos, metidos nas suas vidas de filhos, felicidade conjugal e divórcios também, e dei por mim a prolongar, em pensamento paralelo, uma conversa de ontem e a constatar as “lifetime differences”.
É engraçado como as diferenças de gerações e focos trazidos pela idade acrescenta diversidade às nossas vidas.
Eu gosto de diversidade, de pensamentos paralelos e de ideias simultâneas.

Sunday, January 16, 2011

o efeito (lamechas)

Ela não o sabia e ele tinha vontade de lho dizer abertamente:

- Sabes, quando te vejo contente, a dançar e a pular entre os teus amigos, apaixono-me por ti perdidamente.

Saturday, January 15, 2011

saber ganhar

Havia entre aqueles dois pormenores simplesmente deliciosos. Ela gostava das frases fortes com significado e sabia muitas de cor. Ele gostava de a ouvir dizê-las, fazendo destas pensamentos conjuntos. Ela gostava de o impressionar. Ele gostava da sensação da altivez dela, mesmo se isso o fazia sentir-se intimidado. Por vezes, parecia que faltava ali o ritmo que haviam conhecido antes. Ela pensava se ele teria perdido a capacidade de a seduzir e desejava o contrário. Ele sabia que não a queria magoar e ponderava as palavras que eram só para ela. Creio que se sentiam distantes e sem vontade de arriscar, mas o que sentiam era robusto. Um dia aninharam-se na chaise famosa, bem aconchegados um com o outro, e deixaram-se levar. Saíram a ganhar.

Friday, January 14, 2011

amor a saca-rolhas (post quase de gaja)

O título é altamente ostensivo mas esta história não tem nada a ver com a devassa que ocupa a blogosfera por estes dias. Posso parecer estranho mas eu não ocupo o neurónio com mortes que me são alheias nem com vidas que não me dizem nada. Passo. Tenho mais que fazer. Não sou mirone. Não abrando para ver o acidente que aconteceu na faixa ao lado. Desprezo, solenemente, os que o fazem. Entendo a minha educação como racional (e sim, esta é uma directa para um dos blogs ali ao lado, dos meus preferidos). Prefiro ocupar o espírito com selecção. Gosto de eleger (mas desta vez nem vou votar, é que nem sequer em branco). É que passo, mesmo. Passo de saber. Passo de ter que comentar. Passo a conversa. Prefiro concentrar. É que gosto mesmo desta palavra. Já escolhi o que quero. Sei perfeitamente o que quero. Mesmo sabendo que é uma escolha independente. Mesmo que seja a saca-rolhas. Mau gosto? Não. Convicção, que é o que se quer.


I was never too hysterical
I thought myself too smart
But I loved your music
Words right from the heart

Well, sometimes I changed them
Into what I want them to be
But you changed something
You changed me

Now I try to be just like you
Though I won't admit it
I've been digging my
Heels in the ground
But you, knocked me over, you did

Now I try to be just like you
Though I won't admit
Because I try to be me all the time
But you won me over, you did

So many voices all one of a kind
Make me feel unnecessary
But why leave the telling
Up to any one but me
I'll shout and I'll sing


Mmm...gumbo? - by Room Eleven (good music)

Thursday, January 13, 2011

do Sebastianismo

É daqueles ideais absolutamente fascinantes para as crianças que aprendem a história na escola. Não há cá herói de banda desenhada capaz de o suplantar. Aprende-se que virá numa manhã de nevoeiro denso como o algodão-doce. Sonha-se com o desembarque majestoso numa praia de areia molhada. Peripatético, porque atravessa o tempo com desdém. E a partir daí, espera-se pelo desejado. Estou certo que muitos Portugueses pensaram nele, nesta manhã – dia – de nevoeiro total em Lisboa. Pensaram que talvez, desta vez, surgisse o Rei para os salvar do absurdo em que viram transformadas as suas vidas ao longo dos últimos anos. E eu imagino-os a escrevinharem “Viva o Rei!” no boletim de voto. Mas afinal, é só o clima que está a mudar – e eu tive uns professores de História um bocadinho “fascizóides”.

Wednesday, January 12, 2011

almost Mad Men

Passei alguns dias a trabalhar numa proposta com alguma gente brilhante da melhor agência de publicidade do mundo. Foi giro. O mundo deles é giro. Diferente. Gosto disso.

Tuesday, January 11, 2011

romance

Tenho numa prateleira do meu quarto, um guerreiro de terracotta que me trouxeram há uns tempos de Xi’an. Reprodução fiel do exército a que pertenceu, guarda-me uns quantos Moleskine que fui inscrevendo ao longo da vida e faz companhia ao “A Montanha da Alma” (Gao Xingjian) que foi o único romance made in China que já me atrevi a ler. Recordo-me que é uma história de viagens. Abro-o ao acaso e sai-me um capítulo perfeito, adaptável, e decido adaptá-lo ou adoptá-lo:

“Encontraste-a junto ao hotel. Era uma expectativa difusa, uma esperança vaga, um encontro fortuito, inesperado. Ela aparece-te e tu não podes deixar de a olhar. Ela sobressai bastante do habitual: a sua silhueta, a sua atitude, o seu ar perdido. Olhas para ela e começam a rir os dois. Era este sorriso que esperavas.

- Entramos? Encontraste qualquer coisa para dizer. Começas a conduzi-la contornando as mesas. Escolhem umas poltronas cheias de espaço e ficam mal encostados.

Sentes um perfume subtil que trespassa todos os outros. Emana dos seus cabelos, emana dela.

[…]

- Sinto-me um pouco constipada

- Sentes-te mal?

- Não, já está melhor.

[…]”

E o diálogo discorre, praticamente perfeito, sem pressas e sem ansiedades de porvir. E tu sabes, pelo teu sorriso aberto, que já não pretendes esconder, que está ali, diante de ti, alguém que vais amar intensamente. Então descobres que o brilhante da felicidade não está no ser amado, isso já havias experimentado, mas sim no gostar de alguém assim. Então, não te interessa a história, não te importa o passado, sentes-te temperado, robusto e convicto de que é ela que queres.

“- Gostas disto?

- Sim.

- Não achas que é maravilhoso?

- Não sei, não posso dizer isso. Não mo perguntes.”

A magia dos bons romances é esta capacidade de se deixarem adaptar, adoptar, como se neles pudéssemos encaixar partes perfeitas da nossa vida, imaginadas e escritas por outros mas que têm tudo a ver com a nossa realidade.

Saturday, January 8, 2011

O velho do Restelo

O velho do Restelo nascido em Lisboa, no Restelo, ainda no tempo da 2ª República, partira para o Brasil na década de 50, numa embarcação cheia de gentes da província. Instalara-se primeiro no Rio onde não conseguira subsistir à custa de trabalho honesto, por isso mudara-se para uma praia no Pernambuco. Ali montara um boteco onde servira, anos a fio, caipirinhas muito açucaradas e coxinhas de frango fritas em óleo sujo. Por certo polígamo, desde o desembarque, vivia em pecado com duas mulatas sempre demasiado descobertas pelos bikinis de pano barato. Uma cortava as limas, a outra tratava dos fritos.
Um dia uma amiga minha pintou-nos, a lápis de cera, diante do boteco a beber caipirinha, a partir de uma fotografia (estive à procura da obra de arte oferecida mas não a encontro).
Por vezes pergunto-me o que será feito do velho do Restelo. Creio que se chamava Senhor António.

repreensíveis

Nós, os homens, conseguimos ser absolutamente repreensíveis. Há poucas coisas piores do que a conversa entre homens medianamente bebidos. Ali pelo segundo copo de uma bebida destilada é seguro que a coisa perdeu qualquer rumo e já não há porto seguro, em particular se for whisky – tenho uma amiga que há muito me avisou que o whisky é o néctar dos tristes. Eu nem queria sair, fi-lo por obrigação, para não me acusarem de faltar aos encontros marcados. Aceitei o segundo JM, demasiado envelhecido, demasiado doce e demasiado caro, apenas porque me sentia a ficar constipado e achei que ia ser bom remédio. E eu nem sou apreciador de whiskys. E foi quando o resto da companhia começou a perder o controlo sobre o neurónio, levando-os a enveredar pelo lado redutor da vida, que eu tive mesmo que sair à rua para fumar um cigarro. Quando regressei a coisa tinha degenerado de tal forma que me desculpei e apanhei um táxi para casa. Felizmente, perdurava-me na memória a sensação de ter acordado com o sol a entrar pelas frestas da persiana e com um sorriso rasgado. E hoje acordei ressacado mas não doente.

Thursday, January 6, 2011

mais quadros

É engraçado como com o passar dos anos se aprende a apreciar Rothko. Faz agora uns 10 anos, sentei-me na sala das quatro paredes forradas a Rothkos da recém-inaugurada Tate Modern e aquilo não me disse nada...
 
Uns anos mais tarde descobri que não gostava mesmo era do Mondrian...

E com a idade descobri mesmo do que gostava...

Wednesday, January 5, 2011

singularidades de um homem solteiro

Ao fim de uns anos e de acumularmos quatro dezenas de gravatas, adoptamos um sistema. Eu uso gravata todos os dias em que trabalho, não há cá “casual fridays” e não quero gastar o neurónio a lembrar-me das que usei nos dias anteriores. Para o evitar, inventa-se um sistema que, no meu caso, passa por pendurá-las em dois cabides, um para as que vão bem com camisas aos quadrados e outro para as lisas ou às riscas. O sistema serve para pô-las a rodar, garantindo que não se repetem. Também se põem os fatos a rodar, no roupeiro, mas isso é um outro sistema, que não resulta tão bem porque vão à lavandaria. O sistema das gravatas só resulta enquanto os cabides aguentam o peso acumulado. Este Natal recebi demasiadas gravatas – há lá presente mais fácil para tias e primas de um executivo – e um dos malditos cabines partiu-se, deixando-me as malditas gravatas espalhadas no chão. Saí apressado e quando regressei a casa encontrei as demasiadas gravatas perfeitamente organizadas por cores sobre a cama. Constatei que a mulher-a-dias não é daltónica mas estragou-me o sistema e eu estou a precisar de uns cabides de aço.

dicotomias (post blasé feito de clichés sem nexo, muito mau)

As dicotomias da minha vida não deixam de me surpreender. Ainda há pouco, enquanto acelerava pelos túneis apercebi-me da bifurcação mesmo antes de escolher a faixa direita. Vinha meio absorto num pensamento de "been there, done that", frase repetida na música, gira, a tocar na rádio que não conhecia. Porque há coisas na vida que não nos apetece repetir e outras que só nos apetece mesmo voltar a viver. Despertei e senti-me a abrir um sorriso.

Sunday, January 2, 2011

génios simbióticos

Os seres humanos possuem esta faculdade extraordinária de se juntarem para criarem obras maravilhosas – tributo a Giuseppe Tornatore e Ennio Morricone:

o final da época – post mundano

Finalmente chegou ao fim. Levo tantos dias seguidos de jantaradas e almoços prolongados, pratadas de carnes assadas com molhos variados e doçarias rebuscadas a passarem-me à frente dos olhos, que ainda sinto o peru do dia 25 atravessado no esófago. Hoje ao almoço quase vomitava, por isso meti-me no carro e furtei-me ao jantar. Não fora um intermezzo de sushi a meio da semana e acho que esta época rebentava mesmo a sério.

o difícil

Ele - Tu sabes, bem, que eu acredito.

Ela - Acreditas? Em quê?

Ele - Em nós.

Ela - Não sei como...

Ele - Eu sou de certezas. E sei que é difícil mas vais ter que investir. Isto não vai funcionar se for de um lado só. Começa por aceitar fitar-me nos olhos.

Saturday, January 1, 2011

Mad Men – shallow in Rome

Estava ali a ver o último episódio do Mad Men e saiu-me esta cena esplêndida, cheia de clichés  e passada em Roma:



quadros

Quando foram horas de me deitar fiquei uns instantes a rever a tua interpretação e o quadro da última manhã do ano – tu e a Minie com os olhares muito abertos, e as almofadas como pano de fundo. Não sou nada de obsessões e há até quem diga que me fazem falta as paixões mas eu sei exactamente do que gosto. E é uma pena que nem sempre me consigam interpretar.
Para fechar a noite, liguei o portátil e encontrei o blog de que me falaste, passei várias páginas e fiquei a rir-me com a inocência do modo reportagem. Fiquei também a especular sobre como vou fazer para pintar o quadro do futuro.

The skyline (fotografia tirada do terraço do Metropolitan)


Thursday, December 30, 2010

às décadas

E ontem à noite faziam-se balanços, de forma diferente, às décadas em vez de aos anos que é a forma própria dos amigos que já se sentem suficientemente antigos para assinalarem os marcos em períodos de dez anos. Sem surpresas, o consenso elegeu a dos 80s como a melhor, nostalgia marcada pelos factos partilhados mesmo para os que ainda não nos conhecíamos, porque naquela época quase tudo era comum, independentemente da geografia ou do estado de espírito individual. É talvez por isso que a música dos 80s marcou toda a gente, como um denominador.
Para mim, os 90s foram confusos e os 2000s prometedores, até chegar 2010, uma caixinha de surpresas que desejo boas, para mim e para toda a gente, mesmo se não sou de ligar a esta coisa das voltinhas ao Sol.

Monday, December 27, 2010

vida assim descontraída

Há uns quantos anos atrás, numa noite de demasiadas caipirinhas, conheci este par de amigos que poderiam também ser um casal – não cheguei a confirmá-lo. Creio que ela era Argentina de raízes alemãs, ele Brasileiro de ascendência portuguesa. Ela já nos cinquenta, ele nos quarenta e qualquer coisa. Ela tinha um restaurante que servia comida tailandesa – muito boa –, ele explorava um bar com o nome diminutivo do Guevara, repleto de ícones revolucionários. Ela olhava-o com um misto de carinho e desejo – por isso digo que poderiam ser um casal –, ele recitava poesia, cuidando de traduzir as palavras mais estranhas em castelhano para que ela percebesse. Ela vigiava o serviço, pelo canto do olho, ele fumava cigarrilhas. Eles jantavam juntos, pelo menos uma vez por semana, no restaurante dela, e foi por estar na mesa ao lado que os conheci. Eles vieram sentar-se connosco e por entre as caipirinhas fabulosas contaram-nos as suas histórias complexas, de que já não me recordo bem. Lembro-me sim que, por entre o torpor da cachaça, desejei chegar aquelas idades e levar uma vida assim descontraída, feita.

Sunday, December 26, 2010

os dias assim

Regressam estes dias chochos, frios e tranquilos, para ficarmos horas a fio a fazer ronha e a conversar, por entre as carícias e o satisfazer do desejo que sentimos um pelo outro. Na penumbra, eu a olhar-te os olhos e tu a tentares acordar, um bocadinho estremunhada mas feliz. Alguém, sublime, criou os dias assim, imperfeitos no tempo, com as nuvens lá fora, mas perfeitos na temperatura, fria, para procurarmos o corpo um do outro, devagar, e o aconchego da pele sentida. Adoro o sentir da tua pele, já te tinha dito? Foi talvez isto, entre muitas outras coisas que tenho para te contar, que me fez persistir até aqui e daqui para a frente. E o teu cheiro bom, ninguém cheira assim, divino, disse-to no outro dia e estava a ser espontâneo. Ronha, ronha e mais ronha, beijos amiúde e as mãos em movimentos ternos. E eu saía pelo meio da manhã só para comprar os éclairs fresquinhos de que tu gostas e que eu nunca tinha experimentado até te conhecer, nesta história que nunca imaginei possível. Sonho contigo assim, apeteces-me, e é real.

Saturday, December 25, 2010

o meu tio (-avô) Quim

Num dos Natais, dessa vez passado na casa senhorial dos meus bisavós, na aldeia, que um dia fora vila, com toda a família maior reunida, o meu tio (-avô) Quim que era um grande advogado no Porto, muito viajado, e que associo ao Monsieur Hulot porque era igualmente excêntrico, mascarou-se de Pai Natal, como parece que era tradição nos tempos de menina da minha mãe, distribuindo os presentes também junto à lareira e fazendo as delícias de mais de uma vintena de crianças que éramos. Apesar de, posteriormente, eu lhe ter descoberto o fato-máscara debaixo da cama, aquele foi o meu melhor Natal de sempre.

em modo Natal-nostálgico

Até aos meus 15 anos todos os Natais de que me recordo foram passados em Trás-os-Montes. Quando chegávamos, a minha avó recebia o neto vindo da cidade com uns bolinhos de coco, muito especiais, que eu adorava – desde que se acabaram, acho que não sou muito de coco. O jantar, em que apesar do bacalhau assado nas brasas, era o polvo cozido e em filetes que reinava, era servido na imponente sala de jantar que por se situar justamente no meio da grande casa tinha por soalho tábuas de madeira maciça que rangiam com os passos dos adultos mas, irritantemente, não com os meus. Em volta da mesa existiam uns louceiros magníficos com superfícies de pedra que ficavam repletos dos doces de Natal: lampreia de ovos, filhoses de vários tipos, aletrias de massa fina e grossa, arroz-doce, sonhos, rabanadas, torta de marmelo doce e uma travessa dos ditos bolinhos de coco, que eram a única coisa de que eu realmente gostava. O meu avô imponente sentava-se à cabeceira e fazia-me sentar ao seu lado, olhando-me com ar circunspecto quando eu afastava a couve-flor para a borda do prato. Aquela sala de jantar era decorada com naturezas-mortas dos artistas experimentais da família que me tiravam o sono. Os presentes abriam-se no regresso da missa do galo, junto à lareira na cozinha, connosco miúdos aos pulos em cima do escano.

E ainda há quem não acredite no gordo sorridente das barbas brancas!?

Ontem, um dos meus “sobrinhos emprestados” dizia que não sabia se podia acreditar no Pai Natal porque não estava “cientificamente provado”– esperto o miúdo… deve estar na idade dos “porquês” mas como pertence à geração do virtual, a quem tudo entra pelos olhos em ecrãs de plasma ou em 3D, precisa da “prova científica”.

A parte má de ter passado o Natal em Lisboa é que cá em casa não há lareira. Apesar do frio, fiquei a ver um filme italiano e deitei-me tarde. Pouco depois, ouvi um barulho e fiquei a pensar se o gordo sorridente das barbas brancas teria encontrado remédio e descido pela chaminé do fogão. Confirmei-o hoje de manhã: “cientificamente provado”!

Thursday, December 23, 2010

o “puxe” e o “push”

Mesmo os portugueses inteligentes têm esta tendência infantil para confundirem o “puxe” e o “push” quando encontram uma porta, uma saída.
Não gosto de ser empurrado ou de me sentir encostado contra a parede e já há muito aprendi que as portas que necessitam de informação abrem para fora, pelo menos no mundo civilizado.
Sou avesso a processos de “convencimento” porque quando alguém necessita de ser convencido é porque não sabe o que quer da vida, e eu não sou nada assim.
Prefiro o “pull”. Gosto que puxem por mim. Aí sim, perante um desafio sou capaz de me deixar convencer.
E tenho esta tese facilmente demonstrável de que se aprende melhor pela positiva, com os bons exemplos, do que pela negativa, porque esta obriga a compreender o que está mal e a imaginar a forma correcta de proceder, e nem sempre se acerta. Isto aplica-se na “gestão de pessoas” da mesma forma que a “Thumper´s rule”: “If you can´t say something nice, don´t say nothing at all”. E saí porta fora, fazendo o esforço de não me mostrar insensível e desejando-lhe um “Bom Natal”, apenas e só pelo respeito que a idade do senhor merece.

Envolver

E hoje fiz a experiência ao contrário e sonhei com esta palavra. Envolver traz a sensação daqueles abraços muito sinceros em que se vai apertando lentamente e cada vez mais, e que são progressivamente melhores. Envolver é sermos como o calor que sai da lareira feita de brasas com laivos perfeitos do ardor das chamas. Envolver é abrangente e comprometedor, implica partilhar proximidade e reduzir os tempos de afastamento. Envolver significa sair da zona de conforto e assumir a responsabilidade de quem estima de forma única, de quem assume que vai cuidar bem, sem vacilar, divagar ou divergir. Devo estar a ficar mesmo crescido e apetece-me envolver-te. E é bom.

Wednesday, December 22, 2010

o ego

E hoje a meio da manhã, apanhei-o com o sorriso tórrido. Já o tinha visto a ameaçar isso mesmo, ainda bem cedo (pelo horário dele…), enquanto conduzia pela lateral da avenida, a olhar-se no espelho retrovisor e a sorrir para si próprio (o vaidoso…), enquanto escrevia qualquer coisa no Blackberry que não consegui entender e que não se preocupou em contar-me. Percebi logo que vinha ali confusão (outra vez…). Este miúdo parece gostar mesmo do efeito deslumbrado. Lança os foguetes todos, porque lhe apetece, porque o sente assim, e deixa-me a apanhar as canas. E depois, ao início da noite, saiu debaixo da chuva intensa, estranhamente divertido para despachar mais uns presentes antes de um jantar e percebi que não era exactamente isso que lhe apetecia fazer. Está outra vez cheio das certezas que procura, como o ar para respirar, e eu tenho que o aturar… o que me havia de calhar, para ser o ego.

Tuesday, December 21, 2010

simples

E foi assim que o lírico confirmou o que já sabia, bem demais e há muito tempo: gosta do complexo, intensamente, simples e sem açúcar.

Sunday, December 19, 2010

o “are we there yet?”

E como se fosse um vírus, instala-se o nervoso miudinho no miúdo. Começam a chegar os amigos do estrangeiro que, naturalmente, querem a “Christmas season” desafogada e em ritmo lento, quando o que eu quero são os novos episódios da minha vida, depressa e perfeitos. Querem novidades das boas que eu não tenho para contar e, eventualmente, as outras que ainda não posso. Querem jantarinhos e cafezinhos quando eu não quero comprometer a agenda. Enfim, querem a atenção que lhes é devida quando eu continuo no mundo da lua. Acabamos por partilhar umas garrafas de Luís Pato, que é um excelente vinho para partilhar, mesmo que eu esteja distraído.

Saturday, December 18, 2010

dogmas

Para mim existem momentos e instantes numa relação a dois que são como dogmas porque não se questionam de tão perfeitos que são:

- A tranquilidade da ronha ao acordar, com pequenas carícias e algumas palavras doces, suavemente pronunciadas. Os corpos sem formigueiros. As vidas vividas, sem pressas.

- f. (i.e., a fashion tv) o tal canal que pode ser visto a dois, sem desconfianças porque o que passa diante dos olhos são modelitos feitos para impressionar mas sem a capacidade de conquistar.

- O “hoje escolhes tu!” (o que vamos fazer, onde vamos jantar, o filme que vamos ver, …), porque o que te estão a dizer é “confio plenamente em ti”, “surpreende-me com algo teu”, “encanta-me, porque eu sei que vou gostar”.

- Mãos dadas numa esplanada, mãos dadas a caminhar, mãos dadas ao chegar à praia, mãos dadas ao deixar a praia – porque não há melhor forma de expressar “gosto de ti” (talvez só a conjugação de um certo olhar com um certo sorriso, ou um abraço daqueles).

- Silêncios cúmplices, daqueles em que não importa nada o que não estamos a dizer um ao outro, porque na realidade estamos a partilhar.

- Ler um romance a dois, aguardar que o outro termine a página para a virar, porque estão ali duas mentes, muito próximas, a imaginarem o que as palavras transmitem em frases bem alinhavadas.

Thursday, December 16, 2010

Eu e o Peter Principle

“In a hierarchy, every employee tends to rise to his level of incompetence”

Há alguns anos atrás, no tempo em que eu ainda aprendia conceitos novos, ensinaram-me o Peter Principle. Por ser facilmente observável e porque a minha profissão é marcadamente meritocrática ainda que pouco hierárquica, faço muitas vezes o exercício de me colocar a questão sobre mim próprio para verificar se já cheguei à minha “assimptota de incompetência”. Das últimas vezes, parece-me que sim. Fiz uma carreira rápida e estou no top200 de uma companhia de quase 10 mil pessoas, mesmo que ainda não tenha chegado ao topo do que posso ambicionar. Nestes momentos de reflexão, arranjo desculpas (e eu nem sou nada de procurar desculpas, para mim próprio): a falta de brilhantismo dos que me rodeiam, a conjuntura, a falta de estímulo ou o desequilíbrio que consegui alcançar entre o lado profissional e o lado pessoal da minha vida.
Curiosamente, ao contrário do que esperava, apesar da dúvida plantada e da indecisão de quem me ocupa o “outro lado” estes dias têm passado tão rapidamente, entretidos entre trabalho e jantares de Natal, que este ano parecem mais que muitos, que um destes dias quando acordar tudo estará consumado. Logo a mim que quero sempre controlar o destino.


Monday, December 13, 2010

-mente

Preparo uma escala composta de significados positivos: ocasionalmente, praticamente, precisamente, frequentemente, invariavelmente, obrigatoriamente, consistentemente, definitivamente, plenamente, infinitamente.
Mentalmente, começo a preenchê-la com tudo o que tenho como importante para mim: pessoas, sentimentos, sensações, locais e alguns objectos materiais.
Quero ser capaz de fundamentar decisões mas não é um exercício fácil, numa escala qualitativa e assim apertada. Insisto no método, como quem não descura um bom desafio. Quando chego ao fim, ao resultado final, constato que sim, é possível. Traço uma linha vertical e o mais importante está mesmo do lado direito da régua. Fico feliz por ser capaz de distinguir. Sei exactamente o que quero e o que me falta.
Pai Natal…


a dúvida absoluta

Sim, é mesmo assim, uma dúvida absoluta. Neste momento (único) em que me ponho a ler-te (com saudade), fixo-me nas palavras. Sim, seria capaz de me (voltar a) apaixonar. Sim, vejo-te (revejo-te) o rosto bonito marcado na (minha) memória, como se fosse (quase) uma fotografia. O sorriso singular (mesmo único) que me ofereceste sem hesitação. Sim, gosto (intensamente) do que escreves, da forma como escreves (dos sinais que parecem nossos). Sim, lembro-me da gargalhada que (uma e outra vez) me despertou os sentidos. Sinto na pele o ar àquela temperatura (de estação intermédia) em que te encontrei e tu a mim, perdido mas pronto a encontrar-me (mais uma vez) na confusão (turbilhão) das sensações de que (ainda) gosto mesmo. Sim, seria definitivamente capaz de me apaixonar (outra vez). Sim, por ti, que me deixas suspenso nesta dúvida absoluta (irrazoável). Sim, a mim que sei bem a resposta para a tua interrogação: Não (com infinita certeza).

Sunday, December 12, 2010

terçolho (ou treçolho, já não sei)

E hoje acordei com uma grande dor de cabeça e um terçolho plantado no olho direito. Não vislumbro nada e isso faz-me sentir inconsistente.

a temporada

E (re)começa a temporada dos jantares de Natal, este ano inaugurada pelo dos amigos mais velhos (antigos). Um clássico de espírito positivo, sem a fantasia bacoca da troca de presentes e com muitas reminiscências divertidas da infância e da pré-adolescência. Estes são do melhor que há, sempre afoitos para os copos, mesmo antes do jantar, as trocas de galhardetes repetidos mas ainda assim divertidos. O carinho de sabermos como estamos, uns e outros, mesmo entre os que estivemos juntos há poucos meses. A dimensão despreocupada de quem sabe que estaremos sempre presentes uns para os outros mesmo quando estivermos velhinhos, porque vem sendo assim ao longo dos anos – e há lá melhor presente. E acabamos quase todos no Lux, armados em neo-clássicos, a dançar os sons demasiado batidos do Rui Vargas e perdidos em conversas descontraídas e sinceras na varanda. Muito bom.

Friday, December 10, 2010

insónia

A minha vida não projectada é ela e a inquietação de saber que está bem. O desejo de que esteja mesmo bem, feliz. A vontade de que consiga estar melhor do que eu. A ansiedade de a sentir acarinhada como eu a faria sentir-se. E eu a sentir-me muito cansado mas sem conseguir pregar o olho.

Thursday, December 9, 2010

do blog e do cipreste

Este blog não é muito dado à introspecção (do blog) mas faz agora um ano que mudou de nome e ganhou balanço. E que balanço. Aquele dia em que nos deixaste ameaçava chuva em Lisboa e à noite quando cheguei a casa, vindo do teu velório, já chovia muito a sério. Eu sentia uma necessidade imensa de deitar cá bem para fora tudo o que sentia e um ano volvido parece-me que ainda não parei de o fazer. Perdido no meio destas páginas há um texto que te é inteiramente dedicado, escrito na modernidade do Blackberry, numa praia, ao final da tarde, por entre as lágrimas que não saciavam a minha vontade de chorar as saudades que sentia de ti. Uns dias depois desloquei-me a um viveiro e comprei um cipreste mediterrânico, importado da Toscânia, que plantei num sítio que era nosso. Fui vê-lo há algum tempo, cresceu forte e verde e já tem mais altura do que eu. Vejo-o como se fosse uma antena para comunicar contigo, e tu sabes que eu nem acredito nestas coisas, dos crentes, do Céu e da Terra, porque em algum momento falámos sobre isto. Graças a ti eu já plantei uma árvore e praticamente escrevi um livro, falta-me o que falta, que gostaria que tivesse uma referência para a vida como tu foste para mim.

Wednesday, December 8, 2010

manhã de feriado

Aprendi esta receita no verão e quis aproveitar o estranho dia que julgava quente. Saí para correr quando ainda não chovia. Desta vez, escolhi a parte antiga da cidade – não é o ideal porque os passeios são estreitos e propícios a entorses. Ainda assim valeu a pena. Lisboa consegue ser encantadora numa manhã de feriado – eu, dorminhoco, gosto de dormir até tarde e não estou habituado a vê-la assim. Nestas manhãs é também uma cidade de encontros com quem cá vive. Encontrei um amigo entretido com as filhas numa esplanada – quem tem crianças obriga-se a aproveitar as manhãs – e uma amiga às compras para o Natal. Foi refrescante e até me esqueci que não tinha levado o iPod ou como não é fácil conduzir no regresso, molhado, com os vidros muito embaciados por dentro.

significados

Faço o esforço de tentar recordar um outro dia em que me senti assim, triste. Houve pelo menos um, recordo-me, e foi bem pior. Sobrevivi ao dito. Vou sobreviver a este. Há uns dias atrás estava aconchegado nos braços de uma miúda que gosta de mim, a dormitar. Não me sentia feliz e eu até gosto de dormitar. Gosto, principalmente, de explorar as sensações que sinto como minhas. Creio que são os momentos em que nos sentimos extremamente tristes ou felizes que nos fazem sentir realmente vivos. Os outros, intermédios, são apenas instantes do percurso que temos como nosso e andamos fartos de percursos, queremos fins, objectivos, significados. Eu gosto de significados.

bored to death, sad as a owl, insofismável

Sempre achei o mocho o bicho mais triste à face da Terra. Esta noite, a sentir-me triste como um mocho, recusei o convite para o programa alternativo embora estivesse mesmo a precisar de uma noite de copos entre amigos. Em boa hora, porque com o tempo que faz lá fora, mais vale insistir no romance que deixei parado desde o verão:

Há três anos, quando comecei a ganhar dinheiro a sério em vez de toda aquela merda que tinha estado a ganhar até então, o meu pai meteu-se em sarilhos nas mesas de jogo e nas apostas…
Sabem o que aquele sacana fez? Passou-me uma factura com todas as despesas que tinha feito com a minha educação.
É verdade: mandou-ma à cobrança. E a minha infância nem sequer tinha sido dispendiosa, porque sete anos, tinha-os passado eu com a irmã da minha mãe nos Estados Unidos.
Ainda tenho esse documento para aí guardado. Seis páginas A4 escritas à máquina com um só dedo. Por 30 pares de sapatos (aprox.), tanto. Por quatro estadas em Nailsea, tanto. Por despesas de gasolina com as mesmas, tanto. Cobrava-me tudo, mesadas, gelados, cortes-de-cabelo, tudo. E juntou uma nota, explicando num grosseiro tom de manga-de-alpaca, que aquilo era apenas uma estimativa, e que eu não precisava de o reembolsar até ao último tostão. A inflação fora tida em conta. Em suma, eu custara-lhe dezanove mil libras.
Fosse como fosse, ambos tivemos uma reacção visceral. Quando recebi a carta do meu pai, apanhei uma piela e mandei-lhe um cheque de vinte mil.
Quando recebeu o meu cheque, o meu pai apanhou uma piela e apostou o dinheiro todo num cavalo que ia correr no Cheltenham Colden Shield, um bicho que se chamava, sei lá… Dickshead, ou sei lá o quê.
O cavalo era jovem de mais para uma prova daquelas e não estava em grande forma, mas o meu pai tivera uma informação confidencial de uma fonte segura. Cem para oito pareceu-lhe bom. Fez a aposta por um intermediário. Dez minutos depois, o meu pai entrou em pânico e tentou cancelar a aposta. Mas o agente já tinha contratado o pessoal de mão, e a aposta teve de se manter.
Agarrado à garrafa de whisky, o meu pai ouviu o relato da corrida pela rádio. Como era de esperar, o Dickshead saiu a andar com cada pata para seu lado, a relinchar, tentando livrar-se das palas e do cavaleiro. Quando este, por fim, conseguiu dominá-lo o Dickshead começou a galopar atrás dos seus companheiros de corrida que já desapareciam ao longe. O locutor referiu-se uma ou outra vez a este cavalo, mas sempre no gozo, até que o meu pai esborrachou a telefonia, acabou o whisky e teve uma hemorragia nasal que lhe ia custando a vida.
Posteriormente, o meu pai comprou uma vídeo-cassete da corrida, e ainda hoje se baba todo quando a vê. Não só ganhou o Dickshead, como foi quase o único sobrevivente. No penúltimo salto, houve um daqueles amontoados terríveis que envolveu quase todos os competidores. O Dickshead passou por cima daquilo tudo aos tropeções e adiantou-se aos seus adversários, restando-lhe apenas um obstáculo para vencer.
O cavalo solitário prosseguia o seu caminho, sem pressas. Nem sequer chegou a saltar o último obstáculo. Praticamente, comeu-o, continuando assim sem esforço. Por fim quando à sua frente já não tinha mais que um pequeno relvado a uns dez metros da meta, o Dickshead tropeçou e caiu. O jockey, que, nesta altura, já via o triunfo ao seu alcance, tentou montar de novo. O mesmo aconteceu a alguns dos seus adversários, que haviam caído mais atrás. Ao cabo de dez minutos – já diversos cavalos sem cavaleiro tinham cortado a meta, e um outro competidor conseguira saltar o último obstáculo e parecia que iria ser o vencedor – o cavaleiro conseguiu dominar o Dickshead, convencendo-o a deixar de andar às voltas, e passou a linha de chegada à rasca, ganhando por meio comprimento.


Conclusão: Martin Amis, brilhante e com atenção aos pormenores, e eu a gastar o neurónio com literatura boa que até parece de cordel…

Tuesday, December 7, 2010

NYC & Lisboa – não geminar

Das poucas coisas que eu não gosto na Big Apple é da sensação latente de insegurança provocada pelos carros dos bombeiros em “fire drills” permanentes. Ainda assim é algo que se aceita numa metrópole exposta ao risco dos edifícios altos mas que não se entende numa cidade como Lisboa em que todo o “santo” condutor de ambulância ou carro da polícia parece deleitar-se a azucrinar os ouvidos da população. Vá-se lá saber, um destes dias ainda se lembram de reclamar “fire lanes”.

Monday, December 6, 2010

as qualidades

Ela junta duas qualidades que ele considera excepcionais:

1) Encontrá-lo espontaneamente no meio de uma multidão, como quem possui uma bússola no coração…

2) Fazê-lo sonhar com toda a meiguice do mundo, deslumbrante como o abraço…

Chega? Sim, tudo o resto vem por acréscimo. E ele? Ele… ele oferece-lhe as palavras. Humm, é pouco…

Sunday, December 5, 2010

Certezas (de pasteleiro)

O que as mulheres esperam de nós? Certezas. Obcecadas pela resposta pronta para a pergunta fulcral “O que pensas quando pensas em mim?”, elas esperam tudo e um bocadinho mais ainda. Não ficam satisfeitas com uma base, um princípio, querem o topping com sabor romântico-para-sempre. Entendidas que se julgam em cupcakes, acham que o bolinho tem que trazer a cobertura quando sai do forno. Que os macarons já vêm com o recheio. Que os éclairs já nascem com o chocolate dentro. São umas impacientes que só devoram certezas. E não é nada assim. Nós os homens necessitamos de tempo, precisamos de saber, de sentir, e isso demora tempo e cuidado no passar do estado apaixonado ao “é a ti que quero, com toda a certeza do mundo”. E sim, pelo meio há confusões, escolhas e decisões difíceis que por si mesmo contribuem para o sabor perfeito do que ambos queremos. O tempo é essencial.

latest novel

In my latest novel you are a fearless secret agent. Always ready to face many perils to rescue whomever you have to save from some ubiquitous strange international plot. From time to time you jump on a jet plane disguised as a sweet girl just ready to change the order of things. I play the role of “Mr. Nice Guy” unable to understand what’s going on, since you are very well trained to put me off and I just don’t get it. Maybe it was the Israelis or other kept away organization that told you to keep me at large, and I just don’t get it. That would explain your singular way of life, your addictiveness to order and why you’ve left me behind. You are not just a Bond girl, you are “Bond” yourself and I was a menace to your purpose in life. Anyway I didn’t get it and you didn’t want to justify.

Saturday, December 4, 2010

racional

Creio entender hoje melhor porque se amavam. Havia ali um sentido forte concebido pela imaginação que se sobrepunha a qualquer desejo racional. E eu tenho esta necessidade absoluta de ser racional. Está-me no sangue como a capacidade de escrever espontaneamente sobre o que me vai na alma. Tenho pouco lugar para o místico, porque a maior parte das vezes não acredito nessas coisas que aos outros parecem fazer sentido. Para mim, o mundo é feito de coisas muito palpáveis, mesmo nos sentimentos. Não se sofre pelo que não se conhece. Não se sonha com o que não aconteceu. Há sempre um fundo para o que se sente. Pode ser ligeiro ou baseado numa sensação, mas tem que existir matéria-prima para tudo o que se deseja ou anseia. A vida é feita dessas pequenas coisas, como a água da chuva a sublimar mesmo num dia muito frio como o de hoje.

Thursday, December 2, 2010

o estado “what's a boy to do?”

Utilizou as mãos em concha para atirar várias vezes água ao rosto, procurando um segundo de lucidez. Sabia que a sensação da água a escorrer pela face o ajudaria a encontrar respostas – é por isso que gosta da chuva. Pensou porque não se sentia magoado. Tinha todas as condições para isso, desde há muitos meses. Sabia que a mágoa seria um catalisador para esquecer tudo o que queria, para o fazer despertar do que sentia. Pensou porque não insistira em colocar em prática o plano de sair magoado para se libertar. Sentiu-se descontente com o efeito da idade. A maturidade que não o deixava assumir com propriedade a angústia de perder. Achava que devia ser ao contrário, que a experiência deveria contribuir para deixar passar o que não pode ser seu. Por um momento, odiou a sua personalidade vincada de não saber aceitar a derrota. Desejou não querer saber mais. Imaginou como tudo seria mais fácil se não fosse tão persistente. Olhou-se no espelho e sentiu vergonha de ser assim, pretensioso. Não chegou a conclusão nenhuma e definhou.

We walked arm in arm
But I didn't feel his touch
The desire I'd first tried to hide
That tingling inside was gone


And when he asked me
“Do you still love me”
I had to look away
I didn't want to tell him
That my heart grows colder with each day


When you've loved so long
That the thrill is gone
And your kisses at night
Are replaced with tears


And when your dreams are on
A train to train-wreck town
Then I ask you now
What's a girl to do


He said he'd take me away
That we'd work things out
And I didn't want to tell him
But it was then I had to say


Over the times we've shared
It's all blackened out
And my bat lightning heart
Wants to fly away


When you've loved so long
That the thrill is gone
And your kisses at night
Are replaced with tears


And when your dreams are on
A train to train-wreck town
Then I ask you now
What's a girl to do


What's a girl to do
What's a girl to do
What's a girl to do

Tuesday, November 30, 2010

Multiverse theory – ohlala, munivers et la vie est toujours fascinante!

Tanto tempo passado a pensar que perdera a metade do meu puzzle em pecinhas descoladas para sempre. Perdido numa vontade indómita sem reciprocidade. Armado em “miúdo” a quem a vida foi sempre servida numa “bandeja de prata”. E de repente, sem aviso, abre-se um universo paralelo para uma perspectiva de vida absolutamente diferente, como a um pinguim nos antípodas. Premonição? Ainda este fim-de-semana divagava que lá para o início do ano, teria que tomar decisões resolutas e de repente, elas aparecem-me como por magia. Afinal, há vida para além do presente. Afinal, há sempre algo diferente prestes a acontecer. Uma perspectiva que eu desdenharia se estivéssemos juntos. Um desafio que não me saberia bem se não tivéssemos passado. Uma resposta que seria uma certeza se as coisas tivessem acontecido como eu queria. Assim, agora, tudo é absolutamente fácil e o futuro aparece de forma completamente diferente, mesmo que eu não deseje com convicção este universo paralelo.

Sunday, November 28, 2010

a dupla traição

Traiu-a. Havia-lhe prometido que a inauguração daquele japonês seria com ela, da mesma forma que uns meses antes lhe dissera que a primeira experiência do oriental de degustação seria na sua companhia. Não cumpriram, apesar das mensagens trocadas do “vou guardar este para ir contigo”, de parte a parte. Ela foi ao japonês com amigos, tal como ele fora ao oriental com uma amiga. Lembrou-se disso enquanto esperava pelos seus convidados diante de um Sapphire com água tónica. Lembrou-se de como a ilusão lhe parecera boa há uns meses atrás, e nenhum dos dois tinha sido capaz de a aprofundar. Constatou que ambos haviam desistido da possibilidade.

fiquei na dúvida mas parece-me que tinha razão ;)


remição
(remir + -ção)
s. f.
1. Acto! ou efeito de remir ou de se remir.
2. Desobrigação do cumprimento de uma obrigação ou pena. = quitação, resgate
 
remir
(latim redimo, -ere, resgatar, salvar, arrendar)
v. tr.
1. Adquirir de novo. = conseguir, resgatar
v. tr. e pron.
2. Conseguir a libertação de outrem ou de si. = libertar, livrar
3. Tirar ou sair do perigo ou da condenação. = salvarperder
4. Ser reabilitado em relação a (crime, falha ou pecado); tornar-se puro em relação a. = expiar
5. Oferecer ou receber compensação. = compensar, ressarcir
v. pron.
6. Sentir arrependimento. = arrepender-se


vs.

remissão
(latim remissio, -onis, restituição, entrega, afrouxamento, brandura, indulgência)
s. f.
1. Acto! ou efeito de remitir.
2. Disposição para desobrigar o cumprimento de uma obrigação ou pena. = clemência, indulgência, misericórdia, perdão
3. Acto! de remeter.
4. Acção! de transferir a atenção do leitor ou consulente para outro texto ou outra parte do texto (ex.: remissão de um dicionário)
5. Falta de energia. = fraqueza, frouxidão
6. Diminuição do sofrimento ou do cansaço. = alívio, consolo
7. Med. Diminuição momentânea dos sintomas de uma doença. = remitência
8. Med. Desaparecimento da febre entre os acessos de malária. = remitência
sem remissão: inexoravelmente, impreterivelmente.

o filme do Senhor Nespresso

Fazia tanto frio como na altitude dos Apeninos mas a sala estava cheia para ver o filme do Senhor Nespresso. É um filme tranquilo e honesto, com muito boa fotografia e que não acaba bem – gosto disso no cinema, porque o aproxima da realidade. O Senhor Nespresso faz de Senhor Farfalle com consciência e aparência pesadas, em remição dos pecados, e acaba no paraíso mas não encontra o John Malkovich – gostei desta parte da alegoria. Gostei principalmente de recordar as paisagens dos Apeninos que já atravessei por duas vezes. De entre as espécies de montanhas são talvez as mais graciosas que conheço por se deixarem adornar pelas nuvens de forma maravilhosa – no filme há umas quantas imagens que reflectem isto mesmo. Recomendam-se, portanto, o filme e o passeio pelos Apeninos d’Abruzzo.


Saturday, November 27, 2010

auto-profundo

Ficou-me (como defeito) da minha formação científica esta prática de experimentar para depois analisar. Hoje “experimentei” sair com uma miúda, daquelas mesmo giras, cheia de enfeites e vontade de me agradar. Fiz tudo bem (para mim próprio) de forma concentrada e concertada, colocando o meu melhor sorriso e fazendo-me entendido quando ela divagava sobre os assuntos que a ela interessam e a mim não me dizem nada. Fui capaz de ser eu mesmo (no meu melhor) enquanto ela me olhava com aquela perspectiva de homem que se quer para a vida: maduro, gentil (não gosto deste adjectivo), bons genes e sucesso alcançado. Fui divertido, charmoso e um pouco misterioso para a deliciar. Tentei. A sério que tentei, assumindo o auto-desafio. Mas a páginas tantas, o bom da experiência tinha acabado e não era ali que eu queria estar. Pensava eu que já era hora de recuperar, mas afinal senti o coração preso num fecho-éclair perro, sem vontade de se soltar. E é isto. Sinto-me preso e não há coisa pior, para mim. É a sensação de que o futuro não nos reserva nada e de que chegámos ao pico da evolução, sem sentido e sem sentir, ou a sentir-me assim.

Thursday, November 25, 2010

Imbecil auto-crítico

Ao ler este blog com algum distanciamento, fico assustado com a quantidade de imbecilidades que fui escrevendo ao longo dos últimos meses. Creio que lhe deveria mudar o nome para “Verborreia em Lisboa” ou “O prolixo em Lisboa”. Cai chuva, cai – com o frio que faz, pode ser que saia um granizado!

Sunday, November 21, 2010

Witty wish

Tínhamos o privilégio de uma lareira acesa em Lisboa – eu gosto do calor da madeira a arder quando faz este frio húmido incaracterístico da cidade. O jantar tinha sido descontraído, apesar de ambos imaginarmos ao que íamos – acho graça ao processo intencional dos amigos que tentam suprir o que acham que nos faz falta com base em equações magnânimes de “vamos convidar R e K para jantarem cá em casa, e deixamo-los sozinhos no momento (que imaginam ser o) certo”. Por um instante alimentei a esperança de que tudo fosse assim tão simples, quando ela se virou para mim, com os olhos muito abertos e as pestanas carregadas de rimmel, e me disse:

- You’re a witty kind of guy!

E eu que não sabia o que queria dizer “witty”, mas não quis dar parte fraca, deixei-a prosseguir a conversa, embora cheio de vontade de usar o BB para entender, realmente, o que ela me estava a querer dizer.

- You’ve got this great energy within you that most people will notice once they meet you.

- …

- Have you ever seen “Brick Lane”? It’s this movie about a young girl living in London against her will, she’s from Bangladesh, and she has this wonderful thought about “love”, that you can actually induce into most things in life, and I like to quote: “There are different kinds of love: the kind that starts deep and slowly wears away. It seems like you will never use it up and then, one day, almost suddenly, you just realize it’s finished. Then there is the kind you do not notice at first but which adds a little bit to itself every day like an oyster makes a pearl, grain by grain, a jewel from the sand.” Do you get it?

E eu respondi-lhe que sim, que entendia o que ela me estava a querer dizer, mas a partir dali já não me sentia nada no registo “witty” mas sim no “let’s call it a night”.
Get a life, boy.