A felicidade tem uma composição difícil com ingredientes gourmet, especiarias muitas vezes distantes e sensações em castelo. Com uma base sustentada de vida bem vivida, doses acumuladas de boas recordações e uma escolha improvável de amigos capazes de nos encherem o coração. A camada dos amigos pode sujeitar-se a escolhas diferentes ao longo do percurso. Eu já fui mais apologista de que o importante era ter um em cada mão, daqueles verdadeiros a quem sabíamos poder recorrer em qualquer instante. Hoje sou menos ortodoxo, acho que nos fazem mais falta os amigos com vida do que os amigos para a vida. Ainda assim é essencial ter uns quantos que sejam profundos e que nos conheçam no íntimo. Também é necessário termos referências porque à medida que crescemos vamos decifrando com outra capacidade tudo aquilo que nos foram transmitindo sobre os factos da vida, mesmo quando já não estão cá para os consultarmos. Aí entra em jogo o factor memória e a importância do passado que é essencial ter bem arrumado, para vivermos plenamente o presente. Depois, existem as imagens mentalmente fotografadas sem as quais a capacidade de sonhar seria impossível. Para as acumularmos há que viajar, conhecer gente e distinguir com inteligência o importante, do interessante que muitas vezes se confundem. Nisto pesam diferentes perspectivas, de género, de idade e de motivações. Para mim os desafios são relevantes, mas não tem que ser assim para toda a gente. Traçar objectivos muito pensados e regrados pode ser negativo, porque ainda que nos ajudem a definir um rumo retiram a capacidade de nos deixarmos levar quando muitas vezes não há coisa melhor. Sabermos mudar é imprescindível. No recheio das sensações é bom conservarmos umas quantas palavras, músicas, filmes e lugares que temos como especiais, ainda para mais sabendo que provavelmente também o são para mais uns quantos milhões. A felicidade também passa por isso, pela sabedoria de saber partilhar as coisas que tomamos como univocamente nossas. E aqui chegamos à magia do infinito que mesmo sem compreendermos podemos pretender tomar como seguro e sobre o qual cada um pode fazer, sim, a sua interpretação exclusiva. Não devemos é deixar de o aceitar, sem medos. Sem medo, é também o moto de quem quer alcançar algo muito difícil: saber amar. Amar à séria é uma hipérbole bastante irracional e implica acreditar. Implica também, claramente ou obviamente, encontrar o sujeito perfeito, pelo menos aos nossos olhos e não o confundir com um objecto. Filtrando o óbvio, os objectos servem para gostar, são giros, ficam bem ali, transmitem-nos uma sensação de conforto, são agradáveis cheios de design ou cores bonitas. Os sujeitos perfeitos encaixam em nós, movem-se ao ritmo que julgamos ser o nosso, são animados e gostamos da forma como o fazem, sem paralelo. Para se chegar lá, há que esperar, encontrar e conseguir, o absolutamente inexplicável: reciprocidade. E então, chega-se ao mais fácil, porque é só isso que o cupido espera: entusiasmo aos molhos.
Thursday, August 25, 2011
Wednesday, August 24, 2011
em modo destrutivo... (alter ego, só porque me apetece)
Enquanto atravessavam o rio ela olhou-o e apaixonou-se mais uma vez com a incerteza de se seria de vez. Naquela noite, a caminho do Bairro, percorreram a Baixa de mãos dadas e quando chegaram ao Rossio ela quis mergulhá-las, juntas, na água da fonte com o simbolismo de que era para sempre. Ele hesitou... Ela pensou: desta vez é que é. Ele pensou no verdume que se sobrepunha à pedra branca. Ela passou-lhe a mão pelo rosto. Ele desejou que fosse a outra. Ela magicou: é a ti que quero... Ele afastou-se, escorregou e partiu o braço. Ela caminhou com ele até São José para o curativo. Ele deixou-se enrolar com o gesso, pensando na sujidade que ia acumular por debaixo do pó branco. Ela insistiu em inscrever-lhe um coração no pano limpo. Ele estimou quantas horas faltavam para o próximo cacilheiro... duas ou três.
Tuesday, August 23, 2011
nós
Temos esta tendência irracional para inventarmos nós. Nós na garganta, nós no peito, nós no estômago, nós em todos os lados. Nós somos complicados e quando já devíamos pensar diferente arranjamos cordel para embaraçar quando o que queríamos mesmo era abraçar. Deixamo-nos enrolar quando devíamos saber melhor, pressentir, saber o que aí vem, com segurança e sem medo, com paixão e convicção. Nós, robustos.
Monday, August 22, 2011
reminiscências do filósofo
Conheci um filósofo na minha vida. Um filósofo daqueles que se dedicava a pensar à séria, a escrever ensaios sobre a vida e a causa das coisas. Vivia no Algarve e deslocava-se a Lisboa de tempos em tempos para sessões e palestras. Vivia sob o patrocínio da Gulbenkian e tinha nome de vegetal mas o neurónio dele não vegetava. Não deixava que eu o tratasse por doutor, por isso eu tratava-o por senhor. Em pequeno, quando o visitava lá no sul, sentava-me no seu colo numa cadeira de baloiço e explicava-me coisas que eu não compreendia muito. Era o meu filósofo de serviço a baloiçar-me enquanto contemplávamos uma figueira com a copa bem aberta e ele dissertava para mim. Depois – lembro-me bem desta cena –, eu pedia-lhe um figo que ele abria cuidadosamente com as mãos grandes mas muito delicadas de quem escrevia em papel com marca d’água – que aliás fazia as minhas delícias quando me deixava descobrir a espécie de escudo com um lápis bem afiado. O senhor filósofo já nos deixou há muitos anos mas a viúva dele envia-me sempre um par de peúgas caneladas pelo Natal e telefona-me nos aniversários.
Sunday, August 21, 2011
130 mil no prolongamento...
Há 20 anos atrás (estou a ficar tão velho...) éramos 130 mil representativos de uma juventude cheia de esperança, um bocadinho fundamentalista e com o futuro tomado por certo. Uma geração imbuída de espírito de graça e carregada dos primeiros valores fúteis do pós-modernismo. “Baby boomers”, Generation X e com roupas de marca. Crescidos antes dos efeitos da globalização e do aquecimento global. Precoces nos sentimentos, sem acesso a mais do que 2 canais de televisão e habituados ao conforto dos milhões que vinham da CEE. Vibrámos com o sucesso dos da nossa geração e saímos para a rua em festejo, antes da mariquice consumista das bandeiras nacionais pespegadas nas varandas. Éramos, fomos, felizes num breve período de tempo em que os telemóveis ainda não eram propriamente portáteis e os carros que herdávamos não tinham direcção assistida nem ar condicionado. Por isso, as saídas para a praia faziam-se de janelas abertas a comer poeira, e as saídas à noite concentravam-se no Bananas ao som foleiro do Phil Collins. À porta, os mais rebeldes tinham DTs e outros entretinham-se em cenas de pancadaria fratricida. Naquela noite não, saímos do estádio em correria alegre a comemorar sem pensar no Marquês como ponto de concentração (naquela altura, aquilo era mais a Rotunda!). Entre a multidão, lembro-me de ter encontrado 20 amigos de quem hoje só sei novidades através do facebook, uma ex-namorada às cavalitas do actual marido e o Eusébio muito perfumado ao pé do Fonte Nova, a quem apertei a mão com emoção. Hoje, por terras do adversário, estamos no prolongamento...
Friday, August 19, 2011
2ª vez
Contrary to love, good movies never satisfy you the 2nd time around. Rewatching “Palermo Shooting” (with Giovanna Mezzogiorno), while tasting a new kind of mint & chocolate chip ice-cream.
Love is wonderful, the second time around
Just as wonderful, with both feet on the ground
It's that second time you hear your love song sung
Makes you think perhaps that love, like youth, is wasted, is wasted on the young
Love's more comfortable the second time you fall
Like a friendly home the second time you call
Who can say, what wrought us to this miracle we've found
There are those who'd bet
Love comes but once - and yet
I'm oh so glad we met
The second time around
Rickie Lee Jones - The Second Time Around
Love is wonderful, the second time around
Just as wonderful, with both feet on the ground
It's that second time you hear your love song sung
Makes you think perhaps that love, like youth, is wasted, is wasted on the young
Love's more comfortable the second time you fall
Like a friendly home the second time you call
Who can say, what wrought us to this miracle we've found
There are those who'd bet
Love comes but once - and yet
I'm oh so glad we met
The second time around
Rickie Lee Jones - The Second Time Around
Thursday, August 18, 2011
sensações a 37.000 pés, sem nuvens e em classe executiva
Abro a janela. A 37.000 pés vejo o reflexo da lua sobre o Volga e os seus afluentes. Imagino o formato da Crimeia, vislumbrado através do vidro numa noite pacata como esta região conheceu poucas. Passamos ao largo de Baku e vejo o Cáspio como o grande lago que é. Tu mexeste-te e eu ocupo-me de ti (gosto tanto deste meu verbo quase novo: “ocupar-me de ti” – gosto que ocupe a minha vida, traz-lhe um significado bom), passo-te a mão pelo rosto e faço-te festinhas dedicadas pelo corpo todo, enquanto te ofereço o “tapa-olhos” exclusivo, com carinho.
Monday, August 15, 2011
Al di là delle nuvole (Par-delà les nuages)
Só por causa deste filme já forcei um desvio até Ferrara que é uma piccola e bellissima città.
Gosto particularmente da primeira história que parece quase infantil mas está repleta de frases deliciosas:
“Io sono bloccata qui nella nebbia.”
“Voci non diventano mai parte di te, come il rumori. Il mare, per esempio. Si finisce per non sentire. Ma una voce, una voce non si può fare ascoltando.”
“- Vogliamo sempre di vivere in immaginazione di qualcuno.
- Forse è il segreto dell innamoramento e tutto ok.”
“Le parole anche se scritte fanno bene... una donna le aspetta, le aspetta sempre!”
Gosto particularmente da primeira história que parece quase infantil mas está repleta de frases deliciosas:
“Io sono bloccata qui nella nebbia.”
“Voci non diventano mai parte di te, come il rumori. Il mare, per esempio. Si finisce per non sentire. Ma una voce, una voce non si può fare ascoltando.”
“- Vogliamo sempre di vivere in immaginazione di qualcuno.
- Forse è il segreto dell innamoramento e tutto ok.”
“Le parole anche se scritte fanno bene... una donna le aspetta, le aspetta sempre!”
a minha receita
Há uns dias atrás, contigo nos meus braços, vi(mos) um programa em que a “deliciosa” Miss Dahl apresentava a receita para os dias de melancolia em múltiplos e muito elaborados pratos cheios de açúcar, demasiada gordura galinácea e horas de água fervida dedicadas à causa culinária, entremeadas por poesia.
Hoje, no meu exclusivo domingo melancólico, quase consegui emular a tipa, depois de demasiadas braçadas no tanque de cloro (até ficar com os dedos engelhados), preparei uma bem temperada salada (pré-lavada, sou adepto), tagliatelli “al dente” com um fio de azeite (português) e uma frigideira com quatro bombons de filet mignon devidamente cobertos de alho seleccionado e bem cortado (sobraram-me os dedos todos). Conclusão: esparramei-me no sofá a rever o “Par-delà les nuages” sem outro sentimento para além da sensação empanturrado.
Hoje, no meu exclusivo domingo melancólico, quase consegui emular a tipa, depois de demasiadas braçadas no tanque de cloro (até ficar com os dedos engelhados), preparei uma bem temperada salada (pré-lavada, sou adepto), tagliatelli “al dente” com um fio de azeite (português) e uma frigideira com quatro bombons de filet mignon devidamente cobertos de alho seleccionado e bem cortado (sobraram-me os dedos todos). Conclusão: esparramei-me no sofá a rever o “Par-delà les nuages” sem outro sentimento para além da sensação empanturrado.
Sunday, August 14, 2011
o email
Recebo um email que me põe a pensar e, finalmente, me faz chorar. Faz-me bem, estava a precisar. Leio-o com carinho e com cuidado, entrevendo as linhas e interpretando as entrelinhas. Estão a ficar velhotes com as almas mais sensíveis. Perguntam-me por mim, com o dom da preocupação que só lhes cabe a eles. Deixam-me melancólico e profundo como não me sentia há muito. A pensar na vida e no que realmente quero com ela. Faz-me bem. Quero o mundo.
massas
As massas não são spaghetti mas fervem como noodles numa malga de água quente. As massas assustam pelos movimentos condimentados sem deixaram borbulhar as vontades. As massas demasiado fervidas formam uma embrulhada impossível de saborear. As massas mal cozinhadas parecem papas sem sabor. As massas querem-se “al dente”, controladas e com uma pitada de pimenta. No ponto certo as massas também podem ser agradáveis com um fio de azeite selecto para temperar. As massas que não se manifestam são um rastilho pronto a incendiar.
Friday, August 12, 2011
Wunderkind – about a boy
Quando tinha uns 8 anos de idade foi cobaia de um grupo de psicólogos que se deslocaram lá à escola para detectarem traços de genialidade entre as crianças da geração. Era bom aluno, mesmo com a qualificação de “sempre distraído” que teimava em aparecer-lhe nas cadernetas escolares. Foi por isso escolhido e sujeito a uma série de testes que envolviam histórias bem engendradas e a selecção de personagens recortados em pedaços de papel. Depois mostraram-lhe cartolinas com objectos pintados dos reinos animal, vegetal e inanimado, descobrindo que cada vez que lhe mostravam um cogumelo o associava a morango, que cada vez que lhe mostravam um morango o associava a cogumelo, da mesma forma que quando lhe mostraram uma girafa decidiu (conscientemente) chamar-lhe gaivota, e vice-versa (também conscientemente), e mais um confundir qualquer com objectos inanimados com que os decidiu presentear.
Subliminarmente, lá concluíram em colégio que se tratava de um génio, quiçá por causa da dislexia cerebral perante os cartões pintados dos vários reinos. Na realidade só confundia os morangos com cogumelos, embora mais tarde tenha descoberto que também era capaz de confundir reinos diferentes pedindo uma pizza de alcaparras quando o que eu queria mesma eram anchovas – de génio, mesmo...
Subliminarmente, lá concluíram em colégio que se tratava de um génio, quiçá por causa da dislexia cerebral perante os cartões pintados dos vários reinos. Na realidade só confundia os morangos com cogumelos, embora mais tarde tenha descoberto que também era capaz de confundir reinos diferentes pedindo uma pizza de alcaparras quando o que eu queria mesma eram anchovas – de génio, mesmo...
Thursday, August 11, 2011
Especiarias | espécie de ensaio #1
Ele era realmente capaz de apreciar o complexo como quem degusta, com intensidade, o sabor da pele exposta ao sol e aos aromas de um vento fresco vindo do lado do mar, num verão incaracterístico. Quando alcançava momentos de verdadeira paz de espírito, escrevia-lhe cartas de amor realçado pela sensação afrodisíaca da humidade da monção. Então, dedicava-lhe palavras próprias sentindo-se apaixonado por tudo o que ela lhe permitira descobrir sobre a vida e concluía-se feliz por terem chegado àquele estado. Ele era, definitivamente, arrogante mas também um estóico, perfeito à sua maneira. A idade havia-lhe ensinado que nem sempre a razão estaria do seu lado mas que os caminhos trilhados não significavam apenas um passado, contribuindo também para a certeza das decisões que viriam depois. Assim as confirmações tornavam-se relativas e a confiança ganhava uma energia influenciada pelos astros de que ela afirmava gostar. Foi por isso que persistiram em percorrer o mundo, cada vez mais próximos, encontrando-se em beijos bem carregados nas manhãs em que acordavam juntos.
Wednesday, August 10, 2011
o moreno
Porque será que insistem em dizer-me que estou moreno? Se sabem que vivo entre dois hemisférios e se num deles é quase sempre tempo de praia, para quê revelarem-me o tom da pele? Já sei que estou moreno. Foi da praia pá, mesmo se me pus à sombra. Sempre é melhor que branquelas...
Tuesday, August 9, 2011
helicópteros
Os helicópteros despertam-me da vontade de dormir. Sinto-me quente e cansado das demasiadas viagens que já fiz este ano. Voar a muitos pés de altitude não é natural e o meu corpo não se adapta. Gosto das nuvens vistas de cima, gosto da proximidade ao espaço sideral mas não gosto da sensação da descompressão em formato enlatado. Sinto-me sempre enlatado, como se fosse uma conserva, dentro de um avião.
a miúda dos lacinhos
Conhecida internacionalmente a miúda dos lacinhos deixa-os bem aprontados por onde passa, encantando quem os descobre. São lacinhos que prepara com uma gargalhada marota – enquanto me olha nos olhos – e que oferece a quem os recebe com um sorriso. A miúda e os lacinhos dela são únicos.
o fim da picada
Acho que fui picado por uma abelha – disse-lhe baixinho, enquanto usava a parte metálica de um isqueiro exposta ao sol para tentar remover o ferrão. Ela não o ouviu ou não lhe fez caso.
Naquela noite dormiu incomodado pela ponta do dedo inchada mas deu-lhe a mão às primeiras horas da madrugada, utilizando a sensação de calor para aconchegar os dedos dela.
Horas depois sob efeito da altitude sentiu crescer o inchaço e deu por si a chuchar no dedo. Feio!
Naquela noite dormiu incomodado pela ponta do dedo inchada mas deu-lhe a mão às primeiras horas da madrugada, utilizando a sensação de calor para aconchegar os dedos dela.
Horas depois sob efeito da altitude sentiu crescer o inchaço e deu por si a chuchar no dedo. Feio!
Sunday, July 31, 2011
Ousar
Em cada verão quando o calor se sobrepunha ao aconchego dos lençóis a cobrir aquele corpo, ele despertava com a luz do sol e ficava muito quieto a observá-la adormecida, descoberta para a temperatura ambiente. Fixava-lhe todas as linhas, as curvas das costas de design exclusivo, os seios em repouso, o cabelo apanhado mas rebelde, os traços do rosto bonito, os lábios entreabertos em convite e os olhos fechados pelas pestanas concentradas, até estes se abrirem para um “Bom dia”. Então, caminhava pelas pedreiras daquela região encontrando o mais magnífico bloco de pedra que esculpia com lentidão ao longo das tardes que durava o verão. Desenhava cuidadosamente sobre a substância dura as linhas que memorizara em cada manhã, sem sentir os calos que o cinzel lhe provocava nas mãos. Fez assim muitas obras maravilhosas, mais perfeitas de ano para ano que plantava num campo aberto que os elementos e o tempo pareciam não perturbar.
Monday, July 11, 2011
o sentido
Prepararam-se para voar de novo. Malas feitas e muita vontade de partilharem o novo destino, rumo ao nascer do sol e a um fuso horário longínquo, numa nova aventura com “pinta”. Ele com o coração cheio da certeza, pronto a abrir-se num batimento forte e seguro, induzido pelas memórias cinematográficas. Ela com o desejo de se deixar conquistar pelos sentimentos de que já não se lembrava bem. Deram as mãos, as duas, perfazendo quatro sensações em sincronia, e olharam os dois pela vigia com o sentido certo das nuvens.
Saturday, July 9, 2011
irresistível
Faz sol e frio. Espraio-me na tua espreguiçadeira com uma toalha às riscas para me amparar a ronha e um pullover, mais azul do que as riscas, para me aconchegar. Não condiz mas nada condiz sem ti comigo. Observo o mundo pela vista da varanda. Sim, é grande e confuso. Lá fora existem muitas almas que não fazem ideia do que é sentir assim, outras talvez. Tenho muita vontade de ti, isto também faz parte do amor. Adormeço para um pouco de son(h)o. Acordo, pela segunda vez, contigo no pensamento. É irresistível sentir-te sempre presente.
Wednesday, July 6, 2011
eu sou parte do mundo
Ponho-me a pensar em ti. Tu és um jogo de significados que trazem muitas cores à minha vida. Tu és uma mistura de razões e opiniões em tons suaves que me fazem lembrar a única aurora borealis que já vi em sobreposição à vastidão do espaço. Tu és uma estrela pequenina que sobressai entre constelações infinitas. Tu existes, por vezes isolada e subitamente abraçada por todos os que gostam de ti. Tu tens uma personalidade muito forte e entusiasmas-me porque és erudita. Tu sabes certas coisas práticas na vida sobre as quais eu nunca pensei. Tu és capaz de me fazer alterar o rumo para um destino mais interessante. Tu fazes-me sonhar e eu sou parte do mundo.
no sofá
Ele - Imagina que estamos no sofá.
Ela - No sofá? Qual deles?
Ele - Imagina que estás com a cabeça no meu colo e o cabelo muito espraiado.
Ela - Em vez do sofá, pode ser na praia?
Ele - Imagina que eu te estou a fazer festinhas, aleatórias e deliciosas com os dedos por entre os cabelos, no rosto e até à nuca.
Ela - Humm, estás a deixar-me o cabelo oleoso quando eu estava mesmo era a precisar de uma massagem nos tornozelos!
Ele - Imagina que temos a lareira acesa e que sentes o calor reconfortante do movimento das labaredas.
Ela - Bolas, aqui é verão… podemos passar a cena para a praia?
Ele - Imagina que me debruço sobre ti e que sentes o meu cheiro bom.
Ela - Eh pá! Estás todo molhado, já te disse que não gosto que me faças isso depois de dares um mergulho!
Ele - Adoro-te.
Ela - De certeza?
Ele - Sim, com toda a certeza.
Ela - Amo-te, miúdo! E agora vou pedir um sumo.
Tuesday, July 5, 2011
a ponte figurada
Eu queria uma ponte aérea que me levasse daqui até ti sempre que sentíssemos vontade. Eu queria uma ponte aérea com uma manga para partidas rápidas e um terminal de chegadas cheio de oportunidades. Eu queria uma ponte aérea para um voo de minutos no meio das nuvens, mesmo que o avião arriscasse a descolagem na direcção de um morro e a aterragem numa pista encharcada.
Monday, July 4, 2011
alors moutarde
Hoje comprei mostarda de Dijon, da original e da melhor marca (Maille) a um preço exorbitante, imposto pelas taxas de importação. Apesar de serem uns chatos os franceses inventaram coisas mesmo boas, a mostarda original foi uma delas. O amor, “l’amour” expresso, espremido, à francesa também. Em tempos, quando eu hesitava entre a influência anglo-saxónica e a originalidade dos “frogs”, contaste-me muito do que, então, sabias sobre os costumes dos franceses. Naquela época eras feliz e eu gostava da energia que emanavas. Tinhas uma namorada mesmo gira, com cabelos longos que encaracolavam no final dos dias passados na praia. Eu era muito novo e saíamos para a noite que, então, era uma varanda debruçada sobre o mar. Encontrávamos mais amigos e dançávamos as músicas dos 80s, quando então era a época certa. Passámos alguns dias juntos em Paris e, então, mostraste-me outras perspectivas da vida. No outro dia, quando estava por Lisboa, vi-te ao volante do teu Audi de pai de família divorciado, com um ar tristonho de quem deixou a vida passar por entre os dedos. Então, mentalmente, tirei-te uma fotografia que hoje recordei enquanto escolhia o pote de Dijon no supermercado.
Sunday, July 3, 2011
When the world is running down, you make the best of what's still around
O meu tripadvisor assinala 151 locais em 22 países – devem faltar uns quantos, mas acho que os países estão certos.
Comecei a conhecer o mundo ainda miúdo, em saídas de automóvel e comboio pela Europa fora, e depois em voos anteriores às low cost do pós-modernismo.
Entre projectos no exterior e turismo passei 5% da vida fora do meu país – mas não gosto do “citoyen du monde”.
Entre viagens para aqui e para acolá estou a caminho do meu 2º cartão “de ouro”, o que implica bem mais de 140.000 milhas metido em pepinos voadores – um bocadinho mais do que 5 voltas ao planeta.
A pisar continentes, só me falta um, e a Antárctica – mas já me senti pinguim várias vezes (também me falta o Japão, que por si só vale por um continente).
Vivi os tempos áureos da globalização (não creio que lá voltemos) e assumi o papel de highflyer – mas não foi assim que descobri a felicidade.
Com a vantagem de ser Português, sou capaz de me fazer entender perfeitamente em 5 idiomas, com mais 1 ou 2 em jeito desenrascanço – muitas vezes não nos damos conta do poliglotas que somos.
O Mundo, como o fui conhecendo, já me pareceu um sítio mais fascinante. Hoje em dia é demasiado igual, demasiado comum, independentemente do local onde nos encontramos.
A diversidade e a diferenciação – que para mim é um conceito muito importante – perde-se com o tempo presente e o futuro persiste na conspiração.
Quando me ponho a ler as notícias deste Mundo, sinto-me Grego – depois de terem perdido a sophía.
Desafiaste-me para conhecermos um país que, por si mesmo, também já foi um continente, e eu tenho andado a sonhar com encontrar algo realmente diferente.
Friday, July 1, 2011
1991, 20 anni fa!
Ainda era um miúdo e descobri uma cidade encantadora, regressei várias vezes e quero voltar lá.
Cari spettatori,
Amici del variete
Calorissimo pubblico
Buona sera qui al Stella Matto.
Nella prima parte del programma
Venuta direttamente dal Cairo
la famosissima Lolita del Sudan,
una danzatrice del ventre
Accompagnato come sempre
dalla nostra orchestra Paolo Silvestri.
Prego Maestro: a Lei!
Sono Otto, sono Otto di Catania!
Sono arrivato a Roma 20 anni fa.
Sono qui per vivere,
per vivere la mia vita,
per mangiare, per rosso bicchiere di vino.
Per tutti questi giorni
voglio invitare tutti amici mei
Per celebrare la mia vita.
Amici grazie, grazie per venire,
grazie per andare con me
alla caffe Romana.
La via Veneto era molto speciale,
Con Marcello, con Luciano,
Con Verena la Sirena
Grazie per venire
e il mio nome e Otto di Catania:
sono arrivato 20 anni fa!
Otto di Catania – Yello
Cari spettatori,
Amici del variete
Calorissimo pubblico
Buona sera qui al Stella Matto.
Nella prima parte del programma
Venuta direttamente dal Cairo
la famosissima Lolita del Sudan,
una danzatrice del ventre
Accompagnato come sempre
dalla nostra orchestra Paolo Silvestri.
Prego Maestro: a Lei!
Sono Otto, sono Otto di Catania!
Sono arrivato a Roma 20 anni fa.
Sono qui per vivere,
per vivere la mia vita,
per mangiare, per rosso bicchiere di vino.
Per tutti questi giorni
voglio invitare tutti amici mei
Per celebrare la mia vita.
Amici grazie, grazie per venire,
grazie per andare con me
alla caffe Romana.
La via Veneto era molto speciale,
Con Marcello, con Luciano,
Con Verena la Sirena
Grazie per venire
e il mio nome e Otto di Catania:
sono arrivato 20 anni fa!
Otto di Catania – Yello
Thursday, June 30, 2011
sucumbir às saudades
Sucumbo às saudades – sucumbir é um verbo tão estranho – e ponho-me a ver fotografias de ti. Bolas, é que és mesmo gira. Adoro a do chapéu de palha que numa outra versão já me inspirou um texto dos bons em ficção, afinal, realizável. Não sonhei com isto, não o imaginei mas talvez tenha desejado o suficiente para se tornar realidade. Foi assim que desdenhei o “be careful with what you wish” e apostei no “catch your dreams before they slip away”. É que és mesmo tu, sem hesitações e sem questões. Da forma como nos descobrimos e a partir do momento em que nos encontrámos, tu rouca de uma constipação e eu com o sorriso aberto que me plantaste, desde aí e sempre que penso em ti. Ganhaste-me e conquistas-me em cada momento, em cada movimento, caminhada ou corrida, contra o tempo, que damos juntos. É a nossa vida, singular, exclusiva e própria de quem descobre o significado – eu gosto de significados. E isto é uma declaração de amor, consciente, imperturbável, e dedicada, para ti.
Wednesday, June 29, 2011
“a life more ordinary” (a dos outros)
Perguntaste-me no outro dia, por palavras tuas (que agora não recordo), se eles se amavam. Num instante, eu fiquei a pensar no assunto e nos factos que me apresentavas para explicar aquela relação. Nunca me tinha debruçado sobre o assunto. Com as demonstrações, mesmo que assíncronas, de felicidade, o amar, verdadeiro e bom, parece relativo mas naquele instante, observando-nos, a nós, de fora da redoma, eu fiquei a sentir-me orgulhoso. De entre os pecados capitais o pior de todos é o orgulho.
discurso directo
Ele - És tu quem eu quero.
Ela - A sério, estás certo disso?
Ele - Sabes, quando te prometi o mundo? Eu venho incluído.
Ela - És um tretas… mas ainda bem que sentes assim!
Ela - A sério, estás certo disso?
Ele - Sabes, quando te prometi o mundo? Eu venho incluído.
Ela - És um tretas… mas ainda bem que sentes assim!
do verão a 14ºC
Saio para o trânsito da noite já profunda. Era suposto os dias começarem a ficar já maiores e isso reflectir-se no meu espírito. Não é assim, o maldito solstício oferece promessas que depois não cumpre. E faz frio, muito e daquele que se sente nos ossos. Sentir os ossos não é propriamente uma coisa agradável no corpo de um humano. Para aquecer penso no magnífico campo de flores que te recomendei, que te prometi. Flores de verão num país agora quente e que consegue ser realmente belo. Como tu. Pronto, prontíssimo, já estou outra vez a pensar em ti. Na falta que me fazes a demasiados fusos de distância, noutro continente, de onde só chegam notícias más. Sabes, hoje conversei por uns minutos com um “desiludido da vida” e, mesmo desconfiado, prestei atenção ao que me disse. Foi-me apontando factos que mais do que constatações – que gosto de absorver – me deixaram ainda mais alerta, atento, para o que quero da vida. Para o que quero para a nossa vida. Preciso de dormir, tu também. Dormir é um verbo dos nossos, fácil e bom quando nos permite o encontro que queremos, que desejamos, ao acordarmos.
Tuesday, June 28, 2011
gostar assim
Nunca pensara gostar assim. Aquele amor surgira-lhe sem querer, “out of the blue”, mas com convicção. Bom, real e capaz de lhe encher o coração. Aprendeu a sentir-se bem com a surpresa de cada instante que viviam juntos, com a descoberta de cada momento que dedicavam um ao outro. As palavras e a troca de pensamentos mais ou menos permanentes aguçavam-lhe o desejo. Soube abdicar da autonomia e do egocentrismo que o marcavam até ali, porque ali estava alguém que sabia amar, finalmente. A história não era de filme, era real e consistente, daquelas que se desejam e poucas vezes se alcançam. Sentia-se encantado com a reciprocidade, a maravilha de se terem encontrado, independentemente do tempo em que se viam afastados. O presente é isto e o futuro é para continuar a viver, com mais tempo, sem dúvidas.
Monday, June 27, 2011
fim do mundo
Gosto dos lugares que me fazem sentir perto do fim do mundo. Normalmente são sítios inóspitos de paisagens avassaladoras que terminam no mar ou em montanhas de gelo indómito mais distantes do que o olhar consegue perscrutar.
Wednesday, June 22, 2011
go west young man
He didn’t believe in destiny, the stars or premonitions, and yet he was able to understand things, to make sense of most facts in life. He knew what he knew and he didn’t take for granted his journey on that planet orbiting a yellow star embedded in one of the spiral arms of the Milky Way, a galaxy that was itself part of the Virgo supercluster, one of millions of similarly vast entities dotted through the sky. Sometimes, he liked to focus on those terms of infinity, just feeling really, really small for a while. Time was probably the only concept that made him wonder and time away was what made him feel sad. As time passed by and the years started to endure he found out that solstices seemed to break equilibrium and he learned to persist on what is important in his life.
Tuesday, June 21, 2011
thirty-one monkeys
Passei o dia e muito da noite fechado com mais 30 macacos numa reunião que não me dizia respeito, apenas e só porque os primatas desenvolveram ao longo dos séculos esta necessidade de decisões colectivas.
Acabei a comer uma taça de corn flakes, dos originais, que me lembrei de comprar na última visita ao supermercado, como fazia há muitos anos atrás numa fase parva da minha vida.
Quando decidi ir dormir, apetecia-me passar-te a mão pelo rosto e ficar a observar o teu sorriso bom.
Acabei a comer uma taça de corn flakes, dos originais, que me lembrei de comprar na última visita ao supermercado, como fazia há muitos anos atrás numa fase parva da minha vida.
Quando decidi ir dormir, apetecia-me passar-te a mão pelo rosto e ficar a observar o teu sorriso bom.
Sunday, June 19, 2011
pré-pós-modernismo
En aquel Imperio, el arte de la cartografía logró tal perfección que el mapa de una sola Provincia ocupaba toda una Ciudad, y el mapa del Imperio, toda una Provincia. Con el tiempo, estos mapas desmesurados no satisficieron y los colegios de cartógrafos levantaron un mapa del Imperio, que tenía el tamaño del Imperio y coincidía puntualmente con él. Menos adictas al estudio de la cartografía, las generaciones siguientes entendieron que ese dilatado mapa era inútil y no sin impiedad lo entregaron a las inclemencias del Sol y los Inviernos. En los Desiertos del oeste perduran despedazadas ruinas del mapa, habitadas por animales y por mendigos; en todo el País no hay otra reliquia de las disciplinas geográficas.
“Del rigor en la ciencia”, Jorge Luis Borges
“Del rigor en la ciencia”, Jorge Luis Borges
os bonecos
No prédio onde eu vivo agora, existe um boneco enjaulado que não faz mais do que abrir e fechar os portões de acesso à garagem, 24 horas por dia e 7 dias por semana.
Na cidade onde eu vivo agora, vêem-se muitos bonecos, nos passeios, com placards a anunciarem especulação imobiliária para atraírem os visitantes de fim-de-semana.
No país em que eu vivo agora, subsistem demasiados bonecos sem uma perspectiva de futuro para além do viver o dia-a-dia.
No hemisfério em que eu vivo agora, vivem mais bonecos de múltiplas nacionalidades que consideram vida as saídas de sexta e sábado, sem perceberem que os outros também são dias.
“Boneco” é o que eu e o meu companheiro de squash chamamos um ao outro quando falhamos uma bola mesmo fácil. Há uns dias atrás lembrámo-nos disto enquanto jogávamos ao disco, frisbee, num areal perfeito de Portugal.
Na cidade onde eu vivo agora, vêem-se muitos bonecos, nos passeios, com placards a anunciarem especulação imobiliária para atraírem os visitantes de fim-de-semana.
No país em que eu vivo agora, subsistem demasiados bonecos sem uma perspectiva de futuro para além do viver o dia-a-dia.
No hemisfério em que eu vivo agora, vivem mais bonecos de múltiplas nacionalidades que consideram vida as saídas de sexta e sábado, sem perceberem que os outros também são dias.
“Boneco” é o que eu e o meu companheiro de squash chamamos um ao outro quando falhamos uma bola mesmo fácil. Há uns dias atrás lembrámo-nos disto enquanto jogávamos ao disco, frisbee, num areal perfeito de Portugal.
Friday, June 17, 2011
relaxar rima com amar
Chego a casa e constato o inevitável nestes dias: sinto-me sozinho. Já não gosto disto e não é isto o que quero. Enquanto preparo um bife temperado com um dente de alho mal cortado, “acamado” sobre uma fatia de pão integral que será acompanhado por salada pré-lavada – por estes dias eu sou um fã das vantagens da salada pré-lavada – , vou vendo na tv um programa do Jamie Oliver muito jovem, muito animado e muito empenhado em preparar um “sanduichão” com um aspecto muito mais apetitoso do que o meu jantar. Eu gosto do Jamie assim inspirado, ainda não “gordalhucho” e com gosto no que faz. Também estou a precisar de me sentir assim e “carrego no botão” com a sensação de que, por estes dias, só consigo relaxar porque sei o que é amar com reciprocidade. Ah, e também tenho muito claro quais são as prioridades.
Saturday, June 4, 2011
o manual e o automático
Hoje meti a marcha-atrás esquecendo-me da embraiagem e o carro rugiu em protesto. Surpreendeu-me e numa fracção de segundo o meu neurónio, ainda confuso com a luz do dia às 9h da noite, pensou: que figura de estilo óbvia...
Tudo o que é definitivamente bom na vida não vem com instruções. Aliás, as partes mesmo boas da vida não se alcançam em modo automático mas aprendem-se e apreendem-se sem receios. E hesitar – que é um verbo pouco meu – tem como consequência rebolar ao sabor do mar, quando eu prefiro mergulhar nas ondas atlânticas prestes a rebentarem. E que magnífico dia de praia para amar, sem manual.
Tudo o que é definitivamente bom na vida não vem com instruções. Aliás, as partes mesmo boas da vida não se alcançam em modo automático mas aprendem-se e apreendem-se sem receios. E hesitar – que é um verbo pouco meu – tem como consequência rebolar ao sabor do mar, quando eu prefiro mergulhar nas ondas atlânticas prestes a rebentarem. E que magnífico dia de praia para amar, sem manual.
Friday, June 3, 2011
tigre aos pulos
Faço contigo coisas que não julgava possíveis e sinto-me como tu quando te sentas no meu colo aos beijos num aeroporto internacional ou me agarras a mão com firmeza num final de tarde em passeio pela rua da moda. Hoje dou por mim com um riso de miúdo - mesmo de miúdo - quando à distância de um braço estendido para um beijo agarrado, me meto contigo no Facebook. És o meu tigre "one and only" e apetecem-me (quero) os passeios de elefante nas Reservas na Índia, contigo.
Wednesday, May 18, 2011
home
Daqui vêem-se algumas estrelas de um hemisfério diferente. Daqui vê-se parte de uma ponte que é bonita e o reflexo de casinhotas estranhas na água de um rio que mais parece um canal. Aqui há um jasmim que vai crescer e três flores, resgatadas por ti, que pretendem continuar a florescer. Daqui vejo a espreguiçadeira onde tu gostas de te espraiar e escutar a cidade. Aqui já há tanto de ti e de mim, de nós, que me faz abrir um sorriso.
There is a house built out of stone
Wooden floors, walls and window sills...
Tables and chairs worn by all of the dust..
This is a place where I don't feel alone
This is a place where I feel at home.......
Cause, I built a home
for you
for me
There is a house built out of stone
Wooden floors, walls and window sills...
Tables and chairs worn by all of the dust..
This is a place where I don't feel alone
This is a place where I feel at home.......
Cause, I built a home
for you
for me
Monday, May 16, 2011
do amor e da vida (do meu e da minha)
Por vezes sinto-a tão distante que a lógica sobrepassa a razão. Por vezes submete-me à dúvida que me recorda a fase em que achava que era feliz (sem o saber de facto). Por vezes tudo é sensação de algo mais do que admitia possível (e bom). Ela oscila (ambas oscilam) como se me interpretasse fascinado por montanhas-russas quando eu quero mesmo é calmaria (eu sou difícil de interpretar), como naqueles abraços (dados) em que o encontro das costas dela nas minhas mãos (grandes) e o peito aconchegado ao (meu) peito me fazem sentir realmente vivo.
Sunday, May 15, 2011
da alegoria dos marshmallows
Leio um artigo numa revista muito atrasada. Descreve uma experiência simples com humanóides de 4 anos que são deixados sozinhos numa sala com um marshmallow numa mesa e duas opções: i. comer o marshmallow; ii. esperar pelo regresso do “cientista” e ganhar dois marshmallows.
(ver aqui: http://www.youtube.com/watch?v=4ZikfUI0G5o)
Replicada muitas vezes e seguindo os percursos de vida das “cobaias”, a experiência traz resultados estatísticos óbvios: os miúdos que aguardaram pela recompensa dupla, conseguiram melhores resultados na escola, chegaram à universidade e a níveis de rendimento superiores do que os que optaram pela satisfação mais imediata da gula que, naturalmente, vieram a ter problemas de drogas e alcoolismo…
Uma experiência norte-americana, está claro. A replicar com amêndoas de chocolate para saber quem são os espertos.
(ver aqui: http://www.youtube.com/watch?v=4ZikfUI0G5o)
Replicada muitas vezes e seguindo os percursos de vida das “cobaias”, a experiência traz resultados estatísticos óbvios: os miúdos que aguardaram pela recompensa dupla, conseguiram melhores resultados na escola, chegaram à universidade e a níveis de rendimento superiores do que os que optaram pela satisfação mais imediata da gula que, naturalmente, vieram a ter problemas de drogas e alcoolismo…
Uma experiência norte-americana, está claro. A replicar com amêndoas de chocolate para saber quem são os espertos.
moradas
Uma das primeiras imagens que guardo da vida é a de descer os degraus de cimento da estação do metropolitano em Sete-Rios pela mão do meu pai e de o fazer voltar para trás quando o metro chegou à estação. Devia ter uns quatro anos e naquela altura o metropolitano de Lisboa começava (ou acabava) ali mesmo, junto ao Jardim Zoológico. Naquela altura eu vivia ao pé de uma Estrada percorrida por eléctricos dos amarelos que não me assustavam e eu gostava de ver passar. Reencontrei os eléctricos, em formato mais moderno, quando vivi junto a uma Diagonal, num tempo em que fui feliz de uma forma muito superficial. Hoje moro ao lado de uma Marginal, onde o corrupio de automóveis, comboios, bicicletas na ciclovia, helicópteros a aterrar e aviões em aproximação é maior do que podia imaginar. Aqui não passam eléctricos e também não se vêem barcos a navegar a espécie de rio mas as possibilidades são maiores.
Saturday, May 14, 2011
do Socialismo – parte II (só para ver se o blogger me censura duas vezes)
Tese experimentada: as sociedades Socialistas são tão boas a fazer embalagens que são impossíveis de abrir!
Imaginem este miúdo desesperado a ter que recorrer a uma faca para abrir a película transparente do maço de Lucky Strike. E isqueiros não há – ainda bem que decidiu comprar fósforos suficientes para uma vida inteira, aaargh!
Imaginem este miúdo desesperado a ter que recorrer a uma faca para abrir a película transparente do maço de Lucky Strike. E isqueiros não há – ainda bem que decidiu comprar fósforos suficientes para uma vida inteira, aaargh!
Thursday, May 12, 2011
do Socialismo
Por enquanto é só uma tese, à espera de ser experimentada, mas enquanto contemplo o World Trade Center constato, mais uma vez, que o mundo, a sociedade e o ponto da evolução a que chegámos na representação da espécie adoptou uma nova lógica, um estilo já gasto e uma doutrina vencedora não imaginada: o Socialismo.
Hoje visitei uma cidade planeada. Primeira-letra-do-alfabeto grego-ville. “Rematei” o que já sabia: o futuro, no presente, é do Marx e do Engels, uns visionários antes do tempo certo. A capacidade de apropriarem as massas de um significado para a vida quando as vidas assim não fazem sentido nenhum porque são absolutamente dirigidas, sem factor de escolha. A ocupação dos indigentes, apenas e só porque faz sentido para quem tem o poder de decidir. Eu não compreendo, não concebo, as vidas assim vividas. Viver é escolher e com grandiosidade. Aprende-se para se ser capaz de discernir, de tomar opções. Compreender e optar faz parte do sentido e do valor que damos às coisas e às causas. Viver de forma planeada e dirigida é castrador do mais puro que a “alma humana” possibilita. Não chegámos até aqui para isto, queremos, devíamos querer mais, devíamos ser capazes de mais. Mas na realidade existem muitas, demasiadas, vidas condicionadas pelo que os outros decidiram, como se parte da espécie assumisse o papel de formigas andrejantes.
Hoje visitei uma cidade planeada. Primeira-letra-do-alfabeto grego-ville. “Rematei” o que já sabia: o futuro, no presente, é do Marx e do Engels, uns visionários antes do tempo certo. A capacidade de apropriarem as massas de um significado para a vida quando as vidas assim não fazem sentido nenhum porque são absolutamente dirigidas, sem factor de escolha. A ocupação dos indigentes, apenas e só porque faz sentido para quem tem o poder de decidir. Eu não compreendo, não concebo, as vidas assim vividas. Viver é escolher e com grandiosidade. Aprende-se para se ser capaz de discernir, de tomar opções. Compreender e optar faz parte do sentido e do valor que damos às coisas e às causas. Viver de forma planeada e dirigida é castrador do mais puro que a “alma humana” possibilita. Não chegámos até aqui para isto, queremos, devíamos querer mais, devíamos ser capazes de mais. Mas na realidade existem muitas, demasiadas, vidas condicionadas pelo que os outros decidiram, como se parte da espécie assumisse o papel de formigas andrejantes.
a fruteira e o regresso (lamechas ao quadrado, como a mesa :)
Deixou-lhe exactamente sete maçãs, um cacho muito grande de uvas, um kiwi e duas bananas (ele não gosta de kiwi e acabou de comer a segunda banana já amadurecida).
Deixou-lhe uma casa montada em três dias e meio, com muitos parafusos apertados com paciência de chinês.
Deixou-lhe um jasmim pequenino com vontade de crescer e uma orquídea para cuidar com receita estipulada.
Deixou-lhe os lençóis da risota e quatro almofadas marcadas pelo cheiro dela para ele sonhar muito.
Deixou-lhe dois castiçais com recarga de velas prontos para acederem nos jantares românticos que têm pela frente.
Deixou-lhe a vontade de sentir a pele dela encostada à sua, nas múltiplas formas perfeitas que têm de se abraçarem.
Deixou-o no outro hemisfério com todos os pontos de referência que compõem uma história que ninguém viveu antes, a expectativa do regresso dentro de uns dias e a certeza de que tudo o que desejam será deles nas noites quentes que aí vêm.
Deixou-lhe uma casa montada em três dias e meio, com muitos parafusos apertados com paciência de chinês.
Deixou-lhe um jasmim pequenino com vontade de crescer e uma orquídea para cuidar com receita estipulada.
Deixou-lhe os lençóis da risota e quatro almofadas marcadas pelo cheiro dela para ele sonhar muito.
Deixou-lhe dois castiçais com recarga de velas prontos para acederem nos jantares românticos que têm pela frente.
Deixou-lhe a vontade de sentir a pele dela encostada à sua, nas múltiplas formas perfeitas que têm de se abraçarem.
Deixou-o no outro hemisfério com todos os pontos de referência que compõem uma história que ninguém viveu antes, a expectativa do regresso dentro de uns dias e a certeza de que tudo o que desejam será deles nas noites quentes que aí vêm.
Tuesday, May 10, 2011
O tigre e a mariposa
Tu saíste de motorista com ar solene, e eu refugiei-me na piscina com a esperança de a água clorada me neutralizar o sal das lágrimas. Respeitei as regras todas – excepto a dos sapatos de vela – e fiz 2 piscinas, uma em crawl e outra a bruços. Depois, fiquei parado a flutuar ofegante e com os óculos embaciados. Descansei e tentei mais uma, desta vez a nadar debaixo de água mas a água é pouco profunda e 25 metros são demais. Acabei em mariposa a molhar o tecto baixo que ficou a pingar. Ao sair do tanque azul intensifiquei a dor no fundo das costas, mas pelo menos acabei a sentir-me cansado e não somente triste com o primeiro impacto das saudades de ti.
Em seguida tomei um dos meus banhos demorados com o chuveiro que montei para nós e que nos vai provocar uma infiltração na parede antes de terminado. Reparei então que me tinhas deixado uma das tuas marcas, uma mensagem subliminar na mesinha de cabeceira: os teus botões de punho Calvin & Hobbes.
És o amor da minha vida, tigre.
Em seguida tomei um dos meus banhos demorados com o chuveiro que montei para nós e que nos vai provocar uma infiltração na parede antes de terminado. Reparei então que me tinhas deixado uma das tuas marcas, uma mensagem subliminar na mesinha de cabeceira: os teus botões de punho Calvin & Hobbes.
És o amor da minha vida, tigre.
Saturday, April 23, 2011
bear right(ly) – lamechas… há 1 ano (e mais qualquer coisa) de ti, de nós :)
You don’t get to choose whom you fall in-love with. It will just happen, and you’ll have to understand how lucky you are. That’s the hardest part, to get it. So, get it... For this, you have to be a believer. Just be it... a believer. She will appear before you, while you’re distractedly looking at the right bearing and she will also set eyes on you. Then everything you (haven’t) wished for will happen... magically, as her soul settles within your heart. That’s the instant you get trapped for life. You’ll just know it, because everything she does (or does not do) will look unique and she will definitively look astonishing even when she’s not actually beside you. And there you have it... you’re truly and utterly in-love, and the future will be yours to take.
Saturday, April 16, 2011
o melhor do inesperado
Dizia-lhe há umas semanas atrás que ela era o melhor do que não imaginara possível. Explicava-lhe, por palavras difusas, que gostava mesmo da sensação de ir absorvendo os pormenores da pessoa que ela era para o íntimo do seu coração, transformando-os em mensagens inteligíveis e apaixonantes para a sua alma. Tentava que ela entendesse como o descrédito do predestinado contribuíam para o enlevo do que sabia que era deles, com certeza e com carinho. Pretendia que as palavras, pouco sincronizadas, lhe transmitissem com robustez a magia do que sentia como inesperado: uma profusão de sentimentos que não julgava possíveis, há um ano atrás, e o desejo de prosseguir a descoberta.
Thursday, April 14, 2011
message in a bottle came across the ocean
Desta vez, enquanto me arrastava sem vontade até à última porta do terminal custou-me mesmo. Não gosto de me arrastar. Não gosto de fazer nada sem vontade. Coloquei os headphones novos e procurei o sossego que sei impossível sem a companhia de quem se ama. Senti o olho direito a humedecer. Senti-me mais perdido do que alguma vez desde que encontrei o que desejo. Senti-me furiosamente lamechas e ponderei várias vezes não embarcar. Não embarcar desta vez, não voltar a embarcar sem a companhia de quem amo. Desta vez dói-me qualquer coisa cá dentro, qualquer coisa não muito óbvia entre o coração grande e a alma pseudo-alternativa.
Monday, April 11, 2011
um pouco mais a norte
Aterrei espancado pelos subtropicais e liguei o BB durante o taxiing. Tinha à espera mais um daqueles emails que reconfirmam tudo o que já sei que quero para a vida.
Durante o voo “papei” dois bons filmes, bem melhores do que a comida servida: o “Discurso do Rei” que ainda tinha em falta, sem dúvida uma delícia ajudada pela virtude da H. Bonham Carter e o novo “Hereafter”, um bocadinho parado mas ainda assim recomendado para quem gosta de after-life experiences ;) – basta dizer que o realizador é o Clint Eastwood.
Apanhei o táxi (muito barato) para o maior hotel cá do sítio e reconheci de imediato o set de um filme único com o Pierce Brosnan – este “rapaz” persegue-me nas sensações boas da minha nova vida.
Fiquei contente com o quarto espaçoso e colorido, que (também) não tendo bidé pelo menos tem uma banheira digna do nome.
Pedi uma Caesar salad que veio bem condimentada e acompanhada de dois pãezinhos e dois pacotinhos de manteiga New Zealand capazes de se deixarem abrir – há certas coisas em que a globalização compensa.
Acabei a noite a reler coisas boas, bebericando a bebida típica daqui e a sentir (muitíssimas) saudades de ti.
Sunday, April 10, 2011
o espaço e o tempo
Ao reconhecer o espaço, apercebeu-se, sem aviso, que vai ser feliz. Sentiu o coração a bater forte, consolidando as peças do puzzle. Respirou fundo e pensou com orgulho como o tempo dedicado ao presente da sua vida é a melhor decisão que podia tomar.
Saturday, April 9, 2011
o japonês das pílulas, o gordo do bluetooth, o cartão de crédito, a minha insónia e o seatguru
Passei os últimos dias a debelar uma constipação provocada pelos excessos da maior invenção do século passado – o ar condicionado. Pensar assim, no século passado, faz-me sentir antigo e, a espaços, isso até é engraçado.
Num destes dias tomei o pequeno-almoço ao lado de um japonês de meia idade. Quando terminou de comer a sua taça de arroz – sim, os japoneses comem arroz, e peixe também, ao pequeno-almoço – desembrulhou de um lenço cor-de-rosa pelo menos uma dúzia de pílulas que tomou vagarosamente, uma a uma e uma a seguir à outra, com o auxílio de um copo de água.
Noutro destes dias passei o dia com um gordo que passou o dia com um daqueles aparelhómetros bluetooth que se pespegam na orelha para se falar ao telefone sem mãos e sem fios. Não o vi tirar o dito para as refeições e também não lhe deu descanso quando se agarrou ao microfone no karaoke.
Esta noite, quando puxei do cartão de crédito para oferecer o jantar à equipa de projecto, constatei uma vez mais a imbecilidade da cor de alguns cartões que deixam sempre os empregados confusos com o chip e insistem em passa-lo pela banda magnética insistindo em estragar-me o plástico do qual dependo para sobreviver.
Praticamente curado da constipação sou assolado por uma grande insónia, confirmando que uma king size me faz sentir perdido no espaço quando me faltam os abraços e as longas conversas cúmplices pela noite fora.
Amanhã embarco para a primeira mão da maratona de 18 horas sentado num avião a tentar contrariar os ventos subtropicais de ambos os hemisférios, sabendo de antemão pelo seatguru que me calhou o lugar do meio encalhado numa configuração 2-3-2 de um Boeing 777. O tipo que inventou os lugares marcados com a reserva devia ser chacinado.
Num destes dias tomei o pequeno-almoço ao lado de um japonês de meia idade. Quando terminou de comer a sua taça de arroz – sim, os japoneses comem arroz, e peixe também, ao pequeno-almoço – desembrulhou de um lenço cor-de-rosa pelo menos uma dúzia de pílulas que tomou vagarosamente, uma a uma e uma a seguir à outra, com o auxílio de um copo de água.
Noutro destes dias passei o dia com um gordo que passou o dia com um daqueles aparelhómetros bluetooth que se pespegam na orelha para se falar ao telefone sem mãos e sem fios. Não o vi tirar o dito para as refeições e também não lhe deu descanso quando se agarrou ao microfone no karaoke.
Esta noite, quando puxei do cartão de crédito para oferecer o jantar à equipa de projecto, constatei uma vez mais a imbecilidade da cor de alguns cartões que deixam sempre os empregados confusos com o chip e insistem em passa-lo pela banda magnética insistindo em estragar-me o plástico do qual dependo para sobreviver.
Praticamente curado da constipação sou assolado por uma grande insónia, confirmando que uma king size me faz sentir perdido no espaço quando me faltam os abraços e as longas conversas cúmplices pela noite fora.
Amanhã embarco para a primeira mão da maratona de 18 horas sentado num avião a tentar contrariar os ventos subtropicais de ambos os hemisférios, sabendo de antemão pelo seatguru que me calhou o lugar do meio encalhado numa configuração 2-3-2 de um Boeing 777. O tipo que inventou os lugares marcados com a reserva devia ser chacinado.
Wednesday, April 6, 2011
o rezingão e a civilização (filosofia de ponta e alguns disparates)
Será por causa da falta, da ausência e da distância (e do efeito do jet lag), ou por tudo isto acumulado (com exagero) dei por mim de regresso ao estado rezingão. Nestes (breves) momentos da minha (nova) vida tenho esta (pequena) tendência para me concentrar e deixar absorver (em grande) pelos pormenores irrelevantes do quotidiano.
Esta manhã debati-me furiosamente com pequenas embalagens de manteiga ao pequeno-almoço…
O problema é que eu gosto de torradas ao pequeno-almoço…
Torradas acabadas de saltar de dois minutos e meio passados na torradeira, quentes e prontas a serem barradas com manteiga salgada…
O problema maior é que as irritantes pequenas embalagens de manteiga com sal não se deixavam abrir, nem facilmente nem de todo…
Evidentemente, por cada vez que tentei puxar a maldita película de prata pelo canto “abrir aqui”, acabei a espetar a faca contra a pressão da câmara hermética na expectativa de não deixar as minhas torradas quentinhas arrefecerem muito…
Conclusão da manhã: eu não gosto de embalagens. É que não gosto mesmo, nem do conceito nem da realidade. Eu cá gosto é de embrulhos. Embrulhos são, por definição, invólucros, envolventes do prémio neles contidos que se deixam abrir, facilmente. Embrulhos são o disfarce da surpresa que contêm. Embrulhos são o oposto de embalagens porque deixam respirar, sem hermetismo. Embrulhos são o que se quer na vida, pelo efeito dos laços, das fitas e do papel decorado. Eu gosto de embrulhos, porque servem para enfeitar em lugar de asfixiar. Na manteiga como na vida, eu lembro-me dos tempos anteriores à asfixia do pós-modernimo em que a manteiga Vigor vinha embrulhada num papel branco e forte que se deixava abrir com os dedos em tesoura, sem necessidade de cortar, ou do fiambre directamente cortado da máquina para esse mesmo tipo de papel, vegetal ou similar, e apenas embrulhado com recurso a algumas dobras planeadas, ou das garrafinhas de leite Vigor em que bastava carregar na tampinha verde para baixo para se aceder ao prémio, em lugar de ter que esgravatar o cartão ou o plástico dos formatos tetrapak.
O grau de civilização de um país e a felicidade de uma sociedade também se medem pela facilidade com que se abrem as embalagens e pela qualidade dos embrulhos que produzem. Eu acho, mas isto sou só eu em modo rezingão.
Esta manhã debati-me furiosamente com pequenas embalagens de manteiga ao pequeno-almoço…
O problema é que eu gosto de torradas ao pequeno-almoço…
Torradas acabadas de saltar de dois minutos e meio passados na torradeira, quentes e prontas a serem barradas com manteiga salgada…
O problema maior é que as irritantes pequenas embalagens de manteiga com sal não se deixavam abrir, nem facilmente nem de todo…
Evidentemente, por cada vez que tentei puxar a maldita película de prata pelo canto “abrir aqui”, acabei a espetar a faca contra a pressão da câmara hermética na expectativa de não deixar as minhas torradas quentinhas arrefecerem muito…
Conclusão da manhã: eu não gosto de embalagens. É que não gosto mesmo, nem do conceito nem da realidade. Eu cá gosto é de embrulhos. Embrulhos são, por definição, invólucros, envolventes do prémio neles contidos que se deixam abrir, facilmente. Embrulhos são o disfarce da surpresa que contêm. Embrulhos são o oposto de embalagens porque deixam respirar, sem hermetismo. Embrulhos são o que se quer na vida, pelo efeito dos laços, das fitas e do papel decorado. Eu gosto de embrulhos, porque servem para enfeitar em lugar de asfixiar. Na manteiga como na vida, eu lembro-me dos tempos anteriores à asfixia do pós-modernimo em que a manteiga Vigor vinha embrulhada num papel branco e forte que se deixava abrir com os dedos em tesoura, sem necessidade de cortar, ou do fiambre directamente cortado da máquina para esse mesmo tipo de papel, vegetal ou similar, e apenas embrulhado com recurso a algumas dobras planeadas, ou das garrafinhas de leite Vigor em que bastava carregar na tampinha verde para baixo para se aceder ao prémio, em lugar de ter que esgravatar o cartão ou o plástico dos formatos tetrapak.
O grau de civilização de um país e a felicidade de uma sociedade também se medem pela facilidade com que se abrem as embalagens e pela qualidade dos embrulhos que produzem. Eu acho, mas isto sou só eu em modo rezingão.
Saturday, March 26, 2011
nas nuvens
Apetecem-me os superlativos e as hipérboles sem descontos. Isto tudo é tão único, tão especial, tão sensacional e bom, que só se descreve com composições inovadoras de palavras:
Hoje, ou ontem, emergimos nas nuvens.
Não “mergulhámos” nem “saímos das”, a forma correcta é “emergimos nas”, como quem alcança um novo estado, não antes descoberto e que se quer permanente. É então que as opções se transformam em soluções, muito concretas, e as listas se compõem por si, como se fizessem parte de uma partitura harmoniosa.
Quero aprender muito sobre as nuvens.
Hoje, ou ontem, emergimos nas nuvens.
Não “mergulhámos” nem “saímos das”, a forma correcta é “emergimos nas”, como quem alcança um novo estado, não antes descoberto e que se quer permanente. É então que as opções se transformam em soluções, muito concretas, e as listas se compõem por si, como se fizessem parte de uma partitura harmoniosa.
Quero aprender muito sobre as nuvens.
Thursday, March 17, 2011
filme redescoberto
E há esta cena em que o Brosnan descobre as costas da Russo – ou melhor, é ela quem descobre as costas para ele – num cenário de vista paradisíaca na Martinica, e eu lembro-me das tuas costas bonitas. Muito bonitas, mesmo.
Tuesday, March 15, 2011
a réplica ou "o podia ter sido assim"
Há pouco mais de um ano atrás a filha da Embaixadora da Noruega, uma espevitada chamada Inga que conhecera numa noite de verão, convidou-o para o tradicional jantar do corpo diplomático em Lisboa. Chegou atrasado e com o fato meio amarfanhado porque perdera o convite entre os tapetes do automóvel. Estacionara mal o dito, engavetado entre um Mini Cooper descapotável e um Jeep, mas pensando para os seus botões que era carro de miúda com estilo, deixara um papelinho com o telemóvel à vista na expectativa do contacto. Apesar de desalinhavado percorreu os salões em modo solene, encontrando Inga já meio-enfrascada em vodka, divertida em conversa com outros imberbes expatriados que a pareciam conhecer. Ela atirou-se para os seus braços, beijando-o muitas vezes nas faces, repetidamente e em doses ímpares, e fazendo questão de o apresentar a um Paolo, um Paco e a um Pierre, por demais fascinados com o corpo daquela miúda de metro e noventa de altura. Pediu um copo de vinho e afastou-se daquela azáfama, cumprimentando simpaticamente os convidados espalhados por aqui e acolá, entretidos com o sorteio para a quermesse. Ao longe, reparou na miúda de vestido bonito preto e escorreito, aprumado sobre um corpo clássico-magnífico, com uns longos cabelos louros bem penteados e prolongados sobre as costas. Observou-a cuidadosamente enquanto ela conversava com um grupo, afastando-se de tempos em tempos para “atacar” um prato de macarons cor-de-rosa plantado numa mesa próxima. Deleitou-se a ver o seu movimento, discreto, de vai-e-vem, entre os senhores a quem encantava com a conversa e a pratada de macarons de framboesa. Fixou o olhar intensamente, naquele ser absolutamente fantástico e na sua postura irrepreensível a devorar os macarons sem contemplações. E ela viu-o a observá-la mas não se fez rogada nem parou com o movimento fortuito do “assalto” aos macarons. Ele admirou-lhe a confiança e o à-vontade e soube, naquele instante, que queria conhecê-la, para o bem e para o mal. E quando a noite já ia alta, deviam ser para aí umas onze da noite, puseram música para dançar, um slow lento dos anos oitenta. Ela que o vira a observá-la muito tempo, aproximou-se sem contemplações e puxou-o para dançar. Passos firmes, agarrados um ao outro com dois graus de cumplicidade. E ele sentiu pela primeira vez a sensação única do amor que viria a ser seu. Não voltaria a perder-lhe o rasto, mesmo quando teve que imaginar a história feita de felicidade e aprender a esperar pela réplica.
Sunday, March 13, 2011
i'll try anything
Ten decisions shape your life,
you'll be aware of 5 about,
7 ways to go through school,
either you're noticed or left out,
7 ways to get ahead,
7 reasons to drop out,
when i said ' I can see me in your eyes',
you said 'I can see you in my bed',
that's not just friendship that's romance too,
you like music we can dance to...
you'll be aware of 5 about,
7 ways to go through school,
either you're noticed or left out,
7 ways to get ahead,
7 reasons to drop out,
when i said ' I can see me in your eyes',
you said 'I can see you in my bed',
that's not just friendship that's romance too,
you like music we can dance to...
Saturday, March 12, 2011
Público – informação numerológica
Pois, deve ter sido enquanto o Japão se movia 2,5 metros, o eixo da Terra se deslocava 25 centímetros e o tempo acelerava 1,6 microsegundos que eu me entretinha a provocar-te pequenos sismos quânticos à flor da pele, justamente naquele espaço único e bem-cheiroso, junto às cervicais, que (entre muitas outras coisas) faz de ti A Mulher para amar.
Wednesday, March 9, 2011
do que elas pensam (como prometido e comprometido)
Entregamo-nos. Somos capazes disso. Sabemos bem o que queremos e sabe-nos bem. Disso e de muito mais. Com certeza e com sentido. Com o sentido certo e com entusiasmo. Não há hesitações, não há complicações e não há compensações. Apesar do que elas pensam, são palavras novas num vocabulário alargado, com vontade de ser mais, maior do que antes. Vasto, mesmo se parece sem nexo. Descobre-se, gosta-se e sente-se. Entregamo-nos e é bom.
Tuesday, March 1, 2011
bloggers & stalkers
Para mim os blogs são do melhor que a Web nos trouxe. Não sou fã do Facebook e nunca experimentei o Twitter, ambos me parecem demasiado “entertainment” feito de frases curtas e ideias fúteis quando eu gosto de profundidade q.b.. Naturalmente, gosto do conceito da Wikipedia, e da facilidade que a Web trouxe no acesso às artes, em geral e à música, em particular – sou pouco ortodoxo no que respeita a isto, acho que o “verdadeiro artista” não se importa de ser pirateado desde que alargue a propagação e usufruto da obra, e os mesmo bons sobreviverão, i.e., ganharão muito dinheiro na mesma.
De volta aos blogs, há aqui nas redondezas quem escreva melhor que muitos ensaístas publicados, há quem fotografe mesmo bem e quem “componha” podcasts melhores que os DJs e radialistas profissionais. Destes gosto. Já não gosto dos que apostam no copy&paste do YouTube, dos blogs com música obrigatória nem daqueles que colam uma foto e insistem no pensamento “hoje acordei assim…”. Como em tudo na vida, trata-se de um 80-20. E infelizmente para os 20% que valem realmente a pena, existem os stalkers que decidem acordar com os primeiros dias de calor do ano. Não suporto anónimos, nem quem aqui vem sem ter nada para partilhar ou com sentido voyeurista, a esses apago-lhes os comentários (tenho mais o que fazer do que aprová-los). Dito e feito. De resto, recomendo vivamente isto, porque há por aqui pessoas engraçadas, mentes brilhantes e complexidades estimulantes.
De volta aos blogs, há aqui nas redondezas quem escreva melhor que muitos ensaístas publicados, há quem fotografe mesmo bem e quem “componha” podcasts melhores que os DJs e radialistas profissionais. Destes gosto. Já não gosto dos que apostam no copy&paste do YouTube, dos blogs com música obrigatória nem daqueles que colam uma foto e insistem no pensamento “hoje acordei assim…”. Como em tudo na vida, trata-se de um 80-20. E infelizmente para os 20% que valem realmente a pena, existem os stalkers que decidem acordar com os primeiros dias de calor do ano. Não suporto anónimos, nem quem aqui vem sem ter nada para partilhar ou com sentido voyeurista, a esses apago-lhes os comentários (tenho mais o que fazer do que aprová-los). Dito e feito. De resto, recomendo vivamente isto, porque há por aqui pessoas engraçadas, mentes brilhantes e complexidades estimulantes.
Saturday, February 26, 2011
o febrão (não se trata de carne no churrasco)
Gosto do efeito que 2 graus de temperatura a mais provocam no meu neurónio. Pode ser cansativo mas o aumento na velocidade do processador revela-se sempre interessante. Neste estado, sonho mais, com algum despropósito, mas os sonhos misturam-se bem com boas ideias (o termo certo para isto só existe em inglês: “to blend”), e então as ideias exploram novos, e outros, rumos, e faz-me falta a capacidade de as fixar, guardar, para mais tarde dissecar, repensar e aproveitar.
Friday, February 25, 2011
normal people
Sentava-se com ela no banco do jardim e olhava-a com carinho parafraseando mentalmente: "mi amor...". Acariciava-lhe a mão devagarinho, concentrando as palavras que lhe queria dizer: "eu amo você...". Dizia-lhe isso mesmo num tom meloso: "eu amo vocêee...". Ela, que não esperava aquilo nem estava preparada, abria os olhos grandes e bonitos perguntando-lhe: "o quê?". Não se fazia desentendida, simplesmente não o entendera. E ele respirava fundo repetindo com convicção e um aperto suave da mão: "eu amo você!". Então, ela envolvia-o num abraço profundo e procurava-lhe os lábios para um beijo apaixonado. Wunderbar!
Wednesday, February 23, 2011
à rasca, Maria vai com as outras
Com o novo horário e o time lag alargado sinto-me mais desencontrado do meu mundo. Ponho-me a ler as notícias fora de horas:
Manifestação a 12 de Março - Adesão ao protesto da “geração à rasca” já ultrapassa as 20 mil pessoas.
Nos últimos dias juntaram-se mais de duas mil pessoas por dia à página do protesto “geração à rasca” no Facebook, conta a organização do movimento que desafia os jovens precários e desempregados do país, ou todos os que os queiram apoiar, a fazerem ouvir a voz numa manifestação nacional no dia 12 de Março. São já mais de 20.500 os subscritores da acção.
O movimento protesta pelo direito ao emprego e à educação, pela melhoria das condições de trabalho e o fim da precariedade O movimento protesta pelo direito ao emprego e à educação, pela melhoria das condições de trabalho e o fim da precariedade.
João Labrincha, 27 anos, é um dos organizadores deste movimento que se inspirou pela música “Parva que sou”, dos Deolinda. Licenciado em Relações Internacionais há quatro anos, acumulou, desde que se formou, experiências precárias de trabalho. E acabou por ficar desempregado.
“Todos conhecemos uma imensidão de pessoas à nossa volta na mesma situação”, conta ao PÚBLICO, confessando que a dimensão que o movimento tem atingido não o surpreende, apesar de se sentir muito comovido com a solidariedade de todas as pessoas, de todas as idades, que têm assinado o manifesto que ele e mais três amigos, que conheceu na Universidade de Coimbra, decidiram lançar nas redes sociais.
“Incluímos no nosso movimento toda a geração com 20, 30, 40 anos”, diz sobre o conceito de “geração à rasca” que criaram. “E há outras gerações afectadas com isso como os pais que nos têm de sustentar. Todo o país é afectado económica e socialmente por este quadro”, diz João Labrincha.
“Chegam-nos até os relatos de pessoas mais velhas, já quase na casa dos cinquenta, e que se identificam com o movimento porque estão desempregados, ou são precários e não têm como alimentar os filhos”, diz sobre as histórias que têm chegado à página do Facebook do movimento e que mais o impressionam.
João acredita que o facto do movimento ser apartidário fez com que crescesse mais: “Somos apartidários, o que não quer dizer que sejamos anti-partidos. Mas o facto é que as pessoas estão muito cansadas da política. O nosso objectivo é reforçar a democracia, não derrubar governos”, frisa o organizador. “Queremos fazer ouvir a nossa voz e apresentar soluções”. Por isso o movimento pede, aos que saírem para a rua a 12 de Março, que levem uma filha A4 onde expõem a razão do seu protesto e onde apontam uma solução. Os documentos serão entregues na Assembleia da República.
O que gostaria, confessa, é que desta experiência surgissem mais movimentos. E para já conta que muitos grupos se estão a organizar para fazer manifestações a 12 de Março, tal como a que está marcada para a Avenida da Liberdade, em Lisboa, em várias partes do país: no Porto, na Praça da Batalha, em Coimbra, no Funchal ou Ponta Delgada há já manifestações marcadas.
“Seria interessante transformar este movimento numa manifestação nacional”.
Não bastava o sentido de periferia, a comparação com os enganos estatísticos dos Gregos e as reminiscências transformadas numa debandada geral para sul do equador, a “geração à rasca” ainda nos quer transformar num sucedâneo do Magreb. Anos e anos de educação investida nos neurónios dos meninos e mesmo assim não somos capazes de perceber que temos um lugar de destaque no mundo. Optamos pela depressão colectiva quando na verdade temos, somos, tanto ou mais que os outros, digo eu do meu ponto de observação privilegiado. Dizem eles que queremos “movimentos” mas a mim parece-me que queremos mesmo é o belo do estado social, como sempre desde há alguns séculos para cá. Devíamos, podíamos, ser capazes de mais, muito mais. De empreendermos, em lugar de ficarmos à espera de passar entre a chuva ou que nos dêem um chapéu-de-chuva (com esta lembro-me sempre da imagem dos emigrantes sub-saharianos a venderem os ditos em cidades onde nem chove muito). Devíamos, podíamos, dar uso às nossas vantagens competitivas (cultura, identidade, facilidade com as línguas, simpatia, faculdade de adaptação, perspectiva e, apesar de tudo, capacidade de sacrifício) para fazermos acontecer, individualmente mas em massa, primeiro, porque o colectivo vem depois e não se chega longe com o princípio “Maria vai com as outras”. Mas isto é só o que eu acho.
Monday, February 21, 2011
eixo céu
Sem conseguir explicar se por efeito da idade ou dela, deu-lhe para apreciar pequenas e grandes coisas. Um mergulho rápido e deitou-se sobre uma toalha estendida na pedra aquecida pelo sol, assentando a nuca numa outra toalha enrolada em almofada. Sentiu o calor apertar-lhe os dois lados do corpo e abriu os olhos para a vertical absoluta. Sky, cielo, ciel, simplesmente céu, ou na sua forma favorita, himmel: esta cidade ganha no eixo do céu. Pelo menos em Fevereiro, com o compasso das nuvens brancas e espessas, a espaços cortadas por helicópteros ou “jatinhos”, e com os pares de águias (ou serão condores?) aos círculos lá bem no alto.
Saturday, February 19, 2011
O mago e o feitiço
E de repente, justamente hoje, apareceu-me uma borbulha na borda do lábio superior. Só a descobri há pouco mas deve ter despontado a altas horas da madrugada, quando os pensamentos se encontraram num meridiano intermédio. E eu que gosto (muito) de significados fiquei a conjecturar o que meu organismo me está a querer dizer com este pequeno detalhe confundido entre a proximidade do lábio e a realidade a milhas de distância.
Não posso, não quero e não vou deixar o definitivamente importante para trás.
Não posso, não quero e não vou deixar o definitivamente importante para trás.
O mago
Pouco a pouco, com o passar do tempo, começou a fazer a sua magia peculiar. Começou devagarinho e sentiu-se a ganhar forças com aquela primeira conversa à boleia num carro de estofos de pele, num dia de chuva. Ele era mais novo, apenas alguns anos. Claramente um tipo inteligente. Contou-lhe que trabalhava desde os 14 e que tirara o curso, com sacrifício, em simultâneo. Um empreendedor que montara um negócio semi-legal, enquanto trabalhava e estudava. Viajara pelo continente fazendo a coisa crescer até se tornar perigoso do ponto de vista fiscal. Então, consciente, decidiu abandoná-lo e dedicar-se apenas à profissão. Gosta do que faz, por agora, mas não se esqueceu que existem outras oportunidades à espera de serem exploradas. E eu que preciso deste empreendedor, sagaz e de espírito irrequieto na minha equipa, abri o livro da retórica, acalmando-lhe as inquietações da época e abrindo-lhe os olhos para um futuro risonho.
eixo arquitectura & urbanismo
Acordei com vontade e empanturrei-me ao pequeno-almoço. Entre outros almoços e muitos jantares, sinto que estou num processo de engorda e pouco me importa. Contra o meu hábito, rematei com um café forte e arruinei o plano de voltar para dormir até tarde. Subi ao 25º andar para descobrir a piscina enganadoramente pequena e estirei-me por um momento numa das poucas espreguiçadeiras. Mais uma manhã quente e nublada que não deixa ver a estrela maior. Observei o skyline interessante e pus-me a pensar seriamente sobre tudo isto. Na matriz quantitativa do que quero para a vida, decidi subir o peso do eixo arquitectura & urbanismo. Neste, esta cidade não sai a ganhar.
Friday, February 18, 2011
Local Hero (outras viagens...)
Percorri a costa da Escócia em busca daquele lugar único a que se chegava por estradas estreitas. Procurava a Aurora Borealis como tinha visto no filme. Encontrei uma terra perdida e marcada por uma sonolência própria do Atlântico Norte. Entrei num pub vazio repleto de copos mal lavados. Senti-me descrente daquela gente, até encontrar um pescador de oleado amarelo a puxar o seu barco a remos pela rampa apertada. Fiz dele o meu "Local Hero" embaraçado pelas redes de pesca e meti-me no carro de volta a Edimburgo.
o beicinho e o beijinho
Ela faz beicinho e sabe que eu me vou derreter. Estou atafulhado de trabalho com emails das duas geografias sempre a chegarem mas ela ganha a prioridade. É amor, é saudade, é um misto de certeza e vaidade por termos chegado aqui. É a vontade do beijinho e de não complicar. É a minha segurança absoluta de que tudo vai correr bem porque fui aprendendo com ela a confiar nas sensações simples da vida e estas coisas não vêm na literatura.
Sunday, February 13, 2011
intimidade real
A intimidade é real quando sentimos o gosto por conversar, devagar, pela noite dentro, com as vozes sonolentas em frases trocadas, histórias contadas, perguntas colocadas e palavras simples. Que si y que no… Sem complicações, sem grandes divagações. Porque sim. Porque nos apetece e não importa o sono adiado. Porque é bom. Porque nos enche de conforto. Porque se repete com mais gosto. Porque se sente que é para durar e não há lugar para o efémero.
Saturday, February 12, 2011
o backup
Faço um backup, cuidadoso, das coisas profissionais que não posso perder. Enquanto copio as pastas dos projectos, dos clientes e dos outros assuntos, penso como seria bom poder guardar num disco seguro estes nossos dias e noites. Tudo pronto* a recuperar, a retomar, com vontade e cuidado no dia do regresso, tudo o que não quero perder. Nós**.
(* ah, o homem dos “prontos” que um dia acertou na expressão certa, como eu no sentimento manifesto)
(** ah, palavra bonita)
(* ah, o homem dos “prontos” que um dia acertou na expressão certa, como eu no sentimento manifesto)
(** ah, palavra bonita)
Wednesday, February 9, 2011
o melhor da vida
Recebe-me com o distanciamento próprio de quem tornou cativo o sorriso. Faz magia com chá quente e china ao quadrado. Adormece sobre o meu peito, a meio dos meus filmes em idioma teutónico. É capaz de dormir tranquila apesar do meu riso. Enche-me as camisolas da substância branca que nos limita o encontro dos lábios. Enrosca-se nos meus braços com pequenas carícias nas mãos. Gosta de me sentir quente contra o seu corpo. Deixa-me com vontade de escrever, mais uma vez. Acho que já me topou: por isto, por estas pequenas sensações, estou disposto a investir horas de sono.
Tuesday, February 8, 2011
o fotógrafo com vontade de escrever
Tira-te fotografias deliciosas para guardar na mente. Surpreende-se com as linhas que deitas cá para fora, espontaneamente. Apetece-lhe alargar a noite continuamente quando te sente a adormecer, aconchegada. Quem foi quem disse que a primavera não chega em Fevereiro?
Monday, February 7, 2011
let’s make spring together...
Com o teu cheiro colado à minha pele em sintonia perfeita e uma vontade imensa de te tratar dos lábios secos, só me ocorre um jogo de palavras: let’s make spring together...
Sunday, February 6, 2011
inércia
Há poucas coisas que me arreliam na vida – eu não sou de me zangar. A inércia é uma delas. Para mim, inércia não é bem a mesma coisa que preguiça, apesar do que diz o Priberam. Preguiça tem aquele sentido do tempo gozado, bem passado do “dolce fare niente”, positivo e prazenteiro. Isso, eu suporto – até sou capaz de gostar. O que não suporto são pessoas inertes, sem vontade de se mexerem, incapazes de decidir – como se tivessem os neurónios presos num baraço –, para quem o fácil é deixarem-se arrastar – que também não é bem a mesma coisa que deixar-se levar. Dou-lhes o desconto todo – sou bom nisto – a conjuntura, as preocupações terrenas, o cansaço acumulado, o frio da noite… o que quiserem, mas não me deixem a falar sozinho. É que tenho mais o que fazer, onde ir e com quem estar. Não “tirei” a noite para os aturar, assim.
Friday, February 4, 2011
o contraponto
Fez umas gravações para a televisão a precisar de ponto porque as frases não lhe saiam como queria. (camisa às riscas para baralhar!? ...a rolar ...acção ...corta ...acção ...corta ...já está)
Tomou um duche quente, custando-lhe o acordar. (água com pouca pressão)
Combinou um ovo mexido em manteiga com atum em lata. (não gostou... empanturrou-se com batatas fritas do pacote)
Assinou meia dúzia de missivas completando o legado. (caneta de tinta permanente a ameaçar ficar sem tinta)
Desceu no elevador compondo o cabelo com a mão. (mensagem no telemóvel: Tem um cachecol muita giro :p)
Petrificou a equipa num discurso correcto. (mensagem no telemóvel: Muitos muitos parabéns... Ainda a digerir :-)
Quase atropelou um miúdo esgrouviado na passadeira. (pálpebras a pesar)
Tomou um duche quente, custando-lhe o acordar. (água com pouca pressão)
Combinou um ovo mexido em manteiga com atum em lata. (não gostou... empanturrou-se com batatas fritas do pacote)
Assinou meia dúzia de missivas completando o legado. (caneta de tinta permanente a ameaçar ficar sem tinta)
Desceu no elevador compondo o cabelo com a mão. (mensagem no telemóvel: Tem um cachecol muita giro :p)
Petrificou a equipa num discurso correcto. (mensagem no telemóvel: Muitos muitos parabéns... Ainda a digerir :-)
Quase atropelou um miúdo esgrouviado na passadeira. (pálpebras a pesar)
ao nível do mar
Sentia sono mas apetecia-lhe o calor reconfortante do abraço, como quem sente o ar frio vindo do alto da montanha, projectado contra o nariz, e descobre que é capaz de respirar fundo para, em seguida, deitar cá para fora palavras sentidas, capazes de serem ouvidas na altitude e ao nível do mar.
Thursday, February 3, 2011
Wednesday, February 2, 2011
exacto
Eu, em estado cansado acumulado e melancólico, ponho-me a ler Fevereiro e já havia tanto ali, apesar de tudo o que estava por descobrir e do tanto que havia para mudar a minha vida.
Para o dilema as soluções são múltiplas, mais que muitas, o que importa é o resultado e esse é exacto.
Para o dilema as soluções são múltiplas, mais que muitas, o que importa é o resultado e esse é exacto.
Monday, January 31, 2011
music
E há esta música que foi a primeira do nosso concerto. Eu e tu descontraídos, tão encantados um com o outro. Oblívios a tudo o que nos rodeava. Absolutamente expectantes com o que o futuro, bom, nos reservava mas concentrados apenas no presente, de mãos dadas. Maravilhosos, eu e tu, miúda, muito tranquilos como só os amantes quando se começam a conhecer bem, alcançam. E eu, miúda, quando ouço esta música, desejo tanto que tivéssemos uma fotografia das nossas expressões apaixonadas, para hoje retomarmos o que é inexplicavelmente nosso.
Don't tell me
It's another likely story
Could've pinned it on you from the start
Well I’m new here
Doesn't mean I have to answer
Silly questions or a shot in the dark
You know I’m a child
I keep this alive
It gets harder
I remember to remember
Waking up again all over again
If there's an echo
Repeat days I’d likely let go
And be the changes we are noticing
When we're running wild
We keep this alive
Still I wonder
Sights around us fade and underneath
The ground shakes, things fall apart
And no other than the voice of one another
Keeps us safely moving on in the dark
You know I’m a child
I keep this alive
Don't tell me
It's another likely story
Could've pinned it on you from the start
Well I’m new here
Doesn't mean I have to answer
Silly questions or a shot in the dark
You know I’m a child
I keep this alive
It gets harder
I remember to remember
Waking up again all over again
If there's an echo
Repeat days I’d likely let go
And be the changes we are noticing
When we're running wild
We keep this alive
Still I wonder
Sights around us fade and underneath
The ground shakes, things fall apart
And no other than the voice of one another
Keeps us safely moving on in the dark
You know I’m a child
I keep this alive
Sunday, January 30, 2011
os meninos
No outro dia saí à rua, a seguir ao almoço, para fumar um cigarro junto às colunas, como nunca faço. E estava entretido a ver o meu próprio sorriso, narciso, reflectido nas portas de vidro do outro lado da rua, quando se aproxima um mendigo que quase sem voz me pergunta se lhe dava algo para ele comer. E eu penso para comigo que o mínimo que tenho são notas de 10 e digo-lhe que não. E observo-o pelo canto do olho a cirandar por ali e a receber mais “nãos” entre os fumadores habituais ou de ocasião. E passado um bocado, quando termino o meu cigarro, dou com ele a dialogar, já com a voz desperta, com o seu próprio reflexo numa outra porta de vidro, narciso: “… isto é só meninos, cheios de valores... Tivessem passado pelo mesmo que eu e logo viam…”. E lembrei-me da minha conversa fácil, de menino, de que não há crise nenhuma, e espetei-lhe com uma nota de 20 entre as mãos abertas em concha.
turbilhão
Tu sentes subitamente frio quando aterras na cidade e estão 6 graus.
Tu sentes-te triste quando a tua mãe te dá um abraço sentido para te informar que alguém partiu.
Tu sentes-te esquecido quando reencontras uma mulher que já tomaste como a miúda perfeita, há muitos anos atrás, e a confundes com a mãe dela.
Tu sentes-te revoltado quando observas os rostos dos que te são próximos marcados pelas lágrimas dos dias que passaram e não podes mais do que passar-lhes a mão pelos ombros caídos.
Tu sentes-te sem palavras quando o ouves a ler na missa com a voz trémula e sabes que para ele o ano que passou foi horribilis.
Tu sentes-te mal quando anuncias a novidade e uma amiga fica petrificada.
Tu sentes-te acordado quando sonhas com o jogo dos vossos corpos em movimentos feitos de uma intensidade perfeita.
Tu sentes-te impotente quando interpretam o teu sorriso quase sempre aberto como um efeito de deslumbramento.
Tu sentes-te confiante quando sabes que não tens a resposta mas que há sempre uma solução melhor.
Tu sentes-te triste quando a tua mãe te dá um abraço sentido para te informar que alguém partiu.
Tu sentes-te esquecido quando reencontras uma mulher que já tomaste como a miúda perfeita, há muitos anos atrás, e a confundes com a mãe dela.
Tu sentes-te revoltado quando observas os rostos dos que te são próximos marcados pelas lágrimas dos dias que passaram e não podes mais do que passar-lhes a mão pelos ombros caídos.
Tu sentes-te sem palavras quando o ouves a ler na missa com a voz trémula e sabes que para ele o ano que passou foi horribilis.
Tu sentes-te mal quando anuncias a novidade e uma amiga fica petrificada.
Tu sentes-te acordado quando sonhas com o jogo dos vossos corpos em movimentos feitos de uma intensidade perfeita.
Tu sentes-te impotente quando interpretam o teu sorriso quase sempre aberto como um efeito de deslumbramento.
Tu sentes-te confiante quando sabes que não tens a resposta mas que há sempre uma solução melhor.
a dupla dos verbos
Ele - Sabes, apetece-me ter uma relação “real” contigo.
Ela - Se pões as coisas assim, também quero querer isso...
Ela - Se pões as coisas assim, também quero querer isso...
Tuesday, January 25, 2011
Do amor e outros demónios
Não lhe chegava o desassossego do amor empolado pela distância, ainda tinha que despertar para uma insónia brutal a meio da noite.
Ligou a televisão e saiu-lhe o início de um bom filme que nunca tinha visto: “Before the devil knows you're dead” do Sidney Lumet.
Prendeu-o por mais de duas horas, à conta da história bem engendrada e do cliché da Marisa Tomei, mais uma diva de segurança para o que sabe bem.
Felizmente, amanhã é dia de aniversário do Tom Jobim, descobriu pelo Google.
Ligou a televisão e saiu-lhe o início de um bom filme que nunca tinha visto: “Before the devil knows you're dead” do Sidney Lumet.
Prendeu-o por mais de duas horas, à conta da história bem engendrada e do cliché da Marisa Tomei, mais uma diva de segurança para o que sabe bem.
Felizmente, amanhã é dia de aniversário do Tom Jobim, descobriu pelo Google.
Ah!, se eu pudesse te encontrar serena
Eu juro, pegaria sua mão pequena
E juntos vendo o mar
Dizendo aquilo tudo, quase sem falar
Eu juro, pegaria sua mão pequena
E juntos vendo o mar
Dizendo aquilo tudo, quase sem falar
Monday, January 24, 2011
a trovoada
De cada vez que desaba a trovoada com raios de luz sobre os arranha-céus, que tem sido muitas vezes nestes dias, lembro-me de ti a dizeres que gostas muito disto.
Sunday, January 23, 2011
do Facebook e o outro
Entre as opções só considero duas: o filme do Facebook e o outro. Com a minha tendência, pretensiosa, para o intelectual escolho o outro. É um filme fácil, com o Michael Douglas. O Michael começa a parecer-me um melhor actor – mas eu já vou no 5º whisky e entretanto troquei o Dewars pelo Glenfiddich –, para além das oportunidades que teve de contracenar com actrizes boas. Também entram o puto do Facebook e o Danny DeVito – porque será que os baixinhos gordos são sempre bem-humorados? O filme tem alguns silêncios estranhos que me fazem duvidar sobre o bom funcionamento dos auscultadores, mas a “cenas tantas” sai esta barbaridade ao Michael: “No one over forty is thick-thin really, trust me” – não se podem dizer estas coisas quando se contracena com a Marie-Louise Parker e eu próprio conheço quem desafie o postulado. Mas o bom do Michael, que faz um bom papel, óbvio e escorreito para lá da crise da meia-idade, é a conclusão que oferece ao puto do Facebook, referindo-se às mulheres: “sometimes you get a good one, they’re rare...”. (creio que é nesta cena que nós os homens choramos, se quiserem experimentar, levem-nos a ver “Solitary Man” – o filme em si não é nada de especial mas vale a pena na mesma)
as garotas e os saltos altos
Incrível como todas as garotas daqui se esforçam por esticar o pernão à custa dos saltos altos. Nem assim te chegam aos calcanhares porque tu és muito à frente.
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