Sunday, September 18, 2011

o mundo é enorme | Bogotá #2

Devo ter estado a sonhar contigo ou então a dormir acordado. De qualquer das formas, acordei a ocupar a cama na diagonal, como faço, às vezes, quando dormimos juntos e tu aqueces os pés contra as minhas pernas. O édredon bom – capaz de me proteger do frio – mas não é o teu, que é ainda melhor. Afinal, o mundo é enorme, colorido e rodeado de montanhas bonitas. Afinal, existem mais lugares capazes de nos surpreenderem, gentes com vidas cheias e bailes com músicas únicas. Afinal, os bonecos sabem dançar com ritmos diferentes, vontades próprias, desejos e ambições. Afinal, a espécie tem um presente, um caminho e a capacidade de querer, ser, mais e melhor. Acordei com um valente torcicolo mas cheio de certezas.

- O que queres para nós?

- Quero o que te vai fazer feliz.

Saturday, September 10, 2011

excertos #8

17

  People stay married because they want to, not because the doors are locked.
- Paul Newman

Sentámo-nos no Cairo e eu pedi uma água com gás e um sumo de limão espremido para deitar por cima. Lembrei-me de quantas vezes já nos tínhamos encontrado assim, nas esplanadas magníficas da cidade aquecida pelo sol e a cheirar à maresia vinda do rio. A Cidade tem esta capacidade de absorver odores estranhos que quando o vento sopra ligeiro lhe dão um carisma único da mistura do Mediterrâneo e do Atlântico. Por vezes, quando respiro este ar, sinto o cheiro da memória árabe combinado com a madeira dos cascos que souberam partir. Enquanto pensava nisto, dei-me conta de que estávamos a ficar mais velhos, maiores. Eu, com a necessidade de absorver as distâncias a que me vinha habituando, o Tomás mais perdido na inconsciência dos filmes acumulados na memória. Somos amigos, do peito, cá de dentro, há tanto tempo que por vezes nos sentimos como gémeos separados nos momentos em que não estamos juntos mas com aquele sentido de ligação que dá um sentido de compreensão à meia-palavra falada, e eu já sentia saudades de deitar cá para fora as minhas.
- Sabes, do que venho absorvendo do mundo, tenho chegado a conclusões interessantes, uma delas prende-se com a razão dos humanos.
- Então?
- Existe um sentido, um caminho, que vamos percorrendo e que em determinado ponto da vida nos conduz à necessidade de equilíbrio. À procura de uma espécie de estabilidade que consideramos maior e essencial.
- Ui, vem aí filosofia de ponta…
- Sim, já sabes como eu sou com o meu sentido de profundidade arrogante. Estou sempre a pretender encontrar mais uma verdade para a vida.
- Lá vais tu…
- Vou, não me importa… Sabes, quando paras numa loja de flores e decides escolher uma combinação perfeita de crisântemos de duas cores para a pessoa que amas e, enquanto o florista de serviço prepara o conjunto, sentes o aroma dos sentimentos que queres para ti? Nesse instante, sentes-te vivo, realmente desperto e com os sentimentos recônditos do peito a chegarem à flor da pele. Então, sabes que estás a ter um cuidado especial, a dedicar toda a tua atenção a alguém que sentes único, como se fosse um superlativo e sabes que não é relativo mas, mesmo sentindo-te lamechas de todo, é isso que queres fazer. Estás concentrado no que sentes e no que queres e isso é excepcional.
- Sim, já vi isso na tela quando o Newman oferece flores à Joanne e ela retribui com um beijo encantador, frontal e pouco cinematográfico, envolvendo-o num abraço apertado de carinho sem sentido para as câmaras mas inteiramente dedicado.
- Pois, foi um desses que me ficou colado há uns dias atrás.


Saturday, September 3, 2011

bem

Não quero os dias que vêm aí. “Tenho-te” no quarto ao lado, adormecida mas confusa com o fuso horário. Vieste e se não fosse real, mesmo a sério, não terias vindo. E se o fuso fosse o da China, seria pior. Com o neurónio perdido, apetecia-me que dormisses, bem, bem agarradinha a mim. Dormir bem com outra pessoa é insofismável e nós, eu e tu, temos os nossos momentos. Dormir bem é, só por si, um gosto de que ambos desfrutamos, quando encontramos os tais “nossos momentos”, experimentados e realizados em ambos os hemisférios. Há quem apelide isto de magnetismo, eu chamo-lhe realizar, completar – que é um dos verbos meus – mesmo quando hesito – este não é um dos meus verbos –, demoro, em ir aninhar-me junto de ti. Mas gosto. Muito.

Friday, September 2, 2011

change your heart and… look around

Se sentían más jóvenes por cada día que pasaba. Se sentían más agiles y recuperaban las facultades de amarse cómo se fueran adolescentes. Sabían que el futuro les reservaba sensaciones para compartir en una vida gloriosa. Él con su obsesión por la escrita creativa y ella con la voluntad de abrazar un destino mayor, más precioso. Buscaban lugares distintos, hermosos y únicos donde besarse y descubrir abrazos con significados nuevos. Los encontraban mirando montañas no antes travesadas, campos con plantas de especies raras y playas asombradas por olas de agua acabada de pasar los múltiplos océanos en sentido contrario al movimiento de la Tierra. Se dejaban fijar los ojos en los ojos, mesclando el verde con el marrón profundo para conformar un color nunca antes visto bajo la envidia del sol.

romance urbano

Tenho esta amiga que me inspira os romances urbanos através das fotografias que tira na companhia do namorado, ambos de óculos escuros não muito “fashion”, ambos com sorrisos abertos e, ambos, sem medo da barba dele, por fazer. Já não são exactamente isso mas parecem uns putos, despreocupados com a vida, regalados com os dias de verão num país que lhes oferece um sol visível à distância e que lhes projecta a sombra sobre a pedra da calçada quente. Ela queria, quis, ser artista de teatro e investiu bastante da vida naquilo. Ele queria ser, foi, durante uns tempos, guitarrista numa banda de 2ª classe. Prometiam-se e cumpriam os encontros nas noites já entradas com a única preocupação de alimentarem o gato que a ambos esperava aninhado no sofá retro da casa partilhada. Dormiam pela manhã, antes de assumirem o volante tantas vezes partilhado do “2 Cavalos” com a capota aberta a caminho de uma praia onde namoram sobre a areia muitas vezes molhada.

Thursday, September 1, 2011

“you can always get what you want, if you try hard”


She - Why does he love her so much? I mean… what is it about her?

He - I don’t know… I guess sometimes you just get it right for the first time and then… it defines your life… it becomes what you are.


(get your ass on the plane, babe)

Wednesday, August 31, 2011

o concurso ou o curso

No meu concurso de ideias sobressaem dois sul-americanos: Oscar Niemeyer – sobre quem já escrevi – e Jorge Luis Borges. Jórgê, este é sobre ti.

Encantaste-me desde as primeiras palavras que te li. Um dia, quando ainda era um miúdo com poucas palavras saboreadas, ofereceram-me este livro de capa trabalhada com os teus melhores textos, misturando a poesia de que não gostava com as tuas ideias substanciais e muitas vezes superlativas. Interpretei-te como um nacionalista simpático e bacoco até ser capaz de compreender que tinhas nascido numa condição diferente num país demasiado arcaico para o que devia ser o mundo real – basta referir que os Argentinos aboliram a escravatura exterminando todos (literalmente) os escravos – e ainda assim foste capaz de proezas para além do verso. En castellano.

“De todos los instrumentos del hombre, el más asombroso es, sin duda, el libro. Los demás son extensiones de su cuerpo. El microscopio, el telescopio, son extensiones de su vista; el teléfono es extensión de la voz; luego tenemos el arado y la espada, extensiones del brazo. Pero el libro es otra cosa: el libro es una extensión de la memoria y de la imaginación.”

“Democracia: es una superstición muy difundida, un abuso de la estadística.”

“Creo que con el tiempo mereceremos no tener gobiernos.”

“Enamorarse es crear una religión cuyo Dios es falible.”

“He sospechado alguna vez que la única cosa sin misterio es la felicidad, porque se justifica por sí sola.”

“La duda es uno de los nombres de la inteligencia.”

“Las palabras son símbolos que postulan una memoria compartida.”

“Morir por una religión es más simple que vivirla con plenitud”

“Que cada hombre construya su propia catedral. ¿Para qué vivir de obras de arte ajenas y antiguas?”

“Todas las teorías son legítimas y ninguna tiene importancia. Lo que importa es lo que se hace con ellas.”
“Uno está enamorado cuando se da cuenta de que otra persona es única.”

“Siempre imaginé que el Paraíso sería algún tipo de biblioteca.”

“Al cabo de los años he observado que la belleza, como la felicidad, es frecuente. No pasa un día en que no estemos, un instante, en el paraíso.”



Tuesday, August 30, 2011

o sonho e o helicóptero

Acordava com a luz a entrar pelo quarto em quantidades pequenas. Sentia o calor do édredon aquecido nos lençóis brancos e do sol a despontar lá fora. Virava-se para o lado e descobri-a no seu lado. Passava-lhe a mão pelo rosto, devagarinho, até lhe envolver os cabelos. Beijava-a um bocadinho acima das bochechas. Ela abria os olhos e a pupila dilatava-se-lhe enquanto se movia para cima do corpo dele, afastando os lençóis e o édredon para trás para ficarem à temperatura perfeita dos seus corpos, numa espécie de abraço bom. “Bom dia, querido”, dizia-lhe, passando-lhe a mão pelos cabelos. E então ele acordou, mesmo, com o ruído de um helicóptero a aterrar no Sheraton mas a lembrar-se do sonho e a querer viver as sensações.

Monday, August 29, 2011

“sometimes a dream is just a dream”

Like a distant piano played by lively hands, my horoscope turned to me and said “sometimes a dream is just a dream” and while reading those words I thought to myself that most people do prefer short stories, avoiding the complexity of longevity (long life).

Sunday, August 28, 2011

da Suécia ou de outro país estrangeiro

Recebo um email(*) improvável da Suécia. Deixa-me mais uma vez a pensar como esta geração, que é a minha, me desilude porque não foi capaz de mais e deixou o país esgotar-se, espalhando-se pelo mundo. Nós, os privilegiados com tudo o que usufruímos do crescimento interno no pré-revolução e das maravilhas da educação no pós-democratização apre(e)ndemos os prazeres da globalização melhor ainda do que os nossos egrégios (bis)avós que se metiam em “cascas-de-noz”. Eles arriscavam o desconhecido, nós só buscamos um destino diferente. Adaptamo-nos com orgulho e, por vezes, com paixão. Somos capazes e estamos preparados para vencer em qualquer lugar, excepto no rectângulo. Ali sentimo-nos reduzidos, menores. Aqui fora, até parece que somos os melhores (maiores). Que falta de ambição ou será condição? E será que vai restar alguém (português) com o discernimento suficiente para puxar a rolha no Alqueva?(**)

(*) que é como quem diz, mensagem no facebook porque já ninguém escreve emails.
(**) que traduz a minha alegoria para fazer afundar o país de vez.

diálogo surreal com o meu blog

O meu blog - Apetece-me fazer asneira...

Eu - Tu tem cuidado, vê lá no que te metes!

O meu blog - Já devias ter aprendido: quem aqui vem, ler o que escreves é, regra geral, gente fútil.

Eu - E então? Como já te expliquei há muito tempo, não escrevo aqui para ser lido. Escrevo porque gosto, porque me apetece.

O meu blog - Sim, sim, engana-te à vontade. Eu cá acho que também és um fútil, senão não me publicavas. Precisas de um público, não há mal nenhum nisso, és humano. Um humano fútil e lamechas, não é nada de mais.

Eu - Meu caro, escrevo muito mais do que tu percebes pelo que publico em ti. Nem sei se reservo o melhor para aqui. Como já te disse, gosto disto, de escrever sobre o que me vai na alma, para mim, para os outros, tanto me dá.

O meu blog - És mesmo lamechas... E fútil.

Eu - Não pá, tu é que ainda não percebeste que és o meu psiquiatra não pago. De borla, estás a perder bom dinheiro. O que tu fazes por mim vale guito e há quem viva disso.

O meu blog - Pá? Parvo! Abusas de mim e ainda deixas os comentários abertos. Estou farto de ser massacrado por comentários anónimos.

Eu - Ahah, também não entendo porque as anónimas se dedicam a ti, se não passas de um virtual, etéreo com menos valor do que uma folha de papel.

O meu blog - Não abuses, olha que eu faço uma queixa ao blogger ou então entro em greve e acabaram-se as borlas.

Eu - Meu querido blog, como tu sabes também há quem aqui venha, quem te leia, e me seja especial.

O meu blog - Meu querido? Tás parvo de todo. Tu cura-te.

Eu - Ok, chega. Por hoje.

Saturday, August 27, 2011

das atiradiças

Saio para jantar no bairro animado cá do sítio. Estou com um humor cão, desesperado por notícias da minha paixão. Perturbado até, faço conversa de circunstância com a gente que me rodeia. Encarno o bottelón com os que pretendem matar saudades. Aproxima-se um grupo de miúdas medianamente giras, despertas pelo som do castellano. Arranham a língua rude para meterem conversa e uma chega-se a mim, perguntando-me de onde venho. Desconverso, já tive a minha dose de miúdas destas. Ela insiste e eu desvio-me. Consulto o Blackberry que pisca e lá estás tu, para me fazeres concluir o que já sabia. Persisto apaixonado.

Friday, August 26, 2011

do facebook, contudo profundo

Com tudo o que não (se) tem passado nos últimos dias da minha vida, sou assolado por uma valente insónia (são raras, regra geral, prefiro sonhar…) e, depois de ter papado um episódio hilário e ainda não visto das desventuras do Hank Moody, duas bananas e uma mão cheia de nozes, dou por mim a navegar pelas frases feitas originais no facebook de um amigo de infância que hoje é um bebedolas e selecciono algumas para pensar mais tarde:

A interacção social é o expoente máximo da natureza egoísta do ser humano. Provém apenas da necessidade do indivíduo de dividir com os outros o fardo de se suportar a si próprio.

Não é que eu não seja uma dádiva de Deus à humanidade, Deus tem é um estranho sentido de humor...

You can only loose as much as you give. Catch 22: In order to win when it really matters, you have to give it all...

A juventude está perdida! Mergulhada no abismo da iniquidade!

If your life seems like a nightmare, it's not your life anymore.

O que é um altruísta? Um egoísta inteligente.

Note to self: ouvir atentamente o que têm para me dizer e ignorar tudo imediatamente a seguir.

A ironia não é uma figura de estilo. É o sadismo divino...

Inteligência emocional - Um paradoxo absurdo para enganar imbecis.

I HAVE A DREAM! Then I wake up and can't remember a thing...

Ajudem-me: se o surreal se tornar quotidiano, permanente e tomar conta do "real", perde o prefixo, certo?

Chover no meu fim-de-semana é falta de respeito!

Porque raio perdem as pessoas tanto tempo à procura de respostas desnecessárias para perguntas irrelevantes?

Brilhante... refugio-me no blog, emborco uns quantos copos de água mineral e já é sexta de manhã. Ah não, são só 4 da madrugada... maldito fuso!

Thursday, August 25, 2011

a fórmula - 1ª tentativa

A felicidade tem uma composição difícil com ingredientes gourmet, especiarias muitas vezes distantes e sensações em castelo. Com uma base sustentada de vida bem vivida, doses acumuladas de boas recordações e uma escolha improvável de amigos capazes de nos encherem o coração. A camada dos amigos pode sujeitar-se a escolhas diferentes ao longo do percurso. Eu já fui mais apologista de que o importante era ter um em cada mão, daqueles verdadeiros a quem sabíamos poder recorrer em qualquer instante. Hoje sou menos ortodoxo, acho que nos fazem mais falta os amigos com vida do que os amigos para a vida. Ainda assim é essencial ter uns quantos que sejam profundos e que nos conheçam no íntimo. Também é necessário termos referências porque à medida que crescemos vamos decifrando com outra capacidade tudo aquilo que nos foram transmitindo sobre os factos da vida, mesmo quando já não estão cá para os consultarmos. Aí entra em jogo o factor memória e a importância do passado que é essencial ter bem arrumado, para vivermos plenamente o presente. Depois, existem as imagens mentalmente fotografadas sem as quais a capacidade de sonhar seria impossível. Para as acumularmos há que viajar, conhecer gente e distinguir com inteligência o importante, do interessante que muitas vezes se confundem. Nisto pesam diferentes perspectivas, de género, de idade e de motivações. Para mim os desafios são relevantes, mas não tem que ser assim para toda a gente. Traçar objectivos muito pensados e regrados pode ser negativo, porque ainda que nos ajudem a definir um rumo retiram a capacidade de nos deixarmos levar quando muitas vezes não há coisa melhor. Sabermos mudar é imprescindível. No recheio das sensações é bom conservarmos umas quantas palavras, músicas, filmes e lugares que temos como especiais, ainda para mais sabendo que provavelmente também o são para mais uns quantos milhões. A felicidade também passa por isso, pela sabedoria de saber partilhar as coisas que tomamos como univocamente nossas. E aqui chegamos à magia do infinito que mesmo sem compreendermos podemos pretender tomar como seguro e sobre o qual cada um pode fazer, sim, a sua interpretação exclusiva. Não devemos é deixar de o aceitar, sem medos. Sem medo, é também o moto de quem quer alcançar algo muito difícil: saber amar. Amar à séria é uma hipérbole bastante irracional e implica acreditar. Implica também, claramente ou obviamente, encontrar o sujeito perfeito, pelo menos aos nossos olhos e não o confundir com um objecto. Filtrando o óbvio, os objectos servem para gostar, são giros, ficam bem ali, transmitem-nos uma sensação de conforto, são agradáveis cheios de design ou cores bonitas. Os sujeitos perfeitos encaixam em nós, movem-se ao ritmo que julgamos ser o nosso, são animados e gostamos da forma como o fazem, sem paralelo. Para se chegar lá, há que esperar, encontrar e conseguir, o absolutamente inexplicável: reciprocidade. E então, chega-se ao mais fácil, porque é só isso que o cupido espera: entusiasmo aos molhos.

Wednesday, August 24, 2011

em modo destrutivo... (alter ego, só porque me apetece)

Enquanto atravessavam o rio ela olhou-o e apaixonou-se mais uma vez com a incerteza de se seria de vez. Naquela noite, a caminho do Bairro, percorreram a Baixa de mãos dadas e quando chegaram ao Rossio ela quis mergulhá-las, juntas, na água da fonte com o simbolismo de que era para sempre. Ele hesitou... Ela pensou: desta vez é que é. Ele pensou no verdume que se sobrepunha à pedra branca. Ela passou-lhe a mão pelo rosto. Ele desejou que fosse a outra. Ela magicou: é a ti que quero... Ele afastou-se, escorregou e partiu o braço. Ela caminhou com ele até São José para o curativo. Ele deixou-se enrolar com o gesso, pensando na sujidade que ia acumular por debaixo do pó branco. Ela insistiu em inscrever-lhe um coração no pano limpo. Ele estimou quantas horas faltavam para o próximo cacilheiro... duas ou três.

Tuesday, August 23, 2011

nós

Temos esta tendência irracional para inventarmos nós. Nós na garganta, nós no peito, nós no estômago, nós em todos os lados. Nós somos complicados e quando já devíamos pensar diferente arranjamos cordel para embaraçar quando o que queríamos mesmo era abraçar. Deixamo-nos enrolar quando devíamos saber melhor, pressentir, saber o que aí vem, com segurança e sem medo, com paixão e convicção. Nós, robustos.

Monday, August 22, 2011

reminiscências do filósofo

Conheci um filósofo na minha vida. Um filósofo daqueles que se dedicava a pensar à séria, a escrever ensaios sobre a vida e a causa das coisas. Vivia no Algarve e deslocava-se a Lisboa de tempos em tempos para sessões e palestras. Vivia sob o patrocínio da Gulbenkian e tinha nome de vegetal mas o neurónio dele não vegetava. Não deixava que eu o tratasse por doutor, por isso eu tratava-o por senhor. Em pequeno, quando o visitava lá no sul, sentava-me no seu colo numa cadeira de baloiço e explicava-me coisas que eu não compreendia muito. Era o meu filósofo de serviço a baloiçar-me enquanto contemplávamos uma figueira com a copa bem aberta e ele dissertava para mim. Depois – lembro-me bem desta cena –, eu pedia-lhe um figo que ele abria cuidadosamente com as mãos grandes mas muito delicadas de quem escrevia em papel com marca d’água – que aliás fazia as minhas delícias quando me deixava descobrir a espécie de escudo com um lápis bem afiado. O senhor filósofo já nos deixou há muitos anos mas a viúva dele envia-me sempre um par de peúgas caneladas pelo Natal e telefona-me nos aniversários.

Sunday, August 21, 2011

130 mil no prolongamento...

Há 20 anos atrás (estou a ficar tão velho...) éramos 130 mil representativos de uma juventude cheia de esperança, um bocadinho fundamentalista e com o futuro tomado por certo. Uma geração imbuída de espírito de graça e carregada dos primeiros valores fúteis do pós-modernismo. “Baby boomers”, Generation X e com roupas de marca. Crescidos antes dos efeitos da globalização e do aquecimento global. Precoces nos sentimentos, sem acesso a mais do que 2 canais de televisão e habituados ao conforto dos milhões que vinham da CEE. Vibrámos com o sucesso dos da nossa geração e saímos para a rua em festejo, antes da mariquice consumista das bandeiras nacionais pespegadas nas varandas. Éramos, fomos, felizes num breve período de tempo em que os telemóveis ainda não eram propriamente portáteis e os carros que herdávamos não tinham direcção assistida nem ar condicionado. Por isso, as saídas para a praia faziam-se de janelas abertas a comer poeira, e as saídas à noite concentravam-se no Bananas ao som foleiro do Phil Collins. À porta, os mais rebeldes tinham DTs e outros entretinham-se em cenas de pancadaria fratricida. Naquela noite não, saímos do estádio em correria alegre a comemorar sem pensar no Marquês como ponto de concentração (naquela altura, aquilo era mais a Rotunda!). Entre a multidão, lembro-me de ter encontrado 20 amigos de quem hoje só sei novidades através do facebook, uma ex-namorada às cavalitas do actual marido e o Eusébio muito perfumado ao pé do Fonte Nova, a quem apertei a mão com emoção. Hoje, por terras do adversário, estamos no prolongamento...

Friday, August 19, 2011

2ª vez

Contrary to love, good movies never satisfy you the 2nd time around. Rewatching “Palermo Shooting” (with Giovanna Mezzogiorno), while tasting a new kind of mint & chocolate chip ice-cream.

Love is wonderful, the second time around
Just as wonderful, with both feet on the ground
It's that second time you hear your love song sung
Makes you think perhaps that love, like youth, is wasted, is wasted on the young

Love's more comfortable the second time you fall
Like a friendly home the second time you call
Who can say, what wrought us to this miracle we've found

There are those who'd bet
Love comes but once - and yet
I'm oh so glad we met
The second time around


Rickie Lee Jones - The Second Time Around

Thursday, August 18, 2011

sensações a 37.000 pés, sem nuvens e em classe executiva

Abro a janela. A 37.000 pés vejo o reflexo da lua sobre o Volga e os seus afluentes. Imagino o formato da Crimeia, vislumbrado através do vidro numa noite pacata como esta região conheceu poucas. Passamos ao largo de Baku e vejo o Cáspio como o grande lago que é. Tu mexeste-te e eu ocupo-me de ti (gosto tanto deste meu verbo quase novo: “ocupar-me de ti” – gosto que ocupe a minha vida, traz-lhe um significado bom), passo-te a mão pelo rosto e faço-te festinhas dedicadas pelo corpo todo, enquanto te ofereço o “tapa-olhos” exclusivo, com carinho.