Wednesday, September 21, 2011

Égoiste - as coisas que as mulheres não sabem como os homens gostam (post de borla!)


Sem surpresas, os homens gostam de tudo o que vos faz femininas, com ênfase nos pequenos pormenores, mas sem conhecerem o trabalho que deram a alcançar.
Sim, da lingerie que vos assenta na perfeição mas sem a noção dos dias que demoraram a encontrá-la e das horas que passaram a namorá-la.
Sim, das unhas bem pintadas mas sem saberem que se trata do Chanel 473.
Sim, do vestido negro que vos realça as formas mas sem imaginarem as sobremesas de que abdicaram para nele caberem.
Sim, do veludo da vossa pele mas sem vislumbrarem os boiões de creme que lhe dedicaram.
Sim, do tom único do vosso cabelo mas sem conceberem que implicou 4 horas passadas no cabelereiro.
Sim, os homens conseguem ser uns fúteis e deixam-se levar muito pela imagem, desde que seja cuidada, bem cheirosa e resplandecente. Não, os homens não querem saber para nada do que vos custou consegui-la e muito menos terem que opinar a pedido. Não há cá “gostas mais deste do que do trazia ontem?”, “ajudas-me a escolher o vestido?” ou “o que achas do meu novo corte de cabelo?”.
E sim, gostamos de vocês assim. De verdade.

Sunday, September 18, 2011

o mundo é enorme | Bogotá #2

Devo ter estado a sonhar contigo ou então a dormir acordado. De qualquer das formas, acordei a ocupar a cama na diagonal, como faço, às vezes, quando dormimos juntos e tu aqueces os pés contra as minhas pernas. O édredon bom – capaz de me proteger do frio – mas não é o teu, que é ainda melhor. Afinal, o mundo é enorme, colorido e rodeado de montanhas bonitas. Afinal, existem mais lugares capazes de nos surpreenderem, gentes com vidas cheias e bailes com músicas únicas. Afinal, os bonecos sabem dançar com ritmos diferentes, vontades próprias, desejos e ambições. Afinal, a espécie tem um presente, um caminho e a capacidade de querer, ser, mais e melhor. Acordei com um valente torcicolo mas cheio de certezas.

- O que queres para nós?

- Quero o que te vai fazer feliz.

Saturday, September 10, 2011

excertos #8

17

  People stay married because they want to, not because the doors are locked.
- Paul Newman

Sentámo-nos no Cairo e eu pedi uma água com gás e um sumo de limão espremido para deitar por cima. Lembrei-me de quantas vezes já nos tínhamos encontrado assim, nas esplanadas magníficas da cidade aquecida pelo sol e a cheirar à maresia vinda do rio. A Cidade tem esta capacidade de absorver odores estranhos que quando o vento sopra ligeiro lhe dão um carisma único da mistura do Mediterrâneo e do Atlântico. Por vezes, quando respiro este ar, sinto o cheiro da memória árabe combinado com a madeira dos cascos que souberam partir. Enquanto pensava nisto, dei-me conta de que estávamos a ficar mais velhos, maiores. Eu, com a necessidade de absorver as distâncias a que me vinha habituando, o Tomás mais perdido na inconsciência dos filmes acumulados na memória. Somos amigos, do peito, cá de dentro, há tanto tempo que por vezes nos sentimos como gémeos separados nos momentos em que não estamos juntos mas com aquele sentido de ligação que dá um sentido de compreensão à meia-palavra falada, e eu já sentia saudades de deitar cá para fora as minhas.
- Sabes, do que venho absorvendo do mundo, tenho chegado a conclusões interessantes, uma delas prende-se com a razão dos humanos.
- Então?
- Existe um sentido, um caminho, que vamos percorrendo e que em determinado ponto da vida nos conduz à necessidade de equilíbrio. À procura de uma espécie de estabilidade que consideramos maior e essencial.
- Ui, vem aí filosofia de ponta…
- Sim, já sabes como eu sou com o meu sentido de profundidade arrogante. Estou sempre a pretender encontrar mais uma verdade para a vida.
- Lá vais tu…
- Vou, não me importa… Sabes, quando paras numa loja de flores e decides escolher uma combinação perfeita de crisântemos de duas cores para a pessoa que amas e, enquanto o florista de serviço prepara o conjunto, sentes o aroma dos sentimentos que queres para ti? Nesse instante, sentes-te vivo, realmente desperto e com os sentimentos recônditos do peito a chegarem à flor da pele. Então, sabes que estás a ter um cuidado especial, a dedicar toda a tua atenção a alguém que sentes único, como se fosse um superlativo e sabes que não é relativo mas, mesmo sentindo-te lamechas de todo, é isso que queres fazer. Estás concentrado no que sentes e no que queres e isso é excepcional.
- Sim, já vi isso na tela quando o Newman oferece flores à Joanne e ela retribui com um beijo encantador, frontal e pouco cinematográfico, envolvendo-o num abraço apertado de carinho sem sentido para as câmaras mas inteiramente dedicado.
- Pois, foi um desses que me ficou colado há uns dias atrás.


Saturday, September 3, 2011

bem

Não quero os dias que vêm aí. “Tenho-te” no quarto ao lado, adormecida mas confusa com o fuso horário. Vieste e se não fosse real, mesmo a sério, não terias vindo. E se o fuso fosse o da China, seria pior. Com o neurónio perdido, apetecia-me que dormisses, bem, bem agarradinha a mim. Dormir bem com outra pessoa é insofismável e nós, eu e tu, temos os nossos momentos. Dormir bem é, só por si, um gosto de que ambos desfrutamos, quando encontramos os tais “nossos momentos”, experimentados e realizados em ambos os hemisférios. Há quem apelide isto de magnetismo, eu chamo-lhe realizar, completar – que é um dos verbos meus – mesmo quando hesito – este não é um dos meus verbos –, demoro, em ir aninhar-me junto de ti. Mas gosto. Muito.

Friday, September 2, 2011

change your heart and… look around

Se sentían más jóvenes por cada día que pasaba. Se sentían más agiles y recuperaban las facultades de amarse cómo se fueran adolescentes. Sabían que el futuro les reservaba sensaciones para compartir en una vida gloriosa. Él con su obsesión por la escrita creativa y ella con la voluntad de abrazar un destino mayor, más precioso. Buscaban lugares distintos, hermosos y únicos donde besarse y descubrir abrazos con significados nuevos. Los encontraban mirando montañas no antes travesadas, campos con plantas de especies raras y playas asombradas por olas de agua acabada de pasar los múltiplos océanos en sentido contrario al movimiento de la Tierra. Se dejaban fijar los ojos en los ojos, mesclando el verde con el marrón profundo para conformar un color nunca antes visto bajo la envidia del sol.

romance urbano

Tenho esta amiga que me inspira os romances urbanos através das fotografias que tira na companhia do namorado, ambos de óculos escuros não muito “fashion”, ambos com sorrisos abertos e, ambos, sem medo da barba dele, por fazer. Já não são exactamente isso mas parecem uns putos, despreocupados com a vida, regalados com os dias de verão num país que lhes oferece um sol visível à distância e que lhes projecta a sombra sobre a pedra da calçada quente. Ela queria, quis, ser artista de teatro e investiu bastante da vida naquilo. Ele queria ser, foi, durante uns tempos, guitarrista numa banda de 2ª classe. Prometiam-se e cumpriam os encontros nas noites já entradas com a única preocupação de alimentarem o gato que a ambos esperava aninhado no sofá retro da casa partilhada. Dormiam pela manhã, antes de assumirem o volante tantas vezes partilhado do “2 Cavalos” com a capota aberta a caminho de uma praia onde namoram sobre a areia muitas vezes molhada.

Thursday, September 1, 2011

“you can always get what you want, if you try hard”


She - Why does he love her so much? I mean… what is it about her?

He - I don’t know… I guess sometimes you just get it right for the first time and then… it defines your life… it becomes what you are.


(get your ass on the plane, babe)

Wednesday, August 31, 2011

o concurso ou o curso

No meu concurso de ideias sobressaem dois sul-americanos: Oscar Niemeyer – sobre quem já escrevi – e Jorge Luis Borges. Jórgê, este é sobre ti.

Encantaste-me desde as primeiras palavras que te li. Um dia, quando ainda era um miúdo com poucas palavras saboreadas, ofereceram-me este livro de capa trabalhada com os teus melhores textos, misturando a poesia de que não gostava com as tuas ideias substanciais e muitas vezes superlativas. Interpretei-te como um nacionalista simpático e bacoco até ser capaz de compreender que tinhas nascido numa condição diferente num país demasiado arcaico para o que devia ser o mundo real – basta referir que os Argentinos aboliram a escravatura exterminando todos (literalmente) os escravos – e ainda assim foste capaz de proezas para além do verso. En castellano.

“De todos los instrumentos del hombre, el más asombroso es, sin duda, el libro. Los demás son extensiones de su cuerpo. El microscopio, el telescopio, son extensiones de su vista; el teléfono es extensión de la voz; luego tenemos el arado y la espada, extensiones del brazo. Pero el libro es otra cosa: el libro es una extensión de la memoria y de la imaginación.”

“Democracia: es una superstición muy difundida, un abuso de la estadística.”

“Creo que con el tiempo mereceremos no tener gobiernos.”

“Enamorarse es crear una religión cuyo Dios es falible.”

“He sospechado alguna vez que la única cosa sin misterio es la felicidad, porque se justifica por sí sola.”

“La duda es uno de los nombres de la inteligencia.”

“Las palabras son símbolos que postulan una memoria compartida.”

“Morir por una religión es más simple que vivirla con plenitud”

“Que cada hombre construya su propia catedral. ¿Para qué vivir de obras de arte ajenas y antiguas?”

“Todas las teorías son legítimas y ninguna tiene importancia. Lo que importa es lo que se hace con ellas.”
“Uno está enamorado cuando se da cuenta de que otra persona es única.”

“Siempre imaginé que el Paraíso sería algún tipo de biblioteca.”

“Al cabo de los años he observado que la belleza, como la felicidad, es frecuente. No pasa un día en que no estemos, un instante, en el paraíso.”



Tuesday, August 30, 2011

o sonho e o helicóptero

Acordava com a luz a entrar pelo quarto em quantidades pequenas. Sentia o calor do édredon aquecido nos lençóis brancos e do sol a despontar lá fora. Virava-se para o lado e descobri-a no seu lado. Passava-lhe a mão pelo rosto, devagarinho, até lhe envolver os cabelos. Beijava-a um bocadinho acima das bochechas. Ela abria os olhos e a pupila dilatava-se-lhe enquanto se movia para cima do corpo dele, afastando os lençóis e o édredon para trás para ficarem à temperatura perfeita dos seus corpos, numa espécie de abraço bom. “Bom dia, querido”, dizia-lhe, passando-lhe a mão pelos cabelos. E então ele acordou, mesmo, com o ruído de um helicóptero a aterrar no Sheraton mas a lembrar-se do sonho e a querer viver as sensações.

Monday, August 29, 2011

“sometimes a dream is just a dream”

Like a distant piano played by lively hands, my horoscope turned to me and said “sometimes a dream is just a dream” and while reading those words I thought to myself that most people do prefer short stories, avoiding the complexity of longevity (long life).

Sunday, August 28, 2011

da Suécia ou de outro país estrangeiro

Recebo um email(*) improvável da Suécia. Deixa-me mais uma vez a pensar como esta geração, que é a minha, me desilude porque não foi capaz de mais e deixou o país esgotar-se, espalhando-se pelo mundo. Nós, os privilegiados com tudo o que usufruímos do crescimento interno no pré-revolução e das maravilhas da educação no pós-democratização apre(e)ndemos os prazeres da globalização melhor ainda do que os nossos egrégios (bis)avós que se metiam em “cascas-de-noz”. Eles arriscavam o desconhecido, nós só buscamos um destino diferente. Adaptamo-nos com orgulho e, por vezes, com paixão. Somos capazes e estamos preparados para vencer em qualquer lugar, excepto no rectângulo. Ali sentimo-nos reduzidos, menores. Aqui fora, até parece que somos os melhores (maiores). Que falta de ambição ou será condição? E será que vai restar alguém (português) com o discernimento suficiente para puxar a rolha no Alqueva?(**)

(*) que é como quem diz, mensagem no facebook porque já ninguém escreve emails.
(**) que traduz a minha alegoria para fazer afundar o país de vez.

diálogo surreal com o meu blog

O meu blog - Apetece-me fazer asneira...

Eu - Tu tem cuidado, vê lá no que te metes!

O meu blog - Já devias ter aprendido: quem aqui vem, ler o que escreves é, regra geral, gente fútil.

Eu - E então? Como já te expliquei há muito tempo, não escrevo aqui para ser lido. Escrevo porque gosto, porque me apetece.

O meu blog - Sim, sim, engana-te à vontade. Eu cá acho que também és um fútil, senão não me publicavas. Precisas de um público, não há mal nenhum nisso, és humano. Um humano fútil e lamechas, não é nada de mais.

Eu - Meu caro, escrevo muito mais do que tu percebes pelo que publico em ti. Nem sei se reservo o melhor para aqui. Como já te disse, gosto disto, de escrever sobre o que me vai na alma, para mim, para os outros, tanto me dá.

O meu blog - És mesmo lamechas... E fútil.

Eu - Não pá, tu é que ainda não percebeste que és o meu psiquiatra não pago. De borla, estás a perder bom dinheiro. O que tu fazes por mim vale guito e há quem viva disso.

O meu blog - Pá? Parvo! Abusas de mim e ainda deixas os comentários abertos. Estou farto de ser massacrado por comentários anónimos.

Eu - Ahah, também não entendo porque as anónimas se dedicam a ti, se não passas de um virtual, etéreo com menos valor do que uma folha de papel.

O meu blog - Não abuses, olha que eu faço uma queixa ao blogger ou então entro em greve e acabaram-se as borlas.

Eu - Meu querido blog, como tu sabes também há quem aqui venha, quem te leia, e me seja especial.

O meu blog - Meu querido? Tás parvo de todo. Tu cura-te.

Eu - Ok, chega. Por hoje.

Saturday, August 27, 2011

das atiradiças

Saio para jantar no bairro animado cá do sítio. Estou com um humor cão, desesperado por notícias da minha paixão. Perturbado até, faço conversa de circunstância com a gente que me rodeia. Encarno o bottelón com os que pretendem matar saudades. Aproxima-se um grupo de miúdas medianamente giras, despertas pelo som do castellano. Arranham a língua rude para meterem conversa e uma chega-se a mim, perguntando-me de onde venho. Desconverso, já tive a minha dose de miúdas destas. Ela insiste e eu desvio-me. Consulto o Blackberry que pisca e lá estás tu, para me fazeres concluir o que já sabia. Persisto apaixonado.

Friday, August 26, 2011

do facebook, contudo profundo

Com tudo o que não (se) tem passado nos últimos dias da minha vida, sou assolado por uma valente insónia (são raras, regra geral, prefiro sonhar…) e, depois de ter papado um episódio hilário e ainda não visto das desventuras do Hank Moody, duas bananas e uma mão cheia de nozes, dou por mim a navegar pelas frases feitas originais no facebook de um amigo de infância que hoje é um bebedolas e selecciono algumas para pensar mais tarde:

A interacção social é o expoente máximo da natureza egoísta do ser humano. Provém apenas da necessidade do indivíduo de dividir com os outros o fardo de se suportar a si próprio.

Não é que eu não seja uma dádiva de Deus à humanidade, Deus tem é um estranho sentido de humor...

You can only loose as much as you give. Catch 22: In order to win when it really matters, you have to give it all...

A juventude está perdida! Mergulhada no abismo da iniquidade!

If your life seems like a nightmare, it's not your life anymore.

O que é um altruísta? Um egoísta inteligente.

Note to self: ouvir atentamente o que têm para me dizer e ignorar tudo imediatamente a seguir.

A ironia não é uma figura de estilo. É o sadismo divino...

Inteligência emocional - Um paradoxo absurdo para enganar imbecis.

I HAVE A DREAM! Then I wake up and can't remember a thing...

Ajudem-me: se o surreal se tornar quotidiano, permanente e tomar conta do "real", perde o prefixo, certo?

Chover no meu fim-de-semana é falta de respeito!

Porque raio perdem as pessoas tanto tempo à procura de respostas desnecessárias para perguntas irrelevantes?

Brilhante... refugio-me no blog, emborco uns quantos copos de água mineral e já é sexta de manhã. Ah não, são só 4 da madrugada... maldito fuso!

Thursday, August 25, 2011

a fórmula - 1ª tentativa

A felicidade tem uma composição difícil com ingredientes gourmet, especiarias muitas vezes distantes e sensações em castelo. Com uma base sustentada de vida bem vivida, doses acumuladas de boas recordações e uma escolha improvável de amigos capazes de nos encherem o coração. A camada dos amigos pode sujeitar-se a escolhas diferentes ao longo do percurso. Eu já fui mais apologista de que o importante era ter um em cada mão, daqueles verdadeiros a quem sabíamos poder recorrer em qualquer instante. Hoje sou menos ortodoxo, acho que nos fazem mais falta os amigos com vida do que os amigos para a vida. Ainda assim é essencial ter uns quantos que sejam profundos e que nos conheçam no íntimo. Também é necessário termos referências porque à medida que crescemos vamos decifrando com outra capacidade tudo aquilo que nos foram transmitindo sobre os factos da vida, mesmo quando já não estão cá para os consultarmos. Aí entra em jogo o factor memória e a importância do passado que é essencial ter bem arrumado, para vivermos plenamente o presente. Depois, existem as imagens mentalmente fotografadas sem as quais a capacidade de sonhar seria impossível. Para as acumularmos há que viajar, conhecer gente e distinguir com inteligência o importante, do interessante que muitas vezes se confundem. Nisto pesam diferentes perspectivas, de género, de idade e de motivações. Para mim os desafios são relevantes, mas não tem que ser assim para toda a gente. Traçar objectivos muito pensados e regrados pode ser negativo, porque ainda que nos ajudem a definir um rumo retiram a capacidade de nos deixarmos levar quando muitas vezes não há coisa melhor. Sabermos mudar é imprescindível. No recheio das sensações é bom conservarmos umas quantas palavras, músicas, filmes e lugares que temos como especiais, ainda para mais sabendo que provavelmente também o são para mais uns quantos milhões. A felicidade também passa por isso, pela sabedoria de saber partilhar as coisas que tomamos como univocamente nossas. E aqui chegamos à magia do infinito que mesmo sem compreendermos podemos pretender tomar como seguro e sobre o qual cada um pode fazer, sim, a sua interpretação exclusiva. Não devemos é deixar de o aceitar, sem medos. Sem medo, é também o moto de quem quer alcançar algo muito difícil: saber amar. Amar à séria é uma hipérbole bastante irracional e implica acreditar. Implica também, claramente ou obviamente, encontrar o sujeito perfeito, pelo menos aos nossos olhos e não o confundir com um objecto. Filtrando o óbvio, os objectos servem para gostar, são giros, ficam bem ali, transmitem-nos uma sensação de conforto, são agradáveis cheios de design ou cores bonitas. Os sujeitos perfeitos encaixam em nós, movem-se ao ritmo que julgamos ser o nosso, são animados e gostamos da forma como o fazem, sem paralelo. Para se chegar lá, há que esperar, encontrar e conseguir, o absolutamente inexplicável: reciprocidade. E então, chega-se ao mais fácil, porque é só isso que o cupido espera: entusiasmo aos molhos.

Wednesday, August 24, 2011

em modo destrutivo... (alter ego, só porque me apetece)

Enquanto atravessavam o rio ela olhou-o e apaixonou-se mais uma vez com a incerteza de se seria de vez. Naquela noite, a caminho do Bairro, percorreram a Baixa de mãos dadas e quando chegaram ao Rossio ela quis mergulhá-las, juntas, na água da fonte com o simbolismo de que era para sempre. Ele hesitou... Ela pensou: desta vez é que é. Ele pensou no verdume que se sobrepunha à pedra branca. Ela passou-lhe a mão pelo rosto. Ele desejou que fosse a outra. Ela magicou: é a ti que quero... Ele afastou-se, escorregou e partiu o braço. Ela caminhou com ele até São José para o curativo. Ele deixou-se enrolar com o gesso, pensando na sujidade que ia acumular por debaixo do pó branco. Ela insistiu em inscrever-lhe um coração no pano limpo. Ele estimou quantas horas faltavam para o próximo cacilheiro... duas ou três.

Tuesday, August 23, 2011

nós

Temos esta tendência irracional para inventarmos nós. Nós na garganta, nós no peito, nós no estômago, nós em todos os lados. Nós somos complicados e quando já devíamos pensar diferente arranjamos cordel para embaraçar quando o que queríamos mesmo era abraçar. Deixamo-nos enrolar quando devíamos saber melhor, pressentir, saber o que aí vem, com segurança e sem medo, com paixão e convicção. Nós, robustos.

Monday, August 22, 2011

reminiscências do filósofo

Conheci um filósofo na minha vida. Um filósofo daqueles que se dedicava a pensar à séria, a escrever ensaios sobre a vida e a causa das coisas. Vivia no Algarve e deslocava-se a Lisboa de tempos em tempos para sessões e palestras. Vivia sob o patrocínio da Gulbenkian e tinha nome de vegetal mas o neurónio dele não vegetava. Não deixava que eu o tratasse por doutor, por isso eu tratava-o por senhor. Em pequeno, quando o visitava lá no sul, sentava-me no seu colo numa cadeira de baloiço e explicava-me coisas que eu não compreendia muito. Era o meu filósofo de serviço a baloiçar-me enquanto contemplávamos uma figueira com a copa bem aberta e ele dissertava para mim. Depois – lembro-me bem desta cena –, eu pedia-lhe um figo que ele abria cuidadosamente com as mãos grandes mas muito delicadas de quem escrevia em papel com marca d’água – que aliás fazia as minhas delícias quando me deixava descobrir a espécie de escudo com um lápis bem afiado. O senhor filósofo já nos deixou há muitos anos mas a viúva dele envia-me sempre um par de peúgas caneladas pelo Natal e telefona-me nos aniversários.

Sunday, August 21, 2011

130 mil no prolongamento...

Há 20 anos atrás (estou a ficar tão velho...) éramos 130 mil representativos de uma juventude cheia de esperança, um bocadinho fundamentalista e com o futuro tomado por certo. Uma geração imbuída de espírito de graça e carregada dos primeiros valores fúteis do pós-modernismo. “Baby boomers”, Generation X e com roupas de marca. Crescidos antes dos efeitos da globalização e do aquecimento global. Precoces nos sentimentos, sem acesso a mais do que 2 canais de televisão e habituados ao conforto dos milhões que vinham da CEE. Vibrámos com o sucesso dos da nossa geração e saímos para a rua em festejo, antes da mariquice consumista das bandeiras nacionais pespegadas nas varandas. Éramos, fomos, felizes num breve período de tempo em que os telemóveis ainda não eram propriamente portáteis e os carros que herdávamos não tinham direcção assistida nem ar condicionado. Por isso, as saídas para a praia faziam-se de janelas abertas a comer poeira, e as saídas à noite concentravam-se no Bananas ao som foleiro do Phil Collins. À porta, os mais rebeldes tinham DTs e outros entretinham-se em cenas de pancadaria fratricida. Naquela noite não, saímos do estádio em correria alegre a comemorar sem pensar no Marquês como ponto de concentração (naquela altura, aquilo era mais a Rotunda!). Entre a multidão, lembro-me de ter encontrado 20 amigos de quem hoje só sei novidades através do facebook, uma ex-namorada às cavalitas do actual marido e o Eusébio muito perfumado ao pé do Fonte Nova, a quem apertei a mão com emoção. Hoje, por terras do adversário, estamos no prolongamento...

Friday, August 19, 2011

2ª vez

Contrary to love, good movies never satisfy you the 2nd time around. Rewatching “Palermo Shooting” (with Giovanna Mezzogiorno), while tasting a new kind of mint & chocolate chip ice-cream.

Love is wonderful, the second time around
Just as wonderful, with both feet on the ground
It's that second time you hear your love song sung
Makes you think perhaps that love, like youth, is wasted, is wasted on the young

Love's more comfortable the second time you fall
Like a friendly home the second time you call
Who can say, what wrought us to this miracle we've found

There are those who'd bet
Love comes but once - and yet
I'm oh so glad we met
The second time around


Rickie Lee Jones - The Second Time Around

Thursday, August 18, 2011

sensações a 37.000 pés, sem nuvens e em classe executiva

Abro a janela. A 37.000 pés vejo o reflexo da lua sobre o Volga e os seus afluentes. Imagino o formato da Crimeia, vislumbrado através do vidro numa noite pacata como esta região conheceu poucas. Passamos ao largo de Baku e vejo o Cáspio como o grande lago que é. Tu mexeste-te e eu ocupo-me de ti (gosto tanto deste meu verbo quase novo: “ocupar-me de ti” – gosto que ocupe a minha vida, traz-lhe um significado bom), passo-te a mão pelo rosto e faço-te festinhas dedicadas pelo corpo todo, enquanto te ofereço o “tapa-olhos” exclusivo, com carinho.

Monday, August 15, 2011

Al di là delle nuvole (Par-delà les nuages)

Só por causa deste filme já forcei um desvio até Ferrara que é uma piccola e bellissima città.
Gosto particularmente da primeira história que parece quase infantil mas está repleta de frases deliciosas:

“Io sono bloccata qui nella nebbia.”

“Voci non diventano mai parte di te, come il rumori. Il mare, per esempio. Si finisce per non sentire. Ma una voce, una voce non si può fare ascoltando.”

“- Vogliamo sempre di vivere in immaginazione di qualcuno.
- Forse è il segreto dell innamoramento e tutto ok.”

“Le parole anche se scritte fanno bene... una donna le aspetta, le aspetta sempre!”

a minha receita

Há uns dias atrás, contigo nos meus braços, vi(mos) um programa em que a “deliciosa” Miss Dahl apresentava a receita para os dias de melancolia em múltiplos e muito elaborados pratos cheios de açúcar, demasiada gordura galinácea e horas de água fervida dedicadas à causa culinária, entremeadas por poesia.
Hoje, no meu exclusivo domingo melancólico, quase consegui emular a tipa, depois de demasiadas braçadas no tanque de cloro (até ficar com os dedos engelhados), preparei uma bem temperada salada (pré-lavada, sou adepto), tagliatelli “al dente” com um fio de azeite (português) e uma frigideira com quatro bombons de filet mignon devidamente cobertos de alho seleccionado e bem cortado (sobraram-me os dedos todos). Conclusão: esparramei-me no sofá a rever o “Par-delà les nuages” sem outro sentimento para além da sensação empanturrado.

Sunday, August 14, 2011

o email

Recebo um email que me põe a pensar e, finalmente, me faz chorar. Faz-me bem, estava a precisar. Leio-o com carinho e com cuidado, entrevendo as linhas e interpretando as entrelinhas. Estão a ficar velhotes com as almas mais sensíveis. Perguntam-me por mim, com o dom da preocupação que só lhes cabe a eles. Deixam-me melancólico e profundo como não me sentia há muito. A pensar na vida e no que realmente quero com ela. Faz-me bem. Quero o mundo.

massas

As massas não são spaghetti mas fervem como noodles numa malga de água quente. As massas assustam pelos movimentos condimentados sem deixaram borbulhar as vontades. As massas demasiado fervidas formam uma embrulhada impossível de saborear. As massas mal cozinhadas parecem papas sem sabor. As massas querem-se “al dente”, controladas e com uma pitada de pimenta. No ponto certo as massas também podem ser agradáveis com um fio de azeite selecto para temperar. As massas que não se manifestam são um rastilho pronto a incendiar.


Friday, August 12, 2011

Wunderkind – about a boy

Quando tinha uns 8 anos de idade foi cobaia de um grupo de psicólogos que se deslocaram lá à escola para detectarem traços de genialidade entre as crianças da geração. Era bom aluno, mesmo com a qualificação de “sempre distraído” que teimava em aparecer-lhe nas cadernetas escolares. Foi por isso escolhido e sujeito a uma série de testes que envolviam histórias bem engendradas e a selecção de personagens recortados em pedaços de papel. Depois mostraram-lhe cartolinas com objectos pintados dos reinos animal, vegetal e inanimado, descobrindo que cada vez que lhe mostravam um cogumelo o associava a morango, que cada vez que lhe mostravam um morango o associava a cogumelo, da mesma forma que quando lhe mostraram uma girafa decidiu (conscientemente) chamar-lhe gaivota, e vice-versa (também conscientemente), e mais um confundir qualquer com objectos inanimados com que os decidiu presentear.
Subliminarmente, lá concluíram em colégio que se tratava de um génio, quiçá por causa da dislexia cerebral perante os cartões pintados dos vários reinos. Na realidade só confundia os morangos com cogumelos, embora mais tarde tenha descoberto que também era capaz de confundir reinos diferentes pedindo uma pizza de alcaparras quando o que eu queria mesma eram anchovas – de génio, mesmo...

Thursday, August 11, 2011

Especiarias | espécie de ensaio #1

Ele era realmente capaz de apreciar o complexo como quem degusta, com intensidade, o sabor da pele exposta ao sol e aos aromas de um vento fresco vindo do lado do mar, num verão incaracterístico. Quando alcançava momentos de verdadeira paz de espírito, escrevia-lhe cartas de amor realçado pela sensação afrodisíaca da humidade da monção. Então, dedicava-lhe palavras próprias sentindo-se apaixonado por tudo o que ela lhe permitira descobrir sobre a vida e concluía-se feliz por terem chegado àquele estado. Ele era, definitivamente, arrogante mas também um estóico, perfeito à sua maneira. A idade havia-lhe ensinado que nem sempre a razão estaria do seu lado mas que os caminhos trilhados não significavam apenas um passado, contribuindo também para a certeza das decisões que viriam depois. Assim as confirmações tornavam-se relativas e a confiança ganhava uma energia influenciada pelos astros de que ela afirmava gostar. Foi por isso que persistiram em percorrer o mundo, cada vez mais próximos, encontrando-se em beijos bem carregados nas manhãs em que acordavam juntos.

Wednesday, August 10, 2011

o moreno

Porque será que insistem em dizer-me que estou moreno? Se sabem que vivo entre dois hemisférios e se num deles é quase sempre tempo de praia, para quê revelarem-me o tom da pele? Já sei que estou moreno. Foi da praia pá, mesmo se me pus à sombra. Sempre é melhor que branquelas...


Tuesday, August 9, 2011

helicópteros

Os helicópteros despertam-me da vontade de dormir. Sinto-me quente e cansado das demasiadas viagens que já fiz este ano. Voar a muitos pés de altitude não é natural e o meu corpo não se adapta. Gosto das nuvens vistas de cima, gosto da proximidade ao espaço sideral mas não gosto da sensação da descompressão em formato enlatado. Sinto-me sempre enlatado, como se fosse uma conserva, dentro de um avião.

a miúda dos lacinhos

Conhecida internacionalmente a miúda dos lacinhos deixa-os bem aprontados por onde passa, encantando quem os descobre. São lacinhos que prepara com uma gargalhada marota – enquanto me olha nos olhos – e que oferece a quem os recebe com um sorriso. A miúda e os lacinhos dela são únicos.

o fim da picada

Acho que fui picado por uma abelha – disse-lhe baixinho, enquanto usava a parte metálica de um isqueiro exposta ao sol para tentar remover o ferrão. Ela não o ouviu ou não lhe fez caso.
Naquela noite dormiu incomodado pela ponta do dedo inchada mas deu-lhe a mão às primeiras horas da madrugada, utilizando a sensação de calor para aconchegar os dedos dela.
Horas depois sob efeito da altitude sentiu crescer o inchaço e deu por si a chuchar no dedo. Feio!

Sunday, July 31, 2011

Ousar

Em cada verão quando o calor se sobrepunha ao aconchego dos lençóis a cobrir aquele corpo, ele despertava com a luz do sol e ficava muito quieto a observá-la adormecida, descoberta para a temperatura ambiente. Fixava-lhe todas as linhas, as curvas das costas de design exclusivo, os seios em repouso, o cabelo apanhado mas rebelde, os traços do rosto bonito, os lábios entreabertos em convite e os olhos fechados pelas pestanas concentradas, até estes se abrirem para um “Bom dia”. Então, caminhava pelas pedreiras daquela região encontrando o mais magnífico bloco de pedra que esculpia com lentidão ao longo das tardes que durava o verão. Desenhava cuidadosamente sobre a substância dura as linhas que memorizara em cada manhã, sem sentir os calos que o cinzel lhe provocava nas mãos. Fez assim muitas obras maravilhosas, mais perfeitas de ano para ano que plantava num campo aberto que os elementos e o tempo pareciam não perturbar.

Monday, July 11, 2011

o sentido

Prepararam-se para voar de novo. Malas feitas e muita vontade de partilharem o novo destino, rumo ao nascer do sol e a um fuso horário longínquo, numa nova aventura com “pinta”. Ele com o coração cheio da certeza, pronto a abrir-se num batimento forte e seguro, induzido pelas memórias cinematográficas. Ela com o desejo de se deixar conquistar pelos sentimentos de que já não se lembrava bem. Deram as mãos, as duas, perfazendo quatro sensações em sincronia, e olharam os dois pela vigia com o sentido certo das nuvens.

Saturday, July 9, 2011

irresistível

Faz sol e frio. Espraio-me na tua espreguiçadeira com uma toalha às riscas para me amparar a ronha e um pullover, mais azul do que as riscas, para me aconchegar. Não condiz mas nada condiz sem ti comigo. Observo o mundo pela vista da varanda. Sim, é grande e confuso. Lá fora existem muitas almas que não fazem ideia do que é sentir assim, outras talvez. Tenho muita vontade de ti, isto também faz parte do amor. Adormeço para um pouco de son(h)o. Acordo, pela segunda vez, contigo no pensamento. É irresistível sentir-te sempre presente.

Wednesday, July 6, 2011

eu sou parte do mundo

Ponho-me a pensar em ti. Tu és um jogo de significados que trazem muitas cores à minha vida. Tu és uma mistura de razões e opiniões em tons suaves que me fazem lembrar a única aurora borealis que já vi em sobreposição à vastidão do espaço. Tu és uma estrela pequenina que sobressai entre constelações infinitas. Tu existes, por vezes isolada e subitamente abraçada por todos os que gostam de ti. Tu tens uma personalidade muito forte e entusiasmas-me porque és erudita. Tu sabes certas coisas práticas na vida sobre as quais eu nunca pensei. Tu és capaz de me fazer alterar o rumo para um destino mais interessante. Tu fazes-me sonhar e eu sou parte do mundo.

no sofá

Ele - Imagina que estamos no sofá.
Ela - No sofá? Qual deles?
Ele - Imagina que estás com a cabeça no meu colo e o cabelo muito espraiado.
Ela - Em vez do sofá, pode ser na praia?
Ele - Imagina que eu te estou a fazer festinhas, aleatórias e deliciosas com os dedos por entre os cabelos, no rosto e até à nuca.
Ela - Humm, estás a deixar-me o cabelo oleoso quando eu estava mesmo era a precisar de uma massagem nos tornozelos!
Ele - Imagina que temos a lareira acesa e que sentes o calor reconfortante do movimento das labaredas.
Ela - Bolas, aqui é verão… podemos passar a cena para a praia?
Ele - Imagina que me debruço sobre ti e que sentes o meu cheiro bom.
Ela - Eh pá! Estás todo molhado, já te disse que não gosto que me faças isso depois de dares um mergulho!
Ele - Adoro-te.
Ela - De certeza?
Ele - Sim, com toda a certeza.
Ela - Amo-te, miúdo! E agora vou pedir um sumo.

Tuesday, July 5, 2011

a ponte figurada

Eu queria uma ponte aérea que me levasse daqui até ti sempre que sentíssemos vontade. Eu queria uma ponte aérea com uma manga para partidas rápidas e um terminal de chegadas cheio de oportunidades. Eu queria uma ponte aérea para um voo de minutos no meio das nuvens, mesmo que o avião arriscasse a descolagem na direcção de um morro e a aterragem numa pista encharcada.

Monday, July 4, 2011

alors moutarde

Hoje comprei mostarda de Dijon, da original e da melhor marca (Maille) a um preço exorbitante, imposto pelas taxas de importação. Apesar de serem uns chatos os franceses inventaram coisas mesmo boas, a mostarda original foi uma delas. O amor, “l’amour” expresso, espremido, à francesa também. Em tempos, quando eu hesitava entre a influência anglo-saxónica e a originalidade dos “frogs”, contaste-me muito do que, então, sabias sobre os costumes dos franceses. Naquela época eras feliz e eu gostava da energia que emanavas. Tinhas uma namorada mesmo gira, com cabelos longos que encaracolavam no final dos dias passados na praia. Eu era muito novo e saíamos para a noite que, então, era uma varanda debruçada sobre o mar. Encontrávamos mais amigos e dançávamos as músicas dos 80s, quando então era a época certa. Passámos alguns dias juntos em Paris e, então, mostraste-me outras perspectivas da vida. No outro dia, quando estava por Lisboa, vi-te ao volante do teu Audi de pai de família divorciado, com um ar tristonho de quem deixou a vida passar por entre os dedos. Então, mentalmente, tirei-te uma fotografia que hoje recordei enquanto escolhia o pote de Dijon no supermercado.

Sunday, July 3, 2011

When the world is running down, you make the best of what's still around

O meu tripadvisor assinala 151 locais em 22 países – devem faltar uns quantos, mas acho que os países estão certos.
Comecei a conhecer o mundo ainda miúdo, em saídas de automóvel e comboio pela Europa fora, e depois em voos anteriores às low cost do pós-modernismo.
Entre projectos no exterior e turismo passei 5% da vida fora do meu país – mas não gosto do “citoyen du monde”.
Entre viagens para aqui e para acolá estou a caminho do meu 2º cartão “de ouro”, o que implica bem mais de 140.000 milhas metido em pepinos voadores – um bocadinho mais do que 5 voltas ao planeta.
A pisar continentes, só me falta um, e a Antárctica – mas já me senti pinguim várias vezes (também me falta o Japão, que por si só vale por um continente).
Vivi os tempos áureos da globalização (não creio que lá voltemos) e assumi o papel de highflyer – mas não foi assim que descobri a felicidade.
Com a vantagem de ser Português, sou capaz de me fazer entender perfeitamente em 5 idiomas, com mais 1 ou 2 em jeito desenrascanço – muitas vezes não nos damos conta do poliglotas que somos.
O Mundo, como o fui conhecendo, já me pareceu um sítio mais fascinante. Hoje em dia é demasiado igual, demasiado comum, independentemente do local onde nos encontramos.
A diversidade e a diferenciação – que para mim é um conceito muito importante – perde-se com o tempo presente e o futuro persiste na conspiração.
Quando me ponho a ler as notícias deste Mundo, sinto-me Grego – depois de terem perdido a sophía.

Desafiaste-me para conhecermos um país que, por si mesmo, também já foi um continente, e eu tenho andado a sonhar com encontrar algo realmente diferente.


Friday, July 1, 2011

1991, 20 anni fa!

Ainda era um miúdo e descobri uma cidade encantadora, regressei várias vezes e quero voltar lá.

Cari spettatori,
Amici del variete
Calorissimo pubblico
Buona sera qui al Stella Matto.

Nella prima parte del programma
Venuta direttamente dal Cairo
la famosissima Lolita del Sudan,
una danzatrice del ventre
Accompagnato come sempre
dalla nostra orchestra Paolo Silvestri.
Prego Maestro: a Lei!

Sono Otto, sono Otto di Catania!
Sono arrivato a Roma 20 anni fa.
Sono qui per vivere,
per vivere la mia vita,
per mangiare, per rosso bicchiere di vino.

Per tutti questi giorni
voglio invitare tutti amici mei
Per celebrare la mia vita.

Amici grazie, grazie per venire,
grazie per andare con me
alla caffe Romana.

La via Veneto era molto speciale,
Con Marcello, con Luciano,
Con Verena la Sirena
Grazie per venire
e il mio nome e Otto di Catania:
sono arrivato 20 anni fa!


Otto di Catania – Yello

Thursday, June 30, 2011

sucumbir às saudades

Sucumbo às saudades – sucumbir é um verbo tão estranho – e ponho-me a ver fotografias de ti. Bolas, é que és mesmo gira. Adoro a do chapéu de palha que numa outra versão já me inspirou um texto dos bons em ficção, afinal, realizável. Não sonhei com isto, não o imaginei mas talvez tenha desejado o suficiente para se tornar realidade. Foi assim que desdenhei o “be careful with what you wish” e apostei no “catch your dreams before they slip away”. É que és mesmo tu, sem hesitações e sem questões. Da forma como nos descobrimos e a partir do momento em que nos encontrámos, tu rouca de uma constipação e eu com o sorriso aberto que me plantaste, desde aí e sempre que penso em ti. Ganhaste-me e conquistas-me em cada momento, em cada movimento, caminhada ou corrida, contra o tempo, que damos juntos. É a nossa vida, singular, exclusiva e própria de quem descobre o significado – eu gosto de significados. E isto é uma declaração de amor, consciente, imperturbável, e dedicada, para ti.

Wednesday, June 29, 2011

“a life more ordinary” (a dos outros)

Perguntaste-me no outro dia, por palavras tuas (que agora não recordo), se eles se amavam. Num instante, eu fiquei a pensar no assunto e nos factos que me apresentavas para explicar aquela relação. Nunca me tinha debruçado sobre o assunto. Com as demonstrações, mesmo que assíncronas, de felicidade, o amar, verdadeiro e bom, parece relativo mas naquele instante, observando-nos, a nós, de fora da redoma, eu fiquei a sentir-me orgulhoso. De entre os pecados capitais o pior de todos é o orgulho.

discurso directo

Ele - És tu quem eu quero.

Ela - A sério, estás certo disso?

Ele - Sabes, quando te prometi o mundo? Eu venho incluído.

Ela - És um tretas… mas ainda bem que sentes assim!

do verão a 14ºC

Saio para o trânsito da noite já profunda. Era suposto os dias começarem a ficar já maiores e isso reflectir-se no meu espírito. Não é assim, o maldito solstício oferece promessas que depois não cumpre. E faz frio, muito e daquele que se sente nos ossos. Sentir os ossos não é propriamente uma coisa agradável no corpo de um humano. Para aquecer penso no magnífico campo de flores que te recomendei, que te prometi. Flores de verão num país agora quente e que consegue ser realmente belo. Como tu. Pronto, prontíssimo, já estou outra vez a pensar em ti. Na falta que me fazes a demasiados fusos de distância, noutro continente, de onde só chegam notícias más. Sabes, hoje conversei por uns minutos com um “desiludido da vida” e, mesmo desconfiado, prestei atenção ao que me disse. Foi-me apontando factos que mais do que constatações – que gosto de absorver – me deixaram ainda mais alerta, atento, para o que quero da vida. Para o que quero para a nossa vida. Preciso de dormir, tu também. Dormir é um verbo dos nossos, fácil e bom quando nos permite o encontro que queremos, que desejamos, ao acordarmos.

Tuesday, June 28, 2011

gostar assim

Nunca pensara gostar assim. Aquele amor surgira-lhe sem querer, “out of the blue”, mas com convicção. Bom, real e capaz de lhe encher o coração. Aprendeu a sentir-se bem com a surpresa de cada instante que viviam juntos, com a descoberta de cada momento que dedicavam um ao outro. As palavras e a troca de pensamentos mais ou menos permanentes aguçavam-lhe o desejo. Soube abdicar da autonomia e do egocentrismo que o marcavam até ali, porque ali estava alguém que sabia amar, finalmente. A história não era de filme, era real e consistente, daquelas que se desejam e poucas vezes se alcançam. Sentia-se encantado com a reciprocidade, a maravilha de se terem encontrado, independentemente do tempo em que se viam afastados. O presente é isto e o futuro é para continuar a viver, com mais tempo, sem dúvidas.

Monday, June 27, 2011

fim do mundo

Gosto dos lugares que me fazem sentir perto do fim do mundo. Normalmente são sítios inóspitos de paisagens avassaladoras que terminam no mar ou em montanhas de gelo indómito mais distantes do que o olhar consegue perscrutar.
 

Wednesday, June 22, 2011

go west young man

He didn’t believe in destiny, the stars or premonitions, and yet he was able to understand things, to make sense of most facts in life. He knew what he knew and he didn’t take for granted his journey on that planet orbiting a yellow star embedded in one of the spiral arms of the Milky Way, a galaxy that was itself part of the Virgo supercluster, one of millions of similarly vast entities dotted through the sky. Sometimes, he liked to focus on those terms of infinity, just feeling really, really small for a while. Time was probably the only concept that made him wonder and time away was what made him feel sad. As time passed by and the years started to endure he found out that solstices seemed to break equilibrium and he learned to persist on what is important in his life.

Tuesday, June 21, 2011

thirty-one monkeys

Passei o dia e muito da noite fechado com mais 30 macacos numa reunião que não me dizia respeito, apenas e só porque os primatas desenvolveram ao longo dos séculos esta necessidade de decisões colectivas.
Acabei a comer uma taça de corn flakes, dos originais, que me lembrei de comprar na última visita ao supermercado, como fazia há muitos anos atrás numa fase parva da minha vida.
Quando decidi ir dormir, apetecia-me passar-te a mão pelo rosto e ficar a observar o teu sorriso bom.

Sunday, June 19, 2011

pré-pós-modernismo

En aquel Imperio, el arte de la cartografía logró tal perfección que el mapa de una sola Provincia ocupaba toda una Ciudad, y el mapa del Imperio, toda una Provincia. Con el tiempo, estos mapas desmesurados no satisficieron y los colegios de cartógrafos levantaron un mapa del Imperio, que tenía el tamaño del Imperio y coincidía puntualmente con él. Menos adictas al estudio de la cartografía, las generaciones siguientes entendieron que ese dilatado mapa era inútil y no sin impiedad lo entregaron a las inclemencias del Sol y los Inviernos. En los Desiertos del oeste perduran despedazadas ruinas del mapa, habitadas por animales y por mendigos; en todo el País no hay otra reliquia de las disciplinas geográficas.

“Del rigor en la ciencia”, Jorge Luis Borges

os bonecos

No prédio onde eu vivo agora, existe um boneco enjaulado que não faz mais do que abrir e fechar os portões de acesso à garagem, 24 horas por dia e 7 dias por semana.
Na cidade onde eu vivo agora, vêem-se muitos bonecos, nos passeios, com placards a anunciarem especulação imobiliária para atraírem os visitantes de fim-de-semana.
No país em que eu vivo agora, subsistem demasiados bonecos sem uma perspectiva de futuro para além do viver o dia-a-dia.
No hemisfério em que eu vivo agora, vivem mais bonecos de múltiplas nacionalidades que consideram vida as saídas de sexta e sábado, sem perceberem que os outros também são dias.

“Boneco” é o que eu e o meu companheiro de squash chamamos um ao outro quando falhamos uma bola mesmo fácil. Há uns dias atrás lembrámo-nos disto enquanto jogávamos ao disco, frisbee, num areal perfeito de Portugal.

Friday, June 17, 2011

relaxar rima com amar

Chego a casa e constato o inevitável nestes dias: sinto-me sozinho. Já não gosto disto e não é isto o que quero. Enquanto preparo um bife temperado com um dente de alho mal cortado, “acamado” sobre uma fatia de pão integral que será acompanhado por salada pré-lavada – por estes dias eu sou um fã das vantagens da salada pré-lavada – , vou vendo na tv um programa do Jamie Oliver muito jovem, muito animado e muito empenhado em preparar um “sanduichão” com um aspecto muito mais apetitoso do que o meu jantar. Eu gosto do Jamie assim inspirado, ainda não “gordalhucho” e com gosto no que faz. Também estou a precisar de me sentir assim e “carrego no botão” com a sensação de que, por estes dias, só consigo relaxar porque sei o que é amar com reciprocidade. Ah, e também tenho muito claro quais são as prioridades.

Saturday, June 4, 2011

o manual e o automático

Hoje meti a marcha-atrás esquecendo-me da embraiagem e o carro rugiu em protesto. Surpreendeu-me e numa fracção de segundo o meu neurónio, ainda confuso com a luz do dia às 9h da noite, pensou: que figura de estilo óbvia...
Tudo o que é definitivamente bom na vida não vem com instruções. Aliás, as partes mesmo boas da vida não se alcançam em modo automático mas aprendem-se e apreendem-se sem receios. E hesitar – que é um verbo pouco meu – tem como consequência rebolar ao sabor do mar, quando eu prefiro mergulhar nas ondas atlânticas prestes a rebentarem. E que magnífico dia de praia para amar, sem manual.

Friday, June 3, 2011

tigre aos pulos

Faço contigo coisas que não julgava possíveis e sinto-me como tu quando te sentas no meu colo aos beijos num aeroporto internacional ou me agarras a mão com firmeza num final de tarde em passeio pela rua da moda. Hoje dou por mim com um riso de miúdo - mesmo de miúdo - quando à distância de um braço estendido para um beijo agarrado, me meto contigo no Facebook. És o meu tigre "one and only" e apetecem-me (quero) os passeios de elefante nas Reservas na Índia, contigo.

Wednesday, May 18, 2011

home

Daqui vêem-se algumas estrelas de um hemisfério diferente. Daqui vê-se parte de uma ponte que é bonita e o reflexo de casinhotas estranhas na água de um rio que mais parece um canal. Aqui há um jasmim que vai crescer e três flores, resgatadas por ti, que pretendem continuar a florescer. Daqui vejo a espreguiçadeira onde tu gostas de te espraiar e escutar a cidade. Aqui já há tanto de ti e de mim, de nós, que me faz abrir um sorriso.


There is a house built out of stone
Wooden floors, walls and window sills...
Tables and chairs worn by all of the dust..
This is a place where I don't feel alone
This is a place where I feel at home.......

Cause, I built a home
for you
for me

Monday, May 16, 2011

do amor e da vida (do meu e da minha)

Por vezes sinto-a tão distante que a lógica sobrepassa a razão. Por vezes submete-me à dúvida que me recorda a fase em que achava que era feliz (sem o saber de facto). Por vezes tudo é sensação de algo mais do que admitia possível (e bom). Ela oscila (ambas oscilam) como se me interpretasse fascinado por montanhas-russas quando eu quero mesmo é calmaria (eu sou difícil de interpretar), como naqueles abraços (dados) em que o encontro das costas dela nas minhas mãos (grandes) e o peito aconchegado ao (meu) peito me fazem sentir realmente vivo.

Sunday, May 15, 2011

da alegoria dos marshmallows

Leio um artigo numa revista muito atrasada. Descreve uma experiência simples com humanóides de 4 anos que são deixados sozinhos numa sala com um marshmallow numa mesa e duas opções: i. comer o marshmallow; ii. esperar pelo regresso do “cientista” e ganhar dois marshmallows.
(ver aqui: http://www.youtube.com/watch?v=4ZikfUI0G5o)
Replicada muitas vezes e seguindo os percursos de vida das “cobaias”, a experiência traz resultados estatísticos óbvios: os miúdos que aguardaram pela recompensa dupla, conseguiram melhores resultados na escola, chegaram à universidade e a níveis de rendimento superiores do que os que optaram pela satisfação mais imediata da gula que, naturalmente, vieram a ter problemas de drogas e alcoolismo…
Uma experiência norte-americana, está claro. A replicar com amêndoas de chocolate para saber quem são os espertos.



moradas

Uma das primeiras imagens que guardo da vida é a de descer os degraus de cimento da estação do metropolitano em Sete-Rios pela mão do meu pai e de o fazer voltar para trás quando o metro chegou à estação. Devia ter uns quatro anos e naquela altura o metropolitano de Lisboa começava (ou acabava) ali mesmo, junto ao Jardim Zoológico. Naquela altura eu vivia ao pé de uma Estrada percorrida por eléctricos dos amarelos que não me assustavam e eu gostava de ver passar. Reencontrei os eléctricos, em formato mais moderno, quando vivi junto a uma Diagonal, num tempo em que fui feliz de uma forma muito superficial. Hoje moro ao lado de uma Marginal, onde o corrupio de automóveis, comboios, bicicletas na ciclovia, helicópteros a aterrar e aviões em aproximação é maior do que podia imaginar. Aqui não passam eléctricos e também não se vêem barcos a navegar a espécie de rio mas as possibilidades são maiores.

Saturday, May 14, 2011

do Socialismo – parte II (só para ver se o blogger me censura duas vezes)

Tese experimentada: as sociedades Socialistas são tão boas a fazer embalagens que são impossíveis de abrir!
Imaginem este miúdo desesperado a ter que recorrer a uma faca para abrir a película transparente do maço de Lucky Strike. E isqueiros não há – ainda bem que decidiu comprar fósforos suficientes para uma vida inteira, aaargh!