Thursday, April 13, 2006

Gato-tónico

Vivia sozinho, desde há uns meses, num T1 de paredes castanhas ali para os lados do antigo cinema Mundial que comprara graças à facilidade de crédito que o banco concedia a todos os seus empregados. Incluindo aos empregados de balcão como era o caso de Adriano. Não tinha grandes ambições na vida e sentia-se um pouco perdido desde que se mudara para Lisboa. Deixara para trás os companheiros de meninice da sua terrinha saloia, na esperança de encontrar um futuro diferente. Sentia-se solitário, desterrado no meio de uma cidade atafulhada de gentes durante o dia e vazia de almas quando a noite caía. Faziam-lhe falta os cumprimentos cordiais de quem por ele passava, os “bons-dias” imperfeitos vindos dos rostos que conhecia de toda a vida e que também o reconheciam a ele. Não tinha nada em comum com os colegas, todos com pelo menos mais duas dezenas de primaveras que ele, ou com os clientes carrancudos que atendia. Não pretendia dar parte fraca e, por isso, refugiava-se nos vodkas tónicos, de que se abastecia invariavelmente às três garrafas e duas paletes no supermercado dos bancários ao sábado de manhã, para suportar a aspereza das paredes da sua casa. Ficava para ali com o copo na mão, entre o final do jantar e a hora de se arrastar para a cama, mortificado diante da televisão, inevitavelmente entediante, e fumava também, Lucky Strike’s que comprava diariamente ao sair do trabalho, pelas seis da tarde, num quiosque de esquina cujo proprietário pelo menos o saudava.
Naquela tarde, tomara uma decisão de mudança: arranjar um gato, para companhia, e comprar bilhete para os The Gift no Coliseu. Ao entrar na loja de animais, não reparou de imediato na rapariga do outro lado do balcão. Agripina, debruçada sobre um livro de Estatística Elementar, e passando a mão sobre o piercing que tinha no umbigo, vagueava na leitura do texto do seu horóscopo no jornal de distribuição gratuita que lhe haviam dado à saída do buraco do metro – “…dia propício a encontrar a sua alma-gémea…aceite os convites que lhe fizerem, em particular, para concertos”. (the end)

3 comments:

pinky said...

texto bem giro. gostei!

Som do Silêncio said...

Gostei, parabéns!

polegar said...

mhmmm... my kind of text! muito bonito, sim senhor.