Sunday, January 30, 2011

os meninos

No outro dia saí à rua, a seguir ao almoço, para fumar um cigarro junto às colunas, como nunca faço. E estava entretido a ver o meu próprio sorriso, narciso, reflectido nas portas de vidro do outro lado da rua, quando se aproxima um mendigo que quase sem voz me pergunta se lhe dava algo para ele comer. E eu penso para comigo que o mínimo que tenho são notas de 10 e digo-lhe que não. E observo-o pelo canto do olho a cirandar por ali e a receber mais “nãos” entre os fumadores habituais ou de ocasião. E passado um bocado, quando termino o meu cigarro, dou com ele a dialogar, já com a voz desperta, com o seu próprio reflexo numa outra porta de vidro, narciso: “… isto é só meninos, cheios de valores... Tivessem passado pelo mesmo que eu e logo viam…”. E lembrei-me da minha conversa fácil, de menino, de que não há crise nenhuma, e espetei-lhe com uma nota de 20 entre as mãos abertas em concha.

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