Tuesday, November 8, 2011

Domingo

Chegou com o pacote de tabaco que não há cá e o meu aftershave que lhe pedi do freeshop. Admirei-lhe a coragem e a tenacidade próprias de quem é muito jovem e ainda não sabe tudo o que os anos trazem de bom e de mau transformado em experiência de vida. Conversámos muito sem intimidade mas de forma inteligente, como eu já sentia saudades. Falámos sobre a experiência daqui, comigo a esforçar-me por contornar os factos que não quero que a influenciem na forma como vai interpretar esta cidade e as pessoas que cá vivem. Omiti as partes da minha vida que não contribuiriam para me trazer de volta à realidade desapaixonada, mesmo quando o BB desatou a piscar com uma mensagem da estúpida aplicação enguiçada. Deixei-a no hotel e perdi-me no caminho para casa com outra vontade e com outras certezas.

1901, acho (lamechas)

Acho que sempre quis viver num número 1901. Isso, ou numa casa espaçosa feita de madeira maciça junto a um mar como o das caraíbas, sem grandes paredes e sem insectos a importunar. Acho, que neste caso gravaria na trave de madeira maciça sobre a porta o número 1901 e que lá dentro teria uma Marantz das puras a tocar “Fragments of a Rainy Season”, como se o John Cale estivesse ao piano em exclusivo para nós, para além da chuva a cair de forma tropical, até um amanhecer de sol e mergulhos que associo a ti.

Never win and never lose
There's nothing much to choose
Between the right and wrong
Nothing lost and nothing gained
Still things aren't quite the same
Between you and me

I keep a close watch on this heart of mine
I keep a close watch on this heart of mine

I still hear your voice at night
When I turn out the light
And try to settle down
But there's nothing much I can do
Because I can't live without you
Any way at all

Sunday, November 6, 2011

a noite

Acabo a noite mais cedo do que devia, pedindo à taxista de serviço para me levar à Flórida rapidamente. Chego um pouco ébrio e sem paciência para a identificação do porteiro e para a espera do elevador. Escovo os dentes e deito-me mas afinal não tenho sono. Arrasto o laptop para a espreguiçadeira que isto de escrever no iPad dá demasiado trabalho e o blog fica desarranjado. Dá-me para o inglês. Gosto disto. Gosto das possibilidades quando me ponho a pensar noutras línguas (french kiss). Nowadays what I do best is to sleep and dream of us. Strangely, or not, I always dream of travelling and airports with you. Boarding gates always seem too far and we’re always having fun against a scheduled flight time. And I see you unpreoccupied, cheerful and laughing out loud in my dreams.

Saturday, November 5, 2011

os últimos dias na praia

Acendo um cigarro à beira da piscina com um sol forte a bronzear-me a pele exposta pelo último Vilebrequin giro que encontrei num outro verão de ausência, e lembro-me dos últimos dias maravilhosos (gosto tanto desta palavra) que passámos na praia, entre sumos de cenoura, mãos dadas e creme espalhado nos tornozelos. Espalhámo-nos em grande.

Friday, November 4, 2011

ainda assim menos complicado

No dia em que recuperou as razões, estabeleceu as causas e propôs as consequências para o que pretendia fazer com o que sentia, com a certeza absoluta de que seriam mesmo felizes dali para a frente, pressentiu que o coração dela já tinha partido rumo a outro destino, talvez não tão pleno, quiçá temporário, mas ainda assim menos complicado.

Thursday, November 3, 2011

(in)pulsos | sem querer

Conduzi-nos pelas estradas da montanha mágica até ao lugar quase secreto onde só levara duas ou três pessoas especiais. À beira da água, que batia de forma suave contra os pilares de madeira, pedimos um robalo grelhado não escalado, com a certeza de que era de mar, umas amêijoas e uns perceves, de que ela gostava e que eu não aprecio. O sol ameno não nos perturbava o diálogo:
- Em que estás a pensar?
- Sabes, descobri há uns dias que os meus pulsos guardam memórias.
- Guardam memórias, como!?
- Sim, guardam memórias sob a forma de cheiros acumulados. Já experimentaste cheirar os teus pulsos?
- Não. Deixa-me ver… Cheiram ao perfume que pus hoje de manhã…
Debrucei-me sobre a mesa, estendendo os braços, primeiro o direito e depois o esquerdo.
- Humm, experimenta os meus.
- Ah, cheiram bem mas não a perfume, principalmente o esquerdo. Não reconheço o cheiro, quais são as memórias que te trazem?
- Bom o direito, cheira um bocadinho a cânfora do gel que lhe pus por estar aberto, mas o esquerdo tem, definitivamente, o cheiro do meu último amor.
- Ahahah, tu e o teu romantismo… tens-te esquecido de passar aí o sabão!
- Não. Tem o cheiro bom dela impregnado e não há lavagem que resulte.
- Até te voltares a apaixonar…
- Eu não quero.
- Olha, come mas é uns perceves.
- Obrigado. Eu não quero.
Estávamos nesta troca de palavras, quando o sol abriu e chegou o robalo… delicioso.

Wednesday, November 2, 2011

Do feriado na data errada

Abro o pulso a jogar ténis e percebo como fica difícil preparar Pappardelle com Vieiras nesta condição. Depois, decido ficar quieto a observar as nuvens lindas que hoje pintam o céu da cidade, mas ficar quieto, parado, é contra-natura para quem tem um coração grande que me põe o sangue a circular em grande velocidade. Estou é a precisar de acalmar, vou tentar ir nadar. Dói-me o pulso e estou a falar sozinho... isto hoje está grave, maldito feriado!

Tuesday, November 1, 2011

Do amor incondicional e da falha do instinto

Ela - Então, tens outra namorada aí?
Eu - Não...
Ela - Só quero que estejas bem.

Pronto, quase, quase me vieram as lágrimas aos olhos mas ainda não foi desta. Pode ser da distância, do hoje ou de sempre, mas quem me reconhece devia saber melhor, conhecer-me melhor, ser capaz de saber, de qualquer forma e sempre. Afinal, não é assim.