Thursday, December 30, 2010

às décadas

E ontem à noite faziam-se balanços, de forma diferente, às décadas em vez de aos anos que é a forma própria dos amigos que já se sentem suficientemente antigos para assinalarem os marcos em períodos de dez anos. Sem surpresas, o consenso elegeu a dos 80s como a melhor, nostalgia marcada pelos factos partilhados mesmo para os que ainda não nos conhecíamos, porque naquela época quase tudo era comum, independentemente da geografia ou do estado de espírito individual. É talvez por isso que a música dos 80s marcou toda a gente, como um denominador.
Para mim, os 90s foram confusos e os 2000s prometedores, até chegar 2010, uma caixinha de surpresas que desejo boas, para mim e para toda a gente, mesmo se não sou de ligar a esta coisa das voltinhas ao Sol.

Monday, December 27, 2010

vida assim descontraída

Há uns quantos anos atrás, numa noite de demasiadas caipirinhas, conheci este par de amigos que poderiam também ser um casal – não cheguei a confirmá-lo. Creio que ela era Argentina de raízes alemãs, ele Brasileiro de ascendência portuguesa. Ela já nos cinquenta, ele nos quarenta e qualquer coisa. Ela tinha um restaurante que servia comida tailandesa – muito boa –, ele explorava um bar com o nome diminutivo do Guevara, repleto de ícones revolucionários. Ela olhava-o com um misto de carinho e desejo – por isso digo que poderiam ser um casal –, ele recitava poesia, cuidando de traduzir as palavras mais estranhas em castelhano para que ela percebesse. Ela vigiava o serviço, pelo canto do olho, ele fumava cigarrilhas. Eles jantavam juntos, pelo menos uma vez por semana, no restaurante dela, e foi por estar na mesa ao lado que os conheci. Eles vieram sentar-se connosco e por entre as caipirinhas fabulosas contaram-nos as suas histórias complexas, de que já não me recordo bem. Lembro-me sim que, por entre o torpor da cachaça, desejei chegar aquelas idades e levar uma vida assim descontraída, feita.

Sunday, December 26, 2010

os dias assim

Regressam estes dias chochos, frios e tranquilos, para ficarmos horas a fio a fazer ronha e a conversar, por entre as carícias e o satisfazer do desejo que sentimos um pelo outro. Na penumbra, eu a olhar-te os olhos e tu a tentares acordar, um bocadinho estremunhada mas feliz. Alguém, sublime, criou os dias assim, imperfeitos no tempo, com as nuvens lá fora, mas perfeitos na temperatura, fria, para procurarmos o corpo um do outro, devagar, e o aconchego da pele sentida. Adoro o sentir da tua pele, já te tinha dito? Foi talvez isto, entre muitas outras coisas que tenho para te contar, que me fez persistir até aqui e daqui para a frente. E o teu cheiro bom, ninguém cheira assim, divino, disse-to no outro dia e estava a ser espontâneo. Ronha, ronha e mais ronha, beijos amiúde e as mãos em movimentos ternos. E eu saía pelo meio da manhã só para comprar os éclairs fresquinhos de que tu gostas e que eu nunca tinha experimentado até te conhecer, nesta história que nunca imaginei possível. Sonho contigo assim, apeteces-me, e é real.

Saturday, December 25, 2010

o meu tio (-avô) Quim

Num dos Natais, dessa vez passado na casa senhorial dos meus bisavós, na aldeia, que um dia fora vila, com toda a família maior reunida, o meu tio (-avô) Quim que era um grande advogado no Porto, muito viajado, e que associo ao Monsieur Hulot porque era igualmente excêntrico, mascarou-se de Pai Natal, como parece que era tradição nos tempos de menina da minha mãe, distribuindo os presentes também junto à lareira e fazendo as delícias de mais de uma vintena de crianças que éramos. Apesar de, posteriormente, eu lhe ter descoberto o fato-máscara debaixo da cama, aquele foi o meu melhor Natal de sempre.

em modo Natal-nostálgico

Até aos meus 15 anos todos os Natais de que me recordo foram passados em Trás-os-Montes. Quando chegávamos, a minha avó recebia o neto vindo da cidade com uns bolinhos de coco, muito especiais, que eu adorava – desde que se acabaram, acho que não sou muito de coco. O jantar, em que apesar do bacalhau assado nas brasas, era o polvo cozido e em filetes que reinava, era servido na imponente sala de jantar que por se situar justamente no meio da grande casa tinha por soalho tábuas de madeira maciça que rangiam com os passos dos adultos mas, irritantemente, não com os meus. Em volta da mesa existiam uns louceiros magníficos com superfícies de pedra que ficavam repletos dos doces de Natal: lampreia de ovos, filhoses de vários tipos, aletrias de massa fina e grossa, arroz-doce, sonhos, rabanadas, torta de marmelo doce e uma travessa dos ditos bolinhos de coco, que eram a única coisa de que eu realmente gostava. O meu avô imponente sentava-se à cabeceira e fazia-me sentar ao seu lado, olhando-me com ar circunspecto quando eu afastava a couve-flor para a borda do prato. Aquela sala de jantar era decorada com naturezas-mortas dos artistas experimentais da família que me tiravam o sono. Os presentes abriam-se no regresso da missa do galo, junto à lareira na cozinha, connosco miúdos aos pulos em cima do escano.

E ainda há quem não acredite no gordo sorridente das barbas brancas!?

Ontem, um dos meus “sobrinhos emprestados” dizia que não sabia se podia acreditar no Pai Natal porque não estava “cientificamente provado”– esperto o miúdo… deve estar na idade dos “porquês” mas como pertence à geração do virtual, a quem tudo entra pelos olhos em ecrãs de plasma ou em 3D, precisa da “prova científica”.

A parte má de ter passado o Natal em Lisboa é que cá em casa não há lareira. Apesar do frio, fiquei a ver um filme italiano e deitei-me tarde. Pouco depois, ouvi um barulho e fiquei a pensar se o gordo sorridente das barbas brancas teria encontrado remédio e descido pela chaminé do fogão. Confirmei-o hoje de manhã: “cientificamente provado”!

Thursday, December 23, 2010

o “puxe” e o “push”

Mesmo os portugueses inteligentes têm esta tendência infantil para confundirem o “puxe” e o “push” quando encontram uma porta, uma saída.
Não gosto de ser empurrado ou de me sentir encostado contra a parede e já há muito aprendi que as portas que necessitam de informação abrem para fora, pelo menos no mundo civilizado.
Sou avesso a processos de “convencimento” porque quando alguém necessita de ser convencido é porque não sabe o que quer da vida, e eu não sou nada assim.
Prefiro o “pull”. Gosto que puxem por mim. Aí sim, perante um desafio sou capaz de me deixar convencer.
E tenho esta tese facilmente demonstrável de que se aprende melhor pela positiva, com os bons exemplos, do que pela negativa, porque esta obriga a compreender o que está mal e a imaginar a forma correcta de proceder, e nem sempre se acerta. Isto aplica-se na “gestão de pessoas” da mesma forma que a “Thumper´s rule”: “If you can´t say something nice, don´t say nothing at all”. E saí porta fora, fazendo o esforço de não me mostrar insensível e desejando-lhe um “Bom Natal”, apenas e só pelo respeito que a idade do senhor merece.

Envolver

E hoje fiz a experiência ao contrário e sonhei com esta palavra. Envolver traz a sensação daqueles abraços muito sinceros em que se vai apertando lentamente e cada vez mais, e que são progressivamente melhores. Envolver é sermos como o calor que sai da lareira feita de brasas com laivos perfeitos do ardor das chamas. Envolver é abrangente e comprometedor, implica partilhar proximidade e reduzir os tempos de afastamento. Envolver significa sair da zona de conforto e assumir a responsabilidade de quem estima de forma única, de quem assume que vai cuidar bem, sem vacilar, divagar ou divergir. Devo estar a ficar mesmo crescido e apetece-me envolver-te. E é bom.

Wednesday, December 22, 2010

o ego

E hoje a meio da manhã, apanhei-o com o sorriso tórrido. Já o tinha visto a ameaçar isso mesmo, ainda bem cedo (pelo horário dele…), enquanto conduzia pela lateral da avenida, a olhar-se no espelho retrovisor e a sorrir para si próprio (o vaidoso…), enquanto escrevia qualquer coisa no Blackberry que não consegui entender e que não se preocupou em contar-me. Percebi logo que vinha ali confusão (outra vez…). Este miúdo parece gostar mesmo do efeito deslumbrado. Lança os foguetes todos, porque lhe apetece, porque o sente assim, e deixa-me a apanhar as canas. E depois, ao início da noite, saiu debaixo da chuva intensa, estranhamente divertido para despachar mais uns presentes antes de um jantar e percebi que não era exactamente isso que lhe apetecia fazer. Está outra vez cheio das certezas que procura, como o ar para respirar, e eu tenho que o aturar… o que me havia de calhar, para ser o ego.

Tuesday, December 21, 2010

simples

E foi assim que o lírico confirmou o que já sabia, bem demais e há muito tempo: gosta do complexo, intensamente, simples e sem açúcar.

Sunday, December 19, 2010

o “are we there yet?”

E como se fosse um vírus, instala-se o nervoso miudinho no miúdo. Começam a chegar os amigos do estrangeiro que, naturalmente, querem a “Christmas season” desafogada e em ritmo lento, quando o que eu quero são os novos episódios da minha vida, depressa e perfeitos. Querem novidades das boas que eu não tenho para contar e, eventualmente, as outras que ainda não posso. Querem jantarinhos e cafezinhos quando eu não quero comprometer a agenda. Enfim, querem a atenção que lhes é devida quando eu continuo no mundo da lua. Acabamos por partilhar umas garrafas de Luís Pato, que é um excelente vinho para partilhar, mesmo que eu esteja distraído.

Saturday, December 18, 2010

dogmas

Para mim existem momentos e instantes numa relação a dois que são como dogmas porque não se questionam de tão perfeitos que são:

- A tranquilidade da ronha ao acordar, com pequenas carícias e algumas palavras doces, suavemente pronunciadas. Os corpos sem formigueiros. As vidas vividas, sem pressas.

- f. (i.e., a fashion tv) o tal canal que pode ser visto a dois, sem desconfianças porque o que passa diante dos olhos são modelitos feitos para impressionar mas sem a capacidade de conquistar.

- O “hoje escolhes tu!” (o que vamos fazer, onde vamos jantar, o filme que vamos ver, …), porque o que te estão a dizer é “confio plenamente em ti”, “surpreende-me com algo teu”, “encanta-me, porque eu sei que vou gostar”.

- Mãos dadas numa esplanada, mãos dadas a caminhar, mãos dadas ao chegar à praia, mãos dadas ao deixar a praia – porque não há melhor forma de expressar “gosto de ti” (talvez só a conjugação de um certo olhar com um certo sorriso, ou um abraço daqueles).

- Silêncios cúmplices, daqueles em que não importa nada o que não estamos a dizer um ao outro, porque na realidade estamos a partilhar.

- Ler um romance a dois, aguardar que o outro termine a página para a virar, porque estão ali duas mentes, muito próximas, a imaginarem o que as palavras transmitem em frases bem alinhavadas.

Thursday, December 16, 2010

Eu e o Peter Principle

“In a hierarchy, every employee tends to rise to his level of incompetence”

Há alguns anos atrás, no tempo em que eu ainda aprendia conceitos novos, ensinaram-me o Peter Principle. Por ser facilmente observável e porque a minha profissão é marcadamente meritocrática ainda que pouco hierárquica, faço muitas vezes o exercício de me colocar a questão sobre mim próprio para verificar se já cheguei à minha “assimptota de incompetência”. Das últimas vezes, parece-me que sim. Fiz uma carreira rápida e estou no top200 de uma companhia de quase 10 mil pessoas, mesmo que ainda não tenha chegado ao topo do que posso ambicionar. Nestes momentos de reflexão, arranjo desculpas (e eu nem sou nada de procurar desculpas, para mim próprio): a falta de brilhantismo dos que me rodeiam, a conjuntura, a falta de estímulo ou o desequilíbrio que consegui alcançar entre o lado profissional e o lado pessoal da minha vida.
Curiosamente, ao contrário do que esperava, apesar da dúvida plantada e da indecisão de quem me ocupa o “outro lado” estes dias têm passado tão rapidamente, entretidos entre trabalho e jantares de Natal, que este ano parecem mais que muitos, que um destes dias quando acordar tudo estará consumado. Logo a mim que quero sempre controlar o destino.


Monday, December 13, 2010

-mente

Preparo uma escala composta de significados positivos: ocasionalmente, praticamente, precisamente, frequentemente, invariavelmente, obrigatoriamente, consistentemente, definitivamente, plenamente, infinitamente.
Mentalmente, começo a preenchê-la com tudo o que tenho como importante para mim: pessoas, sentimentos, sensações, locais e alguns objectos materiais.
Quero ser capaz de fundamentar decisões mas não é um exercício fácil, numa escala qualitativa e assim apertada. Insisto no método, como quem não descura um bom desafio. Quando chego ao fim, ao resultado final, constato que sim, é possível. Traço uma linha vertical e o mais importante está mesmo do lado direito da régua. Fico feliz por ser capaz de distinguir. Sei exactamente o que quero e o que me falta.
Pai Natal…


a dúvida absoluta

Sim, é mesmo assim, uma dúvida absoluta. Neste momento (único) em que me ponho a ler-te (com saudade), fixo-me nas palavras. Sim, seria capaz de me (voltar a) apaixonar. Sim, vejo-te (revejo-te) o rosto bonito marcado na (minha) memória, como se fosse (quase) uma fotografia. O sorriso singular (mesmo único) que me ofereceste sem hesitação. Sim, gosto (intensamente) do que escreves, da forma como escreves (dos sinais que parecem nossos). Sim, lembro-me da gargalhada que (uma e outra vez) me despertou os sentidos. Sinto na pele o ar àquela temperatura (de estação intermédia) em que te encontrei e tu a mim, perdido mas pronto a encontrar-me (mais uma vez) na confusão (turbilhão) das sensações de que (ainda) gosto mesmo. Sim, seria definitivamente capaz de me apaixonar (outra vez). Sim, por ti, que me deixas suspenso nesta dúvida absoluta (irrazoável). Sim, a mim que sei bem a resposta para a tua interrogação: Não (com infinita certeza).

Sunday, December 12, 2010

terçolho (ou treçolho, já não sei)

E hoje acordei com uma grande dor de cabeça e um terçolho plantado no olho direito. Não vislumbro nada e isso faz-me sentir inconsistente.

a temporada

E (re)começa a temporada dos jantares de Natal, este ano inaugurada pelo dos amigos mais velhos (antigos). Um clássico de espírito positivo, sem a fantasia bacoca da troca de presentes e com muitas reminiscências divertidas da infância e da pré-adolescência. Estes são do melhor que há, sempre afoitos para os copos, mesmo antes do jantar, as trocas de galhardetes repetidos mas ainda assim divertidos. O carinho de sabermos como estamos, uns e outros, mesmo entre os que estivemos juntos há poucos meses. A dimensão despreocupada de quem sabe que estaremos sempre presentes uns para os outros mesmo quando estivermos velhinhos, porque vem sendo assim ao longo dos anos – e há lá melhor presente. E acabamos quase todos no Lux, armados em neo-clássicos, a dançar os sons demasiado batidos do Rui Vargas e perdidos em conversas descontraídas e sinceras na varanda. Muito bom.

Friday, December 10, 2010

insónia

A minha vida não projectada é ela e a inquietação de saber que está bem. O desejo de que esteja mesmo bem, feliz. A vontade de que consiga estar melhor do que eu. A ansiedade de a sentir acarinhada como eu a faria sentir-se. E eu a sentir-me muito cansado mas sem conseguir pregar o olho.

Thursday, December 9, 2010

do blog e do cipreste

Este blog não é muito dado à introspecção (do blog) mas faz agora um ano que mudou de nome e ganhou balanço. E que balanço. Aquele dia em que nos deixaste ameaçava chuva em Lisboa e à noite quando cheguei a casa, vindo do teu velório, já chovia muito a sério. Eu sentia uma necessidade imensa de deitar cá bem para fora tudo o que sentia e um ano volvido parece-me que ainda não parei de o fazer. Perdido no meio destas páginas há um texto que te é inteiramente dedicado, escrito na modernidade do Blackberry, numa praia, ao final da tarde, por entre as lágrimas que não saciavam a minha vontade de chorar as saudades que sentia de ti. Uns dias depois desloquei-me a um viveiro e comprei um cipreste mediterrânico, importado da Toscânia, que plantei num sítio que era nosso. Fui vê-lo há algum tempo, cresceu forte e verde e já tem mais altura do que eu. Vejo-o como se fosse uma antena para comunicar contigo, e tu sabes que eu nem acredito nestas coisas, dos crentes, do Céu e da Terra, porque em algum momento falámos sobre isto. Graças a ti eu já plantei uma árvore e praticamente escrevi um livro, falta-me o que falta, que gostaria que tivesse uma referência para a vida como tu foste para mim.

Wednesday, December 8, 2010

manhã de feriado

Aprendi esta receita no verão e quis aproveitar o estranho dia que julgava quente. Saí para correr quando ainda não chovia. Desta vez, escolhi a parte antiga da cidade – não é o ideal porque os passeios são estreitos e propícios a entorses. Ainda assim valeu a pena. Lisboa consegue ser encantadora numa manhã de feriado – eu, dorminhoco, gosto de dormir até tarde e não estou habituado a vê-la assim. Nestas manhãs é também uma cidade de encontros com quem cá vive. Encontrei um amigo entretido com as filhas numa esplanada – quem tem crianças obriga-se a aproveitar as manhãs – e uma amiga às compras para o Natal. Foi refrescante e até me esqueci que não tinha levado o iPod ou como não é fácil conduzir no regresso, molhado, com os vidros muito embaciados por dentro.

significados

Faço o esforço de tentar recordar um outro dia em que me senti assim, triste. Houve pelo menos um, recordo-me, e foi bem pior. Sobrevivi ao dito. Vou sobreviver a este. Há uns dias atrás estava aconchegado nos braços de uma miúda que gosta de mim, a dormitar. Não me sentia feliz e eu até gosto de dormitar. Gosto, principalmente, de explorar as sensações que sinto como minhas. Creio que são os momentos em que nos sentimos extremamente tristes ou felizes que nos fazem sentir realmente vivos. Os outros, intermédios, são apenas instantes do percurso que temos como nosso e andamos fartos de percursos, queremos fins, objectivos, significados. Eu gosto de significados.

bored to death, sad as a owl, insofismável

Sempre achei o mocho o bicho mais triste à face da Terra. Esta noite, a sentir-me triste como um mocho, recusei o convite para o programa alternativo embora estivesse mesmo a precisar de uma noite de copos entre amigos. Em boa hora, porque com o tempo que faz lá fora, mais vale insistir no romance que deixei parado desde o verão:

Há três anos, quando comecei a ganhar dinheiro a sério em vez de toda aquela merda que tinha estado a ganhar até então, o meu pai meteu-se em sarilhos nas mesas de jogo e nas apostas…
Sabem o que aquele sacana fez? Passou-me uma factura com todas as despesas que tinha feito com a minha educação.
É verdade: mandou-ma à cobrança. E a minha infância nem sequer tinha sido dispendiosa, porque sete anos, tinha-os passado eu com a irmã da minha mãe nos Estados Unidos.
Ainda tenho esse documento para aí guardado. Seis páginas A4 escritas à máquina com um só dedo. Por 30 pares de sapatos (aprox.), tanto. Por quatro estadas em Nailsea, tanto. Por despesas de gasolina com as mesmas, tanto. Cobrava-me tudo, mesadas, gelados, cortes-de-cabelo, tudo. E juntou uma nota, explicando num grosseiro tom de manga-de-alpaca, que aquilo era apenas uma estimativa, e que eu não precisava de o reembolsar até ao último tostão. A inflação fora tida em conta. Em suma, eu custara-lhe dezanove mil libras.
Fosse como fosse, ambos tivemos uma reacção visceral. Quando recebi a carta do meu pai, apanhei uma piela e mandei-lhe um cheque de vinte mil.
Quando recebeu o meu cheque, o meu pai apanhou uma piela e apostou o dinheiro todo num cavalo que ia correr no Cheltenham Colden Shield, um bicho que se chamava, sei lá… Dickshead, ou sei lá o quê.
O cavalo era jovem de mais para uma prova daquelas e não estava em grande forma, mas o meu pai tivera uma informação confidencial de uma fonte segura. Cem para oito pareceu-lhe bom. Fez a aposta por um intermediário. Dez minutos depois, o meu pai entrou em pânico e tentou cancelar a aposta. Mas o agente já tinha contratado o pessoal de mão, e a aposta teve de se manter.
Agarrado à garrafa de whisky, o meu pai ouviu o relato da corrida pela rádio. Como era de esperar, o Dickshead saiu a andar com cada pata para seu lado, a relinchar, tentando livrar-se das palas e do cavaleiro. Quando este, por fim, conseguiu dominá-lo o Dickshead começou a galopar atrás dos seus companheiros de corrida que já desapareciam ao longe. O locutor referiu-se uma ou outra vez a este cavalo, mas sempre no gozo, até que o meu pai esborrachou a telefonia, acabou o whisky e teve uma hemorragia nasal que lhe ia custando a vida.
Posteriormente, o meu pai comprou uma vídeo-cassete da corrida, e ainda hoje se baba todo quando a vê. Não só ganhou o Dickshead, como foi quase o único sobrevivente. No penúltimo salto, houve um daqueles amontoados terríveis que envolveu quase todos os competidores. O Dickshead passou por cima daquilo tudo aos tropeções e adiantou-se aos seus adversários, restando-lhe apenas um obstáculo para vencer.
O cavalo solitário prosseguia o seu caminho, sem pressas. Nem sequer chegou a saltar o último obstáculo. Praticamente, comeu-o, continuando assim sem esforço. Por fim quando à sua frente já não tinha mais que um pequeno relvado a uns dez metros da meta, o Dickshead tropeçou e caiu. O jockey, que, nesta altura, já via o triunfo ao seu alcance, tentou montar de novo. O mesmo aconteceu a alguns dos seus adversários, que haviam caído mais atrás. Ao cabo de dez minutos – já diversos cavalos sem cavaleiro tinham cortado a meta, e um outro competidor conseguira saltar o último obstáculo e parecia que iria ser o vencedor – o cavaleiro conseguiu dominar o Dickshead, convencendo-o a deixar de andar às voltas, e passou a linha de chegada à rasca, ganhando por meio comprimento.


Conclusão: Martin Amis, brilhante e com atenção aos pormenores, e eu a gastar o neurónio com literatura boa que até parece de cordel…

Tuesday, December 7, 2010

NYC & Lisboa – não geminar

Das poucas coisas que eu não gosto na Big Apple é da sensação latente de insegurança provocada pelos carros dos bombeiros em “fire drills” permanentes. Ainda assim é algo que se aceita numa metrópole exposta ao risco dos edifícios altos mas que não se entende numa cidade como Lisboa em que todo o “santo” condutor de ambulância ou carro da polícia parece deleitar-se a azucrinar os ouvidos da população. Vá-se lá saber, um destes dias ainda se lembram de reclamar “fire lanes”.

Monday, December 6, 2010

as qualidades

Ela junta duas qualidades que ele considera excepcionais:

1) Encontrá-lo espontaneamente no meio de uma multidão, como quem possui uma bússola no coração…

2) Fazê-lo sonhar com toda a meiguice do mundo, deslumbrante como o abraço…

Chega? Sim, tudo o resto vem por acréscimo. E ele? Ele… ele oferece-lhe as palavras. Humm, é pouco…

Sunday, December 5, 2010

Certezas (de pasteleiro)

O que as mulheres esperam de nós? Certezas. Obcecadas pela resposta pronta para a pergunta fulcral “O que pensas quando pensas em mim?”, elas esperam tudo e um bocadinho mais ainda. Não ficam satisfeitas com uma base, um princípio, querem o topping com sabor romântico-para-sempre. Entendidas que se julgam em cupcakes, acham que o bolinho tem que trazer a cobertura quando sai do forno. Que os macarons já vêm com o recheio. Que os éclairs já nascem com o chocolate dentro. São umas impacientes que só devoram certezas. E não é nada assim. Nós os homens necessitamos de tempo, precisamos de saber, de sentir, e isso demora tempo e cuidado no passar do estado apaixonado ao “é a ti que quero, com toda a certeza do mundo”. E sim, pelo meio há confusões, escolhas e decisões difíceis que por si mesmo contribuem para o sabor perfeito do que ambos queremos. O tempo é essencial.

latest novel

In my latest novel you are a fearless secret agent. Always ready to face many perils to rescue whomever you have to save from some ubiquitous strange international plot. From time to time you jump on a jet plane disguised as a sweet girl just ready to change the order of things. I play the role of “Mr. Nice Guy” unable to understand what’s going on, since you are very well trained to put me off and I just don’t get it. Maybe it was the Israelis or other kept away organization that told you to keep me at large, and I just don’t get it. That would explain your singular way of life, your addictiveness to order and why you’ve left me behind. You are not just a Bond girl, you are “Bond” yourself and I was a menace to your purpose in life. Anyway I didn’t get it and you didn’t want to justify.

Saturday, December 4, 2010

racional

Creio entender hoje melhor porque se amavam. Havia ali um sentido forte concebido pela imaginação que se sobrepunha a qualquer desejo racional. E eu tenho esta necessidade absoluta de ser racional. Está-me no sangue como a capacidade de escrever espontaneamente sobre o que me vai na alma. Tenho pouco lugar para o místico, porque a maior parte das vezes não acredito nessas coisas que aos outros parecem fazer sentido. Para mim, o mundo é feito de coisas muito palpáveis, mesmo nos sentimentos. Não se sofre pelo que não se conhece. Não se sonha com o que não aconteceu. Há sempre um fundo para o que se sente. Pode ser ligeiro ou baseado numa sensação, mas tem que existir matéria-prima para tudo o que se deseja ou anseia. A vida é feita dessas pequenas coisas, como a água da chuva a sublimar mesmo num dia muito frio como o de hoje.

Thursday, December 2, 2010

o estado “what's a boy to do?”

Utilizou as mãos em concha para atirar várias vezes água ao rosto, procurando um segundo de lucidez. Sabia que a sensação da água a escorrer pela face o ajudaria a encontrar respostas – é por isso que gosta da chuva. Pensou porque não se sentia magoado. Tinha todas as condições para isso, desde há muitos meses. Sabia que a mágoa seria um catalisador para esquecer tudo o que queria, para o fazer despertar do que sentia. Pensou porque não insistira em colocar em prática o plano de sair magoado para se libertar. Sentiu-se descontente com o efeito da idade. A maturidade que não o deixava assumir com propriedade a angústia de perder. Achava que devia ser ao contrário, que a experiência deveria contribuir para deixar passar o que não pode ser seu. Por um momento, odiou a sua personalidade vincada de não saber aceitar a derrota. Desejou não querer saber mais. Imaginou como tudo seria mais fácil se não fosse tão persistente. Olhou-se no espelho e sentiu vergonha de ser assim, pretensioso. Não chegou a conclusão nenhuma e definhou.

We walked arm in arm
But I didn't feel his touch
The desire I'd first tried to hide
That tingling inside was gone


And when he asked me
“Do you still love me”
I had to look away
I didn't want to tell him
That my heart grows colder with each day


When you've loved so long
That the thrill is gone
And your kisses at night
Are replaced with tears


And when your dreams are on
A train to train-wreck town
Then I ask you now
What's a girl to do


He said he'd take me away
That we'd work things out
And I didn't want to tell him
But it was then I had to say


Over the times we've shared
It's all blackened out
And my bat lightning heart
Wants to fly away


When you've loved so long
That the thrill is gone
And your kisses at night
Are replaced with tears


And when your dreams are on
A train to train-wreck town
Then I ask you now
What's a girl to do


What's a girl to do
What's a girl to do
What's a girl to do

Tuesday, November 30, 2010

Multiverse theory – ohlala, munivers et la vie est toujours fascinante!

Tanto tempo passado a pensar que perdera a metade do meu puzzle em pecinhas descoladas para sempre. Perdido numa vontade indómita sem reciprocidade. Armado em “miúdo” a quem a vida foi sempre servida numa “bandeja de prata”. E de repente, sem aviso, abre-se um universo paralelo para uma perspectiva de vida absolutamente diferente, como a um pinguim nos antípodas. Premonição? Ainda este fim-de-semana divagava que lá para o início do ano, teria que tomar decisões resolutas e de repente, elas aparecem-me como por magia. Afinal, há vida para além do presente. Afinal, há sempre algo diferente prestes a acontecer. Uma perspectiva que eu desdenharia se estivéssemos juntos. Um desafio que não me saberia bem se não tivéssemos passado. Uma resposta que seria uma certeza se as coisas tivessem acontecido como eu queria. Assim, agora, tudo é absolutamente fácil e o futuro aparece de forma completamente diferente, mesmo que eu não deseje com convicção este universo paralelo.

Sunday, November 28, 2010

a dupla traição

Traiu-a. Havia-lhe prometido que a inauguração daquele japonês seria com ela, da mesma forma que uns meses antes lhe dissera que a primeira experiência do oriental de degustação seria na sua companhia. Não cumpriram, apesar das mensagens trocadas do “vou guardar este para ir contigo”, de parte a parte. Ela foi ao japonês com amigos, tal como ele fora ao oriental com uma amiga. Lembrou-se disso enquanto esperava pelos seus convidados diante de um Sapphire com água tónica. Lembrou-se de como a ilusão lhe parecera boa há uns meses atrás, e nenhum dos dois tinha sido capaz de a aprofundar. Constatou que ambos haviam desistido da possibilidade.

fiquei na dúvida mas parece-me que tinha razão ;)


remição
(remir + -ção)
s. f.
1. Acto! ou efeito de remir ou de se remir.
2. Desobrigação do cumprimento de uma obrigação ou pena. = quitação, resgate
 
remir
(latim redimo, -ere, resgatar, salvar, arrendar)
v. tr.
1. Adquirir de novo. = conseguir, resgatar
v. tr. e pron.
2. Conseguir a libertação de outrem ou de si. = libertar, livrar
3. Tirar ou sair do perigo ou da condenação. = salvarperder
4. Ser reabilitado em relação a (crime, falha ou pecado); tornar-se puro em relação a. = expiar
5. Oferecer ou receber compensação. = compensar, ressarcir
v. pron.
6. Sentir arrependimento. = arrepender-se


vs.

remissão
(latim remissio, -onis, restituição, entrega, afrouxamento, brandura, indulgência)
s. f.
1. Acto! ou efeito de remitir.
2. Disposição para desobrigar o cumprimento de uma obrigação ou pena. = clemência, indulgência, misericórdia, perdão
3. Acto! de remeter.
4. Acção! de transferir a atenção do leitor ou consulente para outro texto ou outra parte do texto (ex.: remissão de um dicionário)
5. Falta de energia. = fraqueza, frouxidão
6. Diminuição do sofrimento ou do cansaço. = alívio, consolo
7. Med. Diminuição momentânea dos sintomas de uma doença. = remitência
8. Med. Desaparecimento da febre entre os acessos de malária. = remitência
sem remissão: inexoravelmente, impreterivelmente.

o filme do Senhor Nespresso

Fazia tanto frio como na altitude dos Apeninos mas a sala estava cheia para ver o filme do Senhor Nespresso. É um filme tranquilo e honesto, com muito boa fotografia e que não acaba bem – gosto disso no cinema, porque o aproxima da realidade. O Senhor Nespresso faz de Senhor Farfalle com consciência e aparência pesadas, em remição dos pecados, e acaba no paraíso mas não encontra o John Malkovich – gostei desta parte da alegoria. Gostei principalmente de recordar as paisagens dos Apeninos que já atravessei por duas vezes. De entre as espécies de montanhas são talvez as mais graciosas que conheço por se deixarem adornar pelas nuvens de forma maravilhosa – no filme há umas quantas imagens que reflectem isto mesmo. Recomendam-se, portanto, o filme e o passeio pelos Apeninos d’Abruzzo.


Saturday, November 27, 2010

auto-profundo

Ficou-me (como defeito) da minha formação científica esta prática de experimentar para depois analisar. Hoje “experimentei” sair com uma miúda, daquelas mesmo giras, cheia de enfeites e vontade de me agradar. Fiz tudo bem (para mim próprio) de forma concentrada e concertada, colocando o meu melhor sorriso e fazendo-me entendido quando ela divagava sobre os assuntos que a ela interessam e a mim não me dizem nada. Fui capaz de ser eu mesmo (no meu melhor) enquanto ela me olhava com aquela perspectiva de homem que se quer para a vida: maduro, gentil (não gosto deste adjectivo), bons genes e sucesso alcançado. Fui divertido, charmoso e um pouco misterioso para a deliciar. Tentei. A sério que tentei, assumindo o auto-desafio. Mas a páginas tantas, o bom da experiência tinha acabado e não era ali que eu queria estar. Pensava eu que já era hora de recuperar, mas afinal senti o coração preso num fecho-éclair perro, sem vontade de se soltar. E é isto. Sinto-me preso e não há coisa pior, para mim. É a sensação de que o futuro não nos reserva nada e de que chegámos ao pico da evolução, sem sentido e sem sentir, ou a sentir-me assim.

Thursday, November 25, 2010

Imbecil auto-crítico

Ao ler este blog com algum distanciamento, fico assustado com a quantidade de imbecilidades que fui escrevendo ao longo dos últimos meses. Creio que lhe deveria mudar o nome para “Verborreia em Lisboa” ou “O prolixo em Lisboa”. Cai chuva, cai – com o frio que faz, pode ser que saia um granizado!

Sunday, November 21, 2010

Witty wish

Tínhamos o privilégio de uma lareira acesa em Lisboa – eu gosto do calor da madeira a arder quando faz este frio húmido incaracterístico da cidade. O jantar tinha sido descontraído, apesar de ambos imaginarmos ao que íamos – acho graça ao processo intencional dos amigos que tentam suprir o que acham que nos faz falta com base em equações magnânimes de “vamos convidar R e K para jantarem cá em casa, e deixamo-los sozinhos no momento (que imaginam ser o) certo”. Por um instante alimentei a esperança de que tudo fosse assim tão simples, quando ela se virou para mim, com os olhos muito abertos e as pestanas carregadas de rimmel, e me disse:

- You’re a witty kind of guy!

E eu que não sabia o que queria dizer “witty”, mas não quis dar parte fraca, deixei-a prosseguir a conversa, embora cheio de vontade de usar o BB para entender, realmente, o que ela me estava a querer dizer.

- You’ve got this great energy within you that most people will notice once they meet you.

- …

- Have you ever seen “Brick Lane”? It’s this movie about a young girl living in London against her will, she’s from Bangladesh, and she has this wonderful thought about “love”, that you can actually induce into most things in life, and I like to quote: “There are different kinds of love: the kind that starts deep and slowly wears away. It seems like you will never use it up and then, one day, almost suddenly, you just realize it’s finished. Then there is the kind you do not notice at first but which adds a little bit to itself every day like an oyster makes a pearl, grain by grain, a jewel from the sand.” Do you get it?

E eu respondi-lhe que sim, que entendia o que ela me estava a querer dizer, mas a partir dali já não me sentia nada no registo “witty” mas sim no “let’s call it a night”.
Get a life, boy. 

Thursday, November 18, 2010

O precipício

Sentaram-se no Orpheu. Ela atirou o casaco para a cadeira ao lado, ajeitou a camisola de gola alta, puxou ligeiramente as mangas descobrindo os pulsos, bonitos, e fixou os cotovelos na mesa de madeira:

Ela - O que foi agora?

Eu - Seria capaz de te voltar a amar…

Ela - Para quê? Já te perguntaste, para quê? Tu não percebes que não fomos feitos um para o outro? Não entendes o que sofremos por descobrir isso mesmo?

Eu - Desculpa-me, eu não entendo nada do que se passou assim. Para mim, tudo o que correu mal foi por causa da expectativa. Como tu sabes, naquela altura eu não esperava nada e foi porque te conheci que passei a esperar tudo. Passei a acreditar que a vida podia ser muito mais. Fiquei deslumbrado com os nossos momentos perfeitos e tornei-me num crente. A maldita da expectativa que não se deixa dominar, é que foi fatal. E foi isso o que aconteceu comigo, à medida que te ia descobrindo, mesmo nos pormenores em que sabia que não encaixávamos, fez-me acreditar. E não há nada pior do que acreditar. Faz-nos querer mudar, ajustar. Deixa-nos a divagar. E então a vida acontece.

Ela - A vida, qual vida? Não percebes que não há vida em nós. Há desilusão, há a mágoa do que me fizeste quando decidiste, por ti próprio, hesitar. Há o silêncio em que foste capaz de mergulhar e a forma como me decidiste informar das tuas conclusões muito próprias, como se eu não estivesse ali mesmo ao lado para me pores a par. Não foste capaz de perceber que, naquela altura, eu estava disposta a procurar respostas, soluções, que fizessem o futuro acontecer. Sim, eu estava apaixonada por ti, mas passou-me no instante em que tomaste as tuas opções. Depois disso, limitei-me a sofrer as consequências de ter decidido entregar-me. Em algum momento posso ter hesitado, posso ter pensado como tudo poderia ser diferente, mas a mim a vida ensinou-me que nestas circunstâncias já não faz sentido. E por cada vez que tentaste chegar até mim, novamente, eu fui acumulando a minha certeza de que estava certa, de que tudo contigo seria sempre demasiado complicado. Percebes? Gostava que percebesses, e que seguíssemos com as nossas vidas, cada um por si.

Eu - Não. Se fosse assim, simples, eu aceitava essa tua proposta de seguirmos em frente. Mas não é. Há tanto mais aqui, entre nós, para nós. Eu sei que sim, não apenas porque sei bem o que sinto, o que para mim já é um bom princípio porque nem sempre acontece com certeza vincada, mas também porque o “acreditar” de que te falava não me passou com o tempo. Como eu sei o que sou, como sou por dentro, esta é uma instrução clara de que não posso deixar-te passar. Tu és obstinada e eu sou convicto. Somos personalidades ímpares, que se deixaram seduzir a sério, apesar da improbabilidade, e isso faz a situação em que nos encontramos complexa, mas não inultrapassável. Se pelo menos percebesses isso, tínhamos um princípio.

Ela - Um precipício!

Eu - Chama-lhe o que quiseres, de qualquer forma eu vou lá estar para te agarrar.

Dog days are over (os dias da neura)

Sw: Alo, estou de neura! So me apetece carregar no botao do tempo e avancar uns quantos meses... Ate tudo estar resolvido!! Doi muito chegar a uma determinada fase da vida, termos nocao de que temos valor e nao percebermos em que parte falhamos!!!

Sw: Eu sei o que sou, quem sou e tudo o resto! So nao sei como fazer para ser feliz!

Sw: So queria isso! Voltar a sentir-me bem!

Ricardo: Come on girl, cheer up! Nao sei o que se passa mas tenho a certeza de que tudo vai correr bem.

Ricardo: (e olha que eu hoje tambem nao estou nada bem disposto com a vida, mas ainda assim dou-te o miminho que tu mereces)

Sw: Vai, mas doi! Sempre me levanto, sempre. Mas custa! Cada vez custa mais!

Ricardo: E agora vou dormir, faz muito frio em Lisboa e estou super-cansado, faça o mesmo.

Ricardo: Beijocas

Sw: Porque a ilusao vai sendo cada vez menor e porque as repeticoes vao sendo cada vez mais.

Sw: O tempo passa e estamos sempre na mesma luta contra ele.

Sw: Faz bem! Voce tem tudo ricardo, so nao tem coragem de arriscar e ir atras do que quer!

Ricardo: O tempo é invencível, nada a fazer. Há que vivê-lo.

Ricardo: Vá, beijinhos

Sw: E nao te das conta, que chegara um dia em que ja nao tera importancia ires atras ou nao. Ja te vai ser igual. Morremos aos pouquinhos. Umas vezes vencidos pelo cansaco, outras vezes pela inercia de nao fazer nada.

Sw: Beijos. Tchau.

Ricardo: Ui, tanto drama. Toca mas é a dormir.

Wednesday, November 17, 2010

O não (tornar) a querer saber

Com algum esforço, andei tão afastado da realidade nacional, concentrado na mais-valia da informação multinacional permitida pela globalização, que quando torno a seguir o estado do país fico sempre surpreendido (desiludido). Sinto-me um verdadeiro alienígena e assim de repente, surgem-me logo meia dúzia de boas ideias:

1) Para os candidatos presidenciais: toca a trocar as campanhas nos mercados tradicionais por acções nos hipermercados (parece que agora até estão abertos ao domingo…), debitando umas palavrinhas para os telejornais enquanto ajudam a família de pretensos apoiantes a arrumar as comprinhas.

2) Para os Portugueses, em geral: desliguem, de vez, a televisão. Diz um estudo que “O cérebro de um adulto muda tanto como o de uma criança, quando aprende a ler”, já vai sendo tempo de crescerem um bocadinho.

3) Para os Chineses: comprem lá as relíquias nacionais e ajudem-nos a pagar a dívida, quando se retomar a sede especulativa vão valer mais do que o petróleo africano.

4) Para os (tele-)jornalistas: ponham um ar menos grave e sisudo, das vossas expressões (sorrisos) dependem as cotações do meu portfolio amanhã.

5) Para os moradores na Expo (Espô): não há-de ser nada, o Estado paga, o Estado tem sempre dinheirinho à custa do contribuinte, carro incendiado pelos anarquistas que conseguirem entrar, vai ser dinheiro em caixa para os presentes deste Natal.

6) Para o Santana Lopes: agora que já se sente um Senador desta República falhada (com direito a 15 minutos de aparição solene e semanal na televisão), corte lá o cabelinho esgrouviado atrás, que já não tem charme nenhum e mexa menos as mãozinhas porque já não está no palanque dos congressos.

O Saber

A parte mais engraçada do meu presente profissional é poder dedicar horas a ouvir quem sabe. Ficou-me da minha formação académica este gosto por escutar, ver apresentações ou assistir a debates sobre temas interessantes que domino apenas superficialmente e dos quais me permito aproveitar ideias com aplicação mais ou menos prática para o que faço no dia-a-dia.

Esta semana já passei umas quantas horas a ouvir um tipo que sabe muito sobre o sector da Saúde em Portugal.
Desconfortavelmente enfiados na cantina de um hospital, o Senhor dissertou sobre os problemas, as causas dos problemas, as soluções não aplicáveis e as soluções plausíveis, quase em exclusivo para mim que fiquei a saber mais sobre a matéria do que alguma vez julguei. O resultado, serão duas ou três abordagens em “consultês” que eu espero poderem vir a produzir resultados palpáveis para os utentes dos hospitais públicos.

Com este mesmo propósito, hoje e amanhã, participo num dos poucos eventos onde se apresentam e debatem ideias de futuro para a economia e sociedade deste país. Gosto destes fóruns, onde se reúne quem sabe para trocar ideias com os seus pares. O conceito de Fórum é aliás significativo, porque não é bem a mesma coisa ler sobre um tema e as palavras sem a explicação subliminar de quem as escreveu alteram profundamente a mensagem. Entristece-me que nestes eventos verdadeiramente úteis, as plateias se apresentem mais vazias do que seria recomendável e que muitos dos assistentes estejam ali mais para o networking de influência, também uma característica dos fóruns, do que para o da dita troca de ideias.

É daquelas coisas que nos faz mesmo falta, enquanto povo, a capacidade de ouvir, escutar, e reflectir sobre o saber que os outros nos trazem.

Enfim, por vezes parecemos mesmo uns pinguins, aprumados de fato e gravata, apostados em impressionar mas sem vontade nenhuma de pôr o neurónio colectivo a funcionar.


Sky Mall (way too much fun tv)

Os Americanos (do Norte) que sabem ser despretensiosamente bimbos têm destas peculiaridades capazes de deixar extasiado qualquer Europeu armado em erudito. Naqueles voos internos que apanham como nós apanhamos um autocarro ou comboio para fazer 300 km (ameaçando que nos vai levar 1h30 de vida quando na realidade não passará dos 45 min, apenas para não arriscarem um processo judicial), servem-nos, a acompanhar a Coca-Cola num copo fundo de gelo, a revistinha do Sky Mall, cheia de acessórios ou gadgets capitalistas e divertidos, com preços terminados em 90 e qualquer coisa cêntimos, mas que bem embrulhadinhos fariam as delícias de qualquer árvore de Natal – Sky Mall online!

Destaques absolutamente idiotas (estes senhores não me pagam para isto):
 
Meerkat Garden Stakes

Quenching Big Thirst Fountain

Panda Rain Gauge

Bigfoot Garden Yeti Sculpture

Mobile Massage System

Cast Iron Giraffe Paper Holder

World War II Airplanes Tie

Monday, November 15, 2010

Remédio Santo

Contou-me, um dia, que quando se sentia verdadeiramente triste, assim com o coração dilacerado, por causa dos males da paixão, apostava em intensificar o efeito até rebentar em lágrimas. O truque, dizia-me, é procurares a música certa – eu cá gosto do “Into my arms” – e ouvires as palavras profundas com atenção. Caso sejas tão agnóstico quanto eu – pelo teu grau de esclarecimento sobre a vida, imagino que o és – verás que, por cada vez que o Nick Cave te alimenta com mais uma figura de estilo sobre a “existência dos anjos” ou sobre o “acreditar no amor”, vais soluçar em estilo. Podes ter que ouvir a melodia 3, 4 ou 5 vezes, mas acredita que no final, quando saíres do torpor, vais ver tudo de uma forma completamente diferente. E então atacas com o “I can see clearly now” do Johnny Nash – sabes, aquele do anúncio do nescafé – e voltas a acordar para a vida.

Sunday, November 14, 2010

Interminável

Ouvia a música inconfundível enquanto abria a porta. Encontrava-a deitada no sofá com as pernas atiradas para cima do encosto dos braços e os longos cabelos espraiados sobre uma almofada, a sua posição favorita para relaxar. Ela recebia-o com um sorriso rasgado e mágico e dizia-lhe:

- “Olá meu querido! Como foi o teu dia?”

Ele ficava parado por um momento, dois segundos, a fixá-la com os olhos semi-cerrados, observando-a fascinado, como que a querer guardar mais aquela imagem nas “polaroids” daquela vida a dois, enquanto sentia o seu próprio sorriso a abrir-se, encantado.

- “Deslumbrante… os meus dias são sempre deslumbrantes, quando te encontro assim.”

Descalçava os sapatos e pendurava o casaco no encosto de uma cadeira e dirigia-se ao sofá, sentando-se cuidadosamente para substituir a almofada em que ela se encostava. Passava-lhe carinhosamente as mãos pelos cabelos, estendendo-os sobre o seu regaço. Enquanto ela fechava os olhos de contentamento, falava-lhe baixinho:

- “Estavas a ouvir as nossas músicas…”

E ela:

- “Sim, estava aqui a pensar em ti, à espera que chegasses. Já te sentia saudades…”

Ficavam assim longos minutos a ouvir a música e a desfrutar da companhia um do outro. Ele movendo os dedos por entre os cabelos dela em cafunés doces e intermináveis.

I see you out sometimes by coincidence
Been reading about you, I know where you've been
You don't know how much I liked you and I think of you
So much to tell you, to fill you in
Where you go is where I want to be
Wherever you go is where I want to be
I wonder if it's right to call you a friend
I remember your eyes, they made me way too late
Now if I'm standing at a party waiting for the train
I know you're out there, can't wait till we meet again
Where you go is where I want to be
Wherever you go is where I want to be
Where you go is where I want to be
Wherever you go is where I want you to lead me, to lead me
So much to tell you, I have to find you
It's time I see you, I wish we were alone
And it was late at night, I met you at a party
It was a crowded room, I couldn't hear you talking
You tried to hold my hand and then you left without me
But don't you know that where you go is where I want to be



A música chegava ao fim e ela puxava-o pela gravata, devagarinho, fazendo-o curvar-se para o poder beijar e afagando-lhe o cabelo junto à nuca enquanto os lábios se encontravam.

- “O que queres fazer hoje? Saímos para jantar ou pedimos para entregar?”

- “Humm, ainda é cedo. Se te apetecer tomo um banho enquanto tu pões aquele teu vestido preto e os teus brincos, e saímos para jantar num sítio giro”

- “Sim, apetece-me sair. Mas conduzes tu.”

- “Miúda, tu estás relaxadinha, conduzias tu e íamos a um daqueles com valet-parking…”

- “És um preguiçoso, e eu faço-te as vontades… só mais uma música”

Do you think (When you know you know it)
If we could go back in time (When you know you know it)
Do you think (Listen now, listen now)
That I'd like you then (I will look for you there)

Would you try (when you see, you see it)
Not to be so mean (when you see, you see it)
And we'd ne- (Won't be long, it won't be long)
-ver just be friends (I will wait for you there)

Do you think (When you know you know it)
If we could go back in time (When you know you know it)
Do you think (Listen now, listen now)
That I liked you there (I will look for you there)

Won't you try (when you see, you see it)
Not to be so mean (when you see, you see it)
And we're now (Won't be long, it won't be long)
For just be friends (I will wait for you there)

There are times that I
Felt that this was right
There are times that I
Felt that this was right

Why do you think
This will never work
Why do you think
This will never work

There are times that I
Felt that this was right
There are times that I
Felt that this was right

Why do you think
This will never work
Why do you think
This will never work



Então, ela abria os olhos para lhe dizer:

- “Ainda bem que isto nos passou…”

E ele voltava a inclinar-se, elevando-a para si, para a beijar. Voltava a colocar-lhe a almofada confortável por debaixo da cabeça e a espraiar-lhe os cabelos, enquanto se erguia do sofá, ainda com o sorriso encantado.

Na fase do apetecível (corrigido)

Na fase do apetecível, o fácil é encontrar miúdas giras que nos deixam interessados. O difícil é ficar com a mulher brilhante que nos desperta para a vida.

Saturday, November 13, 2010

Na festa do moinho

Tinha 16 anos e apaixonou-se. Sabia que era apenas e só uma daquelas paixões fúteis de verão mas ainda assim achou que valia a pena arriscar. Na festa do moinho, agarrou-a pela mão e levou-a para um local sossegado. Declarou-se e viu que os olhos dela se lhe abriam e que não era por causa da lua cheia. Gostou daquela luz reflectida nos olhos dela e beijou-a com paixão. Ela correspondeu e depois, só depois, hesitou. Disse-lhe que não e de repente a lua escureceu. Ele não disse mais nada. Saiu a correr pelo monte abaixo na companhia de um amigo daquelas férias. Voltou para o que era seu, no final daquele verão.

My Nighttime Saving Time

A alegoria da isenção de horário é magnífica. Dois dias consecutivos com reuniões às 9h da manhã dão-me cabo do circuito. Gosto tanto mais de sair de casa no 2º turno. De não ter que “apanhar” o trânsito dos pais que deixam as crianças na escola às 8 e tal. De não ter que “gramar” as filas de trânsito dos que têm que entrar a horas para “picar o ponto”. Não fui feito para profissões de horário fixo. Não gosto de me sentir preso pela pressão do relógio logo pela manhã. Não gosto de me sentir farto do que ainda tenho para fazer quando chegam as 6 da tarde, quando meia Lisboa se encaixota nos carros em direcção a casa. Gosto das noites longas, dos jantares tardios, tipicamente latinos, e da sensação de que o dia não termina logo quando o sol se põe. Gosto do meridiano mediterrânico em que o bom das noites dura para lá da meia-noite, passado à conversa, a ler um livro ou a escrever. Não gosto de chegar a esta hora a sentir-me com o sono de quem despertou antes das 8. Gosto de persianas corridas que filtram os primeiros raios de sol. Gosto de acordar com vontade e não por obrigação. Gosto de me deitar tarde porque, então, me apetece.

Friday, November 12, 2010

A minha Secretária intelectual

Fui ao teatro e encontrei a minha Secretária com o namorado. Era uma peça para a intelligentsia, profunda, mesmo se encenada de forma descontraída e propositadamente embriagada (eu às tantas já desconfiava se os actores bebiam mesmo vodka...). Quem diria? A minha Secretária, ruiva natural (??? – os homens nunca sabem realmente a verdade sobre estas coisas), de olho azul (bom, ainda assim não faz jus à Christina Hendricks) e simpática, para além de eficiente – quando está para aí virada –, é uma intelectual. Gosto disto!

Wednesday, November 10, 2010

Para quê?

Para quê questionar? Para quê duvidar? Ele era um miúdo maravilhoso, capaz de a fazer sonhar. Perfeito? Não, claro que não. A perfeição só existe no mundo das estátuas e a maior parte das realmente perfeitas são do tempo dos clássicos. Ele também era um clássico, imperfeito é certo, mas dos bons. Mais tarde ou mais cedo toda a gente gosta, a sério, dos clássicos, nem que seja pelo efeito da idade. Bom rapaz, pleno de vontade, perfeito no olhar. Convicto e absolutamente convencido. Então, para quê questionar? Para quê pesar tanto os contras se também existem os prós? Para quê insistir em achar que não, quando sim, a felicidade mora a dois passos de distância. Mesmo...

Antecipar alternativo (porque o subconsciente não deixa de procurar o caminho)

Queria muito abraçá-lo mas ia resistir. Vinha investindo demasiado tempo, demasiado sofrimento, para agora deitar tudo a perder. Obstinada, sentou-se ao seu lado e olhou-o sem profundidade e com pouca vontade:

- Diz-me, o que pensas quando me lês?

- Eu? Eu já perdi completamente a capacidade de te interpretar. Sinto-me um índio perdido no meio do mato, incapaz de regressar a casa apesar dos sinais. Tu escreves “cair” e eu penso nas miúdas. Tu escreves Março e eu penso no “clique”. Tu escreves sobre fragrâncias e eu vou ver os compostos do meu perfume – e estão lá. É estranho e é ambivalente – eu não gosto de não perceber os significados. Não consigo interpretar-te e isso aborrece-me. 

Tuesday, November 9, 2010

Do concerto

Foi deslumbrante. Já me tinham dito que o homem, apesar de Belga e excêntrico, cola as mãos ao piano com uma intensidade que torna a música única.
E ao intervalo, encontrei-o. Creio que já o esperava, que já o sabia. Foi ele quem me ensinou a gostar daquelas melodias. Foi ele quem assumiu o papel de irmão mais velho, fazendo de mim o irmão mais novo que não tem. Era ele quem nas férias de verão punha as clássicas a tocar na Marantz quando acordávamos, tarde, de mais uma noite de borga, abrindo a janela para as vinhas que faziam crescer as uvas ao som daqueles acordes vespertinos. Era ele quem me assaltava as prateleiras de livros bons, da mesma forma que eu assaltava as dele. Temos tantos livros trocados, os meus em casa dele, os dele na minha que por vezes penso no significado verdadeiro da palavra influenciar. Gosto disso. Gosto de conhecer bem as pessoas que me marcam a vida, da dedicação que foram capazes de colocar em mostrar, apresentar, indicar, as coisas boas que a minha vida tem. E ele estava ali sozinho, recém-separado e meio macambúzio, deixando-me triste por não o ter convidado, a ele, para me fazer companhia no concerto:
- Estás a gostar?
- Muito!
- Magnífico, não?
- Sim, e a Tatiana – ou Tatjana –, a violinista: hipnótica.
- Sim, já o tinha visto aqui em 2005 e este está a ser ainda melhor.

Monday, November 8, 2010

Calzedonia

Entra-me no carro e reclama com a música que estou a ouvir: “Ricardo, essa música é deprimente”. E eu respondo-lhe que não, que é o Concerto para saxofone e violoncelo do Michael Nyman, que pode até ter umas partes tristes, mas que acaba em Allegro crescendo e que quem está a tocar é “só” o Julian Lloyd Webber.
Deprimentes ou deprimidos são os portugueses que param para observar minuciosamente cada batida de carros provocada pela chuva que cai, entupindo o trânsito à nossa frente. Deprimentes são os nossos governantes incapazes de controlar a situação a que os mercados acham que o país chegou. Deprimente é o Benfica levar uma goleada das sérias, sabendo que isso vai afectar metade do povo cá do rectângulo. Deprimentes são os jornalistas que não dão uso à boa cortiça nacional para enfiarem umas belas rolhas pelas bocas, insistindo em debitar notícias negativas e em perseguir mais um desgraçado de um funcionário público que teve o azar de se destacar e merecer um aumento em ano de apertar o cinto.
E depois chego a casa e na televisão passa este anúncio deslumbrante, cheio de vida, da Calzedonia (Calzedonia - Speriamo che sia femmina) e pergunto-me porque é que nestas alturas de depressão colectiva ninguém se lembra do importante que são as imagens boas do “West Coast of Europe”, do “Wonderful Portugal” ou do “Vá para fora cá dentro”.

Sunday, November 7, 2010

o banzé

Estes dias em que durmo até tarde e sonho contigo (connosco) horas a fio são um banzé. Sentir-te assim tão intensamente próxima, como se estivesses mesmo ao meu lado, é um banzé dos grandes. E quando acordo, tenho o cabelo comprido todo espetado como o do meu cartoon favorito.

Saturday, November 6, 2010

O schmuck em “A Woman to Love”

“Yes, honey. The schmuck, who deserves to die, worries about you. Sometimes worrying about you feels like a full-time job.”
- Jack Nicholson – brilhante, como só ele sabe

a Muralha

Mesmo depois de afirmar que não acreditava em muros, construiu uma Muralha. Uma Muralha mesmo grande, daquelas com “M” grande e com a largueza da Muralha da China. Fechou-se do lado de lá, do lado do Reino do Meio. Apesar de dizer que não gostava, foi lá que se refugiou, deixando-o do lado de cá. Do lado de cá das pedras intransponíveis, mesmo para um David Copperfield (foleiro) desesperado pela Claudia Schiffer (gira, mas kitsch). Deixou-o perdido por tempo indeterminado, sem saber nada mais do que a ilusão do que ainda sonhava, com ela.

(David Copperfield Going Through Great Wall of China Revealed - um bocadinho seca, mas sempre dá ver como se cria uma ilusão.)

Nick Hornby’s top-lists-technique – Japoneses em Lisboa

Depois de completar a ronda pelas novidades que este ano trouxe, temos:
1. Suntory
2. Sushi Bar @ Bica do Sapato
3. Yakuza
4. Assuka
5. SushiRio
Fora da lista mas dignos de menção ficam: Clube do Sushi, Café Sushi e Origami.
O melhor na categoria Oriental-degustação (definitivamente, a novidade do ano): Umai
O melhor (pra' sempre?) na categoria Oriental-noodles-descontraído: New Wok

Thursday, November 4, 2010

Ainda o brilho complicado e complexo das mulheres

Não sei se é efeito deste início de pequeno Verão de São Martinho em que depois do fim-de-semana de chuva copiosa parece que toda a gente decidiu sair da toca, mas estes últimos dias têm sido um manancial de reencontros. Será também por causa do avançar da idade, eu gosto cada vez mais de reencontros do que de encontros, definitivamente.
Saí para jantar e reencontrei a R. que para quase todos os homens que conheço e a conhecem a ela é sinónimo de “a mulher perfeita”. Bonita, bem-disposta, com neurónio e bem sucedida, tem aquele brilho suave e encantador de miúda que foi capaz de ultrapassar todos os obstáculos da vida e conseguir o que sempre quis. Admiro-a por isto tudo e também porque consegue ser, honestamente, simpática com todos, como só as miúdas do norte. Mas (nestas reflexões sobre o alheio, há sempre um “mas”) eu que a conheço bem e que durante largos meses com ela privei, dia após dia, sei que lá por dentro é uma complicada das fortes. Um dia chegará a CEO de uma qualquer grande empresa, porque tem “garra” para isso e, provavelmente, até será casuisticamente feliz com o, por agora, namorado que por acaso também é meu conhecido, por intermédio de um amigo em comum que recordo me costumava dizer “complicado, nada é complicado, quando muito complexo... complicadas são as mulheres!”.
(Nota: este post está no mínimo confuso mas não me apetece desfazer o novelo)
De volta ao bom dos reencontros, a parte singular destes é que nos trazem sempre à memória o encontro anterior. Da última vez que tinha visto a R., ela estava no meio de uma multidão, numa espécie de concerto, e eu, naquela noite, estava tão próximo da felicidade suprema, tão próximo do apaixonado absoluto, absolutamente convicto do meu amor por uma miúda verdadeiramente complexa e que me sabia derreter com a sua complexidade brilhante, que me lembro de ao ver aquela “mulher perfeita”, para todos os outros, me ter apanhado num pensamento paralelo e linear a concluir que o encanto das mulheres depende mesmo do grau do complexo e não do complicado.

Monday, November 1, 2010

mar de prata

Mais um almoço de domingo junto ao rio, com os progenitores e uma prima. Dia de chuva, sem regatas. Na mesa ao lado, senta-se uma miúda loira e gira, muito gira mesmo, alta e com um corpo fabuloso, tão afirmativa que chega a ser provocadora. Mas falta-lhe o charme, falta-lhe o brilho, na realidade falta-lhe quase tudo. E eu dou por mim a olhar o rio marcado pelo sol, um mar de prata, e a concluir que nem tudo o que reluz é ouro.