Chamo-lhe a ignorância mas
não é bem isso, não é exactamente essa a sensação. É mais uma incerteza que me
deixa na situação estranha de não saber o que fazer, quando normalmente sei
sempre o melhor caminho. Às tantas já não sei se foram as palavras profundas ou
as endorfinas agitadas que me fizeram transformar assim, transportando-me para
um plano de sensibilidade mas de pouco senso em que a mágoa não acontece, por
mais provável que devesse ser. Já não sei qual foi o percurso que me trouxe até
aqui nem o rumo que pretendia tomar. Foram com toda a certeza as combinações e
composições de uma matéria etérea que poucos descobriram e de que é feito o
amor.
Tuesday, February 21, 2012
Sunday, February 19, 2012
30 minutos
Acho que ainda me estava a
sentir “enlatado” porque prolonguei o ritmo do acordar a cada 30 minutos fatiando
pelo menos meia-dúzia de sonhos estranhos, definitivamente induzidos pela mudança
de meridiano e paralelo, pelo efeito da pressão atmosférica, e pelo contraste
entre o frio lá em cima, sem cobertor capaz de me fazer sentir aconchegado, e o
excesso de calor que me esperava em casa. Pelo caminho, retomei a sensação do
mergulhar nas nuvens, li um romance inteiro feito de amores incompletos, escutei
com atenção canções antigas dos The Police, como doutra vez, e ao abrir a vigia
observei uma lua bonita em quarto crescente para cima de Marrocos. À partida
chovia intensamente, à chegada era outro o tempo que queria. Por cada viagem
destas devia conseguir perder pelo menos uns 30 minutos de lastro.
Friday, February 17, 2012
Secar
Compôs o diálogo enquanto secava a loiça, deixando-se
transportar pelos movimentos do pano para uma peça que não era a sua:
Ele - Sabes, isto ameaça tornar-se insuportável.
Ela - Insuportável? Porquê? Tu
já sabias o que aí vinha …
Ele - Sim, mas nunca pensei que ia sofrer assim. Sem um
plano, sem uma perspectiva, sem um futuro desenhado para me alimentar a estima.
E isto dói mais, muito mais, do que eu imaginava possível há uns tempos atrás.
Então, eu pensava que seria uma fase ultrapassável, menos má do que outras
anteriores a que já sobrevivi, mas afinal é pior do que essas, sem rumo e sem
passagem para o que eu quero.
Ela - O que tu queres? Tu sabes com certeza o que queres?
Deixa de ser medricas, pareces um miúdo mimado a quem tiraram o brinquedo. Eu
não sou um brinquedo. Preciso de certezas, preciso de tantas outras coisas que
tu não me podes dar, em particular, quando assumes o papel de miúdo. Aí, eu
duvido de tudo o que me trouxe até aqui. Por isso deixa-te de lamechices e
faz-te Homem – repara no “h” maiúsculo.
Ele - Para ti é fácil, estás a
jogar em casa…
Ela - Em casa? A minha casa és tu, mas muitas vezes
parece-me que ainda tens que aprender a abrigar-me. Abrigar, proteger, dar
segurança, conforto, essas é que são as palavras importantes, decisivas. E tu
que tens tanto jeito para as palavras, ainda não chegaste lá… Cresce e aprende,
miúdo.
Ele - … (ficou sem palavras)
E foi assim que o miúdo, sem palavras, deixou a loiça bem
seca.
Regar
Hesitava, ponderava, recusava e pensava sobre o assunto. Voltava
atrás, sentindo-se livre, sorria com os lábios cheios, em estrela. O convite dizia
só: “Vem comigo, dou-te o espaço todo que quiseres, mas vem comigo.” Quando o
silêncio deixava de lhe parecer suficiente, aceitava.
Ele esperava por ela à hora marcada, pronto e com a
expressão de sorriso aberto que ela reconhecia e que a fazia feliz. Deixava-se
conduzir, deixava-se cativar, mais uma vez, pelas palavras dele que entrecortavam,
infinitas, o espaço solarengo Alentejo adentro. Ele observava, para ela, os
campos infinitos ao longo do caminho, deixando-a absorver a planície e a lisura
das flores transformadas pela luz. Ela sentia-se especial, viva, enquanto ele
lhe fazia festinhas na mão. Ela apanhava-lhe os dedos, daquela forma especial
que não sentia com mais ninguém. Deixava de se sentir presa, ao longo da
estrada, e concluía que afinal amava os pensamentos dele, quando ele lhe
descrevia a história dos ciprestes na paisagem.
Chegavam ao destino, ao retiro, que era mesmo uma espécie de
convento, fugiam para o quarto, animado pelo branco das paredes e pelos sons
característicos do pueblo. Acendiam a lareira no espaço ao lado e deitavam-se
lado a lado, a respirarem o ar frio mas fresco, e metiam-se debaixo da roupa
enquanto se sentiam aquecer para perderem a dita.
Encontravam-se nos corpos, no amar e no olhar trocado com a
luz do final da tarde, entrante pela janela pequena mas imensa no despertar do
que sentiam os dois.
(De volta ao presente, eu estou perdido na cidade, com
o jasmim para regar, e tu estás com quem sabes. Ambos procuramos felicidade nas
palavras e na certeza do que sabemos)
Thursday, February 16, 2012
O sexo fraco
O sexo fraco é aquele que
não recordas nem queres repetir de manhã. Felizmente, sabemos que existe o outro,
oposto e sem escala que te desperta para as sensações perfeitas do que realmente
queres dia-após-dia.
Tuesday, February 14, 2012
Ás namoradas
Qual Valentim? Qual São Cupido? O dia devia ser dedicado às
namoradas (mulheres, companheiras, amantes e afins) que nos libertam para o
melhor da vida, que nos fazem capazes de sentir, de expressar, de concentrar,
de sonhar e de desejar. Às que são (sempre) giras, cheias de personalidade,
para sempre fresquinhas, sensuais e que nos tocam. Às que têm o jeito que nos
retira o bom-senso e ao mesmo tempo são quem nos faz fortes e únicos. Às que
recebem a mensagem, o cartão, as flores ou o presente e percebem o “para além”,
o significado exclusivo e os destinos que queremos a dois.
Para ti, que me fizeste descobrir-te assim, reservo o melhor
de mim, independentemente do dia em que estivermos, porque tu és o meu Ás.
pp – Hoje (ontem), o despertador interrompeu-me o sono
programadamente às 5 da manhã para mais um voo, e no duche, e quando compunha a
gravata, e enquanto conduzia para o aeroporto, e no check-in, e na fila da
manga, e já sentado com o cinto apertado, e a passar ao lado das “safety
instructions” da aeromoça, tinha-te a ti colada na retina, enquanto o meu
neurónio processava que ninguém me faz sentir assim.
Saturday, February 11, 2012
Os homens que deixam de amar as mulheres (*)
After-hours com os colegas ou “happy-hour”, como eles
preferem chamar por aqui, maioritariamente de machos e prolongado. Não chego a
compreender os homens que deixam de amar as mulheres (as suas). Parece-me a
mais absurda das contradições essa de decidirem casar ou “juntar os trapinhos” à
séria, para depois preferirem evitar o final da tarde ou a noite com a pessoa
que pretensamente escolheram “para a vida”. Falo com o dom da observação, de
quem os conhece assim, colegas de trabalho e até alguns amigos, demasiadas
vezes à procura do programa alternativo que os vai safar de mais umas horas com
a cara-“metade” ou com os filhos. Gosto do oposto destes, que estatisticamente são
uma minoria, daqueles que, com a dose certa de lamechice, se derretem com a
troca de palavras num telefonema durante o dia ou que denotam entusiasmo com um
qualquer programa que preparam para a noite.
A vida dá-nos o poder, sob a forma de liberdade, de
escolhermos bem e de procurarmos quem queremos mesmo. Não chega a ser um
desafio, é mais uma questão de convicção e de certeza, fiel, que se quer sem
hesitações quando concluímos que chegámos à pessoa certa.
(*) post rascunhado antes de ser roubado ;)
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